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66744-Texto Do Artigo-216604-1-10-20240517

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Raquel Oliveira
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DOI - 10.23925/rct.i107.

66744

Editorial

Prezado(a) leitor (a)


Crer apesar de...

A
teologia tem a ver com a vida humana, toca
o seu drama-limite, as realidades-limite que
tecem a existência humana. Não se fala de
Deus sem se falar do ser humano e não se
falar do ser humano sem se falar de Deus. Esta é a di-
nâmica da teologia, por isso que, quando o tema é crer
..., “crê quem aceita crucificar as próprias esperanças
na cruz de Cristo e não Cristo na cruz das próprias
esperanças” (Forte, 1994, p.17). Se crer apesar de ...
Crer apesar de todas as aparências, de todas as conve-
niências e de todas as certezas pré-estabelecidas. “crer
não é aceitar demonstração clara e evidente ou projeto
isento de incógnitas e conflitos: não se crê em algo que
se possa possuir e gerir para segurança e agrado pes-
soais” (Forte, 1994, p. 16). Crer é quando se vai das Enviado em
13.12.2022
experiências-limite ao sentido das expressões-limite. Aprovado em
Quando diante do inevitável e do não-sentido é possí- 23.10.2023

vel encontrar o sentido: “crer apesar de...” crer, mesmo Ano XXXII - Nº 107
quando tudo parece contrário. Quando até a imagem Jan - Abr 2024

que se tem de Deus parece despedaçar. O “crer apesar


de ....” interpela a compreensão de uma fé que brota
como testemunho. “Crer, pois, não é evitar o escandalo,
fugir do risco, caminhar na serena luminosidade do dia:
cremos, não apesar do escandalo e do risco, mas justa-
Programa de Estudos
mente desafiados por eles e neles” (Forte, 1994, p. 16).
Pós Graduados em
Crer no Deus da vida que adentra nessa aventura huma- Teologia - PUC/SP
Ano XXXII - Nº 107 - Jan - Abr 2024 6 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA

na, então é possível compartilhar o peso que sobrecai sobre as vítimas da histó-
ria. É possível pensar no sentido da vida que emana com a morte de Cristo e no
perdão que supera o ódio. É possível pensar na força e no poder do amor quando
se tem barreiras e muros humanos construídos pelos individualismos e egoís-
mos. É possível pensar e edificar o Reino da vida e da esperança instaurado por
Cristo no terreno comum da nossa história. A utopia do Reino, a configuração do
homem novo, tudo aquilo que apontam as expressões-limite sugere o sonho de
Deus a partir dos signos de sua Revelação nas fronteiras das experiências-limite.
É possível esperar quando na experiência de fé tem-se a convicção que a figura
do servo sofredor, também configurado ao Logos da Cruz, convergem todas as
figuras e as vítimas da história de que à Teologia, sob o risco de neutralizar-se
frente às experiências-limite que tangem a historicidade humana, não pode es-
quecer. Nesse sentido, na busca de uma síntese de um caminho progressivo da
fé, convido o (a) leitor (a) de nossa revista a traçar um percurso de interpretação
contínua dos textos aqui apresentados.

No primeiro artigo, Eduardo Rodrigues da Cruz, em Compreender el uni-


verse como tarea de la teología, afirma que a leitura tomista usual da relação
entre as ciências naturais e a teologia fala da integridade da autonomia e sua ciên-
cia atraves da distinção entre causalidade primária e secondária. Aqui a reflexão
teológica não é diretamente afetada pelas diferentes teorias científicas sobre o
início e o fim do universo, como foi notoriamente exposto pelo Abade Lemaître.
O autor expõe algumas tentativas de ir além da distinção tomista, abordando a
questão do fim do universo (a questão temporal) e da sua finalidade (a questão
teológica e moral), propostas coerentes de cientistas-teólogos recentes, destacan-
do algumas dificuldades em suas posições. Em seguida, passa às considerações
epistemológicas sobre explicação, interpretação e compreensão nas ciências na-
turais e humanas, destacando a teologia como ciência da fé vivida. A experiência
básica é o estupor diante da imensidão do universo, o enigma de um Deus que
ali se esconde e se revela. Esta experiência só pode terminar numa doxologia.

