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A Questão Ancestral. Fábio Leite Parte 1

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FABIO LEITE A QUESTAO ANCESTRAL AFRICA NEGRA Casa das Africas A Introdu¢ao Nesta primeira parte de nosso trabalho, apresentaremos dados referentes ao que chamamos de homem navural-social, aquele manifestado, durante sua existéncia visivel, no espaco ter- restre. Esse é o pré-ancestral. No primeiro capitulo, veremos que o ser humano é constituido de uma pluralidade de elementos vitais naturais os quais, estando em unio vital, fazem emergir © homem na- tural. Jé no segundo capitulo, procuramos analisar mais detidamente as caracteristicas desses elementos vitais na tentativa de verificar como eles estio relacionados com a nogio capaz de fazer configurar o ancestral. Mas os dados expostos nesses dois capftulos nfo parecem suficientes para definir 0 ser humano em sua totalidade ¢ o ente capaz de adquirir 2 con~ digo de ancestral. De fato, o homem é constituido também de outros elementos — de or- dem social — que, segundo a concep¢io da sociedade, devern integrar de maneira decisiva personalidade, provocando uma sintese entre 0 natural ¢ o social possibilitada por certos ‘mecanismos. Esses elementos so 0 nome € a iniciagZo, esta manifestada no quadro abran- gente dos processos de socializacio. Dessa forma, é possivel perceber-se a passagem do homem natural a0 homem natural-social que, integrado na sociedade, constitui o pré-an- cestral. O nome e a iniciagio so temas abordados no terceiro e quarto capitulos, respec- tivamente. Antes de passarmos a apresentacio dos dados, convém definir sumariamente alguns conceitos utilizados com freqiiéncia em nosso trabalho; outros sero analisados oportuna~ mente. © homem natural-social 6 entendido como sintese de elementos vitais naturais sociais. Sobre isso, portanto, no insistiremos aqui. A nogio de vitalidade liga-se 20 con- ceito de forca vital, objeto das preocupagées de Tempels (1969), ao discutir a questio da energia inerente aos seres, de onde emerge o ser-forca ou forga-ser, no qual é impossivel estabelecer separago entre forga e ser: eles constituem uma s6 proposicio. Mas nés consideramos essa nogdo extremamente genérica ¢ sua aplicagio deve ser feita de maneira diferencia, sto é, relacionada com aspectos precisos da problemética. Dessa forma, 2 noo de vitalidade ganha nuances ¢ permite objetivar um pouco mais o relacionamento esta~ belecido entre a natureza ¢ 0 homem.Ainda mais: nés utilizamos 0 conceito, nessa visio diferencial, com relagio também as priticas historicas, introduzindo, por exemplo, a idéia de que os elementos de natureza social constitutivos do ser humano sio essencialmente vitais devido 4 sua capacidade de promover a transfigurago do homem natural em ho- mem natural-social. A sociedade é, assim, dotada de “forca”. Deve ser acrescentado ainda que a nogio de vitalidade extensiva até sua explicacio mais imediatamente observavel, tal como utilizada no dia-a-dia do homem africano, é quando este considera, simplesmente, que algo ow alguém é “forte” por motivos relacionados a uma situagZo diferenciada de qualquer natureza, envolvendo real ou simbolicamente uma propriedade distintiva. Essas concepgées parecem situar mais convenientemente, no ambito das priticas sociais, a idéia de “forca vital”, no limitando-a as instancias das formulagées abstratas ¢ do pré-estabele- cido mas, ao contririo, configurando-a, em grande parte, como elemento pertencente a0 dominio da consciéncia social, Por tais motivos, utilizamos indiferenciadamente as expres~ sdes “principio vital”, “elemento vital”, “forga vital” etc.: elas referem-se a dois grandes universos em interagao, o do natural e 0 do social. ‘A questo da vitalidade remete 4 figura dq preexistente, bxpressio também utilizada com freqiiéncia neste trabalho. Nés usamos o conceito essencialmente para indicar a fonte_ mais primordial detentora da energia universal, manifestada enquanto forga vital capaz de engendrat 0s processos de criacio dentro, porém, de