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Só Cleide

O documento conta a história de Eló e sua paixão por Cleide, desde quando a viu na fábrica até seu último encontro na estação de trem, onde fizeram amor sob a lua e Cleide partiu no trem. O documento descreve os encontros íntimos deles de forma poética.
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Só Cleide

O documento conta a história de Eló e sua paixão por Cleide, desde quando a viu na fábrica até seu último encontro na estação de trem, onde fizeram amor sob a lua e Cleide partiu no trem. O documento descreve os encontros íntimos deles de forma poética.
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Texto de Gero Camilo.

Adaptação de Thais Vasconcelos


Músicas: Pietá

Só Cleide

CLEIDE (cantando) Foi cunhã que me viu lá na beira. Foi cunhã a que me fez
boiar. Foi cunhã na manhã derradeira. Cunhatã a que me fez voltar...

ELÓ Vivia eu feliz, cheio de risos. Trabalhava numa fábrica de costuras. Era o
vigia do lugar. O bom mesmo do meu trabalho era espiar as costureiras. Eis o
início de tudo: Vê-las. Foi quando um dia, entre tantas, avistei uma novata na
fábrica. Não se sabe de onde veio, mas estava lá, linda! E chamava-se Cleide.
Cleide era de uma beleza que até as mulheres da cidade sentiam prazer de
ver. Só o jeito que Cleide andava já enfeitiçava os olhos da gente do lugar. Pois
não é que Cleide deu de trocar olhar comigo! Cleide tem olhar atrevido, meu
amigo. Olhar de Cleide é que nem umbigo, é redondo e fundo, desses que a
gente quando vê já tá dentro. E eu tava lá, quieitinho no meu canto, sem saber
nem que Cleide existia. Enquanto isso, ela já ia acabando com a vida de uns
tantos.

CLEIDE (cantando) Arrepio no meião do rio. Arrebol fez rajada no ar. Ela
passa e eu desconfio. Que o mundo está quase a tornar de ponta a cabeça,
desvario a caminho de acabar...

ELÓ Encontrei Cleide abraçada a uma árvore. Fiquei de longe estranhando o


fato. Ela então mandou que eu me aproximasse para ouvir o coração da
árvore. Eu virei de um lado, virei do outro, afinal de contas ouvir coração de
árvore é coisa de quem não tem juízo no lugar. Mas é que tava bonito demais
vê Cleide abraçada à árvore. Dava até pra acreditar que ela escutava! Me
aproximei, como quem não quisesse nada, e abracei a árvore. Cleide que é
bom, tava do outro lado. E ela ficava dizendo:
CLEIDE Tá ouvindo? Tá sentindo?

ELÓ No início o que eu sentia era o CLEIDE (cantando) Foi cunhã do alto
pó do casco da árvore entrando no da ribanceira
meu nariz e as ferroadas das formigas Foi cunhã meu caminho cruzar
nos meus braços. Só depois, muito Foi cunhã feito flecha certeira
mais tarde, é que eu fui sentindo um Cunhatã nunca mais vou tocar
troço estranho. Eu fui sentindo a Fez feitiço pra me dar sumiço
árvore respirando. E eu fui sentindo o Arapuca pra quando eu passar
coração da árvore. E fui chegando Eu pra sempre serei bicho:
mais com meu ouvido até sentir o Não posso mais gente virar
coração de Cleide. Cleide tem bom Caminho de boto é descaminho
coração. Então eu fui sentindo os Nas águas do Andirá
seios de Cleide. E sua barriga. E seu Noite de maré cheia
umbigo. E seu sexo. E Cleide foi me De estrela a nos alumiar
beijando. E eu fui beijando Cleide. E Toda gente se arrodeia
Cleide foi me mordendo. E eu fui Querendo engerado me olhar
mordendo Cleide. E o cheiro da pele Não faço nem mal a ninguém
de Cleide misturava-se com ao cheiro Não tem mais quem queira me amar
Texto de Gero Camilo. Adaptação de Thais Vasconcelos
Músicas: Pietá

da clorofila da árvore. E nós, eu e Não troço mais graça alvissareira


Cleide, lambíamos o mel que descia Nem vou mais malinar
da árvore. E Cleide, e a árvore e eu, ...
ficamos ali nos amando a tarde inteira,
até eu dormir de prazer e acordar
abraçado a uma árvore. Cleide tinha
desaparecido. Eu olhei para a árvore,
fiquei meio encabulado, meio
envergonhado, não sabia se pedia
desculpas ou dizia obrigado. Acabei
desejando-lhe boa tarde. Estava
mesmo um céu verde.

ELÓ No que cheguei em casa, Cleide do meu pensamento não escapava. E se


não bastasse pensar em Cleide, ainda pensava na árvore. Aquela mangueira
que eu descobri que tinha coração e mãos e sexo. E eu nem sabia quem
Cleide era. Nem sabia onde Cleide morava. Fiquei febril, com o corpo em
brasa, só pensando onde Cleide estava. Em que rua? Em que casa?
CLEIDE (cantando) É porque, nesse lugarzinho de onde eu vim as pessoas
costumam trocar o sentido das coisas. Eu vou contar! Vou contar! Meninos, eu
vim da lua. Que lugar bom pra morar. Não tem doença, não tem caristia. E a
ordem geral, é amar, é amar! Suas mulheres são belas. Mais belas que as
mulheres daqui!. Só uma coisa é diferente. Os peito é pra trás e a bunda é pra
frente! Mas, não vai atrapalhar. É ruim pra dançar! ...
ELÓ No outro dia, mesmo de folga, resolvi trabalhar só pra ver se via Cleide.
Mas ela de difícil nem saiu pra almoçar. No instante em que fiquei só, escrevi
nas portas de todos os banheiros:
Nossa mangueira fulorou
Preciso de te encontrar.
Hoje na saída. Na raiz.
Assina:
Um Peixe ferido

ELÓ Quando tocou a sirene no fim do expediente, corri para a mangueira.