Na sequência, O estudo crítico do protestantismo nas Ciências da


Religião, de Jefferson Zeferino, afirma que a presença pública das igrejas evan-
gélicas tem despertado interesse acadêmico acerca de suas relações sociais atuais

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e de suas origens históricas no Brasil. Por meio de uma revisão bibliográfica,


o presente artigo objetiva refletir sobre as Ciências da Religião como área de
investigação crítica dos cristianismos; interrogar as interfaces interdisciplinares
das Ciências da Religião no estudo dos protestantismos; problematizar a abor-
dagem de figuras representativas do protestantismo como caminho para a aná-
lise de seus contextos; e, finalmente, refletir sobre o lugar do dado teológico
no interior dos estudos de religião. Para tanto, a trajetória de Richard Shaull
(1919-2002), missionário estadunidense, é escolhida como caminho de pesquisa
que permite o acesso às questões próprias do Brasil das décadas de 1950 e 1960
em suas dimensões histórica, política, social, religiosa e teológica. Como resul-
tado, compreende-se que uma leitura atenta sobre Shaull demonstra a multipli-
cidade de relações de um sujeito histórico e abre caminhos complementares de
investigação que ajudam a pensar o dado religioso em sua complexidade e em
recortes temporais específicos. Por meio de Shaull, torna-se possível investigar
as relações entre o protestantismo estadunidense e o brasileiro; o desenvolvi-
mento do movimento ecumênico e dos movimentos estudantis e de jovens; a
consolidação da responsabilidade social das igrejas no seio do protestantismo
ecumênico brasileiro; a história de teologias públicas desenvolvidas em contexto
latino-americano; o engajamento social de atores protestantes e sua conexão com
as lutas próprias do período; as tensões institucionais e teológicas entre setores
antagônicos dentro do protestantismo brasileiro.

O terceiro artigo, Do kerigma cristológico enquanto tradição histórica


e kerigma pneumático entre karl Barth e Rudolf Bultmann, de Luiz Carlos
Mariano da Rosa, afirma que a salvação enquanto objeto ou conteúdo da pre-
gação neotestamentária é disponibilizada pelo kerygma enquanto proclamação
do Evangelho que encerra o ato salvífico de Deus e implica uma exortação à
conversão que tem como fundamento a pessoa e a obra de Jesus como Cristo
e Senhor e Filho de Deus e os fatos soteriológicos da sua morte e ressurrei-
ção. Dessa forma, o autor, envolvendo a primazia seja da tradição histórico-
-cristológica, seja da prédica pneumático-cristológica, assinala que a prega-
ção converge para a comunicação kerygmática enquanto anúncio público em
relação a promessa e as reivindicações do evento salvífico, convergindo para

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uma tradição que testemunha processos salvíficos a partir da fé, constituindo


o Evangelho tradição pneumático-kerygmática. O artigo se detém no kerygma
cristológico como acontecimento que encerra Deus como loquitur em Barth,
que consiste em um anúncio envolvendo um acontecimento por se realizar
(Ankündigung) em um processo que pressupõe que Deus fala através de uma
relação que atribui ao humano a função de anunciar (Ankündigen) tal situação.
Sobrepondo-se ao sentido que encerra o kerygma de Jesus como o Messias
enquanto conteúdo que se impõe à tradição veterotestamentária sob a acepção
de um valor ético-religioso e literário-teológico adicional, a proclamação, de
acordo com Bultmann, constitui a mensagem primária e básica que imprime o
seu caráter seja em relação à tradição antiga seja no que tange à pregação de
Jesus em um processo que mantém todo o passado sob outro princípio inter-
pretativo. Dessa forma, sobrepondo-se aos fenômenos históricos e a sua mera
descrição, Bultmann elabora uma construção teológico-filosófica que através
do recurso ao pensamento científico e a instauração de uma interpretação exis-
tencial encerra a pretensão de assinalar o verdadeiro sentido da mensagem,
convergindo para as fronteiras que expõem a situação atual do ser humano e a
necessidade de fé enquanto decisão e obediência.

