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Sociedade Brasileira E Cidadania: Unidade 1

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Disciplina

SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA

Unidade 1
Ética e Política

Aula 1
Vida Coletiva e Padrões de Ccomportamento Éticos

Vida coletiva e padrões de comportamento éticos

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Aqui iniciamos nossa jornada em direção à complexa rede de relações, valores e
estruturas que compõem a realidade brasileira. Este material se baseia no conhecimento
sistematizado por Hugo Conti e Patrícia Alves (2019). Em sua opinião, nossa sociedade tem
como orientação principal de funcionamento os princípios ou o poder? Agimos coletivamente em
função de uma busca para estabelecermos aquilo que consideramos correto ou nossa realidade
pode ser mais bem compreendida a partir das relações de força que são estabelecidas em nosso
país?

Repare que essa busca pela ação correta pode incluir processos amplos de nossa vida em
coletividade: há problema em empresas privadas financiarem campanhas políticas? Seria correto
manter benefícios para funcionários públicos que já recebem salários altíssimos? Há, ainda,
decisões que envolvem a nossa vida privada: se uma regra nos parece injusta, devemos obedecê-
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la? Considerar uma ação correta ou incorreta é algo que se faz sozinho ou deve-se levar em
conta aspectos sociais?

A mesma abrangência deve ser considerada na análise das relações de poder, já que elas se
manifestam em escalas elevadas: até onde deve ir à intervenção do Estado brasileiro em nossa
sociedade? A maioria deve sempre se impor? E em nosso cotidiano individual: o serviço público
que utilizo é um favor que me foi oferecido ou é um direito que me é assegurado? Meu ato
individual pode ter impacto na sociedade?

Portanto, se pretendemos analisar a diversidade de fatores da vida coletiva de nosso país, é


provável que estas duas orientações – princípios e poder – apareçam em nossa análise (Conti,
Alves, 2019). Por isso, é interessante recorrermos a dois domínios do conhecimento voltados a
esses assuntos: a ética e a política. Embora esses temas sejam tratados frequentemente em
nosso dia a dia, o estudo mais aprofundado desses campos do conhecimento, conforme
faremos nesta primeira unidade, será um importante suporte para compreendermos o ambiente
que nos cerca e até mesmo nosso próprio cotidiano.

A partir de uma compreensão humanista do que consiste a vida em sociedade, poderemos,


então, identificar alguns requisitos para uma participação cidadã na comunidade que nos abriga.
As respostas a essas e outras indagações serão trabalhadas à medida que analisarmos os
fundamentos da filosofia ética e suas relações com os dilemas que despontam em nosso
cotidiano, bem como os diferentes tipos de organização política e seus vínculos com nosso
desenvolvimento enquanto sociedade.

Vamos Começar!

Se é verdade que os juízos morais podem concordar com uma norma jurídica – ou mesmo com
duas normas que, em um caso concreto, são conflitantes –, é crucial observar que esses valores
derivam de uma consciência moral, a qual reflete valores e sentimentos pessoais. Na formação
da moral, mais relevante do que a existência de uma lei, estão as convicções individuais, que
podem ou não coincidir com a norma jurídica. Nesse contexto, a moral de uma pessoa pode até
mesmo contradizer uma norma social; contudo, a ética deve guiar a condução de nossas vidas.
O termo "ética" deriva da palavra grega "ethos", cujo significado em nosso idioma está
relacionado às ideias de "modo de ser" ou "bom costume". Isso revela que, pelo menos desde a
Grécia Antiga, o homem se dedica a analisar de que maneira as condutas dos indivíduos podem
contribuir para uma convivência satisfatória. Dessa forma, a ética se consolida como o campo do
conhecimento voltado para a determinação racional das finalidades boas e más a serem
buscadas pelos seres humanos. Ela investiga a essência das condutas consideradas certas ou
erradas, assim como os fundamentos dos princípios e valores que embasam os juízos,
obrigações e deveres que condicionam e qualificam o comportamento humano.
Trata-se de uma disciplina fortemente normativa, que prescreve ações e julgamentos a serem
valorizados na condução de nossas vidas, em vez de apenas retratar a realidade observada.
Além disso, ao destacar a razão como método para perceber o caráter correto ou incorreto de
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uma ação, a ética fortalece a responsabilização individual por uma conduta, uma vez que o ser
humano dispõe de mecanismos racionais para identificar a justiça ou injustiça de seus atos.
Entretanto, a ética não é um conhecimento encerrado, com determinações já totalmente
reveladas, mas sim o que estabelecerá fundamentos amplos para a apreciação da conduta
adequada em uma situação.
A resposta à pergunta "qual a conduta correta para o aprimoramento de nossa convivência
coletiva?", abrange diversos componentes da vida social, como a organização política, as
ciências e a moral. Esses elementos exercem influência nas maneiras de conceber a ética. No
que diz respeito à moral, alguns esclarecimentos se tornam necessários.
A classificação de um comportamento como "moral" ou "imoral" gera efeitos semelhantes à
afirmação de que uma conduta é "ética" ou "antiética". Isso ocorre porque esses termos são
frequentemente utilizados como se fossem conceitos equivalentes, inclusive em obras clássicas
do campo de estudo. No entanto, é crucial reconhecer a existência de importantes diferenças
entre esses conceitos.
Etimologicamente, a palavra "moral" deriva do termo latino “moralis”, cujo significado se
aproxima de "relativo aos costumes". Trata-se de um conjunto de normas que regulamenta a
conduta dos indivíduos na sociedade, seguindo tradições, referências educacionais, culturais e
práticas rotineiras.

Siga em Frente...

Ética e moral
Embora tanto a ética quanto a moral busquem orientar o que é certo e errado nas ações
humanas, a ética pressupõe que essa qualificação resulte de uma elaboração baseada na
coletividade, ultrapassando os indivíduos considerados isoladamente - não existe, portanto, uma
"ética individual". Já a moral fundamenta sua apreciação na razão e consciência pessoais,
levando em conta as repercussões e influências sociais do ato.

Assim, a moral pode apresentar maior diversidade, refletindo condutas, práticas e desejos
variáveis para cada indivíduo, tempo e local da ação. Por outro lado, a ética se ocupa da
sistematização da moralidade, objeto de seu estudo, apresentando, portanto, princípios e regras
relativamente mais amplos e duradouros.

Essas diferenças possibilitam divergências entre enquadramentos éticos e morais, pois uma
convenção moralmente aceita em uma sociedade específica pode não satisfazer uma reflexão
ética, por não se adequar a princípios gerais do que seria bom, justo ou correto.

Nesse mesmo sentido, é comum que grupos distintos de indivíduos, mesmo compondo uma
mesma coletividade, tenham comportamentos orientados por padrões diferentes do que
consideram moralmente aceitável. Isso ocorre devido às diferenças nos costumes, tabus e
vontades incorporados por cada um deles. No entanto, quando tratamos da ética, tais
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divergências são superadas, pois as concepções morais são interpretadas para identificar
padrões éticos aplicáveis a todos (Conti, Alves, 2019).

A problematização de aspectos da vida social, equivocadamente equiparados à ética, não ocorre


apenas com a moral, mas também com a religião, que é muitas vezes aplicada em situações que
exigiriam uma análise ética.

A origem dessas confusões reside no fato de que tanto a ética quanto a religião prescrevem
regras de conduta e postura aos indivíduos. Contudo, ética e religião apresentam divergências
que justificam sua distinção como campos autônomos do saber. A ética é eminentemente
racional, baseada em processos lógicos inteligíveis, enquanto a compreensão religiosa, em seus
diversos credos, possui forte componente dogmático, valendo-se de liturgias, mandamentos e
sacralizações que transcendem os limites racionais. Além disso, a fundamentação ética busca
regramentos aplicáveis a toda a coletividade, diferenciando-se da pluralidade religiosa presente
na sociedade.

Embora componentes éticos possam existir nos preceitos religiosos, é esperado que outros
mandamentos da religião difiram dos procedimentos racionais defendidos pela ética.
Inversamente, a ética não se vincula aos preceitos de um credo religioso específico, sendo
plenamente viável que um indivíduo ou sociedade desprovidos de confissões religiosas recorram
ao campo ético, já que os dilemas cotidianos não são exclusivos de uma crença específica.

Quando nos deparamos com uma situação em que nenhuma ação está livre de efeitos morais
negativos, sem uma solução óbvia e inquestionável, ou quando a resposta preconizada pela lei,
tradição ou outra fonte de orientação parece confrontar uma convicção racional relevante,
enfrentamos um dilema moral.

Dilemas morais
Os dilemas morais evidenciam a complexidade no exercício de nossa liberdade de escolha, pois
a existência de consequências negativas decorrentes de nossas decisões, ou a apreciação dos
valores a serem preferidos em um caso concreto, demandam o estabelecimento de certos
critérios racionais que podem não ser tão evidentes.

Imagine, estudante, um médico legista que tenha acesso aos corpos de vítimas de acidentes
fatais. Preocupado com a baixa disponibilidade de órgãos para doação, o médico resolve, por
conta própria e sem qualquer autorização formal, extrair dos finados os órgãos que permanecem
funcionais, destinando-os à doação. A atitude do médico pode ser considerada correta? Se você
acredita que sim, provavelmente fundamentou sua decisão no fato de que tal conduta apresenta
efeitos positivos, na medida em que novas vidas poderão ser salvas a partir da doação. Essa
justificativa se aproxima do raciocínio consequencialista, que busca nos resultados de um ato
sua validação. Esse critério de análise é representativo da filosofia utilitarista, que defende a
maximização da utilidade, ou da capacidade de produzir bem-estar e felicidade coletivos, algo
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que pode ser inclusive matematicamente quantificado pelo número de pessoas, intensidade ou
duração envolvidos no benefício em questão, conforme argumentava Jeremy Bentham (1748-
1832) e John Stuart Mill (1806-1873).

Se, em sentido oposto, você rejeita a conduta do médico, deve ser porque considera o ato de
retirar os órgãos sem qualquer autorização prévia do falecido ou de seus familiares como sendo
uma atitude por si só incorreta. Trata-se, nesse caso, de uma abordagem deontológica, que
categoriza a ação humana a partir de percepções principiológicas dos deveres e direitos
existentes, relativizando suas consequências, à luz do que defendia Immanuel Kant (1724-1804).

Considere-se, agora, de férias em um país estrangeiro; você repara que nesse Estado é comum
que crianças comecem a trabalhar desde idades muito precoces. Ao classificar tal fato como
algo incorreto, você provavelmente acredita que existem padrões mínimos de respeito à infância
que devem ser observados no Brasil, no país onde você se encontra e em qualquer outro lugar do
mundo, sob uma perspectiva universalista. Se, no entanto, você admite que existem
particularidades culturais desse povo que justifiquem tal situação, é o enfoque relativista que se
sobrepõe em seu raciocínio.

Esses impasses e outros dilemas morais presentes em nossas vidas ressaltam a pluralidade de
situações em que não há respostas absolutas ou preconcebidas, elevando a importância do
estudo da ética em nosso desenvolvimento individual e coletivo. A emergência dessas questões
é algo incontornável da vida humana, e a desatenção em relação aos dilemas tende a ser ainda
mais problemática do que as dúvidas por eles suscitadas, na medida em que sugere uma
condução automatizada dos afazeres cotidianos, cujo efeito prático é a negação da própria
liberdade (Conti, Alves, 2019).

Passados mais de dois mil anos do advento da ética enquanto campo fundamental do
conhecimento humano, continuamos a deparar com situações nas quais o exercício de nossa
liberdade de escolha encontra-se cheio de dúvidas e angústias diante da inexistência de valores
ou critérios incontestáveis para o agir humano. Se é verdade que os avanços tecnológicos nos
auxiliam a encontrar algumas respostas para problemas cotidianos que atingem a humanidade,
formulando maiores certezas em temas antes duvidosos, temos de reconhecer que as
potencialidades oferecidas pelo desenvolvimento científico contemporâneo abrem novos
campos de discussão envolvendo a ética.

Ética e tecnologia
Inovações nas áreas de biotecnologia, tecnologia da informação e automação, por exemplo, ao
mesmo tempo em que ampliam os horizontes da ação humana, levantam questionamentos
éticos essenciais: devemos clonar seres humanos? As empresas de telecomunicação deveriam
assumir compromissos no combate à propagação de notícias falsas? Podemos criar robôs
militares com capacidade letal? Assim, a expansão das atividades que conseguimos realizar
eleva proporcionalmente os questionamentos sobre o que efetivamente devemos fazer.
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Nesse sentido, a ampliação das capacitações humanas contrasta com a persistência de desafios
para os quais a humanidade já dispõe de soluções tecnológicas, revelando que a continuidade de
certos problemas individuais e/ou coletivos não se deve a questões técnicas, mas sim às
escolhas que fazemos enquanto sociedade organizada. Isso revela um vínculo primordial entre a
ética e a política. O zelo pela convivência coletiva defendido pela filosofia ética enriquece toda a
rede de relações em que nossa existência se desenvolve, reconhecendo os aspectos valorativos
essenciais de nossa condição humana.

Perceba a função emancipadora do saber ético, garantindo que a inexistência de modelos


predeterminados do que deve constituir o agir humano não seja considerada uma limitação às
nossas vidas. Pelo contrário, essa condição permite o exercício integral de nossas liberdades,
estimulando a reflexão constante sobre o mundo que nos cerca e sobre os caminhos para uma
existência plena e em harmonia com os fundamentos de nossa humanidade.

Vamos Exercitar?
A liberdade é um dos valores fundamentais e marcantes da existência humana. O ser humano
encontra, na utilização de sua racionalidade e no exercício de seu livre arbítrio, a capacidade de
fazer escolhas diante de uma situação concreta. Essa liberdade de julgamento e conduta é
essencial, pois as situações que enfrentamos ao longo da vida são inúmeras e imprevisíveis
(Conti, Alves, 2019).

Vivendo em comunidades, os seres humanos buscam assegurar que as avaliações e condutas


individuais criem entre si uma relação humanizada, estabelecendo um entendimento coletivo
direcionado ao aprimoramento da vida em grupo. Isso representa o desenvolvimento do nosso
saber ético.

Apesar de nossas liberdades permitirem que nos manifestemos de acordo com nossas
individualidades, existem referências compartilhadas daquilo que devemos assumir como
condutas e finalidades éticas, diferindo dos padrões morais e religiosos aceitos por cada
indivíduo.

Assim, o raciocínio ético é uma atividade eminentemente humana. A ética não está sujeita a
processos de codificação e programação, como aqueles observados na construção de
máquinas, limitando o uso da tecnologia em contextos nos quais podemos deparar com dilemas
morais.

Embora a evolução da tecnologia forneça incontáveis benefícios para a organização e


funcionamento de nossas sociedades, é crucial lembrar que essas inovações auxiliam, mas não
substituem o raciocínio humano e as avaliações éticas necessárias ao nosso cotidiano.

Definir que a vida humana importa mais do que bens materiais, que a gravidade de uma doença
justifica adiantar um paciente na fila de atendimentos médicos ou que a função de salvar vidas
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pode justificar o excesso de velocidade de um automóvel são ponderações éticas que apenas os
humanos são capazes de realizar.

Máquinas podem ser programadas de acordo com algumas considerações éticas estabelecidas
por seres humanos. Contudo, as diferentes justificativas para um mesmo ato e a impossibilidade
de prever todas as situações cotidianas que envolvem um juízo ético apresentam limites para a
visão tecnicista de que a tecnologia oferece solução para todos os problemas humanos.

Esse posicionamento reflete uma postura humanista que, no pleno exercício de nossas
liberdades, rejeita uma condução automatizada, mecanicista e, por que não dizer, antiética de
nossas vidas.

Saiba mais

O véu da ignorância

Resumidamente, a maior ingerência do Estado nos setores da vida cotidiana, por meio, por
exemplo, da prestação de serviços públicos gratuitos ou a preços módicos eleva os custos do
governo, que, frequentemente, passam a ser compensados por maiores impostos cobrados da
coletividade.

Imagine que você seja muito mais rico do que na situação financeira em que agora se encontra e,
portanto, capaz de pagar por todos os serviços que utiliza; você seria favorável ao aumento da
tributação para compensar esses gastos governamentais, que você sequer utiliza? Agora, em
sentido inverso, imagine-se muito pobre, dependendo quase que integralmente da assistência
pública; a sua opinião anterior sobre a justiça na concessão desses serviços seria mantida ou
alteraria seu posicionamento?

Não seria interessante considerarmos a justiça dessas prestações governamentais de modo


independente da situação em que atualmente nos encontramos? Esse é o propósito do filósofo
John Rawls em sua teoria do “véu da ignorância”, explicada no vídeo “O que é um bom começo? ”
(2015), da Universidade de Harvard.

15. O QUE é um bom começo? [S.l.]: Harvard University, 15 nov. 2015. Postado pelo canal
Fundação Ivete Vargas. 1 vídeo (25min42s)

Referências
ALT, F.; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
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ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
ARENDT, H. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.
ARISTÓTELES. Os pensadores: Aristóteles. São Paulo: abril, 1978.
BAUDRILLARD, J. La société de consommation. Saint-Amand: Folio, 2008.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: contendo o velho e o novo testamento. Salt Lake City: A Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2015.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira-
cidade-brasileira-a-proibir-canudos-plasticos/. Acesso em: 27 nov. 2018.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2019.

Aula 2
Possibilidades Éticas no Mundo Contemporâneo

Possibilidades éticas no mundo contemporâneo

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Não é necessário ser muito atento à realidade brasileira para perceber que
alcançar o sucesso profissional, plena satisfação pessoal, segurança financeira e a capacidade
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de vivenciar em total liberdade o que valorizamos constituem objetivos desafiadores, não é


mesmo? Vivemos em um mundo repleto de obstáculos e hostilidades que dificultam a trilha que
estabelecemos em nosso desenvolvimento pessoal (Conti; Alves, 2019).

Diante de uma variedade de dificuldades impostas pela vida contemporânea – as quais não
originamos, mas resultam da forma como a sociedade optou por se organizar –, seria razoável
que fôssemos cobrados por adotar um comportamento que valorize a manutenção e articulação
dos vínculos sociais? Ou o mundo contemporâneo demanda que nos concentremos
exclusivamente em nossas próprias vidas, buscando o que é melhor para nós mesmos, sem
sermos responsabilizados por problemas e situações que estão além de nossa esfera particular?

Se a competição para conquistar uma vaga na faculdade e, posteriormente, um emprego


satisfatório, é acirrada, devo ponderar sobre o que é benéfico para a sociedade ou apenas
assegurar meu crescimento pessoal? Se não determino diretamente os rumos da sociedade, por
que deveria assumir a responsabilidade de alertar para os erros que a coletividade
eventualmente produz? Se os padrões de felicidade individual acarretam efeitos colaterais
prejudiciais, cabe ao indivíduo questionar esses padrões?

Em síntese, é viável manter, nos dias de hoje, condutas voltadas ao desenvolvimento da


sociedade, ou a realidade contemporânea exige que o indivíduo abandone perspectivas coletivas
em prol de seus ganhos individuais?

As respostas a essas perguntas demandarão a análise de elementos de nosso regime


econômico, social e político. Este material está embasado no conhecimento organizado por
Hugo Conti e Patrícia Alves (2019). Vamos investigar preceitos do sistema capitalista que nos
conduzirão a reflexões sobre o que podemos compreender por liberdade e responsabilidade nos
tempos atuais.

Vamos Começar!

Capitalismo e individualismo
Você já percebeu que determinados temas relacionados à vida e à organização coletiva têm o
poder de suscitar acaloradas polêmicas em nossas discussões cotidianas, assim como em
níveis mais elevados de debates acadêmicos e políticos? O sistema capitalista, sem dúvida, está
entre esses temas.