Cleide ainda não havia chegado. Para a minha surpresa, a mangueira
realmente estava carregada de frutos. Mangas maduras com a textura dos
lábios de Cleide. Com o cheiro da sua carne. E eu era por assim dizer pai de
mangas verdes com a minha cara. Mas madurava também o tempo e a Cleide
nada. Vinha gato selvagem, vinha pardal, vinha cigarra, vinha louva-a-deus,
vinha sapo, formiga de roça, coruja, cobra, lagarto, vinha até raposa, só não
vinha Cleide. Foi quando estava voltando pra casa, com o coração cabisbaixo e
grunhindo de raiva por ter sido desamparado assim tão moço, senti um cheiro
de pele no braço de vento que dobrava a esquina da praça. Era o cheiro dela.
Rua baldia. Lua no cio. E Cleide de branco contando estrelas na calçada do
Correios e Telégrafos. Ficou furiosa porque eu a fiz perder as contas. Obrigou-
me a contar tudo de novo.
Texto de Gero Camilo. Adaptação de Thais Vasconcelos
Músicas: Pietá

CLEIDE (cantando) Noite de maré cheia. De estrela a nos alumiar


Toda gente se arrodeia. Querendo engerado me olhar. Não faço nem mal a
ninguém. Não tem mais quem queira me amar. Não troço mais graça
alvissareira. Nem vou mais malinar...

ELÓ Os jardins, as mangueiras, a igreja, as vinte e sete mil estrelas, até a


última vez que contei, a chuva, o vento, o cartaz da Pepsi... todos me
entendiam e também faziam amor comigo e com Cleide. Eu nunca amei Cleide
sozinho. Portanto meu amor não pode ser taxado de egoísta. Eu sempre amei
Cleide acompanhado de uma planta ou de um bicho, ou de um céu, ou de uma
casa.
ELÓ Acontece que eu estava em casa, dormindo, ouvi Cleide chamar. Era
madrugada. Saí de pijama pés descalços. As ruas vazias. Garoava em
algumas calçadas. Meu corpo pedindo Cleide. Meu corpo ouvindo Cleide. Fui
seguindo meus pés até chegar na estação de trem. Estação onde o trem só
passa uma vez a cada mês, porque quase ninguém vem e quase sempre
ninguém vai. Seu Josué, o único funcionário, cochilava na bilheteria. Mais
adiante, sentada no banco, estava Cleide, olhando a lua em seu dia grande.
Foi a maior lua que eu já vi sobre a Terra. Cheguei por trás de Cleide e deslizei
minhas mãos em seus seios por dentro do vestido branco. Cleide pôs seus
dedos em minha boca. Meu cotovelo roçou os joelhos de Cleide. Cleide
mordeu minha orelha. Eu deitei em cima de Cleide e lambi sua costela. Cleide
tocou minha coluna e eu dancei seus ombros, Eu e Cleide e o banco e a lua
nos amamos. E seu Josué, podia-se ver, enquanto dormia, sonhava com a
gente. A cidade inteira sonhava com a gente. As filhas de Maria, coitadas,
deviam estar encharcadas. Longe, talvez ainda em outra cidade, ouvíamos o
trem se aproximando. E quanto mais o apito e os trilhos soavam, mais eu e o
banco e alua e seu Josué e a cidade inteira nos debruçávamos sobre o corpo
de Cleide. E quanto mais perto de nós o barulho do trem chegava, mais eu e o
banco e a lua e o seu Josué e a cidade inteira gemia com Cleide. Até o trem
chegar grande e apitar e eu e o banco e a lua e o seu Josué e a cidade inteira
Cleide e o trem gozar. Até por instantes o mundo inteiro parar e calar.
... A pausa de depois do gozo. É um instante de silêncio de tudo. Não se tem
memória pra falar sobre o que é, porque não é palavra. É suspensão de
respiração da terra, até que o ar volta a soprar. Pois assim aconteceu. Quando
voltei a sentir o vento no corpo, o trem estava partindo e dentro dele uma
mulher de vestido branco, cabelos longos e olhos redondos, acenava-me
dando adeus. Cleide se foi, meus senhores. Cleide partiu naquele trem. E eu e
o banco e a lua e o seu Josué e a mangueira e os jardins e as dezenas de
famílias e a igreja e o Correios e Telégrafos e o cartaz da Pepsi e as operárias
e as filhas de Maria e os peixes do lago da fábrica e a estação e as trinta e
duas mil estrelas, até a última vez que contei, ficamos sozinhos.
Sozinhos.
Por favor, se souberem notícias de Cleide, avisem-me. Ela precisa voltar. É
que descobri um campo de girassóis por trás do morro das andorinhas onde
não fizemos amor ainda.

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