O quarto artigo, Maria e a dignidade humana, de Luis Carlos Susin, aborda


o patrimônio teológico, antropológico e espiritual que a Patrística oferece sobre
Maria, mãe de Jesus. A antropologia, enquanto ciência que investiga as origens
e características dos seres humanos, direciona também a teologia na perspectiva
da compreensão do fundamento da dignidade humana que é inerente à vida cris-
tã. A antropologia teológica elaborada por Agostinho de Hipona sobre Maria
encontra-se relacionada com a elaboração dos dogmas cristológicos e trinitários
e de seu pensamento sobre a Igreja. O presente trabalho tem por objetivo mostrar
como Agostinho utiliza o termo pessoa e dignidade humana, a partir da figura de
Maria e sua relação tipológica com a Igreja, dando enfoque ao plano de Salvação
em Cristo pela Trindade. Ao longo de suas obras, Agostinho elenca algumas
atribuições à Igreja associando-as diversas vezes com a Mãe do Senhor, tes-
temunhando, assim, um pensamento profundamente cristocêntrico e tanto uma
mariologia eclesiológica como uma eclesiologia mariológica. Agostinho ressalta

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a excepcional dignidade de Maria, a única a ser ao mesmo tempo virgem e mãe,


não somente pelo espírito, mas também em seu corpo.

O quinto artigo, A experiência religiosa de Santa Teresinha e a apro-


priação dos elementos do cotidiano para a expressão do inefável, de Alisson
Henrique Domingos e Ceci Maria Costa Baptista Mariani, afirma que Santa
Teresinha do Menino Jesus foi uma religiosa carmelita que viveu no contexto
da França do final do século XIX. Após uma infância conturbada, ingressa
aos 15 anos na Ordem das Carmelitas Descalças, onde permanece até os 24
anos, quando falece vitimada por uma grave pneumonia. Em tão pouco tempo,
Teresa de Lisieux alcançou o matrimônio espiritual, o prestígio de uma das
santas mais populares de todo o mundo e a coroa de Doutora da Igreja, enquan-
to perita da Scientia Divini Amoris. Escreveu três manuscritos autobiográficos
que, após compilados, ficaram conhecidos como História de uma Alma. Nestas
páginas encontra-se a profunda espiritualidade de Teresa que a elevou aos al-
tares e a grandeza doutrinária que a fez a terceira mulher dentre os doutores.
Diante do inefável da mística – entendida como encontro do eu com o Outro
absoluto –, a fé e o homem buscam o entendimento daquilo que experimenta,
e para isso utiliza-se de uma linguagem que seja capaz de tornar factível o
inexprimível, realizável apenas por meio do uso da linguagem dos símbolos,
ícones, analogias e alegorias.

O sexto artigo, Pacto Educativo Global: uma síntese das priorida-


des pastorais do Papa Francisco, apresentado por Guadalupe Corrêa Mota e
Carolina Mureb Santos descreve que, no marco dos 10 anos de pontificado do
Papa Francisco (2013-2023), diversos teólogos e vaticanistas fizeram uma espé-
cie de “balanço” ou síntese da contribuição de um papa latino-americano e jesu-
íta na condução da Igreja. Uma perspectiva deste “balanço” é identificar as prio-
ridades pastorais desde que ele assumiu como bispo de Roma. Situando o Pacto
Educativo Global (PEG) no pontificado do Papa Francisco, as autoras identifi-
cam as prioridades pastorais, e demostram como o PEG é mais um elemento no
processo de transformar mentalidades em vista de um novo estilo de vida. Em
seguida, analisam os 7 compromissos do PEG como uma síntese das prioridades
pastorais do Papa Francisco ao longo destes 10 anos. Por fim, indicam como a

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Ano XXXII - Nº 107 - Jan - Abr 2024 10 REVISTA DE CULTURA TEOLÓGICA

educação católica comprometida com o PEG pode colaborar na formação de


sujeitos éticos que, a partir de uma nova mentalidade, possam, efetivamente,
cooperar na construção de uma sociedade que tenha lugar digno para todos.