Ao abordarmos o capitalismo, é preciso reconhecer que esse sistema econômico, político e


social evoluiu de diferentes maneiras desde suas primeiras manifestações, ainda de forma
incipiente, na Europa Ocidental do século XVIII, até se consolidar como o regime predominante
no mundo contemporâneo, incluindo sua aplicação em nosso país. Contudo, algumas
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características fundamentais do capitalismo são essenciais para definir esse sistema, como
veremos a seguir.

Primeiramente, observamos que um regime capitalista adota o mercado como principal meio de
produção e distribuição de bens e serviços, onde compradores e vendedores interagem para
satisfazer suas necessidades. Adicionalmente, a presença da propriedade privada constitui um
elemento fundamental do capitalismo, com uma série de direitos garantindo o domínio exclusivo
sobre determinados bens. Além disso, o capitalismo requer que uma parcela da população venda
sua força de trabalho no mercado para garantir seu sustento. Por fim, identificamos como quarto
elemento do capitalismo o comportamento individualista dos agentes econômicos (compradores
e vendedores), aspecto que merece atenção especial em nosso estudo, uma vez que, como
discutimos anteriormente, ética e política são conceitos coletivos por natureza.

O aspecto individualista do capitalismo foi enfatizado em suas origens por Adam Smith (1723-
1790), um dos clássicos do pensamento econômico. Smith argumentou que a prosperidade
econômica é essencial para a busca da felicidade humana e deve, portanto, ser o objetivo
primordial das sociedades e de seus governantes. Segundo o autor, esse nível mais elevado de
produção não decorre da benevolência ou solidariedade dos indivíduos, mas, ao contrário, da
busca de cada um por sua própria felicidade.

Existem diversas tarefas necessárias à vida coletiva, e, segundo Smith, cada indivíduo deveria se
especializar naquilo que lhe proporcionasse maiores vantagens e resultados individuais. Esse
comportamento egoísta, de acordo com o pensamento do autor, leva os indivíduos a trocarem
entre si o que produzem e não consomem, resultando em maior prosperidade econômica e
satisfação para toda a sociedade.

No século XX, com a consolidação da Revolução Industrial e o fortalecimento do modo de


produção baseado na divisão do trabalho, a relação entre o sistema capitalista e o
comportamento individualista recebeu ênfase significativa no pensamento do economista e
filósofo britânico Friedrich August von Hayek (1899-1992). Hayek argumentava que a ausência de
barreiras aos empreendimentos individuais era fundamental para satisfazer os gostos,
inclinações e desejos dos indivíduos, algo alcançado por meio da competição. Segundo o autor, o
ambiente social deveria estabelecer limites para que os indivíduos pudessem buscar seus
próprios valores e preferências, sem a necessidade de princípios amplos compartilhados pela
coletividade (Conti, Alves, 2019).

Na prática, o individualismo ressaltado por esses dois representantes da economia capitalista


sugere que devemos focar apenas em nossos próprios interesses, pois não haveria referências
externas para orientar nosso comportamento cotidiano. Essa perspectiva, expressa na frase
"cada um cuida da sua vida", diminuiria a importância e a aplicabilidade de orientações coletivas,
como ética e política, para a compreensão e melhoria de nossa sociedade. Contudo, uma análise
mais profunda desses argumentos e da realidade em que vivemos aponta limitações para
classificar o individualismo como o único fator da ação e organização humanas, como veremos
adiante.
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De imediato, percebemos que a competição individualista pode acarretar profundos efeitos


sociais negativos. Embora a disputa entre pessoas ou empresas possa impulsionar a constante
inovação e a consolidação de métodos mais eficientes, é necessário também focar naqueles que
não conseguem êxito no processo competitivo.

A supervalorização do individualismo e a consequente negação dos vínculos coletivos humanos


ignoram a emergência de problemas generalizados que prejudicam o funcionamento da
sociedade e impactam todos os indivíduos, ainda que em diferentes graus. Questões como o
desemprego, a desigualdade social e a violência, por exemplo, podem estar relacionadas aos
efeitos prejudiciais de uma competição individualista extrema, demandando uma reavaliação de
nossa realidade que inclua considerações de cunho coletivo.

Além disso, ao direcionarmos o foco para a conduta humana, é crucial reconhecer que existem
fatores que condicionam o comportamento individual que não estão estritamente vinculados ao
individualismo ou ao autointeresse. Em alguns casos, nossa conduta não busca apenas ganhos
pessoais, mas é motivada por sentimento de solidariedade ou simpatia, que justificam a
realização de doações e trabalhos voluntários, por exemplo. Da mesma forma, podemos orientar
nossas ações por compromissos com causas maiores, sejam elas abstratas, como a justiça, ou
concretas, como a preservação de um rio específico, mesmo que isso ocasionalmente limite
nossos benefícios pessoais.

Além disso, o estabelecimento de padrões de comportamento social específicos pode envolver


variáveis distintas do autointeresse na ação humana. Assim, realizamos ou deixamos de realizar
determinadas atividades não apenas pelos resultados materiais que elas proporcionam, mas
também pelos efeitos de inclusão ou pertencimento social que essas condutas geram (Conti,
Alves 2019).

Siga em Frente...

Amartya Sen
Embora se possa argumentar que todas as motivações mencionadas eventualmente resultam
em autointeresse, seja através da satisfação individual proveniente de condutas solidárias,
comprometidas ou inclusivas, é crucial reconhecer que essas motivações se diferenciam
essencialmente dos ganhos econômicos e do egoísmo mencionados anteriormente. Essa
distinção é destacada pelo economista indiano Amartya Sen (1933 -), autor de uma crítica
substancial ao individualismo como característica incontornável de nosso sistema econômico.

De acordo com Sen, a valorização de critérios como utilidade, racionalidade, produtividade ou


eficiência, elementos importantes no regime econômico vigente no Brasil e em grande parte do
mundo, não deve se dissociar do que é ético. Abordar a produção e distribuição de riqueza
apenas por meio de considerações matemáticas de eficiência ou lucratividade, ou restringir o
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comportamento humano ao egoísmo individualista - cada um cuidando de sua própria vida -


seria um erro grave e frequente na compreensão da economia. Isso ocorre porque a ética
constitui uma qualidade fundamental para o sistema econômico, reconhecida inclusive pelos
clássicos da teoria de livre mercado, como o próprio Adam Smith.

Portanto, percebemos que o estudo da ética não apenas é plenamente compatível com os
padrões contemporâneos de organização política, econômica e social característicos do regime
capitalista, mas também fornece um instrumento valioso para enfrentar os problemas sociais
decorrentes desse sistema e compreender as motivações do comportamento humano nessa
realidade.

Uma consequência imediata da afirmação da ética como valor indispensável no mundo


contemporâneo é a necessidade de repensarmos como o indivíduo se insere na rede de relações
sociais que constitui nossa coletividade. Em outras palavras, dado que o ditado popular "cada um
cuida da sua vida", como vimos, não se aplica de modo absoluto em nossa realidade
contemporânea, como devemos abordar essa relação entre o indivíduo e a sociedade?

Hannah Arendt
Neste estudo, as contribuições da filósofa Hannah Arendt (1906-1975) se revelam incrivelmente
enriquecedoras, pois o vínculo entre o ser humano e a coletividade ao seu redor impõe
características específicas ao desfrute de sua liberdade e ao exercício de sua responsabilidade
(Conti, Alves, 2019).

Segundo Arendt, em meio ao contexto de afirmação do sistema capitalista, que se estende dos
séculos XVIII ao XX, o conceito de liberdade começa a refletir valores e perspectivas liberais,
concentrando-se nos aspectos da vida privada dos seres humanos. No âmbito deste estudo,
esses objetivos privados podem ser compreendidos como atividades voltadas para a satisfação
de metas e necessidades estritamente pessoais, diferenciando-se, assim, de outras práticas
focadas na esfera da vida pública, que, por definição, levam em consideração aspectos que
ultrapassam os interesses de um único indivíduo.

Dessa maneira, o exercício da liberdade, na perspectiva privada, estaria vinculado à busca


constante pelo acúmulo de riquezas ou ao consumo desenfreado, bem como ao usufruto do livre
arbítrio e dos direitos civis específicos da esfera particular, alinhando-se ao individualismo já
mencionado. O ser humano passaria a reduzir sua vida a um ciclo de trabalho árduo que permite
a prática dessas atividades individualistas, apresentando um comportamento automatizado e
superficial, no qual a exploração e a insatisfação pessoal se tornariam constantes.

Liberdade e responsabilidade
Ao criticar essa perspectiva, Arendt apresenta uma compreensão da liberdade completamente
oposta a esse modelo, vinculando o conceito ao pleno exercício de práticas públicas. Argumenta
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que os seres humanos nascem livres para estabelecer diversas relações entre si, organizando
sua vida coletiva. Assim, surge uma ligação inseparável entre liberdade e política, e o campo
onde a liberdade passa a ser desenvolvida deixa de ser a esfera particular, transformando-se no
espaço público. Nas palavras da autora, "ação e política, entre todas as capacidades e
potencialidades da vida humana, são as únicas coisas que não poderíamos sequer conceber
sem ao menos admitir a existência da liberdade" (Arendt, 2005, p. 191). A classificação da
liberdade como ação política destaca a potência desse valor ao estimular a ação conjunta que
decide sobre questões de interesse comum, constantemente estabelecendo novas formas de
construir a realidade.

Os vínculos significativos estabelecidos por Hannah Arendt entre o indivíduo e a sociedade em


sua compreensão da liberdade também são evidentes quando voltamos nossa atenção para
outra faceta da natureza humana: a responsabilidade. Assim como rejeita o isolamento individual
sugerido pelo ditado "cada um cuida da sua vida", a visão arendtiana sobre a responsabilidade
nega a ideia comum em nossa sociedade de que não temos condições para avaliar a justiça ou
injustiça da conduta alheia, expressa na frase "quem sou eu para julgar o que ele fez?".

Arendt propõe que, dado que os seres humanos possuem a capacidade inata de fazer reflexões,
há um comprometimento de cada indivíduo, mesmo que não seja voluntariamente assumido, em
estabelecer juízos e refletir sobre os acontecimentos. A capacidade racional - e, portanto, a
responsabilidade - não seria exclusividade de filósofos ou governantes, uma vez que todos têm o
potencial para pensar, estabelecer juízos e recordar eventos passados, criando assim um padrão
comum daquilo que aceitamos enquanto sociedade, percebido por todos os indivíduos.

Esse processo é particularmente crucial à medida que os hábitos, costumes e tradições sociais
se transformam com o tempo, exigindo de nosso juízo e pensamento a responsabilidade de
evitar que essas mudanças conduzam à prática do mal. Nesse contexto, a realização do mal não
requer necessariamente uma intenção cruel ou o objetivo deliberado de praticar injustiças. A
simples negação individual de utilizar o senso de responsabilidade pessoal, a recusa em exercer
o pensamento crítico sobre a correção dos acontecimentos, pode permitir que barbaridades
ocorram, um processo descrito por Arendt como a "banalidade do mal" (Conti; Alves, 2019).

A renúncia ao processo individual de pensar ou a tentativa de se eximir da responsabilidade por


meio de um juízo crítico, como "Quem sou eu para julgar?" ou "Se fazem assim é porque deve
estar certo...", acaba por negar a própria condição de pessoa dos seres humanos. Arendt,
alinhada com a afirmação da autonomia no exercício do pensar, critica a ideia de
responsabilidade coletiva, exemplificada por expressões como "É porque todo mundo faz desse
jeito", já que a responsabilização coletiva impede que cada indivíduo assuma sua
responsabilidade individual.

Os efeitos práticos do conceito de responsabilidade de Hannah Arendt são cruciais para reforçar
a importância do estudo da ética no mundo contemporâneo, pois negam o isolamento do
indivíduo em relação ao grupo social do qual ele faz parte. Isso ressalta a necessidade de
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analisarmos como nos inserimos na realidade brasileira e reconhecermos o compromisso de


cada indivíduo perante os problemas atuais do nosso país.

Assim, percebemos que não apenas é possível manter um comportamento ético em tempos
contemporâneos, como essa conduta se torna extremamente necessária para ajustarmos
compreensões tradicionais de nossa sociedade, como o individualismo capitalista,
assegurarmos a evolução harmoniosa de nossa espécie - respeitando nosso ambiente e
perspectivas científicas - e solidificarmos uma inserção libertadora e responsável dos indivíduos
em nossa comunidade (Conti; Alves, 2019).

Vamos Exercitar?
Ao analisarmos cuidadosamente as perguntas que iniciaram este estudo, constatamos que os
problemas observados têm em comum o estabelecimento de uma relação de oposição, de
contraste, entre a busca de ganhos individuais e as necessidades coletivas de uma sociedade.
Nesse sentido, pareceria inviável assumir individualmente um comportamento baseado na
valorização dos laços sociais e no aprimoramento da vida coletiva - temas essenciais à conduta
ética. A necessidade de progredirmos individualmente que a realidade nos impõe deixaria em
segundo plano, nessa situação de contraste entre a pessoa e o grupo, os preceitos de uma vida
ética (Conti, Alves, 2019).

Entretanto, como vimos, a afirmação da esfera individual não exige necessariamente a negação
da vida coletiva, e vice-versa, mas existem vínculos de complementaridade que possibilitam que
esses dois campos se afirmem mutuamente.

Sob a lógica econômica do capitalismo, percebemos que o individualismo não é o único fator de
motivação individual; por vezes, é justamente a consideração de aspectos coletivos que orienta a
conduta individual. Além disso, identificamos que o autointeresse nem sempre produz o bem-
estar coletivo, sendo necessário, mais uma vez, o reconhecimento de juízos éticos para que
indivíduo e sociedade progridam de modo simultâneo.

Ao assumirmos as compreensões de Hannah Arendt para os valores da liberdade e da


responsabilidade, evitamos também a relação de oposição entre a esfera privada e a vida
pública. A liberdade individual está fortemente ligada à ação pública, assim como a
responsabilidade individual garante o compromisso com a defesa da ética na esfera coletiva.
Mais uma vez, indivíduo e sociedade se ligam, potencializando o progresso de ambos ao mesmo
tempo.

Assim, percebemos que a sustentação de uma perspectiva humanista das atividades cotidianas,
baseadas na ética, não só demonstra que é possível ser ético no mundo contemporâneo, mas
que é necessário manter a ética como diretriz de nossas vidas, individual e coletiva.
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Saiba mais

Competição versus coordenação


A competição entre os agentes garante ao vencedor sempre o melhor resultado possível? Ou a
coordenação entre os indivíduos pode levar a soluções mais proveitosas a todos eles? O
matemático norte-americano John Nash (1928-2015) investigou essas questões para aprofundar
o conhecimento sobre a Teoria dos Jogos, um ramo da matemática que analisa escolhas e
resultados estratégicos na interação entre agentes distintos.
Assistir ao filme "Uma Mente Brilhante", cinebiografia de Nash, proporciona uma visão prática de
como essa lógica é aplicável tanto em complexas discussões políticas quanto em contextos
informais, como a paquera em um bar. Refletir sobre a utilidade dos argumentos explicitados no
filme em relação a temas importantes de nossa atualidade se torna fundamental.
A partir da narrativa do filme, somos conduzidos a compreender como as estratégias e escolhas
individuais podem impactar não apenas o indivíduo, mas também a dinâmica de grupos e até
mesmo o panorama político. A Teoria dos Jogos, como evidenciada por Nash, oferece insights
sobre como a cooperação pode ser mais benéfica do que a competição em determinadas
situações.

A relevância desses conceitos na contemporaneidade é evidenciada quando aplicamos essa


lógica a questões atuais, sejam elas políticas, sociais ou econômicas. Analisar como a
coordenação e a cooperação entre os agentes podem gerar resultados mais vantajosos do que
uma abordagem puramente competitiva é crucial para a compreensão e resolução de desafios
complexos.

Dessa forma, o filme e a Teoria dos Jogos de John Nash proporcionam uma base sólida para a
reflexão sobre como as interações humanas, mesmo as mais simples, podem ser moldadas por
estratégias que visam o benefício mútuo. Essa perspectiva é valiosa não apenas no campo
acadêmico, mas também na aplicação prática em diversas esferas da vida moderna.

UMA MENTE brilhante. Direção Ron Howard. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Intérpretes:
Russel Crowe, Ed Harris, Jennifer Connelly. Roteiro: Akiva Goldsman. [S.l.]: Universal Pictures;
DreamWorks, 2001. (135min), son., color., 35 mm.

Referências
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Benevento Publishing, 2017.

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Aula 3
Importância do Debate Político

Importância do debate político

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Ponto de Partida
Olá, estudante! Certamente, em algum momento, você se viu envolvido em uma discussão sobre
política, mesmo que involuntariamente, não é mesmo? Seja como uma forma de manter a
interação com um desconhecido em uma conversa casual no elevador, ou como uma afirmação
de suas convicções mais profundas em uma acalorada discussão sobre o que julga mais
importante nesta vida, a política é um tema recorrente em nosso dia a dia (Conti; Alves, 2019).

Basta recordarmos os impasses que surgem em nossas redes sociais - ou em nossas reuniões
familiares - para percebermos que, mesmo entre pessoas que não dedicam suas vidas a estudar
a política, este tema está presente em nossos cotidianos. Nesse sentido, não seria difícil lembrar
pelo menos uma discussão política que você presenciou - ou da qual participou - nas últimas
eleições, não é mesmo?

Se a frequência com que tratamos deste tema é alta, a profundidade das argumentações
envolvidas nos debates rotineiros nem sempre apresenta a mesma estatura, seja em função da
natureza complexa dos conceitos ou da repulsa atribuída a este assunto. O desafio que esta
situação exige de nós é um estudo mais cuidadoso sobre as características da política, em
benefício de nossas conversas cotidianas e de uma infinidade de aspectos da vida que se
relacionam com esta matéria.
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Um bom começo para nossa reflexão é questionarmos se a administração pública - atividade


essencial da política - funciona de modo semelhante à administração privada. Administrar um
Estado é uma empreitada semelhante a cuidar, por exemplo, de uma casa ou de uma empresa?
Ou existem motivações e objetivos especiais da política que tornam essa área algo diferente
daquilo que fazemos em nossa vida particular? Se, mesmo em uma empresa, a "gestão dos
negócios" é algo diferente da "política da organização", seria possível tratar a qualidade das
políticas públicas como sendo uma questão apenas de gestão? Se queremos um país
democrático, basta que as coisas funcionem como previsto ou é preciso pensar em valores que
devem orientar este funcionamento?

Essas reflexões se apoiam no conhecimento produzido por Hugo Conti e Patrícia Alves (2019) e,
ao final desta aula, nossas frequentes conversas sobre política poderão se desenvolver do modo
mais embasado, como também nossas próprias percepções, mais prazerosas e emancipadoras,
acerca do caráter abrangente e transformador da política em nossa realidade.

Vamos Começar!
Você já parou para refletir sobre o motivo de vivermos em sociedade? Se temos interesses,
afinidades e temperamentos diferentes, por que decidimos passar nossas vidas convivendo com
outras individualidades tão distintas daquilo que nos constitui? Certamente, muitas pessoas
encontrarão sua resposta na inércia ou na ausência de alternativas viáveis; se já nascemos em
um ambiente coletivo, torna-se extremamente penoso romper com esse padrão. O
questionamento persiste: o que, então, ocorre para que tenhamos essa origem já comunitária?

A percepção de que, praticamente em todo o globo, o ser humano se organiza em agrupamentos


- sejam eles aldeias, tribos ou cidades - em uma prática que atravessa séculos e mais séculos da
história humana, nos sugere que pode existir algum fator intrínseco à condição humana que nos
torna efetivamente seres voltados à vida em grupo. Esta indagação nos remete, mais uma vez, à
Grécia Antiga (Conti; Alves, 2019).

Aristóteles (384-322 a.C.)