situagdes diferenciais, isto é, referidas a grupos sociais determinados. [sso envolve de maneira subjacente a palavra, elemento muitas vezes ligado a criagio do mundo e 4 nogao de vitalidade. A palavra, nas civilizagdes da oralidade, ganha singular importancia. De fato, uma das manifestagdes da “forga” do preexistente € dada pela palavra, forma condensada da energia universal passivel de aflorar no homem. Nessa medida, a palavra humana é dotada de “forga”, devendo, assim, ser uti- lizada adequadamente: uma vez emitida, no volta 4 pessoa, uma de suas porgées des- prende-se e integra-se na natureza. Essa caracteristica do preexistente— elemento detentor da palavra — no constituiu alvo deste trabalho, mas julgamos conveniente aponté-la sem qualquer outra intengio de explorar o assunto pois relaciona-se com a mais abrangente das instincias miticas que interferem nos assuntos a serem abordados. © preexistente liga~ se ainda, seguidamente, aquelas instincias dos entes sobrenaturais, os quais por uma ques- tio pritica chamamos as vezes de divindades. Com isso, propomos estabelecer uma dife- renga de substincia entre divindades e ancestrais. As divindades constituem manifestacdes especificas da energia universal que integra a existéncia total, consubstanciando-se em certos dominios da natureza, mas estabelecendo relagdes com a sociedade. Por tal motivo, Tntegram também a massa ancestral de uma dada sociedade. ‘A nogio de existéncia visivel refere-se ao periodo da vida do homem natural-social manifestada no mundo terrestre. A vida adquire o sentido amplo de existéncia, pois o ser humano é pensado pela sociedade em sua configuracio visivel, quando é o homem natu- ral-social e o pré-ancestral; e apés ela, quando adquire a condigio de ancestral. Isso envolve a questio da imortalidade do homem, assunto bastante prioritério no desenvolvi- mento deste estudo. Mas, em ambos os casos de manifestagio da existéncia, € necessirio que ela esteja ligada 3 hist6ria do grupo social respectivo. 28 Capitulo 1 0 homem natural Nas trés sociedades alvo deste trabalho o-homemt natural aparece em sua existéncia visivel como sintese de varios elementos vitais naturais em interagio dindmica permanente. Exa~ minemos alguns dados a esse respeito. Toruba Ara, 0 corpo, representagio visivel do homem, é concebido como um complexo externo ¢ outro interno em relacao constante. O primeiro deles é percebido pela figura, estabele- cendo-se uma distingio entre a cabega e 0 resto do corpo, talvez em razio de a cabeca aparecer em primeiro lugar nos partos normais ¢ por tratar-se da sede de-um outro prin cipio vital de notivel importincia: Ori. O complexo externo é também proposto pela no- gio de movimento, qualidade da capacidade motora propiciada pelos membros inferiores principalmente pelos pés, Ese, permitindo ao homem ocupar espacos fisicos e criar espa~ ¢0s sociais. A importincia atribuida a Ese é significativa, estando mesmo ligada a certas priticas destinadas a Ori, tomado como divindade pessoal e privativa dos seres humanos, conforme indicado por Abimbola (1973). Ese compreende os dedos maiores dos pés, dentro de uma proposicéo diferencial relacionada com os ancestrais: Por ocasiio de oferendas & cabeca [...] sactificios sio oferecidos aos pais ou avés mor- tos, algumas gotas de sangue dos animais sacrificados sio vertidas sobre os grandes arte- thos direito’e esquerdo, representando a alma do pai (ou avé) e da mie (ou avé) se eles estiverem mortos. (Verger, 1973: 66)! Um dado nio negligencidvel a respeito de Ese é registrado no reino de Ifé, centro do mundo espiritual oruba, onde o rei, Ooni, tem, 3 sua morte, esses dedos dos pés unidos por uma pequena corrente metilica,¢ assim é enterrado, Dessa maneira, Eve liga-se a uma concepgio de espiritualidade do homem, manifestada na instincia material do corpo ¢ 3 sua capacidade de realiza¢io, contendo em si uma dimensio ligada aos ancestrais da familia, Segundo Abimbola (1973), Ese também 6 visto como um Orisa, expressio que designs as divindades Ioruba © complexo interno do corpo esti