O sétimo artigo, 10 anos do pontificado de Francisco: um resgate e uma


proposta de leitura do Bispo de Roma como texto à luz da perspectiva de
Paul Ricoeur, de Donizete José Xavier e Tiago Cosmo da Silva, analisa o acon-
tecimento do dia 13 de março de 2013 quando o cardeal argentino Jorge Mario
Bergoglio apareceu na sacada da Basílica de São Pedro, afirmando que tudo nele
falava, seja dele, pessoalmente, seja do seu próprio projeto para a Igreja, visão e
ser humano e visão de mundo. Os autores afirmam que nestes 10 anos do ponti-
ficado de Francisco que, mais do que deixar uma herança em termos teológicos,
representa, em si mesmo, um rumo para a Igreja, como um grande iniciador de
processos. À luz do pensamento do filósofo Paul Ricoeur leem o bispo de Roma
como um texto, que deve ser interpretado e vivido, concretamente, pela Igreja, a
fim de que está se compreenda sempre melhor e, à luz do que pedia o Concílio,
faça também o seu aggiornamento para o século XXI.

O oitavo artigo, A Pitonisa de Delfos: Arqueologia, História e Religião em


Atos 16, 16-18, de José Ademar Kaefer em Atos 16, 16-18, afirma que Delfos foi
mais que um grande centro religioso que durou por séculos. Foi também um centro
de captação de riqueza e de decisões políticas da Grécia antiga. Grandes autorida-
des dentro e fora da Grécia vinham comumente consultar o oráculo antes de tomar
uma importante decisão. E ali, tudo girava em torno da pitonisa, com seus dons
sensoriais, e dos sacerdotes que a auxiliavam. O santuário durou até os primeiros
séculos da era cristã, quando não mais interessava aos romanos que ali se decidis-
sem os rumos políticos da região. Porém, no meio popular a crença no Deus Apolo
e nas suas pitonisas continuava muito forte. Este nos parece ser o contexto que está
subjacente em Atos 16,16, onde temos uma pitonisa que participa do anúncio de
Paulo e Silas, única vez em todo Novo Testamento. A metodologia a ser usada será
o estudo no local (in situ), com o auxílio de bibliografia específica.

O nono artigo, Análise de Hebreus 6,4-6, de Tiago Dias de Souza e Genilton


Andrade Pontes, afirma que diante das incertezas sobre a autoria da Carta aos

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Hebreus, torna-se crucial analisar sua mensagem, independentemente de sua au-


toria controversa. A investigação dos termos gregos em Hebreus 6:4-6 e suas
correspondentes palavras hebraicas revela um destaque no termo “ἀδύνατον”
(adýnaton) que significa “impossível”, enfatizando a impossibilidade de recon-
duzir à transformação interior aqueles que caíram. Isso reflete a gravidade da
apostasia mencionada, evidenciando que a queda espiritual é uma ameaça contí-
nua na fé, por representar não apenas um erro, mas também uma traição ativa a
Cristo e Sua obra. A análise aprofundada desses termos, auxiliada por recursos
linguísticos e teológicos, enriquece a compreensão do trecho e destaca a serieda-
de da apostasia. A apostasia vai além de um mero erro, representando uma ruptu-
ra profunda com a fé em Cristo e com a verdade divina. Aqueles que se afastam
de Cristo, após receber Sua graça, estão simbolicamente crucificando de novo o
Filho de Deus, expondo-o à ignomínia. Isso reforça a ideia de que a apostasia
é uma traição ativa e maliciosa, conforme ressoam as palavras de Jesus sobre a
blasfêmia contra o Espírito Santo. Em resumo, a análise dos termos teológicos
e linguísticos em Hebreus 6:4-6 oferece uma base sólida para uma compreensão
mais completa da natureza da apostasia e suas implicações na fé e prática cristãs.

Desejo a todos (as) uma boa leitura.

Donizete José Xavier


Editor Chefe da Revista
Glaucio Alberto Faria de Souza
Editor Assistente

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