Segundo Aristóteles (384-322 a.C.), os seres humanos apresentam limitações individuais,
compreensíveis em razão de nossa condição imperfeita. Essa imperfeição motiva a busca por
outros indivíduos para a satisfação de nossas necessidades, em um processo de composição
coletiva. Isso é particular da espécie humana, permitindo-nos acordar e discernir o que constitui
o bem e o mal, o útil e o nocivo, o justo e o injusto - atividades basilares da vida coletiva.

Aristóteles argumenta que o homem é, portanto, um "animal político", ou seja, orientado por sua
própria natureza para o desenvolvimento social e cívico em coletividades organizadas. Nessa
condição, a estruturação de sociedades não visaria apenas à sobrevivência da espécie humana,
mas também à promoção do bem-estar, compreendido igualmente como desígnio natural da
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essência humana. A negação do aspecto cívico do homem, na perspectiva aristotélica, produziria


seres detestáveis, predispostos à exploração imoral dos outros e à guerra contínua.

Ao vincular a felicidade humana ao pleno exercício dessa natureza cívica, Aristóteles conecta a
satisfação individual ao engajamento em processos coletivos de busca de um bem comum.
Dessa forma, diferencia os habitantes dos cidadãos, na medida em que estes últimos não
apenas residem em sociedade organizada, como os primeiros, mas também atuam em prol
dessa concepção coletiva da existência humana.

Diante desse impulso para a atividade e da nossa relação com a realidade social que nos
circunda, o termo "política" certamente se insere no rol de vocábulos utilizados cotidianamente,
que, no entanto, não apresenta uma conceituação evidente ou um único sentido. Cabe-nos,
portanto, delimitar essa pluralidade de significados aplicáveis ao termo, ressaltando os sentidos
e conceitos que a palavra "política" introduz no âmbito de nosso presente estudo.

Siga em Frente...

Política: relações de poder


A raiz da palavra "política" encontra-se no idioma grego, em "ta politika", que exprime os afazeres
típicos da condução da vida coletiva da polis, a cidade-Estado da antiguidade grega,
compreendendo a produção legislativa, a busca pela justiça e a construção da infraestrutura
local, entre outros. Segundo a filósofa Marilena Chauí (2000, p. 476), as definições de política ora
classificam a dinâmica política como de interesse amplo da coletividade e, assim, de valor
elevado; ora situam a política em uma redoma especializada, distante da vida ordinária do
homem médio e, eventualmente, contrária às suas aspirações. Longe de constituir um descuido
ou uma fragilidade conceitual, esta classificação objetiva evidenciar o que a filósofa chama de
"paradoxo da política", obrigando-nos a questionar certas percepções corriqueiras sobre o tema e
a redefinir o lugar da política em nossa vida cotidiana.

As potenciais contrariedades existentes neste paradoxo seriam reduzidas se


compreendêssemos a política em sintonia com a ideia aristotélica de animal político, reforçando
que o desenvolvimento integral das faculdades individuais exige o reconhecimento dos vínculos
sociais em uma coletividade. Desta maneira, a frequente percepção de que a política é algo
estranho ou mesmo contrário ao desenvolvimento pessoal de cada ser humano não teria o
acolhimento que, infelizmente, ainda recebe em nossa sociedade (Conti, Alves, 2019).

De acordo com a professora Chauí (2000), é fundamental ressaltar o potencial que a política nos
fornece para o ajuste de visões conflitantes e opiniões diversas sem a necessidade de
recorrermos a confrontos abertos por meio do uso da força. Assim, traduzindo "o modo pelo qual
os humanos regulam e ordenam seus interesses conflitantes, seus direitos e obrigações
enquanto seres sociais. Como explicar, então, que a política seja percebida como distante,
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maléfica e violenta?" (Chauí, 2000, p. 478). Adicionalmente, na condição de campo de


deliberação para a busca do bem comum, não haveria fundamento relevante para compreender a
política como um fardo a ser encarado por cada indivíduo. O combate a tais deturpações
encontra-se justamente no reforço da consciência política, e não em sua recusa.

O aumento do interesse nos assuntos comunitários e do sentimento de pertencimento a um


grupo social amplo eleva o zelo e a responsabilidade sobre a condução da política, permitindo-
nos perceber que os diversos domínios de nosso cotidiano estão sujeitos a considerações
políticas, seja em função da existência de leis e regulamentos aplicáveis a um tema ou da
atuação direta do Estado. De modo semelhante, nosso trabalho, nosso lazer, nossos costumes e
hábitos consolidam práticas sociais que conferem ao funcionamento coletivo certas
especificidades, influenciando na organização política.

Justamente por se tratar de uma atividade potencialmente ampla, cujas intersecções abrangem
todas as áreas de nossa vida rotineira, o exercício efetivo da administração pública pode
apresentar significativa diferença no alcance da intervenção estatal, definindo variados sistemas
políticos percebidos ao longo da história.

O exercício de pensar sobre quais devem ser as funções do Estado pode ser beneficiado pela
percepção oposta, imaginando como seriam as relações humanas sem esta organização
política, em uma conjuntura na qual cada homem atua isoladamente – o denominado Estado de
Natureza. Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), esta situação resultaria em um
conflito permanente, uma vez que cada indivíduo, temendo por sua vida, desenvolveria métodos
para se proteger, estimulando que os demais também ampliem seu poderio; a inexistência de
garantias de proteção tornaria o medo uma constante da existência humana, já que os indivíduos
constituiriam ameaças uns aos outros, conforme ilustra a famosa ideia de que "o homem é o
lobo do homem". Nesta situação, seria razoável que os homens acordassem em renunciar parte
de suas liberdades individuais para, coletivamente, estabelecer uma autoridade superior, capaz
de assegurar a paz; trata-se da formação do Estado soberano, ao qual os súditos cederiam seu
poder.

Modelos de Estado
A metáfora estabelecida por Hobbes para o produto deste pacto social é a do Leviatã, um
gigantesco monstro bíblico, refletindo a concepção de poder absoluto que o Estado assumiria
em sua prerrogativa de manutenção da ordem. Neste sistema político, seria legítimo que o ente
soberano concentrasse o poder de intervir, sem responsabilizações, em quaisquer dos domínios
da vida coletiva ou de seus súditos, conforme efetivamente se observou nos modelos de
monarquia absolutista contemporâneos deste pensador inglês.

No século XVIII, entretanto, a forte conexão entre o poder do monarca absolutista com as
prerrogativas do Estado começa a ser questionada, sobretudo à medida que o crescimento
econômico da burguesia europeia se avoluma, demandando a equivalente ampliação de direitos
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civis e políticos desta importante camada social. O poder concentrado do soberano, neste
contexto, passa a ser compreendido como uma afronta à liberdade individual, e o
estabelecimento de limites à intervenção do Estado nas vidas privada e coletiva passa a ser
defendido com mais vigor (Conti; Alves, 2019).

Em linhas gerais, este liberalismo político reduz as funções do Estado, classificando-o como
"Estado mínimo" ou "Estado de polícia", concentrando a atuação pública na proteção das
garantias individuais, como o direito à propriedade privada, na manutenção da ordem social e na
defesa frente a ameaças externas. A aplicação prática desta nova mentalidade se desenvolve por
meio da imposição de constituições às quais os monarcas deveriam se subordinar, nas
chamadas monarquias constitucionais. Surgem também estruturas republicanas, como nos
Estados Unidos da América, e, sob a influência de John Locke (1632-1704), a lógica de separação
dos poderes, na qual a existência de entes distintos constitui importante instrumento de
contenção do poder do soberano.

Esta perspectiva preponderantemente individualista do Estado liberal foi fundamental para a


valorização da liberdade humana e o fortalecimento do progresso econômico e científico,
estimulado, por exemplo, pela livre iniciativa. No entanto, a existência de oportunidades e
condições distintas para o progresso individual e o exercício dessas liberdades pessoais, em um
ambiente de contração dos vínculos solidários e coletivos da sociedade, deu margem à
ampliação de injustiças sociais, excluindo grande parcela das populações nacionais dos
benefícios do progresso.

A reação a este processo excludente manifesta-se já no fim do século XIX e início do XX, pela
retomada de concepções políticas favoráveis à maior atuação Estatal, focada, neste momento,
na solução de graves problemas sociais, como a fome e o desemprego. Nas experiências
socialistas observadas, sobretudo na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e em países do
leste europeu, o Estado assumiria a tarefa de reverter privilégios concentrados por certas classes
sociais, defendendo a expansão do controle estatal sobre os meios de produção e a subsequente
redistribuição das riquezas de modo mais igualitário – e teria como contrapartida a supressão de
ideias de livre iniciativa e outras liberdades da concepção liberal.

O modelo de Estado de bem-estar social, por sua vez, defenderia a intervenção estatal não como
detentora dos meios de produção, mas, preponderantemente, reconhecendo as funções de
regulação e estímulo que a atividade estatal pode exercer na dinâmica econômica e na prestação
de serviços públicos, conciliando interesses privados e públicos, a exemplo do que se observou
na presidência de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) nos Estados Unidos, nos anos de 1930
e 1940.

Já nas últimas três décadas do século XX, entretanto, a compreensão da importância das
intervenções estatais nos sistemas políticos volta a oscilar em direção aos preceitos do
liberalismo. Os avanços tecnológicos, o desenvolvimento de mercados financeiros e o fracasso
de experiências de orientação socialista podem ser citados como fatores que conferem à
atuação do Estado a classificação de obstáculo à lucratividade e ao aspecto global e dinâmico
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do capitalismo contemporâneo. Sob tal perspectiva neoliberal, a atuação de agentes privados


seria mais eficiente do que intervenções estatais nos setores da economia, justificando o
estabelecimento de microestados, cuja função seria apenas garantir o funcionamento do livre
mercado no qual as interações privadas acontecem.

Essas variações nos fundamentos e nas consequências da atuação estatal apresentam fortes
vínculos com a capacidade de exercício dos direitos e das garantias individuais e coletivas,
exercendo, portanto, influência na afirmação do caráter democrático de uma sociedade. No
entanto, a classificação de um ambiente democrático não é exclusiva de um ou outro nível de
intervenção estatal, mas exige uma composição de procedimentos que ora se baseia na
abstenção do Estado de determinados atos, ora requer uma prestação de serviço público, a
depender do preceito democrático protegido.

A democracia, ou o "governo do povo" em grego antigo, pressupõe um regime político no qual a


condução dos afazeres da sociedade é definida pelos cidadãos, agindo diretamente neste
processo de tomada de decisões ou por meio de representantes eleitos para tal finalidade.
Assim, o estabelecimento de processos eleitorais regulares, de mecanismos de participação
popular, de partidos políticos e da observância da vontade majoritária são requisitos
fundamentais para uma democracia. Entretanto, a democracia não consiste apenas nestas
participações e representações, mas, de acordo com conceituações contemporâneas, engloba
também aspectos substantivos das condições de vida experimentadas pelos cidadãos, incluindo
variáveis como o bem-estar humano, a preservação do sentimento de segurança, a proteção de
minorias e a capacidade de resolução de conflitos de uma sociedade (Conti; Alves, 2019).

Desse modo, a criação de direitos e a viabilização de meios efetivos para o exercício destas
prerrogativas também são elementos indispensáveis a uma democracia, exigindo que, em certas
situações, o Estado tenha uma conduta negativa, abstendo-se de interferir na vida cotidiana dos
cidadãos, em benefício, por exemplo, de seu direito à propriedade, à liberdade de culto e de
expressão. Em outros casos, é justamente pela intervenção do Estado que os princípios
democráticos são respeitados, ao propiciar condições mínimas de saúde e educação, ao
promover a inclusão de grupos marginalizados, entre outros. De modo semelhante, a negação
extrema da democracia, a ditadura, pode ser fortalecida pela execução arbitrária de atos do
poder público, como o cerceamento de direitos políticos dos cidadãos, ou da inércia do Estado
em assegurar condições básicas da dignidade humana, permitindo, por exemplo, o extermínio de
grupos sociais minoritários.

Diante das múltiplas potencialidades que o estudo da política nos fornece, abordando nossa
essência enquanto seres humanos, nossos hábitos e afazeres cotidianos e orientando o desfrute
efetivo dos direitos elementares de um Estado democrático, parece-nos que a discussão política
constitui recurso de valor inestimável para a compreensão de nossa realidade e de nossa própria
existência em sociedade.

Vamos Exercitar?
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As questões que iniciaram nosso estudo nos levaram até Aristóteles, pois existem elementos
característicos de nossa natureza humana que nos fazem insistir na vida em coletividade. Seria
razoável encontrarmos na esfera política um valor maior do que em outros núcleos de nossa
existência cotidiana, não é mesmo? Se somos "animais políticos", é porque é justamente na
condução das atividades típicas da existência em sociedade que o homem encontra lugar para
dar vazão a suas mais elevadas potencialidades.

Assim, a política deve considerar valores – e formas práticas de implementar esses valores em
nossa realidade – que são específicos de sua área de atuação, exigindo do Estado um
funcionamento diferente de outras organizações sociais menos abrangentes, como domicílios e
empresas privadas.

Embora a atuação do Estado tenha sido interpretada de diferentes maneiras ao longo da história,
em sintonia com diferentes movimentos e ideologias sociais vigentes, é preciso reconhecer que
esses diversos sistemas políticos já observados conferem ao Estado uma posição particular na
organização das dinâmicas sociais. Mesmo quando se pretende reduzir a intervenção estatal ao
mínimo possível, as atividades que ainda assim permanecem sob domínio do Estado – garantir
direitos, por exemplo – traduzem a essência da vida política que não encontra contrapartidas nas
formas de organização privada (CONTI, ALVES, 2019).

Neste mesmo sentido, os processos coletivos de definição da maior ou menor atuação estatal
são também essencialmente políticos. Assim, ainda quando se pretende defender a valorização
do âmbito privado da vida dos indivíduos, este posicionamento só terá relevância social se
obtiver força política, algo que demonstra a amplitude e a importância deste campo.

Por tratar de valores sociais, definindo quais são os princípios mais importantes de uma
coletividade e como aplicá-los, a atividade política não se restringe apenas à gestão técnica da
administração pública. Se bem verdade que o estabelecimento de um conjunto de mecanismos e
procedimentos práticos pode ser fundamental para a condução dos serviços públicos, a
formação de convicções mais amplas que servem de orientação a uma sociedade – a
democracia ou a dignidade da pessoa humana, por exemplo – asseguram que a política seja algo
mais do que a simples operacionalização da vida em grupo, mas, sim, uma forma da sociedade
expressar seus ideais mais fundamentais. Desse modo, mais do que uma necessidade prática, o
estudo da política é algo que nos qualifica enquanto seres humanos e define a essência da
sociedade que queremos formar.

Saiba mais

A política espelhando o costume


Tradicionalmente, os cidadãos tendem a orientar suas atitudes diárias em conformidade com o
que estipula a lei. Seja por convicção de que a norma determina uma conduta desejável, pelo
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sentimento de pertencimento a uma sociedade, ou apenas pelo receio de eventuais sanções que
o descumprimento de uma regra pode gerar, os indivíduos mostram-se, em linhas gerais,
dispostos a aceitar o que manda a norma. Esta relação, todavia, existe também no sentido
oposto, já que não são raras as vezes em que são justamente os hábitos de conduta popular os
fundamentos para a edição de uma lei.

Para leitura, indicamos esta reportagem para que você entenda melhor como este processo pode
ser importante para nossa vida em sociedade.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018.

Referências

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noticias/bbc/2018/12/02/a-modesta-vida-dos-juizes-do-supremo-da-suecia-sem-auxilio-moradia-
nem-carro-com-motorista.htm. Acesso em: 14 dez. 2018.

WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.

WEFFORT, F. C. (Org.). Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 2006. v. 1.

Aula 4
Nossos Pilares Democráticos

Nossos pilares democráticos

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Ponto de Partida
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Não é raro nos deparamos com notícias ou declarações, incluindo aquelas feitas por nós
mesmos, indicando que um governo adotou uma postura incompatível com os valores
democráticos. Muitas vezes, é mencionada uma prática específica que constitui uma afronta à
pluralidade ou às liberdades fundamentais da democracia, ou ainda, uma inclinação autoritária
(Conti; Alves, 2019). Embora essas informações sejam compreensíveis para a maioria da
população, explicar os conceitos subjacentes a essas afirmações simples torna-se um desafio
mais complexo.

Essa dificuldade pode ser atribuída ao uso de termos comuns em nosso cotidiano, mas que, no
entanto, possuem fundamentos mais elaborados e não são tão explorados em nossa vida diária
(Conti; Alves, 2019). Tomando o Brasil como exemplo, podemos questionar se a realização de
eleições periódicas e legítimas é suficiente para considerarmos o país uma democracia plena.
Além disso, diante da ausência de representatividade das nações indígenas, que não têm um
único congressista eleito desde a Constituição de 1988, como avaliar a plenitude de nossa
democracia?

Outro exemplo que lança dúvidas sobre a integralidade de nossa democracia é apresentado
pelos dados inquietantes compilados pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio
de Janeiro (CCIR), os quais demonstraram que:

[...] mais de 70% de 1.014 casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados no Estado entre
2012 e 2015 são contra praticantes de religiões de matrizes africanas. [...] Por um lado o racismo
e a discriminação que remontam à escravidão e que desde o Brasil colônia rotulam tais religiões
pelo simples fato de serem de origem africana, e, pelo outro, a ação de movimentos
neopentecostais que nos últimos anos teriam se valido de mitos e preconceitos para “demonizar”
e insuflar a perseguição a umbandistas e candomblecistas". (Puff[U1] , 2016, [s.p.]).

Se um grupo social específico, como as comunidades indígenas, não tiver meios institucionais
adequados para expressar publicamente suas opiniões e posições, isso comprometeria o caráter
democrático do país? E se essa restrição ocorresse no âmbito religioso, prejudicando, por
exemplo, o pleno exercício das crenças de matriz africana, o Brasil ainda poderia ser considerado
uma democracia? Ou a relativamente menor representatividade dessas comunidades diminuiria
a importância de garantir sua presença e expressões em nosso país?

Essas situações reais, que impactam as comunidades tradicionais da história e identidade


brasileiras, nos conduzem a reflexões teóricas, embasadas na obra de Hugo Conti e Patrícia
Alves (2019). Questionamos quais seriam os elementos essenciais de um regime democrático e
se esses fundamentos da democracia permaneceram constantes ao longo do tempo ou se
sofreram alterações.

Vamos Começar!
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Democracia moderna
Em grande medida, o conceito de democracia nos transmite a ideia de um regime político no qual
os cidadãos participam na condução do governo de uma coletividade, seja de maneira direta,
como numa consulta popular sobre um tema importante, ou por meio da representação, onde os
cidadãos elegem mandatários para tomar decisões em nome da coletividade, como nas eleições.
Esse sentido de participação popular, derivado do termo democracia, já se explica nas origens da
palavra, que, em grego antigo, une demos (povo) e kratos (poder), formando o poder do povo ou o
governo do povo. Embora essa noção de participação popular esteja vinculada ao termo
democracia desde a Grécia Antiga até os dias atuais, outras concepções foram gradualmente
adicionadas ao conceito para chegarmos à compreensão atual de democracia.

Esse funcionamento deve ser entendido no contexto em que o argumento foi produzido, no qual
a participação política era restrita a alguns homens considerados aptos para a vida pública,
excluindo escravos, estrangeiros e mulheres da dinâmica política. Dessa forma, o
desenvolvimento de novas concepções sobre a titularidade de direitos civis e políticos,
ampliando a categoria de indivíduos considerados capacitados para a atuação pública,
certamente terá impacto na compreensão do conceito de democracia. Portanto, podemos
avançar até o surgimento dos ideais liberais e do questionamento dos Estados absolutistas
europeus, a partir do século XVII.