ligado 8 nogio de entranhas, tomada no sentido de manifestagio interna de fatores naturais ¢ sociais. Essa dimensio do homem parece emergir de um grande principio, fisico e espiritual 20 mesmo tempo, sintetizando de um 29 lado, a nogio de entranhas propriamente ditas, organizadas como sistema dotado de ener- gia vital, e de outro, certas propriedades espirituais, quando essa nogio propde que alguns fluxos vitais, ligados a existéncia histérica visivel, manifestam-se como propriedade intrin- seca do homem, formulados e sentidos em seu interior. Segundo parece, esse principio € dado pela idéia consubstanciada em Okan —“coragio” ~ 0 qual, entretanto, nao correspon- de ao érgio fisico tomado isoladamente, mas a um sistema vital instituidor da dimensio fisica e espiritual do homem. Verger indica, a propésito de Okan: Para invocar a idéia de alma, de espfrito, de consciéncia, emprega-se as vezes a palavra ‘Okin, coragao, ou a palavra Ind, ventre, estmago, matriz, entranhas, implicando a nogio de interioridade (nfntininé). A alegria se exprime pela expresso “inti mi diin”, meu ven- tre € doce, delicioso, gracioso, agradavel; sentimentos experimentados interiormente. (1973: 63)? Outro principio vital constitutive do homem loruba é Emi, o qual permite ao ser humano existit em sua manifestagio visivel e animada proposta pelo corpo vivo. Verger (1973) chama Emi de sopro vital, alma, sopro, principio vital, espirito. Elbein dos Santos (1976) considera que Emi manifesta-se no homem pela respiracio. De origem divina, é 0 sopro de Olodumare, o preexistente Ioruba,? que colocado nos corpos modelados por Ori: sanla = divindade ligada 4 criagio dos seres da natureza‘ — anima-os. Abimbola (1973) en- tende que Emi confere ao homem a condigao de ser propriamente dito, relacionando-o espiritualidade. E 0 considera imortal. Mas Emi pode ser melhor compreendido quando se tem em conta sua manifestago individualizada: Ejiji, principio também chamado de “sombra” ou “duplo”.Verger indica 2 esse respeito: “Diz-se que existem trés espécies de sombras; de manhi cedo as pessoas tém duas, uma 3 esquerda ¢ outra 3 direita; ao meio-dia torna-se tinica; apés seis horas da tarde, existem trés” (1973: 62). Uma das caracteristicas de Ejiji é, até certo ponto, sua fra- gilidade. Verger afirma que esse componente do homem é “relativamente vulnerével, pode-se produzir mal as pessoas fazendo trabalhos sobre sua sombra” (1973: 62).> © homem natural Ioruba é constituido também por Ori, principio vital de indivi- dualizagio da personalidade e do destino. Sua nogio vai além da idéia de elemento inte- grante do sistema fisico, pois esse principio ¢ considerado a “cabega interna” das pessoas. De fato, Ori configura principalmente a abstragio de uma dimensio do homem ligada 4 problemitica de sua existéncia historica. Embora tendo como sede a cabeca fisica, Ori nao propée o estabelecimento de relagdes decisivas com a massa cerebral, ele é algo funda mental superposto a matéria. Esse principio vital tem origem especifica: ¢ elaborado por Ajala, © oleiro divino dos Ioruba, encatregado de produzir continuamente “cabegas inter , as” a fim de completar 0 homem,O processo de criacio indicado por Abimbola (1973) , estabelece que Orisanla molda os seres humanos ¢ Olodumare insufla-lhes 0 sopro divino |do qual @ detentor, apés o que recebem de Ajala seus Ori. Para isso, as pessoas devem 30 Agni és no possuimos dados seguros sobre quais processos primordiais deram origem ao ho- mem Agni. Sabemos entretanto que 0 preexistente desses Akan — chamado Alluko Niama Kadyo, dentre outros nomes ~ € tido como fonte primeira da energia universal, sendo doa- dor de um principio vital caracterizador da vida em todos os seres da natureza. Mas, de qualquer forma, o homem natural Agni é constituido de pelo menos trés elementos vitais. ‘Aona, 0 corpo, propde a configuragio de uma dimensio interna e outra externa em relagio constante.A dimensio interna percebida pela nogo de entranhas, tomada no sentido de interioridade, e a externa pela figura, flexibilidade e movimento. Aona indica uma pluralidade, cada um de seus elementos constitutivos possui a vitalidade propria de sua natureza. 