Nesse período da história europeia, três processos políticos e sociais podem ser apontados
como determinantes para a ressignificação do Estado, das prerrogativas individuais e,
consequentemente, do aspecto democrático da era moderna. A Revolução Inglesa (1640-1688),
fortemente influenciada pelo pensamento de John Locke (1632-1704), foi essencial para limitar o
poder absoluto das monarquias absolutistas e está relacionada à consolidação de direitos
naturais dos indivíduos, nascidos livres e iguais, capazes de exercer o poder político conforme
determinado pela lei, como exemplificado pelo Bill of Rights ("Carta de direitos") de 1689. A
Revolução Americana (1776), por sua vez, foi fundamental para a afirmação das ideias de
supremacia da vontade popular, liberdade de associação e estabelecimento de mecanismos de
controle permanente sobre o governo, conforme defendido por Thomas Jefferson (1743-1826).
Por fim, a Revolução Francesa (1789) centralizou diversos interesses sob a ideia de nação e
estabeleceu preceitos importantes sobre a separação entre política e religião, ampliando o
alcance dos homens nascidos livres e iguais em direitos (Conti; Alves, 2019).

As consequências reais observadas nas sociedades que passaram pelos movimentos


revolucionários, assim como os valores e ideias que surgiram nessa mentalidade burguesa e
liberal, foram determinantes para moldar uma nova concepção, mais moderna, da ideia de
democracia. Esse novo modelo democrático tornou-se extremamente emblemático pelos
estudos do francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), sobretudo devido à sua obra "A
democracia na América", resultado de investigações sobre instituições e costumes nos Estados
Unidos da América, durante os anos de 1831 e 1832 (Conti; Alves, 2019).
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Para Tocqueville, na época, o regime democrático tornou-se uma tendência ampla e inevitável
nas sociedades, caracterizado, em linhas gerais, por uma igualdade de condições – seja legal,
cultural ou política – incompatível com qualquer regime de castas sociais ou diferenças sociais
hereditárias. Essa situação permitia certa mobilidade social e facilitava o acesso a postos
profissionais ou políticos, constituindo os chamados "fatores geradores de igualdade". Para o
pensador francês, é indispensável para um ambiente democrático a efetivação de uma constante
atuação política dos cidadãos, exercida não apenas pelo voto, mas também nas atividades
administrativas, partidárias ou associativas.

Aprofundando suas considerações sobre o aspecto da igualdade, Tocqueville destaca o risco que
o excesso de homogeneização de uma sociedade poderia representar. Nesse cenário, a
homogeneidade excessiva estabeleceria uma certa tirania exercida pela maioria dos habitantes,
impedindo a diversificação de expressões científicas, filosóficas ou artísticas. Segundo o autor,
seria crucial encontrar um equilíbrio entre a busca pela igualdade e a preservação das liberdades
individuais, garantindo que a concepção de igualdade não seja incompatível com a pluralidade no
corpo social.

Nesse sentido, sempre que um consenso majoritário sobre um determinado tema é estabelecido
sem o devido respeito aos legítimos direitos dissidentes – os direitos das minorias que diferem
dessa concordância predominante –, enfrentamos um caso de tirania da maioria. O desrespeito
aos direitos minoritários ou às liberdades individuais pode se manifestar de diversas formas,
afetando expressões individuais ou coletivas.

A combinação desses dois elementos fornece a base teórica para a formação de outro aspecto
indispensável à noção contemporânea de democracia: o direito à alteridade ou direito à
diferença. Se os indivíduos são livres e devem ser tratados sem quaisquer preferências
injustificáveis, é natural que os elementos relacionados à identidade de uma pessoa possam ser
expressos da maneira que lhe convier. Essas manifestações, por mais plurais que sejam, devem
usufruir das mesmas garantias jurídicas que as demais.

A alteridade torna-se particularmente relevante no que se refere às liberdades de expressão e


religião, dada a importância dessas áreas para a afirmação da personalidade de um indivíduo.
Assim, o direito que todos os seres humanos têm de manifestar livremente suas ideias,
pensamentos e opiniões, bem como buscar fontes de informação, sem repressão ou censura,
reflete o respeito conferido às sociedades modernas à autonomia e à capacidade de raciocínio,
discernimento e exteriorização da consciência individual. Semelhantemente, essa consideração
da autonomia humana deve abranger também suas crenças – ou até mesmo a possibilidade de
não ter crença alguma.

Contudo, embora os conceitos de liberdade de expressão e liberdade religiosa incentivem a


afirmação do que um indivíduo pensa e crê, em ambientes democráticos, esses conceitos
também trazem uma contrapartida crucial: o respeito ao que o indivíduo não pensa e não crê.
Essas liberdades não se restringem a uma única opinião ou a uma religião específica,
abrangendo necessariamente todas as opiniões e crenças compatíveis com um ambiente
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democrático. Desse modo, o exercício pleno dessas liberdades não se limita a afirmar aquilo que
se gosta ou preza, mas também deve consolidar o respeito pelo que difere da própria identidade,
em harmonia com a ideia de pluralidade aqui trabalhada.

Existindo significativas contenções às liberdades características de um regime democrático, com


limitações ao pluralismo que poderia emergir em meio à comunidade, estamos diante de um
regime autoritário. A diversidade de maneiras pelas quais essas restrições são impostas à
sociedade, assim como a variedade de prerrogativas que a democracia oferece, pode permitir
que alguns dos componentes da dinâmica democrática se conservem, como o voto. Nesse caso,
com resquícios da dinâmica democrática, embora não se manifeste em sua totalidade devido a
condutas governamentais pouco tolerantes e intransigentes, podemos considerar que se trata de
uma democracia autoritária.

Siga em Frente...

Democracia x Autoritarismo
Dessa forma, a democracia autoritária traduz a existência conjunta de alguns dos elementos
constitutivos de um ambiente democrático, como a realização de processos eleitorais ou a
manutenção de direitos para grupos específicos da população, com a eliminação de outras
características típicas do regime democrático, como a supressão do direito das minorias ou a
limitação de certas liberdades. Observa-se, na verdade, uma versão falha e limitada de uma
democracia tradicional, seja por deficiência involuntária no funcionamento das instituições,
reduzindo o alcance dos valores democráticos na sociedade, ou pelo objetivo expresso de certo
grupo social de impor sua vontade aos demais.

A possibilidade de que esse autoritarismo seja incorporado ao funcionamento dos Estados já era
prevista no pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Segundo o filósofo, a
formação da sociedade civil resulta da transferência das liberdades individuais dos homens a um
governo por meio de um pacto social, no qual o governante se compromete a buscar o bem
comum. Entretanto, prossegue o pensador, se esse acordo não se estabelece em condições de
simetria entre as partes ou sob conjunturas de limitação da liberdade de um dos pactuantes,
teríamos, na verdade, um pacto de submissão responsável por um regime autoritário e despótico.
Adicionalmente, segundo esse autor, a soberania resultante de um pacto social não seria detida
pelo governante, mas permaneceria em posse do povo, coletivamente. A soberania popular seria
absoluta, conferindo ao corpo social um poder sobre todos os indivíduos considerados
isoladamente, uma vez que, ainda de acordo com Rousseau, o interesse do indivíduo estaria
incluído no interesse público. Nesse contexto, mais uma vez nos deparamos com a possibilidade
do surgimento de uma tirania da maioria, caso as prerrogativas de grupos minoritários, ou
mesmo de indivíduos, sejam desconsideradas em função da vontade popular absoluta (Conti;
Alves, 2019).
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Em termos práticos, tais experiências autoritárias foram observadas com relativa frequência ao
longo do século XX, constituindo certos padrões políticos identificados pelos estudiosos do
tema. Em linhas gerais, esses regimes autoritários apresentavam elementos comuns, como
afrontas e abusos às liberdades civis; a falta de separação – legal ou efetiva – entre os poderes
executivo, legislativo e judiciário, com a primazia do primeiro sobre os outros dois; o controle dos
meios de comunicação; a censura; a eliminação, redução ou manipulação de procedimentos
eleitorais; o antiliberalismo; o nacionalismo exacerbado; o militarismo; o unipartidarismo político,
entre outros. Exemplos clássicos nesse sentido incluem os regimes nazista na Alemanha de
Adolf Hitler (1889-1945) e o fascismo italiano de Benito Mussolini (1883-1945), ambos chegando
ao poder por vias democráticas; o totalitarismo soviético de Joseph Stalin (1878-1953); e os
regimes ditatoriais do terceiro mundo, como o período militar brasileiro compreendido entre 1964
e 1985.

A forma mais extrema de autoritarismo, no entanto, observada no século XX, talvez seja o
extermínio de judeus que compôs o Holocausto nazista. Esse genocídio perpetrado pela
Alemanha hitlerista dizimou aproximadamente 6 milhões de pessoas ao longo das décadas de
1930 e 1940, sendo determinante para a reação internacional que culminaria no maior conflito
armado da história. A extensão geográfica, a duração e a alta mortalidade dos embates armados
desenvolvidos no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) evidenciam os limites da
concertação da comunidade internacional e a ausência de uma instituição centralizada capaz de
mediar as desavenças entre países. Isso levou os Estados a entrarem em acordo para a criação
da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945 (Conti; Alves, 2019).

ONU - Organização das Nações Unidas

A ONU é uma organização internacional que possui direitos e deveres na ordem global. No
entanto, é importante ressaltar que ela não possui hierarquia superior aos países que a
compõem. Isso ocorre porque, da mesma forma que os indivíduos são sujeitos do direito interno
de seus países, os Estados constituem sujeitos do direito internacional público. Os indivíduos
encontram na atuação do Estado a hierarquia superior para impor, dentro de seu território, os
procedimentos a serem observados por todos, algo que não se verifica na ordem internacional.

Nota-se, portanto, que as decisões relativas à paz e à segurança tomadas pelo Conselho de
Segurança da ONU serão consideradas obrigatórias para todos os países, conferindo a este
órgão um poder sem precedentes na ordem internacional (Conti; Alves, 2019). Contudo, é
importante ressaltar que a composição desse conselho deriva do contexto imediatamente
posterior à Segunda Guerra Mundial, fazendo com que, desde 1945, esse órgão possua os
mesmos cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), ao
lado de outros dez membros rotativos com poderes reduzidos (Conti; Alves, 2019).

Tratando-se de um órgão extremamente poderoso, as fragilidades no que se refere ao aspecto


democrático de seu processo decisório são evidentes. Pode-se afirmar, portanto, que, assim
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como ocorre em âmbito interno, a falta de pluralidade e diversidade na dinâmica internacional


também caracteriza uma limitação indesejada ao funcionamento democrático.

Assim, ao final desses mais de dois mil anos de história da democracia, avaliando considerações
teóricas e aplicações práticas do conceito em diferentes contextos e gradações, concluímos que
a pluralidade não configura um requisito obrigatório dos ambientes democráticos. Forçá-la
contra a liberdade dos indivíduos seria, inclusive, antidemocrático. No entanto, existindo qualquer
indício de uma diversidade espontânea, levada a cabo por seres humanos na plena afirmação de
suas mais variadas formas de manifestação individual, é dever do regime democrático assegurar
o respeito, a tolerância e a tutela dessa diversidade, encarada não como discórdia social, mas
como uma riqueza inigualável da natureza humana.

Vamos Exercitar?

À luz do que estudamos nesta aula, percebemos que o conceito de democracia passou por uma
longa evolução histórica para nos fornecer, atualmente, uma compreensão muito além do
simples estabelecimento de mecanismos eleitorais ou de tomadas de decisões sobre assuntos
da vida em coletividade. A democracia, em sua concepção vigente, reveste-se também de
fundamentos e valores voltados ao pleno desenvolvimento de nossas capacidades e liberdades,
em razão do simples fato de sermos considerados sujeitos dotados de direitos e prerrogativas
essenciais (Conti; Alves, 2019).

Nesse contexto, o governo, a sociedade e o indivíduo democráticos não devem se ater a


raciocínios matemáticos para determinar qual o grupo social mais numeroso ou o rol de direitos
de maior representatividade que merecem prevalecer em detrimento dos demais; a mera afronta
das prerrogativas dessas comunidades – ou mesmo desses indivíduos – já é motivo para
prejudicar o aspecto democrático de um sistema político.

As liberdades de expressão, de crença ou qualquer outra forma de manifestação individual ou


coletiva, desde que não constituam ameaças ao sistema democrático, são, por si só, valores
indispensáveis à manutenção de uma dinâmica democrática, independentemente da frequência
com que aparecem nessa sociedade. A imposição de critérios estranhos ao conceito de
democracia – “o que produzem para a sociedade?”, “estão em conformidade com nossos
padrões sociais?” – como condição para a concessão de direitos não somente fragiliza o
aspecto democrático de um regime, como tende a criar mecanismos autoritários extremamente
nocivos à pluralidade característica da natureza humana, sob uma empobrecedora “ditadura da
maioria”.

Assim, retomando os casos práticos que deram partida à nossa análise, pouco importa que as
comunidades indígenas sejam minoria em nosso país ou que apresentem certos modos de vida
particulares; é fundamental que asseguremos mecanismos institucionais de representatividade a
essas comunidades, sob pena de termos uma democracia incompleta. Caso esses povos não
tenham acesso direto aos processos decisórios e aos instrumentos de poder da sociedade
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brasileira, suas liberdades se veem reduzidas, suas necessidades ignoradas, e a própria


democracia nacional, como um todo, encontra-se fragilizada. A mesma lógica se aplica à
intolerância religiosa promovida contra as crenças de matriz africana. A despeito de serem
práticas minoritárias em meio à população nacional, a repressão a seus rituais e suas
manifestações, bem como o racismo e o preconceito que frequentemente justificam essas
atitudes, são uma afronta à liberdade de religião, indispensável ao pluralismo democrático.

Saiba mais
Repare como o intervalo temporal de mais de 200 anos que separa a Declaração de
Independência dos Estados Unidos da América (1776), a Declaração Universal dos Direitos do
Homem e do Cidadão (1789) e a Constituição da República Federativa do Brasil (1988) não foi
suficiente para desfazer a influência de certas ideias liberais, fortalecidas ao longo do século
XVIII e relevantes até os dias de hoje:

Declaração de Independência dos Estados Unidos da América


Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são
criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a
vida, a liberdade e a busca da felicidade. (Hancock, 1776, [s.p.])
Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão
Art.1º. Os homens nascem e são livres e iguais em direitos. As distinções sociais só podem
fundamentar-se na utilidade comum.
Art. 2º. A finalidade de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e
imprescritíveis do homem. Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a
resistência à opressão. (Declaração..., 1789, [s.p.])
Constituição da República Federativa do Brasil
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se
aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à
liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: [...]. (Brasil,
1988, [s.p.]).

Referências
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CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2010.

COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das
Letras, 2016.

CONTI, H. M. de. ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

DALLARI, D. A. Elementos de teoria geral do Estado. São Paulo: Saraiva, 1982.

FRANCISCO, Papa. A alegria do evangelho. São Paulo: Loyola, 2013.

HAYEK, F. A. O caminho da servidão. São Paulo: Globo, 1977.

HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
Disciplina

SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA

HUNT, E. K. História do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Elsevier, 1981.

MAGNOLI, D. Essa coisa de sociedade não existe. O Globo, [S.l.], 11 abr. 2013. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/opiniao/essa-coisa-de-sociedade-nao-existe-8080595. Acesso em: 21
dez. 2018.

O CONSUMISMO e seus impactos ambientais. Portal Educação, [s.d.]. Disponível em:


https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/biologia/o-consumismo-eseusimpactos-
ambientais/48472. Acesso em: 17 jan. 2019.

O QUE SIGNIFICA... Portal Educação, [s.d.]. Disponível em:


https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/medicina/o-que-significa-bioetica/50873.
Acesso: 17 jan. 2019.

PLATÃO. Os pensadores: Platão. São Paulo: Nova Cultural, 1999.

SEN, A. A ideia de justiça. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

SEN, A. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

SINGER, P. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.

SKODOWSKI, T. Presidente do TJ-SP considera ético recebimento de auxílio-moradia. R7 Notícias,


[S.l.], 5 fev. 2018. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasil/presidente-do-tj-sp-considera-
etico-recebimento-de-auxilio-moradia-05022018. Acesso em: 17 dez. 2018.

TILLY, C. Democracia. Petrópolis: Vozes, 2013.

WALLIN, C. A modesta vida dos juízes do Supremo da Suécia, sem auxílio-moradia nem carro
com motorista. BBC NEWS, 2 dez. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-
noticias/bbc/2018/12/02/a-modesta-vida-dos-juizes-do-supremo-da-suecia-sem-auxilio-moradia-
nem-carro-com-motorista.htm. Acesso em: 14 dez. 2018.

WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.

WEFFORT, F. C. (Org.). Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 2006. v. 1.

Aula 5
Encerramento da Unidade
Disciplina

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Videoaula de Encerramento

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Ponto de Chegada

Olá, estudante! Para aprimorar a competência desta unidade, que consiste em compreender
criticamente os elementos essenciais relacionados à ética, dilemas morais e tensões políticas
atuais na sociedade brasileira, visando a uma formação humanista, é necessário familiarizar-se,
inicialmente, com os conceitos fundamentais que compõem uma intrincada teia de relações,
valores e estruturas.

Observe que, em uma sociedade, a busca pela ação correta pode abranger processos amplos de
nossa vida em coletividade e, também, decisões de nossa esfera privada. A mesma amplitude
deve ser levada em consideração na análise das relações de poder, uma vez que se manifestam
em escalas elevadas, no contexto do nosso cotidiano individual. Para examinar a diversidade de
fatores da vida coletiva em nosso país, é imprescindível incorporar, em nossa análise, estas duas
perspectivas: princípios e poder.

Portanto, recorremos a dois domínios do conhecimento voltados para essas questões: a ética e a
política. Embora esses temas estejam frequentemente presentes em nosso cotidiano, a
exploração mais aprofundada desses campos do conhecimento é um suporte fundamental para
a compreensão do ambiente que nos envolve, inclusive em nossa vida diária.

Para isso, utilizamos referências tradicionais do pensamento e da filosofia política ocidentais,


que servem como instrumentos para refletirmos sobre dilemas morais e impasses políticos
observados na contemporaneidade brasileira, abrangendo diversas áreas, como meio ambiente e
diversidade étnico-cultural da população brasileira.

Dessa forma, a partir de uma compreensão humanista do que constitui a vida em sociedade,
torna-se possível identificar os requisitos para uma participação cidadã na comunidade que nos
acolhe. A análise desses dois temas clássicos das ciências humanas, ética e política, ganha
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relevância especial na atualidade, uma vez que seus amplos campos de estudo podem
contrastar com a precisão e a especialização de novas áreas do conhecimento humano.

É Hora de Praticar!

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O estudo de caso apresenta o trecho da seguinte reportagem:

“Presidente do TJ-SP considera ético recebimento de auxílio-moradia


Assunto tem causado polêmica após divulgação de que magistrados com imóveis
próprios fazem uso do benefício”.

Por Thais Skodowski, do R7, em 05/02/2018 - 13h53 (Atualizado em 05/02/2018 -


15h41): “O novo Presidente do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo) [...] afirmou
nesta segunda-feira (5) que não vê problemas em juízes com imóvel próprio na cidade
onde atuam receberem auxílio-moradia. - Eu acho que é [ético] porque a Lei Orgânica
da Magistratura Nacional prevê (o recebimento do benefício). O auxílio-moradia é um
salário indireto porque é previsto como tal na Lei Orgânica da Magistratura Nacional.
[...] O auxílio-moradia a membros do Judiciário tem causado polêmica após
reportagens recentes mostrarem que juízes com imóveis próprios receberam o
benefício. A maior parte da categoria defende o pagamento dessa verba como forma
de composição do salário defasado — a última correção foi em 2015”. (Skodowski,
2018)

Os estudos apresentados possibilitam uma reflexão abrangente sobre o tema, permitindo


contemplar a complexidade e profundidade da reportagem. Eles fornecem ferramentas para
compreender a questão nas suas dimensões moral, ética, política, econômica, cultural e
histórica. As discussões propiciam uma análise sobre como a previsão na lei para a concessão
do auxílio-moradia aos magistrados transcende o âmbito estritamente jurídico, articulando-se
com todas essas dimensões.
A partir disso, surge a possibilidade de questionar quais correntes filosóficas podem
fundamentar argumentos a favor ou contra o auxílio, dado que essa discussão abrange os
domínios ético e político.
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Atuamos coletivamente em busca de estabelecer o que consideramos correto, ou será que nossa
realidade pode ser mais bem compreendida por meio das relações de poder que se estabelecem
em nosso país? Até que ponto a intervenção do Estado brasileiro em nossa sociedade é
justificada? A maioria deve sempre prevalecer ou meu ato individual pode ter impacto na
sociedade?
As respostas a essas indagações, assim como a outras, são exploradas à medida que
examinamos os fundamentos da filosofia ética e suas interações com os dilemas que surgem
em nosso cotidiano. Além disso, analisamos os diferentes tipos de organizações políticas e seus
vínculos com o nosso desenvolvimento enquanto sociedade.

A polêmica abordada na reportagem contrapõe a argumentação da maioria dos juízes, que


defende que o auxílio-moradia resolveria o atraso no reajuste salarial da categoria, à ideia de que
o benefício não seria devido aos profissionais que possuem imóveis nas localidades de trabalho.
O primeiro ponto de vista está atrelado à lógica consequencialista, pois justifica o recebimento
do benefício pelos efeitos práticos desse pagamento, envolvendo considerações pragmáticas,
como a recomposição do salário, que, a princípio, não estão diretamente relacionadas com a
finalidade do benefício (ter ou não um imóvel).
A segunda perspectiva, por outro lado, condiciona o direito ao benefício à condição de não ser
proprietário de imóveis na localidade de trabalho, independentemente da ocorrência de reajustes
salariais. Isso estabelece uma categorização principiológica amplamente válida para o
surgimento desse direito, caracterizando-se, portanto, como um raciocínio deontológico. Esse
raciocínio identifica na própria ação de receber o benefício a correção ou incorreção dessa
conduta, sem considerar suas consequências pragmáticas.
Além disso, categorizar um comportamento específico como ético ou antiético pressupõe um
exercício filosófico e racional mais profundo, com o intuito de evitar confusões entre os
conceitos de moral e ética.
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Figura 1 | Síntese dos conteúdos abordados durante os estudos

ALT, F.; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
ARENDT, H. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
ARISTÓTELES. Os pensadores: Aristóteles. São Paulo: abril, 1978.
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira­-
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cidade-brasileira-a-proibir-canudos-plasticos/. Acesso em: 27 nov. 2018.


BAUDRILLARD, J. La société de consommation. Saint-Amand: Folio, 2008.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: contendo o velho e o novo testamento. Salt Lake City: A Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2015.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2019.
BRECHT, B. Intertexto. [s.d.]. Disponível em: https://www2.unicentro.br/pet-
letras/2017/03/29/intertexto-bertold-brecht-1898-1956/?
doing_wp_cron=1546881086.5735909938812255859375. Acesso em: 17 jan. 2019.
CHAUI, M. Convite à filosofia. 13. ed. São Paulo: Ática, 2000.
CHAUÍ, M. Convite à filosofia. 14. ed. São Paulo: Ática, 2010.
COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das
Letras, 2016.
CONTI, Hugo Martarello de. ALVES, Patrícia Villen Meirelles. Sociedade Brasileira e Cidadania.
Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2019.
DALLARI, D. A. Elementos de teoria geral do Estado. São Paulo: Saraiva, 1982.
FRANCISCO, Papa. A alegria do evangelho. São Paulo: Loyola, 2013.
HAYEK, F. A. O caminho da servidão. São Paulo: Globo, 1977.
HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
HUNT, E. K. História do pensamento econômico. Rio de Janeiro: Elsevier, 1981.
MAGNOLI, D. Essa coisa de sociedade não existe. O Globo, [S.l.], 11 abr. 2013. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/opiniao/essa-coisa-de-sociedade-nao-existe-8080595. Acesso em: 21
dez. 2018.
O CONSUMISMO e seus impactos ambientais. Portal Educação, [s.d.]. Disponível em:
https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/biologia/o-consumismo-eseusimpactos-
am­bientais/48472. Acesso em: 17 jan. 2019.
O QUE SIGNIFICA... Portal Educação, [s.d.]. Disponível em:
https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/medicina/o-que-significa-bioetica/50873.
Acesso: 17 jan. 2019.
PLATÃO. Os pensadores: Platão. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
SEN, A. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SEN, A. A ideia de justiça. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
SINGER, P. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.
SKODOWSKI, T. Presidente do TJ-SP considera ético recebimento de auxílio-moradia. R7 Notícias,
[S.l.], 5 fev. 2018. Disponível em: https://noticias.r7.com/brasil/presidente-do-tj-sp­-considera-
etico-recebimento-de-auxílio-moradia-05022018. Acesso em: 17 dez. 2018.
TILLY, C. Democracia. Petrópolis: Vozes, 2013.
WALLIN, C. A modesta vida dos juízes do Supremo da Suécia, sem auxílio-moradia nem carro
com motorista. BBC NEWS, 2 dez. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas­-
noticias/bbc/2018/12/02/a-modesta-vida-dos-juizes-do-supremo-da-suecia-sem-auxilio-mo­radia-
nem-carro-com-motorista.htm. Acesso em: 14 dez. 2018.
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WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
WEFFORT, F. C. (Org.). Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 2006. v. 1.
,

Unidade 2
Cidadania e Direitos humanos

Aula 1
Cidadania e Participação Política

Cidadania e participação política

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Ponto de Partida
Olá, estudante! Esta aula dedica-se ao tratamento de uma questão de fundamental importância
para a vida em sociedade: a cidadania e a participação política. Como você responderia à
pergunta: Qual é o estado da cidadania no seu país e no mundo hoje? Será que caminhamos para
uma verdadeira evolução da forma e do conteúdo da cidadania?

Para estabelecermos um termômetro relativo ao sentir-se e ao agir como cidadão, bastaria


iniciarmos com algumas perguntas essenciais: a forma como você ouve falar dos problemas e
projetos de seu bairro, cidade, país, mundo, encorajam-no a buscar uma participação ativa e
tomar as melhores decisões para atender aos interesses da comunidade? Ou, ao contrário,
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afastam-no e desestimulam-no do esforço de entender e participar dessas decisões que afetam


a sua vida e a de todos que estão ao seu redor?

Por que será que essa esfera de atuação política consciente dos reais problemas de uma
sociedade parece ficar cada vez mais distante e vazia de sentido? Será que as dinâmicas do alto
poder têm hoje interesse que você se sinta como um cidadão da sua cidade, do seu país e,
simultaneamente, do mundo? De que forma esses problemas atingem sociedades que
desrespeitam os direitos humanos?

Esta aula lhe fornecerá instrumentos para entender como a noção de “cidadão” variou muito ao
longo do tempo: veremos que a história do exercício da cidadania tem sido marcada por tensões,
progressos e regressos. Temos o simples, porém, nobre objetivo de apresentar elementos para
sua formação profissional, e esperamos que você consiga se apropriar de reflexões proveitosas e
as utilize com sabedoria.

Vamos Começar!

Cidadania
Vamos nos dedicar, neste momento, a pensar a noção de cidadania. Essa noção é antiga e
relaciona-se a um campo de discussão muito amplo, sendo objeto de estudo de diferentes áreas
do conhecimento. Trata-se de um tema bastante vivo no presente, que gera um enorme interesse,
curiosidade e até mesmo fervorosas polêmicas, justamente pela sua importância para a
compreensão de diferentes aspectos da vida em comunidade (Conti; Alves, 2019). A cidadania,
na verdade, exerce um fascínio para todos que se defrontam com o seu sentido político,
colocando-nos a essencial e difícil questão: o que significa ser parte intrínseca e indissociável de
uma coletividade?

Propomos um percurso didático que lhe permitirá entender especialmente o sentido político da
noção de cidadania diante da emergência dos estados-nação na Europa moderna, assim como a
leitura que se produziu do importante modelo de cidadania que existiu na Antiguidade, na Grécia.

Um dos historiadores mais renomados que estuda a civilização grega, Moyses Finley, em seu
livro Democracia: antiga e moderna (1988), fornece elementos contextualizados historicamente
para entendermos a origem do cidadão. O especialista nos transporta, em primeiro lugar, para o
espaço privilegiado do exercício da cidadania: a pólis grega (ou seja, a cidade grega). Tornou-se,
por isso, bastante conhecida a expressão “cidadão é aquele que participa do governo da cidade”.
Em especial, Atenas foi o lugar onde a política foi repensada e redefinida na prática. Nesse
contexto, a forma e o conteúdo da cidadania se colocaram como inseparáveis da noção de
democracia direta, na qual aboliu-se a hierarquia no exercício do poder para dar espaço à
igualdade dos cidadãos no plano político, o que permitia a real participação popular nas decisões
a respeito da vida na pólis.
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Em Atenas, nasce o primeiro significado de democracia: o governo do povo. E o povo, longe de


ser entendido como uma massa tomada por paixões – ou, ao contrário, excessivamente apática
e inábil –, era considerado um corpo de cidadãos capaz de compreender os problemas da
realidade da pólis e de tomar as melhores decisões para atender aos interesses da comunidade.
Por esse motivo, o povo tinha o direito de ter voz nas assembleias, ou seja, o direito de opinar
acerca do funcionamento da pólis no presente e em qualquer projeto para o seu futuro. Veja,
portanto, que não se valorizava um conhecimento técnico sobre a vida na cidade. Afastava-se
uma definição elitista de poder, para afirmar o sentido ativo de compreensão do funcionamento
da pólis e de seus problemas (ou seja, os próprios moradores daquela pólis seriam as pessoas
mais indicadas para tomar decisões).

O cidadão é pensado, portanto, como um ser indissociável da cidade, o que acompanha o direito
de opinar sobre o seu destino. Quando o cidadão ateniense participava das assembleias, não
distinguia os seus interesses pessoais dos interesses da pólis. A possibilidade da iniciativa
popular torna a política algo natural da pólis e mostra com clareza a função saudável do debate
político, em que tomam conteúdo o exercício da liberdade individual de expressão e a ação no
espaço público. No exercício da cidadania se manifestam elementos de maior relevância, como a
soberania popular e a justiça que emana do povo (Conti; Alves, 2019).

Não podemos deixar de fazer uma crítica à exclusão que se fazia, nesse mesmo contexto, das
mulheres, dos escravos, dos “estrangeiros” e de outros grupos sociais, do exercício desse direito.
O que importa perceber, pelo momento, é que o sentido de uma cidadania ativa se colocava
como o principal elemento da vida coletiva na pólis. Esse sentido fez a civilização ateniense ser
considerada, já naquela época, um modelo, por iluminar questões tão essenciais da vida em
sociedade, que continuam a ser estudadas depois de séculos, até nos dias atuais. Vale destacar,
no entanto, que o modelo ateniense não se tornou hegemônico na Antiguidade.

Muitas mudanças na organização política das sociedades mediterrâneas e europeias ocorreram


após esse contexto ateniense. Durante a Idade Média, a Europa Ocidental foi marcada por uma
organização política baseada nas relações feudais e monarquias, que limitavam bastante essa
concepção de cidadão. Além disso, a Igreja Católica detinha grande poder de organização
política nas sociedades da cristandade europeia e o cristianismo também serviu de base
filosófica para que, na modernidade, fosse afirmado um sentido de cidadania completamente
diferente daquele ateniense, muito mais centrado, como veremos adiante, no indivíduo.

Siga em Frente...

Dimensões da ação cidadã


Na Idade Moderna, com a emergência dos estados-nação – organização do poder político que
abrange uma população mais numerosa e um território maior –, recupera-se, em alguma medida,
a noção de cidadania greco-romana, mas procurando estendê-la a um corpo mais volumoso de
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CIDADANIA

pessoas, de forma que o sentido da participação ativa na vida pública acaba sendo colocado em
segundo plano. A Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
ambas de 1789, são marcos importantes dessa redefinição.

Nesse novo contexto, ser cidadão invoca um regime republicano, que retira os privilégios de
participação política até então restritos à aristocracia, à monarquia absolutista e ao clero, para
afirmar seu sentido universal, colocando todos os nacionais de um Estado em posição de
igualdade quanto a direitos e a deveres. Ainda que o sentido primeiro da participação na vida
política não seja colocado em primeiro plano, o cidadão moderno tem inegavelmente o direito de
participar do governo de sua vida, de sua cidade e de seu Estado.

Lembremos que esse cidadão moderno, como na Grécia, emerge como um sujeito que também
tem deveres civis. Jean Jacques Rousseau (1717-1778) foi um pensador de enorme importância
para entendermos essa ligação do sentido moderno de cidadania com a coletividade. Para
Rousseau, a cidadania não é um presente, mas um dever de participação política na defesa do
“interesse geral” – que é universal a todos os cidadãos – acima dos interesses particulares e
individuais. Só assim uma república poderia garantir o bem-estar de seus cidadãos, ou seja, não
fecharia os olhos para a justiça social e para a construção de uma sociedade menos desigual.
Infelizmente, essa dimensão coletiva da cidadania, do dever cívico para com a coletividade, se
tornará uma voz dissonante em termos de valores e de modelo de atuação política na
modernidade (Conti; Alves, 2019).

O princípio do “interesse geral” não ditará os rumos da organização do poder político na


modernidade. O antropólogo francês Louis Dumont, em seu livro O individualismo: uma
perspectiva antropológica da ideologia moderna (1985), coloca em evidência como o indivíduo,
ao contrário do que dizia Rousseau, se afirmará como um sujeito de direitos e deveres que não
será mais visto, como na Grécia, como uma parte intrínseca e indissociável da coletividade: a
noção de indivíduo, que existe independentemente da comunidade, ganha força nesse período.
Além disso, na modernidade, continua existindo a problemática interdição da participação na
vida política de mulheres e de grupos sociais de baixa renda, além de grupos étnicos (no caso
das colônias europeias, sobretudo os indígenas e os negros) e dos estrangeiros (não nacionais).

A comparação do significado da cidadania na Grécia e na modernidade ilumina, na verdade, o


que diversos críticos têm apontado como o principal limite do desenvolvimento da cidadania. No
estado-nação, caminha-se muito mais em direção a um modelo de organização política da
sociedade que valoriza a extensão do direito de voto a um número maior de pessoas. O que está
em jogo é a representatividade desse número extenso de cidadãos por partidos, não a esfera da
ação política e da participação consciente. Esses elementos problemáticos, além de outros que
podem ser discutidos, mostram como não é possível afirmar que a passagem do tempo significa
necessariamente uma evolução da forma e do conteúdo da cidadania, bem como de seu
exercício.

No século XX, por exemplo, há tensões que apontam para diferentes direções a fim de
pensarmos a cidadania. Por um lado, houve lutas importantes empreendidas por grupos sociais
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– mulheres, operários, negros, indígenas – para a conquista do direito ao voto, que resultaram em
progressos importantíssimos, como o reconhecimento do voto feminino na maioria dos países; o
fim do voto censitário (vinculado a um patamar de renda); o reconhecimento dos direitos civis
dos negros nos Estados Unidos; o fim do regime de apartheid na África do Sul e em outros
territórios ainda submetidos ao regime de colonização, que excluíam os nativos do direito à
cidadania; o reconhecimento da diversidade e do direito à cidadania dos povos indígenas nas
Américas do Sul e do Norte (Conti; Alves, 2019).

Por outro lado, talvez o século XX seja o exemplo mais explícito de grandes retrocessos para
pensarmos a cidadania. Os regimes totalitários, como o fascismo na Itália, o nazismo na
Alemanha, e o stalinismo na URSS, tinham como característica principal a negação dos direitos
políticos da população em favor de um regime autoritário com poderes ilimitados para tomar
todas as decisões do governo de um Estado. O direito de participação política era considerado
uma ameaça a ser combatida com a força das armas. Na América Latina, o século XX também
foi marcado por ditaduras que se baseavam nesse mesmo princípio e se disseminaram como
modelo de exercício do poder político em quase todo o continente.

A Constituição de 1988 e os impasses da desigualdade no Brasil


do século XXI
Se consideramos o contexto brasileiro, percebemos que a participação no poder político foi
historicamente restrita a poucas pessoas. Na América portuguesa, sob a lógica do absolutismo
monárquico, a maioria da população – composta de negros considerados escravos, indígenas, e
outros grupos subalternos – era excluída do direito de participação política formal no Estado
Colonial. Com a independência e o período imperial, a renda funcionava como critério central de
exclusão do exercício de cidadania. Mesmo quando o regime republicano foi instaurado (1889), o
pertencimento ao sexo masculino, o nível de escolaridade e as relações de trabalho seguiam
excluindo a maior parte da população. Por esse motivo, há uma discussão bastante importante a
respeito do caráter oligárquico (restrito a um pequeno grupo de pessoas) do funcionamento da
República no Brasil. Ainda que o direito formal de voto tenha se alargado para toda população
por meio de reivindicação desses grupos, outros mecanismos de coerção da livre escolha de
representantes foram historicamente praticados, como o voto de cabresto. No que se refere à
substância da cidadania – direitos políticos básicos, acesso à renda/trabalho dignos, educação e
saúde de qualidade, moradia, entre outros – a referida condição de “estrangeiridade” da maioria
da população brasileira continua sendo um problema atualmente.

A ruptura radical em relação ao poder de exercício da cidadania ocorreu durante o regime


ditatorial (1964-1985), que representa uma página da história do Brasil a qual expressa o total
desrespeito aos sentidos da cidadania discutidos até este momento, sejam aqueles da
Antiguidade, sejam aqueles das democracias liberais da modernidade.

Foi ao findar o último regime de exceção que se produziu a Constituição Federal de 1988 (Brasil,
1988): o mais importante marco histórico de reafirmação da cidadania e de reinstituição de um
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regime democrático, que possibilita a participação política dos cidadãos. A soberania popular foi
reafirmada em seus artigos, que tratam das questões mais essenciais da organização da
sociedade brasileira e estão acima de qualquer outra legislação do país, pois contêm os
princípios de um Estado baseado em direitos que podem ser reivindicados por qualquer cidadão
do país. Esse pacto federativo emerge em um momento histórico no qual o sentido de
participação da cidadania representava uma das principais bandeiras de luta da sociedade
brasileira e de seus diferentes movimentos sociais. Nesse momento, os cidadãos brasileiros e
não nacionais residentes no país denunciavam com toda força os prejuízos causados à
sociedade por um regime que nega (ou limita) a possibilidade de a população agir politicamente.
Simultaneamente, afirmava-se um projeto de sociedade que, além de garantir o direito civil de
representatividade nas decisões políticas, também referendava uma cidadania social na qual os
direitos básicos – como a saúde, a educação, o trabalho digno, a moradia e o meio ambiente –
ampliam o significado da noção de cidadania. O acesso universal a esses direitos básicos para
garantir a cidadania está previsto na nossa Constituição como um dever do Estado e da
sociedade brasileira (Conti; Alves, 2019).

Sem dúvida, a Constituição de 1988 é a maior expressão de um pacto de civilização que devolveu
ao Brasil a possibilidade de caminhar em direção ao respeito da cidadania. O que não significa
que todos os seus artigos sejam perfeitamente aplicados na realidade da sociedade brasileira.
De fato, são inúmeros os impasses substanciais da cidadania existentes na realidade do
funcionamento da sociedade brasileira com suas antigas e novas faces das desigualdades, que
acompanham a exclusão da cidadania. Basta pensarmos, por exemplo, no retrato das grandes
metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza – ou qualquer outra
grande cidade do país – onde uma parcela significativa da população é excluída desses direitos.