6 uma potencialidade de vida ou “vida em si mesma”, mas é colocado em ago por um outro principio vital distribuidor dessas energias, 0 Woa Woe. Sem esse prin- cipio 0 corpo seria definido como uma pluralidade estitica de elementos vitais. Woa Woe & pois principio vital sintetizador das varias potencialidades de Aona e Ihe permite viver como pluralidade dinimica. E assim o principio vital relacionado com a energia primordial do qual o preexistente é o detentor por exceléncia, Por outro lado, faz configurar uma individualizacio das energias vitais, pois todos os setes so portadores dewe elemento, individualizagao esta capaz de fiz8-lo manifestar-se como “duplo” dos corpos. “Uma prova material da existéncia'de Woa Woe enquanto principio de vitalidade é proposta pelas transformages softidas pelos corpos apés os processos caracterizadores da morte: ‘uma vez que Woa Wee nfo mais se encontre unido ao corpo, este nfio tem vida nem pos- sui seu “duplo” e, entio, apodrece. Outra prova da existéncia de Woa Woe é dada pela pos- sibilidade de sua manipulagio e apropriagio por parte de individuos capazes de o fazer. Finalmente, Woa Woe aparece como 0 principio estabelecedor da unio vital do corpo com kala, 0 terceiro grande elemento vital constitutive do homem natural Agni. Real- mente, hala s6 existe no plano da existncia visivel em um corpo animado pela vida, fato possibilitado pelo Wea Woe, Fora dessa uniio vital a condigio de Ekala é outra, e sua ex- plicagio totalmente diversa. Ekala, o terceiro principio vital componente do homem natural Agni configura-se como elemento atribuidor da individualizas4o da personalidade social ¢ do destino. Ex- plicam os Agni que Ekala é um principio puro, pode ser bom ou mau, tais qualidades sio inerentes 4 sua natureza. Define critérios da personalidade como inteligéncia, honestidade, bondade etc,, e seus contririos. E responsivel pelo destino dos homens, isto é, 0 destino de um homem é aquele de seu Ekala, e assim nio é ele que sera feliz ou infeliz em sua vida, essa é uma perspectiva que se coloca a sen Bkala. E devido a essas caracteristicas que entre os Agni diz-se, de um homem bem sucedido, que “seu Ekala é vigilante” (D'Aby, 1960: 21). Outro atributo de Ekala é sua dimensio eminentemente sagrada; constitui-se em uma espécie de divindade pessoal e privativa dos homens, inerente personalidade dos individuos. 32 eer ee Senufo Segundo um depoimento por nés obtido em Korhogo, territério Senufo,’ o preexistente esses voltaicos — apresentado como principio primordial feminino sob 0 nome de Kk joou aos seres, no proce: 1 Jemento vital do qual é por Esse elemento vital, concebido como um fluido di iago material propriamente dita dos seres nio é or outras divindades que captam essa energia € Esse atributo vital origindrio relaciona-se sobretudo com a concep¢io de vitalidade ¢ animagio dos seres, assim como com sua espiritualidade, dada pela esséncia divina de sua origem. Nessas condic6es, a substncia primordial do homem e demais seres da natureza possui uma parcela do preexistente, ou seja, algo da energia vital divina classficada e hie~ rarquizada segundo as espécies. De acordo com essa versio, uma vez doado o principio vital configurador da vida, © papel do preexistente fica esgotado: a guarda de cada ser é confiada & divindade dele pri- vativa. No caso do homem, essa divindade a nés apresentada com o nome de Niyiligefolo, palavra traduzida por “aquele que me materializou”, recompensa ou pune o individuo segundo este se conforme ou nfo as regras da natureza ¢ da sociedade, Assim, niio h4 con ~cepcio de castigo para além da existéncia visivel ¢ todos 0s atos considerados negativos sio expiados durante essa fase, no cabendo ao preexistente ocupar-se nem do bem nem. do mal: essa problemética fica restrita unicamente 3s relagdes estabelecidas entre os ho mens ¢ sua divindade pessoal e privativa.Jé para os outros animais, assim como para os ve~ getais ¢ minerais, a