Vamos Exercitar?
Você já reparou como as calçadas das nossas cidades estão cada vez mais povoadas por
pessoas que vivem em situação de rua? Esse cenário nos provoca a pensar os limites da
cidadania, determinados sobretudo pelos imperativos econômicos que modelam o
funcionamento das sociedades e fazem da renda um requisito de acesso à cidadania (Conti;
Alves, 2019).

Essa constatação não exclui a importância de entendermos que a Constituição é um instrumento


para que a cidadania também possa ser efetiva a essas pessoas. Por um lado, os direitos sociais
nela contemplados colocam como um dever do Estado democratizar o acesso aos direitos
fundamentais, ou seja, criar instituições que possibilitem a oportunidade de um trabalho digno,
educação, saúde e moradia, dentre outros direitos. Por outro lado, a Constituição resguarda o
regime democrático e situa essas pessoas – a despeito de viverem em situação de rua – como
sujeitos de direito que, portanto, podem reivindicá-lo. Qual seria, então, a melhor forma de ter os
direitos da Constituição respeitados? Será que a abolição dessa Constituição seria o melhor
caminho? A resposta a essa pergunta é muito simples: não se conquista direitos abolindo
direitos! O exercício da participação ativa, da reivindicação desses direitos e da luta para que
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sejam efetivados é o único caminho para que a cidadania no Brasil deixe de ser apenas um
direito formal e torne-se realidade.

Precisamos compreender para além da nacionalidade; notamos, portanto, que a passagem do


súdito ao cidadão se torna ainda mais complexa ao entendermos as dimensões da cidadania. Os
desafios do pleno exercício da cidadania são certamente muitos, mas não há dúvida de que a
potencialidade dessa articulação é a única forma de enfrentarmos as barreiras à cidadania que
se colocam cada vez mais em nossos dias.

Saiba mais

A filosofia antiga e a democracia


Na filosofia antiga, a cidadania formal, referente à condição legal do cidadão, não é colocada em
primeiro plano. A cidadania é situada no campo da política, invocando a participação ativa e em
condição de igualdade de todos os cidadãos na vida democrá­tica. Essa impostação é retomada
pela filosofia contempo­rânea ao estabelecer a relação da cidadania com as teorias da
democracia, lembrando-nos de que aqueles que vivem sob uma ditadura são definidos súditos,
não cidadãos (Enciclopedia di Filosofia, 2008, p. 173).

Aprofundar conhecimentos
A obra organizada por Jaime e Carla Pinsky, História da cidadania (2010), disponível em sua
biblioteca virtual, fornece um importante panorama da cidadania desde a Antiguidade.

O capítulo “Cidadania ambiental: natureza e sociedade como espaço de cidadania” (p. 545–562),
de Maurício Waldman, apresenta bases mais concretas para se refletir a respeito de uma nova
concepção de cidadania em debate atualmente, que considera mais enfaticamente as relações
entre as sociedades e o meio ambiente.

PINSKY, J.; PINSKY, C. História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2010.

Exemplificando
José Damião Trindade (1998) coloca em evidência os artigos basilares da Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Note que o povo, diferentemente do sentido que
assumia na democracia em Atenas (demos = povo, cracia = poder), não é considerado soberano,
ou seja, quem exerce o poder:

“Os homens nascem e são livres e iguais em direitos” (art. 1º) e “a finalidade de toda associação
política é a conservação dos direitos naturais e imprescindíveis do homem” (art. 2º). Quais são
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esses direitos? São quatro: “a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”


(art. 2º). A soberania foi atribuída, no artigo 3º, à “Nação” (fórmula unificadora) e não ao povo
(expressão rejeitada, pelo que podia conter de reconheci­mento das diferenças sociais). A
liberdade (art. 4º: “poder fazer tudo aquilo que não prejudique a outrem”) só pode ser limitada
pela lei, que deve proibir as “ações prejudiciais à sociedade” (art. 5º). A lei “deve ser a mesma
para todos” (art. 5º) (Trindade, 1998, p. 58).

Referências
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 27 out. 2023.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

DUMONT, L. O Individualismo: uma perspectiva antropológica da ideologia moderna. Tradução:


Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Rocco, 1985.

ENCICLOPEDIA GARZANTI DI FILOSOFIA. Milano: Garzanti, 2008.

FINLEY, M. Democracia: antiga e moderna. Tradução: Waldea Barcellos e Sandra Bedran. Rio de
Janeiro: Graal, 1988.

PINSKY, J.; PINSKY, C. História da cidadania. São Paulo: Contexto, 2010.

TRINDADE, J. D. L. Anotações sobre a história social dos direitos humanos. In: PROCURADORIA
GERAL DO ESTADO. Grupo de Trabalho de Direitos Humanos. Direitos humanos: construção da
liberdade e da igualdade. São Paulo: Centro de Estudos do Estado, 1998.

Aula 2
Direitos Humanos: Por que e Para quem?

Direitos humanos: por que e para quem?

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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você nesta aula que vai tratar de um importante dilema
da sociedade moderna: a afirmação dos direitos humanos. Como veremos, um dos fenômenos
bastante ativos na contemporaneidade envolvendo os dois lados desse dilema (direitos humanos
e lógicas de punição) diz respeito aos deslocamentos forçados de população (Conti; Alves,
2019).

Diferentes formas de desrespeito aos direitos humanos se traduzem na impossibilidade de vida


no próprio local ou país de origem, provocando tais deslocamentos. Todavia, a tendência dos
Estados tem sido tratar essas pessoas como potenciais criminosos, para governar esses fluxos
de pessoas com variadas técnicas de vigilância e controle nas fronteiras e dentro dos próprios
países.

No Brasil, como veremos, grupos internos, como a população negra e periférica, são as maiores
vítimas dessa lógica. No entanto, o país não está separado do contexto internacional de aumento
das migrações e tende a receber cada vez mais deslocados forçados e refugiados de outros
países. Sobretudo, é importante lembrarmos que o Brasil também já foi, durante a ditadura,
produtor de refugiados. Esta aula nos ajudará a entender os fatores de desrespeito aos direitos
humanos nesse período obscuro da nossa história e da de outros países da América Latina.

Naquele momento, os brasileiros foram reconhecidos como refugiados, portanto, tiveram seus
direitos humanos respeitados em diversos países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália,
Espanha, Portugal e outros. Hoje, segundo dados do Comitê Nacional Para Refugiados (Conare,
2018), nós recebemos solicitantes de refúgio de mais de 80 países, em particular haitianos,
senegaleses, venezuelanos, sírios e angolanos. Você avalia que o Brasil caminha para o
reconhecimento do direito de refúgio e também dos direitos humanos dessas pessoas ou, ao
contrário, acredita que o país tende a assumir políticas que associam ideologicamente a
imigração ao crime – o que se chama atualmente de “crimigrar” (Moraes, 2016)?

Iniciaremos com o tratamento dos direitos humanos na Modernidade e seu desenvolvimento no


berço do Iluminismo. Além de indicarmos a legislação de referência desses direitos,
ofereceremos elementos para a compreensão de como o Iluminismo foi fundamental para a
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afirmação de princípios-base de enorme importância e validade para os tempos atuais. Em


seguida, abordaremos os crimes contra a humanidade e seus casos emblemáticos para
entendermos questões vivas até hoje, que colocam desafios para as sociedades, até mesmo a
brasileira (Conti; Alves, 2019).

Vamos Começar!

Iluminismo e jusnaturalismo
Nesta aula, vamos começar trabalhando com a noção moderna de direitos humanos. Deixaremos
de discutir como esse direito era concebido nos séculos precedentes – a partir da perspectiva
religiosa e filosófica –, para nos concentrarmos em um período de enorme riqueza da sociedade
ocidental, denominado Iluminismo. Trata-se de um movimento cultural que nasce na Europa do
século XVIII, no bojo do processo de transição da sociedade feudal à capitalista. O Iluminismo
representa um marco histórico de mudanças significativas na forma de conceber o mundo, com
reflexos nas mais diversas áreas do pensamento: filosofia, literatura, artes, física, matemática,
direito. Esse período é chamado de “século das luzes” por defender como valor central o
conhecimento, a razão e o progresso da ciência e da cultura (Conti; Alves, 2019).

A imagem da luz era colocada como o antídoto ao que se considerava um atraso e, sobretudo,
um entrave ao desenvolvimento dos sujeitos e das sociedades: a ignorância, a superstição, o
fanatismo religioso, a intolerância e os abusos da Igreja e do Estado. A razão passa a ser
entendida como necessária, portanto, para iluminar uma nova visão de mundo, fundada em
valores como tolerância religiosa, liberdade de pensamento, liberdade política, liberdade religiosa,
direito de resistência à tirania, separação do Estado e da religião (laicidade), educação universal.
Muitos desses valores, que foram afirmados por diversos pensadores, exerceram um papel
importante para efetivar mudanças no plano jurídico, político e econômico-social daquela época
e permanecem sendo fundamentais para pensarmos as sociedades até hoje.

Acreditar na razão e na sua capacidade libertadora também acompanhava um ideal de sociedade


que tinha que se aperfeiçoar, progredir, caminhando em direção às luzes propiciadas pelo
conhecimento científico, baseado na observação e na demonstração empírica, e não em
dogmas. Esse ideal iluminista será depois muito discutido e criticado, sobretudo por teorias –
por exemplo, Adorno e Horkheimer (1986); Foucault (1994) – que polemizam em relação ao fato
de que a racionalidade moderna, a técnica e a ciência impliquem automaticamente a
emancipação humana.

A noção de direitos humanos na modernidade é gerada nesse rico berço cultural do Iluminismo e
não deixa de refletir uma forma de crítica à sociedade, com um papel também transformador,
que, naquela época, foi encabeçado pela nascente classe burguesa. O liberalismo guiava os
princípios econômicos, e o jusnaturalismo – origem do latim ius naturale, direito natural – o
Direito, com base na doutrina que considera todos os indivíduos portadores de direitos inatos
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naturais. É importante perceber que a doutrina jusnaturalista, que tem diferentes vertentes
teóricas, mesmo na Antiguidade e na Idade Média, é reafirmada e desenvolvida no período
iluminista a partir de uma base racional (não religiosa). A igualdade e a liberdade formais são
norteadoras dessa concepção jusnaturalista moderna (Conti; Alves, 2019).

Há quatro ensinamentos iluministas fundamentais para a reflexão a respeito dos direitos


humanos:

A autonomia do indivíduo, que é considerado um ser capaz de tomar decisões


autonomamente, de ter liberdade para pensar, questionar, criticar; daí vem o
reconhecimento do direito natural, que o considera sujeito de direitos.
O humanismo: o ser humano é colocado no centro para pensarmos a finalidade dos nossos
atos e qualquer outro aspecto da vida social, considerando, portanto, a vida humana
também um direito inviolável.
O universalismo: o pertencimento ao gênero humano é considerado mais importante do
que o pertencimento a um grupo em particular, ou seja, a ideia de que todos os seres
humanos são portadores de direito.
O respeito à diversidade: pensar universalmente, em defesa da humanidade, significa
reconhecer as diferenças, sejam elas religiosas, de pensamento ou políticas.

Se lermos os textos de filósofos iluministas como Jean Jacques Rousseau (1712–1778) e


Immanuel Kant (1724–1804) e, em seguida, os artigos da Carta de Direitos Americana (Bill of
Rights, 1789–1791) e a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789), compreendemos
que esses marcos jurídicos fundadores dos direitos humanos na modernidade estão
profundamente enraizados nos ideais iluministas. É exatamente por esse motivo que esses
textos e essas legislações não envelheceram! E mais do que nunca é nossa tarefa, hoje,
recuperá-los para poder retomar ideais que podem ter um papel transformador, em particular
para combater os obscurantismos presentes na contemporaneidade.

Siga em Frente...

Crimes contra a humanidade


A evolução dos direitos humanos até os séculos XX e XXI não deixou de se espelhar nesses
ideais. A Declaração Universal dos Direitos do Homem (Organização das Nações Unidas, 1948),
outro marco jurídico importante dos direitos humanos, é o maior exemplo de como esses ideais
não envelheceram e continuaram sendo de enorme importância para poder dar uma nova direção
para uma sociedade que, naquela época, estava saindo de duas grandes guerras mundiais. Essas
guerras são exemplos muito fortes de catástrofes humanas. Por esse motivo, nesse momento,
as sociedades europeias se colocaram a difícil, mas necessária, tarefa de lidar com os crimes
contra a humanidade que não poderiam se repetir, como aqueles perpetrados pelo nazismo.
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Foi justamente nesse imediato pós-guerra, em 1945, que houve a operacionalização da punição
do crime contra a humanidade, a partir de princípios do direito internacional. O Tribunal de
Nuremberg foi uma iniciativa que transformou os ideais de defesa dos direitos humanos em uma
prática judicial, com o importante papel de também produzir memória para evitar que momentos
tenebrosos da história – que viraram as costas para os direitos humanos – se repitam. Os
principais representantes do regime nazista foram julgados nesse Tribunal pelos crimes de
guerra, sobretudo pelo extermínio de mais de seis milhões de judeus, além de opositores ao
regime, homossexuais e ciganos, dentre outros grupos sociais. Colocava-se, nessa ocasião, o
dever de reconhecer e punir as atrocidades que causam grande sofrimento e atingem a
integridade física e/ou mental de indivíduos ou grupos sociais (Conti; Alves, 2019).

Nessa ocasião foi afirmado um princípio de justiça global, que colocava a primazia do direito
internacional em relação ao nacional como instrumento de defesa dos direitos humanos para
coibir práticas consideradas intoleráveis porque atentam à humanidade. Na atualidade, a Corte
Penal Internacional ([s. d.]) é o principal órgão responsável por punir crimes contra a humanidade
e por denunciar práticas hediondas. É variado o quadro de violação de direitos humanos de
indivíduos ou grupos sociais por motivo político, econômico, religioso ou racial, compreendendo
assassinato, escravidão, deportação, tortura, prisão abusiva, abuso sexual, perseguição em
massa, desaparecimento de pessoas, apartheid, genocídio, crime de guerra, prostituição forçada
e esterilização forçada, dentre outros crimes.

Essa forma violenta de tratar grupos sociais específicos da nossa população, antes os
“selvagens” e hoje os mais pobres e os negros, não pertence apenas ao passado. Por exemplo,
atualmente a mídia tem um papel muito importante em difundir a ideia de que “bandido tem que
morrer”. Em nenhum momento se esclarece, no entanto, quem é esse bandido, qual é a sua
história de vida, de qual sistema de violência (do Estado e da sociedade) ele também foi vítima,
que tratamento ele recebe na prisão. Da mesma forma, em nenhum momento se discute como
sociedades que já foram marcadas pela violência e caminham para resolver de forma
humanizada o problema da criminalidade atacam suas causas, ou seja, como lidam com as
desigualdades sociais, o acesso ao trabalho digno, à moradia e à educação, o respeito aos
direitos humanos, enfim, o direito à vida.

Violações no Brasil: escravidão e ditadura


Lamentavelmente nossa memória latino-americana é atravessada por crimes contra a
humanidade. Como não poderíamos citar o tráfico de escravos e a escravidão, que foram
perpetuados por séculos no Brasil para sustentar nossa economia agrário-exportadora? O
historiador Clóvis Moura (2014) mostra muito bem as barbáries perpetuadas contra os negros,
que eram justificadas pela ideia de que esses não eram “homens”, não pertenciam à
“humanidade”, portanto não podiam nem mesmo ser tratados como súditos, apenas como
animais. Segundo Abdias Nascimento (1978), o genocídio contra os negros é permanente e
ocorre de forma velada no Brasil. As estatísticas que tratam de jovens negros que são
assassinados e encarcerados no Brasil comprovam que esse autor continua tendo toda razão.
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A segunda metade do século XX é igualmente repleta de crimes contra a humanidade no nosso


continente. Os regimes ditatoriais que se disseminaram em vários países, como Argentina, Chile,
Uruguai e Brasil, são exemplos de crimes contra a humanidade, pela prática da tortura de
dissidentes políticos, assassinatos, estupros de mulheres, prisões em massa, desaparecimento
de corpos, perseguições. Essas práticas no Brasil produziram muitos mortos e desaparecidos,
porém, não receberam um julgamento que ateste e reconheça essas atrocidades até hoje (Conti;
Alves, 2019).

Sabemos que, nesse período, o Brasil também expulsou muitas pessoas que resistiam e lutavam
contra essas práticas, em defesa dos direitos humanos e da democracia, sobretudo da liberdade
de expressão, valor que, como já mencionado, havia sido reconhecido muitos séculos atrás. São
décadas nas quais o Brasil produziu muitos refugiados, jovens, estudantes, professores,
intelectuais, artistas, escritores e músicos. A liberdade, a imaginação, a criação, a crítica e a
participação cidadã na política não eram toleradas pelo regime.

Uma crítica muito pertinente ao nosso país refere-se à incapacidade, ou à falta de vontade
política, de trabalhar com essa longa história de desrespeito aos direitos humanos. Essa crítica
não vale apenas para o nosso passado remoto – da sociedade colonial, que não foi devidamente
discutido e ensinado criticamente para a população –, mas também vale para o nosso passado
recente do regime ditatorial.

A iniciativa da Comissão Nacional da Verdade, que foi referendada pela Lei nº 12.528 (Brasil,
2011), merece destaque como uma exceção a essa regra. A Comissão foi recentemente
implementada para agir nessa lacuna e representa uma conquista de pesquisadores,
professores, movimentos sociais e de pessoas – sobretudo de vítimas e/ou
familiares/conhecidos de mortos, perseguidos, torturados na ditadura – comprometidas com a
produção da memória por meio do exame e do esclarecimento das graves violações aos direitos
humanos cometidas no período da ditadura (1964–1988). Um relatório final foi produzido por
essa Comissão, no qual é possível analisar os limites e os desafios dessa iniciativa, sobretudo o
de comunicar os seus resultados para a população em geral e poder efetivar políticas públicas
para a conscientização dessa memória (Pereira, 2016).

Ao contrário, países como Uruguai, Chile e Argentina trabalharam de forma muito mais eficiente
com essa memória que trata da ditadura para explicar para a sua população o que significam os
crimes contra a humanidade cometidos durante esses regimes. Nesse último país, por exemplo,
há uma iniciativa que se sobressai nesse sentido. Você já ouviu falar das “Mães da Praça de
Maio”? São várias mulheres que tiveram seus filhos desaparecidos durante a ditadura argentina e
que marcham semanalmente em frente à Casa Rosada (sede do governo federal Argentino, em
Buenos Aires) com lenços brancos em suas cabeças, simbolizando as fraldas de seus bebês,
para protestar contra a ditadura e reivindicar a memória dessa atrocidade que matou seus filhos
e muitos outros jovens, a fim de que isso não se repita mais (Conti; Alves, 2019).

No Chile, a ditadura comandada pelo general Pinochet foi a mais mortífera da América do Sul. Na
capital, Santiago, há o Museu dos Direitos Humanos, onde é possível encontrar uma
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sistematização muito didática e acessível a toda a população com as práticas do terror durante
esse período e as memórias de suas vítimas. Lá podemos encontrar milhares de fotos, cartas a
parentes e desenhos de crianças, que nos ensinam muito a respeito do sofrimento humano e do
sacrifício de vidas acionado, sem escrúpulos, naquele período.

Atualmente há uma “nova” base social da imigração, principalmente proveniente de países do Sul
Global, que pertencem a culturas e têm línguas e histórias quase completamente desconhecidas
no Brasil, além de diferentes fés religiosas, como é caso dos haitianos, senegaleses, sírios e
palestinos, dentre outras nacionalidades. A cidade de São Paulo é um laboratório vivo das
organizações desse grupo social em defesa de seus direitos. A comunidade boliviana, por
exemplo, tem se destacado em diferentes iniciativas nesse sentido.

Por fim, é importante não nos esquecermos de que a questão da desigualdade e da diferença e
sua relação com a democracia está sendo transformada também pela presença, no Brasil e no
mundo, de imigrantes e refugiados de diversas nacionalidades. Essa imigração do século XXI nos
obriga a pensar na ampliação do sentido da cidadania.

Vamos Exercitar?

A situação-problema coloca a questão das diferenças, da concepção e da violação dos direitos


humanos: o Brasil já foi e ainda é um país receptor de refugiados. No passado, recebeu europeus
que fugiam das duas grandes guerras e, nas últimas décadas, recebe refugiados de diferentes
nacionalidades. O refugiado é protegido por tratados internacionais como a Convenção de
Genebra (1951), a Declaração de Cartagena (1984) e os princípios dos direitos humanos e, no
Brasil, pela Lei Nacional de Refúgio nº 9474 (Brasil, 1997) e pela Constituição Federal (Brasil,
1988).

Muitos estudos acadêmicos comprovam que o Brasil já foi um produtor de refugiados, expulsou
inúmeras pessoas que resistiam e lutavam contra o governo militar e em defesa dos direitos
humanos e da democracia, sobretudo da liberdade de expressão, valor reconhecido há muitos
séculos. Elas eram sobretudo jovens, estudantes, professores, intelectuais, artistas, escritores e
músicos. A liberdade, a imaginação, a criação, a crítica e a participação cidadã na política,
quando vistos pelo regime como “ameaças”, não eram tolerados. Apesar de o Brasil não oferecer,
como outros países o fizeram, instrumentos para que a população entenda mais concretamente
essa fotografia do horror na nossa história – e a necessidade de que ela não se repita –, há
muitos relatos, filmes, livros e músicas que nos ensinam essa questão.

Embora não possamos defender que as “luzes da razão” podem resolver todos os problemas da
humanidade, sobretudo da emancipação humana, é válido retomar os princípios que motivaram o
Iluminismo. Esses valores são fundamentais como parâmetro para pensarmos a vida coletiva, e
continuam válidos e atuais para evitarmos que nossas sociedades caminhem em direção ao
obscurantismo da razão. A negação desses valores e a interdição antidemocrática da
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participação cidadã são sinais de um retrocesso que remonta a séculos atrás (Conti; Alves,
2019).

O acolhimento dos “novos” refugiados passa pelo reconhecimento da sua condição humana e
também da necessidade de proteção dos valores democráticos na nossa sociedade para que
nosso país não se transforme, novamente, em um país produtor de refugiados em massa. Ou
seja, a defesa de um refugiado de ser acolhido está totalmente conectada com a defesa de que
os próprios brasileiros tenham seus direitos respeitados, não precisando fugir para outros países.

A nossa Constituição Federal (Brasil, 1988) é guardiã desses valores bem como os tratados
internacionais firmados. Há, portanto, legitimidade jurídica para o pleito de proteção para todos
os cidadãos brasileiros e não nacionais que tenham ameaçada a sua liberdade de expressão, de
fé religiosa, de posicionamento político e de escolha de identidade sexual, dentre outros casos.

Saiba mais

Aprofundar conhecimentos
Hanashiro (2001) oferece um histórico e um panorama completo do desenvolvimento do sistema
de proteção aos direitos humanos nas Américas, que encontrou sua condensação na Carta da
Organização dos Estados Americanos (OEA), na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do
Homem (ambas de 1951) e na Convenção Americana de Direitos (1978). Em 1969, esses direitos
passaram a ser operacionalizados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e, mais
tarde, em 1979, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.

HANASHIRO, O. S. M. P. O sistema interamericano de proteção aos direitos humanos. São Paulo:


Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2001. p. 35-25.

A cultura da impunidade e a ditadura


Na palestra indicada a seguir, entre os minutos 9 e 18 o historiador José Alves de Freitas Neto
expõe os efeitos da “não condenação das mazelas do regime militar” no período de transição
democrática. O historiador explica “a impunidade que se perpetua”, tanto em relação aos graves
crimes contra a humanidade cometidos nesse período – como a tortura, assassinatos em
massa, entre outros – quanto também os prejuízos aos cofres públicos. A “interdição de falar
das mazelas do regime ditatorial” e o “esquecimento e silenciamento” impostos estão
diretamente ligados à falsa ideia de que regimes militares e autoritários estão isentos de
corrupção.

FOI para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário Mazzilli.
Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).
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SOCIEDADE BRASILEIRA E
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Referências
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de
Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1986.

ASSEMBLEIA CONSTITUINTE DA FRANÇA. Declaração de direitos do Homem e do Cidadão.


Biblioteca Virtual de Direitos Humanos – USP. França, 1789. Disponível em:
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4247260/mod_resource/content/1/declaracao%20direit
os%20humanos.pdf. Acesso em: 27 out. 2023.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 27 out. 2023.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.474, de
22 de julho de 1997. Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de
1951, e determina outras providências. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9474.htm. Acesso em: 27 out. 2023.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 12.528,
de 18 de novembro de 2011. Cria a Comissão Nacional da Verdade no âmbito da Casa Civil da
Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-
2014/2011/Lei/L12528.htm. Acesso em: 27 out. 2023.

COMITÊ NACIONAL PARA OS REFUGIADOS (CONARE). Refúgio em números. 3. ed. Brasília: CNJ,
2018. Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-
em-numeros_1104.pdf. Acesso em: 27 out. 2023.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

CORTE PENAL INTERNACIONAL. Página inicial. Corte Penal Internacional, [s. d.]. Disponível em:
https://www.icc-cpi.int. Acesso em: 27 out. 2023.

FOI para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário Mazzilli.
Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).

FOUCAULT, M. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994.

HANASHIRO, O. S. M. P. O sistema interamericano de proteção aos direitos humanos. São Paulo:


Editora da Universidade de São Paulo/Fapesp, 2001. p. 35-25.
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SOCIEDADE BRASILEIRA E
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KANT, E. Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita. Traduzido por Artur
Morão. [S. l.]: Lusosofiapress, 1784. Disponível em:
http://www.lusosofia.net/textos/kant_ideia_de_uma_historia_universal.pdf. Acesso em: 27 out.
2023.

MORAES, A. L. Crimigração: a relação entre política migratória e política criminal. Tese


(Doutorado em Direito) – Faculdade de Direito, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do
Sul, 2016.

MOURA, C. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. São Paulo: Anita Garibaldi,
2014.

NASCIMENTO, A. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Rio de


Janeiro: Paz e Terra, 1978.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Assembleia Geral das Nações Unidas. Declaração
Universal dos Direitos Humanos. ONU, 1948. Disponível em:
https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acesso em: 27 out.
2023.

PEREIRA, B. F. Comissão nacional da verdade: limites e desafios. Dissertação (Mestrado) –


Centro de Educação e Ciências Humanas, Programa de Pós-Graduação em Ciências Políticas,
Universidade Federal de São Paulo, 2016.

Aula 3
O Reconhecimento das Diferenças e as Desigualdades

O reconhecimento das diferenças e as desigualdades

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SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Você já parou para pensar em quais são os grupos sociais do Brasil que mais
sofrem com as barreiras no acesso à cidadania, e quais são essas barreiras – visíveis, mas
também muitas vezes invisíveis – por eles enfrentadas para a atuação política, ou seja, para a
representação e a reinvindicação de seus direitos?

Desejamos boas-vindas a você em mais uma oportunidade de reflexão. Para discutirmos essas
questões no contexto nacional, tentaremos entender alguns problemas do funcionamento das
sociedades atualmente, em particular o aumento das desigualdades e sua relação intrínseca
com a culpabilização e a exclusão dos grupos sociais marginalizados denominados “diferença”
pelas ciências sociais. No mundo inteiro, mas no Brasil em particular, essa lógica tem crescido,
apesar de também existirem contratendências guiadas pela defesa dos direitos fundamentais e
dos direitos humanos e por políticas de inclusão e de reconhecimento das diferenças.

No Brasil, a análise das diferenças deve abranger as raízes históricas, que colocaram negros,
indígenas e outras populações marginalizadas na posição da “diferença” e de mais atingidos
pelas desigualdades. Como sabemos, essa questão social se reproduziu nos períodos históricos
posteriores.

Por que será que as mulheres pertencentes a esses grupos sociais são as mais atingidas pelos
fatores de discriminação, de desigualdade e de exclusão da participação política? Na sua
opinião, como seria o Brasil atualmente sem a luta por reconhecimento – no passado e no
presente – empreendida por esses grupos sociais? As desigualdades sociais estariam mais
equilibradas sem a reivindicação desses grupos? No que se refere à democracia, você acha que a
luta por reconhecimento interfere positiva ou negativamente na forma de funcionamento do
nosso regime democrático?

Nesta aula, tentaremos entender de que modo essas diferenças ainda atuam na
contemporaneidade, seja na forma de lógicas de exclusão e de incidência das desigualdades,
seja na forma de luta por reconhecimento, como força contrária à atuação dessas lógicas (Conti;
Alves, 2019). Esperamos que esta aula, ao discutir os direitos fundamentais em sua relação com
a democracia, a cidadania e o reconhecimento das diferenças, possa também iluminar esse
caminho.

Vamos Começar!

Igualdade universal e direito à diferença


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SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA

Iniciaremos nosso percurso didático pelo tratamento da relação entre democracia e direitos
fundamentais. Na contemporaneidade, essa relação está prevista no que se chamou de quarta
geração dos direitos fundamentais que, segundo o jurista Paulo Bonavides (2004), surgiu no final
do século XX, no bojo da globalização e das décadas neoliberais, após um “processo cumulativo
e qualitativo” de formação das primeiras gerações dos direitos fundamentais (Bonavides, 2004, p.
563). O autor nos oferece uma síntese acerca da história dos direitos fundamentais, lembrando-
nos do fator que os distingue: os direitos fundamentais são aqueles previstos na Constituição
(Brasil, 1988) – têm, portanto, garantia constitucional – e são essencialmente voltados a “criar e
manter os pressupostos elementares de uma vida na liberdade e na dignidade humana”
(Bonavides, 2004, p. 560).

Como esclarece Bonavides (2004), a primeira geração dos direitos fundamentais surgiu durante a
Revolução Francesa (1789) para afirmar os direitos individuais, sobretudo os direitos civis e
políticos. A segunda geração se manifestou particularmente nas Constituições do pós-Segunda
Guerra Mundial, inclusive na brasileira (de forma um pouco tardia), com o fim de exigir a
implementação pelo Estado de políticas concretas para se efetivar os direitos sociais, culturais,
econômicos e coletivos. Dessa segunda geração deriva o dever, do Estado e da sociedade, de
garantir o básico para se prover uma vida digna a todos os cidadãos, ou seja, o direito do acesso
universal à saúde, à educação, a trabalho e moradia dignos, dentre outros. Todavia, percebeu-se
também, no final do século XX, a importância da terceira geração dos direitos fundamentais, que
proclama garantias universais para o gênero humano, como a paz entre os povos, a preservação
do meio ambiente, a comunicação livre e não submetida a monopólios e, por fim, a proteção de
locais que, pela sua importância cultural e artística, são patrimônio comum da humanidade.

Mas estejamos atentos. Bonavides (2004) também nos faz um alerta de que esse desenho
geracional dos direitos fundamentais, previstos na nossa Constituição de 1988 (Brasil, 1988) e de
enorme importância para a nossa sociedade, não é suficiente para a efetivação desses direitos
na realidade. Essa discussão foi colocada particularmente na década de 1990, justamente o
período no qual os sintomas socioeconômicos maléficos das políticas de abertura dos países à
globalização e de redução dos gastos públicos – a partir do princípio neoliberal do Estado
mínimo – passam a se manifestar mais explicitamente em âmbito global, com particular
intensidade nas sociedades dos países mais pobres, que são chamados, atualmente, de Sul
Global.

Nesse contexto, percebeu-se que a não efetivação dos direitos fundamentais guarda uma
estreita relação com a forma de exercício de poder na maioria dos países, ou seja, em âmbito
global, que nega a efetiva participação da maioria dos cidadãos nas decisões políticas que lhes
afetam diretamente. Diversos mecanismos servem a essa situação, desde a negação do acesso
à renda, trabalho, educação, saúde, transporte e moradia, até as tecnologias utilizadas para
manipular a informação. É por esse motivo que nasce a quarta geração dos direitos
fundamentais, centrada na “ação de controle” do poder político ao clamar pela participação
consciente e corretamente informada, não apenas pelo mero exercício do direito de voto, mas
também pela presença nos diferentes espaços políticos nos quais são discutidas e decididas
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questões de interesse comum. O pluralismo de opiniões, de crenças, de culturas, de etnias e de


visões de mundo é um requisito para que esse espaço democrático possa existir.

Segundo Bonavides (2004), essa quarta geração reflete a necessidade da construção de uma
“globalização política” na qual os direitos fundamentais não estejam separados do modo de
funcionamento das democracias e sejam colocados como uma prioridade diante de todos os
outros fatores de funcionamento das sociedades, inclusive o econômico.

Dessa forma, o autor destaca o fato de que a relação dos direitos fundamentais com o exercício
da cidadania – pensada de forma articulada globalmente, para além da esfera nacional – e com
a democracia é umbilical. Sem um regime político que permita a participação cidadã
democrática, não é possível se falar em garantia dos direitos fundamentais. É por esse motivo
que a nossa Constituição de 1988 (Brasil, 1988) – a Carta Maior, que está acima de todas as
outras legislações do país –, além de estabelecer os direitos fundamentais, também resguarda a
democracia e a cidadania. A Constituição de 1988 se contrapõe frontalmente ao sistema político
das duas décadas anteriores à sua instituição – o regime militar – que interditou o exercício da
cidadania, ou seja, a participação no poder político pela população. Essa garantia da cidadania
pela Constituição é uma condição intrínseca dos direitos fundamentais e não podemos nos
esquecer disso.

Siga em Frente...

Barreiras da desigualdade e exclusão


Isso não nos exime, no entanto, de fazer uma crítica a mudanças reais que devem ocorrer nas
sociedades para que os direitos fundamentais, a democracia e a cidadania não se tornem apenas
palavras vazias. Sem dúvida alguma, quanto mais os direitos fundamentais são desrespeitados
e/ou ignorados, mais haverá uma assimetria no funcionamento do poder político. Essa
perspectiva é extremamente importante para a compreensão dos problemas vividos pelas
sociedades na contemporaneidade.

A questão da distribuição de renda está no coração dessa discussão. Nos últimos anos, os
dados do economista francês Thomas Piketty (2014) fizeram muito barulho por deixarem
evidente que a tendência à concentração de renda não é uma anomalia dos países do Sul Global.
Os Estados Unidos, centro do sistema econômico mundial, seguem criando desigualdades e
pobreza. Nesse país, a renda recebida pelos 10% mais ricos, nos anos 1970, era cerca de 35% da
renda total. A partir de então só foi aumentando, e hoje estima-se que os 10% mais ricos
recebam 48% da renda total.

Trata-se, na verdade, de uma tendência global. O relatório do Comitê de Oxford de Combate à


Fome (OXFAM, 2018), divulgado no início de 2018, mostra que 1% das pessoas mais ricas do
mundo concentraram 82% da riqueza gerada em 2017.
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Esse estado de fato da divisão de renda no mundo torna muito atuais as análises de Charles
Wright Mills (1916-1962), que nos anos 1950 escreveu um clássico da sociologia, A elite do
poder (Mills, 1975), em que analisa a relação estreita entre economia e política para explicar a
mudança na estrutura de classes dos Estados Unidos e sua imbricação com a dominação de
uma elite econômica, política e militar nesse país. Essa análise foi atualizada por Robert Frank
(2007), ao analisar a evolução dessa estrutura social no século XXI, apontando para uma ainda
maior concentração de renda, de super-ricos que vivem com uma renda tão alta, muitas vezes
equivalente ao produto interno bruto de um país, ao passo que a maioria da população sofre a
pressão do empobrecimento, sobretudo após a eclosão da crise mundial em 2007/2008.

As ciências sociais problematizam, na verdade, como essas desigualdades de distribuição de


renda e riqueza têm cor (não brancos) e sexo (feminino), combinando-se também com outros
fatores, como escolaridade, qualificação, idade, nacionalidade, opção e identidade sexual. A
perspectiva da transubstancialidade (Crenshaw, 2002), que articula as dimensões de classe,
gênero e etnia a fim de olhar para essas desigualdades, tem sido muito útil para evidenciar essas
particularidades. Ou seja, os recortes de classe, gênero e etnia sozinhos são abstratos e pouco
nos falam de nossa realidade social, mas a literatura das ciências sociais se esforça
em transformá-los em objeto de estudo/análise de modo articulado com essas outras
dimensões (como escolaridade, qualificação, idade, nacionalidade, identidade de gênero,
orientação afetivo-sexual), para que assim evidenciem e revelem as particularidades de como a
desigualdade se apresenta concretamente na nossa realidade material.

Habermas e o reconhecimento intersubjetivo


No mesmo sentido vem a opinião do filósofo e sociólogo alemão Jürgen Habermas. A sua teoria
do reconhecimento levanta a questão de que uma democracia não garante por si só a justiça
social e o respeito pelas diferenças culturais. O debate que trata do reconhecimento está
presente de forma não marginal na vasta produção intelectual do filósofo.

Aqui, importa percebermos o que essa teoria ilumina, ou seja, que uma democracia efetiva não
negligencia o problema do que chama “minorias ‘inatas’”, tampouco aquele que surge “quando
uma cultura majoritária, no exercício do poder político, impinge às minorias a sua forma de vida,
negando assim aos cidadãos de origem cultural diversa uma efetiva igualdade de direitos”
(Habermas, 2004, p. 170). A igualdade formal de direitos, prevista no regime republicano com
base no princípio universalista, não exclui, segundo o autor, a necessidade do reconhecimento
das diferenças pelas políticas de inclusão.

Habermas situa os direitos fundamentais na esfera do “reconhecimento intersubjetivo”, ou seja,


como “direitos que os cidadãos devem reconhecer mutuamente” (Habermas, 2004, p. 237). O
autor ressalta a importância da ação de movimentos sociais – por exemplo, grupos feministas,
minorias de imigrantes e refugiados, povos originários de regiões que foram submetidas ao
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sistema de colonização, pessoas com deficiência, homossexuais – para que possa ocorrer uma
“articulação e afirmação de identidades coletivas” em prol da efetivação do Estado de direito por
uma “via democrática” (Habermas, 2004, p. 237 e 245).

O “reconhecimento intersubjetivo” confere, assim, legitimidade à “luta social contra a opressão de


grupos que se viram privados de chances iguais de vida no meio social”, assumindo que “as
injustas condições sociais de vida na sociedade capitalista devem ser compensadas com a
distribuição mais justa dos bens coletivos” (Habermas, 2004, p. 238).

Para finalizarmos, será interessante revisitar um texto do autor escrito nos anos 1990, no qual é
levantada a questão da imigração e do refúgio na Europa. Habermas (1997) advertiu que essa
questão ocuparia um lugar central nessas sociedades no futuro. Sua análise também se mostra
acertada ao advertir que o aumento da presença de imigrantes e refugiados acompanharia o que
ele chamou de “chauvinismo do bem-estar” (Conti; Alves, 2019).

Como Habermas (1997) explica, o respeito pela democracia e pelos direitos fundamentais na
atual configuração das sociedades só pode ocorrer no quadro de uma “sociedade mundial”
formada por “cidadãos do mundo”. Assim, nessa “sociedade mundial” as diferenças são
reconhecidas dentro de um quadro no qual “a cidadania em nível nacional e a cidadania em nível
mundial formam um continuum” (Habermas, 1997, p. 305).

Vamos Exercitar?
Retomemos a reflexão a respeito das formas de luta contra as desigualdades e contra o estigma
da “diferença” dos grupos sociais que, em geral, mais encontraram – e ainda encontram –
barreiras no Brasil para o reconhecimento e para o pleno exercício da cidadania.