guarda dos individuos é confiada a entes elementais denominados “Madebele”, cuja fangio bisica é a de protegé-los contra toda espécie de agressio. Esses entes constituem forcas diversas daquelas inerentes 20 homem, fazendo o mundo povoar- se de entidades atemorizantes ligadas as energias desconhecidas da natureza. Essas proposicdes contém alguns aspectos considerados significativos quanto & pro- blemitica da criagio e configuragio do homem. O preexistente seria doador de um “fluido” definidor da vida. Como ocorreu essa doagio? O informante de Korhogo disse que © preexistente “nio faz que fazer correr 0 fluido”, negando que para tanto tenha utilizado a palavra, elemento primordial de forga vital do qual o preexistente é detentor entre varias sociedades tradicionistas."* Jé Holas (1957) afirma o contririo: todo 0 processo primordial da cria¢io Senufo se fez pela palavra do preexistente. Ambas as fontes concordam, no entanto, que o homem é dotado de subs- tincia divina. informante de Korhogo considera ser o preexistente 0 responsivel pela criagio, ¢ dele “descende todo o universo. Tanto os homens como a matétia, as pedras mesmo € tudo, tudo que € matéria descende dessa mulher”. Mas pensa que a matetializagio do homem é devida a acio de certas divindades colocadas a servigo do preexistente: 33 ‘Mas assim que esse deus-mie colocou todas as criaturas na terra [...] ela 0s confia a de~ miurgos [...] que so entarregados de atualizar 0 fluido [...] de completar a obra, de aperfeigoar a obra, de a tornar atual. De a materializar. Uma vez isso feito, Deus nio se ‘ocupa mais da criatura, nem dos seres, nem das coisas. Ja Holas (1957), chamando a atengao para as varias configuragdes do preexistente Senufo (princfpio feminino, principio masculino ou andrégino), acredita que a obra de ctiagio tenha sido feita pela palavra de Koulo Tyolo,”? principio universal masculino por exceléncia. E afirma ter esse preexistente criado um casal primordial gerador dos demais seres humanos, Seriam os primeiros ancestrais da humanidade, portadores do sopro divino do preexistente. Por outro lado, na versio do informante de Korhogo, a divindade finalizadora da obra do preexistente materializando o homem, torna-se sua divindade pessoal e o acom- panha em sua trajetéria histérica, punindo-o ou beneficiando-o segundo as circunstincias. Sobre esse aspecto, Hola diz que o preexistente somente age entre os homens através de “mediadores invisiveis mas ativos. Entre esses, Iigué V6 (ou Higuéfolo) ocupa o primeiro lugar" (1957: 145). Estabelecida sua origem divina, os Senufo consideram o homem natural como ente constituido de pelo menos trés elementos vitais. ‘Tyeri, o corpo, compreende um complexo interno ¢ outro externo, interdependen- tes, O primeiro é percebido pela nogio de ventre ou entranhas, sintetizando a idéia de um conjunto de drgios e suas fungdes, mas também a possibilidade de captar e viver os sen- timentos interiotmente faz parte dessa proposicio. Tyeri é concebido como uma totalidade dinamica, propriedade derivada de duas razdes basicas: ele possui qualidades vitais ineren- tes & sua natureza © a cada uma de suas partes, as quais se combinam como sistema exis- tente por forga de sua propria vitalidade. No entanto, é regido por um outro principio vi- tal catalisador, Neri, que o define como estrutura viva com possibilidade de ago, sua vitalidade podendo ser aumentada ou diminufda De fato, esse segundo componente do homem Senufo, Neri, parece configurar-se como um principio de animalidade, uma energia caracterizadora da existéncia de vida em um corpo animado, ou seja, aparece como elemento catalisador das propriedades energé- ticas do Tyeri, podendo tratar-se do fluido ou sopro vital originado do preexistente. Uma das provas da existéncia de Neri 6 dada pela proposigao segundo a qual cle pode transpa- recer em sua forma individualizada de “duplo”. Nesse estado, é atingivel e mesmo apro- pridvel, caso em que provoca a diminuigo das energias vitais do individuo e até sua morte. Neri pode ter sua energia diminuida mas também aumentada, quando é utilizado Por seus apropriadores com o fim de aumentar sua prépria vitalidade. Mas Neri reveste-se ainda de outra caracteristica: pode constituir-se em uma energia deletéria e vingativa apés a morte do corpo, dirigindo suas agdes contra antigos inimigos. Por tal razio, entre os Se- nufo é costume colocarem-se bastBes na cova dos cadaveres, por ocasido dos enterros, para 34 serem oportunamente utilizados por Neri contra 0 causador ou causadores da motte."* Neri é, portanto, um componente vital do homem Senufo extremamente ambiguo: iden- tificado como condigio essencial para a configuragio plena da vida em um corpo pode ser tomado como principio vital de animalidade. Porém, até certo ponto, guarda caracte- risticas que o individualizam, sob forma dotada de uma espécie de inteligéncia, embora essa inteligéncia nfo parega dotada de vontade reflexiva. Pile, o terceiro elemento vital constitutivo do homem Senufo, define-se como prin- cipio ligado por exceléncia as propriedades morais, intelectuais € de destino do ser huma~ no, individualizando-o ¢ atribuindo-lhe uma personalidade social. Segundo parece, tam- bém neste caso esse componente transparece ainda como uma divindade pessoal que até certo ponto se confunde com a personalidade dos individuos, integrando-a em suas ins- tancias mais profundas. Dessa forma evidencia-se a pluralidade de elementos vitais integrantes da constitni¢io do homem natural. Sob mais de um aspecto, pode-se afirmar que nas trés sociedades esses elementos guardam caracteristicas basicas € préprias que os definem e individualizam. ‘Aunio vital e dindmica desses elementos configura a sintese enunciadora do homem em sua existéncia visivel. Notas 1 Oferendas & cabeca: expressio ligada aos cultos destinados a Ori. 2 Nés ouvimos na Africa, com grande freqiiéncia, a expresso “ventre” ser utilizada para exprimir sentimentos, ainda que jocosos. Isso ocorre no contexto comum e difrio dos contatos entre as pessoas. 3. Olodumare, o preexistente loruba, é também indicado pelo nome de Olonin. 4 Orisanla é também indicado pelo nome de Obatala. 5 Aexpressio “fazendo trabalhos” refere-se 4 possibilidade de se exercer uma ago mégica com a utilizagio de certos recursos que pode ser benéfica ou maléfica. Nés considera- 35 mos essa expressio estrangeira ao pensamento africano, o qual exprime essa possibilidade de maneira diferente. No entanto, ela é bastante conhecida ¢ utilizada nos cultos afto- brasileiros. 6 A nogio de inresponsabilidade manifestada no Ambito da criagao primordial parece ser uma constante entre os Ioruba. Ela aparece também referida a Orisanla, divindade que falhou na criasZo do mundo, mesmo sendo responsivel pela criagio dos seres da natureza. Essa caracteristica humaniza a divindade. 7, Sobre a questio da matéria originaria e primordial constituinte do homem loruba, ver Elbein dos Santos (1976), principalmente a partir da pig. 204. 8 Também Abimbola (1973) e Elbein dos Santos (1976) fazem referéncia a Iponri. 9 Depoimento de Tidiane Dem em Korhogo, Costa do Marfim, em abril de 1979. 10 Note-se que os Ioruba e Senufo também consideram que o preexistente delega as di- vindades a elaboragio do homem, constituindo-se entretanto na fonte primordial da energia que possibilita 0 ato criador. 11 Nés utilizamos o termo “tradicionista” para indicar aquelas civilizagdes que detém 0 co- nhecimento ancestral, isto 6, extremamente antigo. Esse termo foi oficialmente adotado pelos participantes de Seminario Internacional sobre a Civilizagio Senufo realizado em Korhogo, Costa do Marfimn, em agosto de 1979. 12 O nome do preexistente Senufo é escrito de diferentes formas pelos autores. 13, Tliguefolo: note-se a semelhanga com a expressio Niyiligefolo utilizada por Tidiane Dem. Parece tratar-se do mesmo ente sobrenatural relacionado diretamente com o preexis- tente € os seres humanos. 14 Como se vera mais adiante,a morte dificilmente é atribuida a causas naturais. Os Senufo nfo constituem excegio a esse postulado. 36 ics

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