Como sabemos, os indígenas, nossos povos originários, desde o período colonial foram
considerados a “diferença” em relação aos padrões de cultura, língua, poder político e modelo
econômico que foram impostos como hegemônicos pelo Estado Colonial. A imagem de que
esses povos são “selvagens”, “incivilizados”, “atrasados” e “ingênuos” para atuar politicamente na
representação de seus direitos – devendo, portanto, “assimilar” a cultura e os modos de vida
considerados “mais avançados” –, desde então serviu (e ainda serve) de arma ideológica para
negar seus direitos e excluí-los da participação política.

Mas a imagem de que os indígenas são “incapazes”, para, por exemplo, atuar na política, não
corresponde à realidade. Sabemos que esses povos são organizados politicamente para a
defesa de seus direitos e a preservação de suas terras e da biodiversidade nelas presente, muitas
vezes até de forma articulada internacionalmente. Os movimentos indígenas colocam em
discussão como a nossa identidade nacional não reconhece a sua diversidade e, por meio de
diferentes formas de luta concreta, tentam combater a injustiça social pela defesa do direito às
suas terras e à preservação de suas culturas.
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Da mesma forma, a “diferença” construída em relação às culturas e civilizações dos povos


africanos, que foram trazidos para o Brasil de maneira forçada para trabalhar nas plantações na
condição de escravos – não de cidadãos –, ainda tem um papel determinante na legitimação das
desigualdades das quais os negros são vítimas. A historiografia mostra como a luta para
combater a escravidão foi transversal à presença dos africanos no Brasil e assumiu diferentes
formas ao longo da história, inclusive por meio da religião e da conhecida capoeira. O Movimento
Negro continuou desempenhando, após a abolição (1888) e no século XX, um papel de enorme
relevância para lutar contra a atuação do racismo, das desigualdades e das injustiças.

Também não podemos deixar de pensar na luta dos trabalhadores para melhorar suas condições
de renda/salário e de trabalho, com importante papel para agir nas desigualdades sociais no
país. Os imigrantes europeus atuaram, também por meio dos sindicatos, para organizar e
empreender essas lutas no meio rural, mas sobretudo no urbano, na indústria. A Consolidação
das Leis Trabalhistas (CLT) foi aprovada em 1943 também como resposta a essas
manifestações. Sabemos que as lutas do trabalho hoje não são tão ativas como no passado, por
diversos motivos. Mas é importante perceber que o trabalho se depara na contemporaneidade
com diversas pressões e desafios, em particular devido a formas flexíveis de contratação,
informalidade, trabalho intermitente e desemprego que acompanham novas modalidades de
organização e de reivindicação de direitos. É evidente que essas lutas na esfera do trabalho
continuam tendo uma função importantíssima para agir nas desigualdades. Vale ressaltar que as
mulheres também têm um papel ativo em todas essas lutas, já que elas são as mais atingidas
pelos trabalhos mais precarizados e desvalorizados.

Também por esse motivo as suas lutas não são apenas legítimas, mas atuam como fatores
importantíssimos para a garantia do funcionamento do regime democrático no Brasil. O país
ainda tem muito o que avançar para a efetiva inclusão e o reconhecimento desses grupos sociais
(Conti; Alves, 2019).

Saiba mais

Aprofundar conhecimentos e exemplificar

O seguinte trecho, de autoria do jurista Bonavides, coloca em evidência a relação entre direitos
fundamentais da quarta geração e a atuação política em nível global para garantia da
democracia:

Globalizar direitos fundamentais equivale a universalizá-los no campo institucional. Só assim


aufere humanização e legitimi­dade um conceito que, doutro modo, qual vem acontecendo de
último, poderá aparelhar unicamente a servidão do porvir.

A globalização política na esfera da normatividade jurídica introduz os direitos da quarta geração,


que, aliás, correspondem à derradeira fase da institucionalização do Estado social. São direitos
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da quarta geração o direito à democracia, à informação e o direito ao pluralismo (Bonavides,


2004, p. 571).

Qualificar a democracia

O pronunciamento de Luiz Felipe de Alencastro no Supremo Tribunal Federal, em prol das


políticas de cotas, mostra que o funcionamento da democracia no Brasil passa pelo
reconhecimento desse direito fundamental para grupos mais atingidos pelas desigualdades:

[…] agindo em sentido inverso, a redução das discriminações que ainda pesam sobre os afro-
brasileiros, hoje majoritários no seio da população, consolidará a democracia. Portanto, não se
trata aqui de uma simples lógica indenizatória, destinada a quitar dívidas da história e a garantir
direitos usurpados de uma comunidade específica, como o caso em boa medida dos
memoráveis julgamentos dessa corte [Supremo Tribunal Federal] sobre a demarcação de terras
indígenas. No presente julgamento trata-se, sobretudo, de inscrever a discussão sobre a política
afirmativa no aperfeiçoamento da democracia (Alencastro, 2017, p. 112-113).

Definição

Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, chauvinismo quer dizer:

1 patriotismo fanático, agressivo 1.1 p. ext. entusiasmo excessivo pelo que é nacional, e
menosprezo sistemático pelo que é estrangeiro 1.2 p. ext. entusiasmo intransigente por uma
causa, atitude ou grupo”. A etimologia, origem dessa palavra, vem de “Chauvin, nome de um
soldado francês que exaltava ingenuamente as armas do primeiro Império, tipo popularizado e
ridicularizado por seu extremado patriotismo.

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2009. p. 450.

Diferenças e desigualdades

Por que defendemos a existência das diferenças entre os indivíduos e criticamos a permanência
das desigualdades em nossa sociedade? Afinal, deve haver diferenças entre homens e mulheres
em nossa sociedade? E desigualdades entre homens e mulheres? Assista à aula Conceitos de
igualdade, diferença e desigualdade (00:00 – 04:04), disponibilizada pela Univesp TV, e reflita
sobre tais questionamentos.
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Sociologia da Educação – Aula 6 – Conceitos de igualdade, diferença e desigualdade. Univesp,


2015.

Referências

ALENCASTRO, L. F. Conferência: políticas afirmativas, democracia e conhecimento do Brasil. In:


NETO, J. C. H; FERREIRA, A. N. Fórum inclusão e diversidade. Belo Horizonte: Instituto Casa da
Educação Física, 2017.

BONAVIDES, P. Curso de Direito Constitucional. São Paulo: Malheiros, 2004.

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 27 out. 2023.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

CRENSHAW, K. Documento para o encontro de especialistas em aspectos da discriminação racial


relativos ao gênero. Estudos Feministas, v. 1, n. 10, p. 171-188, 2002.

FRANK, R. A journey through the American Wealth Boom and lives of new rich. New York: River
Press, 2007.

HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Tradução de George Sperber, Paulo
Astor Soethe e Milton Camargo Mota. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2009. p. 450.

MILLS, C. A elite do poder. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.

PIKETTY, T. O capital no século XXI. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

OXFAM. Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural. [S. l.]: Oxfam
Brasil, nov. 2016. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/terrenos-da-desigualdade-
terra-agricultura-e-desigualdade-no-brasil-rural/. Acesso em: 27 out. 2023.

OXFAM. A distância que nos une: relatório anual da Oxfam – Brasil. [S. l.]: Oxfam Brasil, 2017.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/a-distancia-
que-nos-une/. Acesso em: 27 out. 2023.
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OXFAM. Recompensem o trabalho, não a riqueza. [S. l.]: Oxfam Internacional, jan. 2018.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/recompensem-o-trabalho-nao-a-riqueza/.
Acesso em: 27 out. 2023.

UNIVESP. Sociologia da Educação – Aula 6 – Conceitos de igualdade, diferença e desigualdade.


YouTube, 2015. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=5uPeVxcDpvQ. Acesso em: 2
fev. 2024.

Aula 4
Globalizações e Deslocamentos no País

Globalizações e deslocamentos no país

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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você em mais uma unidade de estudo de cidadania
global. Veremos como o contexto globalizado dos dias atuais, que tem suas economias, suas
sociedades e suas culturas interligadas globalmente, coloca uma dimensão mais complexa para
pensarmos o exercício da cidadania. A nova realidade do número cada vez maior de pessoas
deslocadas coloca desafios para pensarmos a cidadania, sobretudo para desvincularmos o seu
sentido da esfera restrita ao nacional (Conti; Alves, 2019).

Nesse cenário, como avaliar a “evolução” da cidadania diante do cemitério de corpos de


refugiados que se transformou o Mar Mediterrâneo – cenário emblemático dos barcos lotados
de homens, mulheres, crianças e até bebês buscando desesperadamente uma esperança de
vida? Das manifestações de racismo e xenofobia, enfim, da negação e da exclusão da cidadania
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para as milhões de pessoas deslocadas interna e internacionalmente? Diante da medida tomada


pelo governo de Donald Trump, nos Estados Unidos (EUA), para separar mais de mil crianças,
filhas de imigrantes indocumentados, dos seus pais?

Ao mesmo tempo, na América do Sul (incluindo o Brasil), milhões de venezuelanos estão


também cruzando fronteiras em busca de uma nova vida. Essas pessoas se deparam com
demonstrações de solidariedade, mas também com violência e desrespeito. Trata-se de um
problema complexo, atual e diretamente ligado à questão da cidadania, que requer reflexão e
debates.

Diante dos diversos fluxos migratórios do exterior para o Brasil – causados em grande medida
por guerras, conflitos políticos e miséria – como poderíamos receber e acolher os povos
imigrantes e refugiados, garantindo sua integridade física e moral, seus valores e culturas sem
projetar no estrangeiro o inimigo, o alvo e a causa dos problemas existentes no nosso país? A
fama do Brasil, de país acolhedor para os estrangeiros, tem se confirmado diante do cenário
crítico de que estamos tratando?

Vamos Começar!

Cidadania transnacional
Depois de percorrer diferentes contextos e épocas históricas que nos ajudam a refletir a respeito
da complexidade implicada na discussão do tema da cidadania, não poderíamos deixar de tratar
de uma dimensão que se torna cada vez mais evidente no contexto globalizado do século XXI: a
cidadania transnacional. Até este momento, conseguimos refletir acerca da dimensão local,
expressa no sentir-se membro de um corpo político no espaço das cidades e do estado-nação.
Agora, daremos um passo à frente na compreensão do sentido da cidadania para além da
dimensão local. Há diferentes perspectivas para explorar esse aspecto da cidadania (Conti;
Alves, 2019).

Se considerarmos, por exemplo, a associação da ideia cidadania com o sentido universal da


condição humana, entendemos que, já no século XVIII, havia movimentos culturais, como o
Iluminismo, que defendiam a dimensão cosmopolita da cidadania, ou seja, para além da fronteira
nacional. Isso é bastante curioso, pois, naquela época, o grau de integração econômica, política e
cultural entre os estados-nação era incomparável com o dos dias atuais. No entanto, a
conscientização da esfera internacional como um espaço necessário para a efetivação dos
direitos de cidadania, para além do espaço nacional, já era colocada pelos pensadores
iluministas.

A necessidade dessa conscientização do transnacional é ainda mais urgente na atualidade. Com


a integração das economias, das finanças e das culturas e com o aumento no volume dos
deslocamentos populacionais em escala global, muitos autores têm mostrado como o espaço do
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nacional fica ainda mais recortado por um mosaico de nacionalidades, culturas, religiões e
etnias. É, por isso, uma contradição que essas pessoas sejam excluídas do exercício de seu
direito de cidadania e de participação política.

Aprofundemos a problematização com alguns dados: segundo a Agência da ONU para


Refugiados (ACNUR, 2018), a cada minuto 20 pessoas são forçadas a se deslocar. Em 2018, essa
agência estimou a existência de 68,5 milhões de pessoas nessa condição no mundo, das quais
cerca de 40 milhões são deslocados internos, 25,4 milhões são refugiados (mais da metade com
menos de 18 anos de idade) e 3 milhões são solicitantes de refúgio. Os desastres ecológicos
ganham importância para explicar esses deslocamentos, no presente e no futuro. Até 2050,
estima-se que 250 milhões de pessoas serão deslocadas devido a causas ambientais – é como
se mais do que a população inteira do Brasil fosse deslocada. Além dos refugiados, é também
importante levar em conta o quadro dos demais imigrantes (pessoas que moram fora do país de
origem), estimado pela Organização Internacional para Migrações (OIM) em 244 milhões em
2015. As sociedades contemporâneas estão passando por uma grande transformação
populacional devido a esses deslocamentos. Justamente por esse motivo, as migrações
internacionais se transformaram em uma questão central para entendermos diversos aspectos
do funcionamento das sociedades, como o mercado de trabalho, a educação, a cultura, a
identidade e particularmente a cidadania (Conti; Alves, 2019).

Você deve ter acompanhado as notícias do caso de crianças, filhas de imigrantes


indocumentados, que foram separadas de seus pais por uma medida do governo de Donald
Trump feita para desencorajar essas pessoas de irem para os Estados Unidos. Também vemos
frequentemente em jornais as fotos de barcos no mar Mediterrâneo (entre a África e a Europa),
lotados de homens, mulheres, crianças e até bebês, que fogem dos fatores de expulsão em seus
países na busca por uma nova esperança de vida, porém, ao chegarem nos países europeus,
encontram muitas barreiras para poderem desembarcar. Essas notícias evidenciam como as
fronteiras dos Estados mais ricos do mundo tendem a ser predominantemente fechadas para
esses imigrantes e refugiados, apesar de muitos desses países serem signatários de Tratados
Internacionais que protegem a condição de imigrante, refugiado. Como explica o sociólogo
italiano Pietro Basso, os Estados tendem a adotar um posicionamento restritivo, quando não
criminalizante (dado o suposto crime de atravessar fronteiras), em relação a esse grupo social.

As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e de governantes como Viktor
Orban (Hungria) e Matteo Savini (Itália), exemplificam a construção de um discurso que associa
automaticamente essa população ao “crime”, estabelecendo um clima de insegurança e medo
que tem efeitos práticos concretos de desrespeito aos direitos humanos dessas populações
também nos países para os quais elas emigram (ou tentam emigrar).

Do ponto de vista das pessoas que se deslocam internacionalmente, o direito de cidadania não
pode se restringir às fronteiras nacionais. Da mesma forma que determinadas instituições
exercem uma dimensão global do exercício do poder político – como a Organização das Nações
Unidas (ONU), o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) –, com decisões que
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impactam o destino de muitas nações, o aumento da existência de imigrantes e refugiados


coloca em questão por que a cidadania deve permanecer restrita à nacionalidade.

Saskia Sassen – especialista em globalização e processos transnacionais, conhecida pelo


conceito de “cidade global” – oferece uma rica reflexão a esse respeito. A autora se pergunta se
o aumento de imigrantes e refugiados nos Estados é sinal de que as fronteiras nacionais tendem
a desaparecer e se as formas de dupla/tripla cidadania denotam uma tendência para se pensar
esse tema.

Importa percebermos que essa reflexão nos traz a dimensão transnacional da cidadania como
uma esfera de discussão de enorme importância. Já que vivemos em um mundo globalizado, a
cidadania não pode mais ser analisada puramente a partir do nacional. Utilizar esse
“nacionalismo metodológico” significa negar a cidadania a milhões de pessoas que residem em
outros países ou que são obrigadas a deixar seus países de origem. Lembremos que, do ponto
de vista cosmopolita, essa visão redutiva da cidadania necessariamente nega a condição
humana dessas pessoas. Sobretudo, é necessário perceber que o exercício da cidadania, em
particular com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação, assume
atualmente uma dimensão global. Esse alcance espacial traz consigo inúmeras potencialidades
para pensarmos o significado da ação cidadã (Conti; Alves, 2019).

Siga em Frente...

Deslocamentos forçados
As sociedades europeias no momento histórico dos anos 1990 ainda não sofriam com os
perversos efeitos da crise mundial eclodida em 2007/2008, pois, segundo Habermas, ainda
viviam no estado de graça (em relação a outras partes do mundo) de poder desfrutar de um
“bem-estar”. O momento agora mudou. Por esse motivo, essa mesma Europa vive atualmente
inúmeros conflitos sociais o causados pelos efeitos da crise mundial e acabam se condensado
na tendência de exacerbação do nacionalismo como uma forma de resolver os problemas que
supostamente vêm “de fora”, do estrangeiro, e pela presença do estrangeiro. São esses
momentos de crise que, como esclarece o autor, “trazem à tona a tensão latente entre cidadania
e identidade nacional” (Habermas, 1997, p. 298). Esse debate é de enorme relevância e devemos
estar atentos a ele

[…] os sujeitos privados do direito não poderão sequer desfrutar das mesmas liberdades
subjetivas enquanto não chegarem ao exercício conjunto de sua autonomia como cidadãos do
Estado, a ter clareza quanto aos interesses e parâmetros autorizados, e enquanto não chegarem
a um acordo acerca das visões relevantes segundo as quais se deve tratar como igual o que for
igual e desigual o que for desigual. Quando tomarmos a sério essa concatenação interna entre o
Estado de direito e a democracia, porém, ficará claro que o sistema dos direitos não fecha os
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olhos nem para as condições de vida sociais desiguais, nem muito menos para as diferenças
culturais (HABERMAS, 2004, p. 242-243).

Hoje também o continente europeu é um dos principais destinos de imigrantes e refugiados


expulsos de seus países. Sabemos que, ali, os efeitos da crise mundial eclodida em 2007/2008
acirram conflitos já existentes e criam outros. De fato, os imigrantes e refugiados passam a
ocupar o lugar da “diferença” nessas sociedades, e muitas vezes são identificados como o “bode
expiatório” de todos os problemas existentes – desemprego, criminalidade, terrorismo e
dificuldade de acesso a serviços públicos, por exemplo. Essa tendência está estreitamente
relacionada com a reprodução e o reforço de desigualdades, das quais esses grupos são as
principais vítimas, como o acesso a um emprego mais valorizado e protegido, à educação e a
serviços de educação e saúde.

No atual cenário mundial de deslocamentos em massa, o imigrante defronta-se com inúmeras


barreiras à cidadania e pressões. Segundo Basso (2010), as políticas dos Estados são pautadas
essencialmente na ideia da “convivência forçada” e do “choque de civilizações”, que alimentam
um quadro geral de “agudização” de racismo, xenofobia, discriminação, violência policial e
exposição à exploração, na vida cotidiana e no trabalho, desse grupo social.

No atual contexto de crise e de ascensão de partidos nacionalistas, essa ideia é constantemente


mobilizada, fazendo com que a tendência das políticas imigratórias seja a de restringir e
selecionar a circulação de pessoas. No entanto, isso não significa que essas fronteiras realmente
podem se fechar para o trabalho imigrante no atual grau de internacionalização das economias e
das sociedades. Por exemplo, a economia dos Estados Unidos pararia se todos os imigrantes
tivessem de deixar aquele país. Além disso, esses imigrantes são sujeitos humanos, estão ali
contribuindo com o seu trabalho, com suas culturas e línguas para o funcionamento e a
construção daquela sociedade.

Imigrantes e refugiados no Brasil

Embora o Brasil ainda tenha uma porcentagem muito baixa de estrangeiros, estimada entre 1% e
1,5% da população, não está separado desse contexto internacional. As notícias que falam da
presença desses imigrantes e refugiados no país têm se tornado cada vez mais comuns.
Tivemos dois casos, dos haitianos e dos venezuelanos, que deram mais visibilidade a essa
questão nos últimos anos. A pergunta que questiona se Estado brasileiro tende a se abrir ou a se
fechar para o reconhecimento da cidadania desses imigrantes e refugiados não pode ser
respondida sem primeiramente levarmos em consideração o contexto internacional.

Se analisamos o contexto nacional, entendemos que apesar de o Brasil ter uma sociedade
formada por imigrantes (africanos, europeus, asiáticos etc.) e ter se apoiado secularmente no
trabalho dessas pessoas, atualmente coloca muitas barreiras para o reconhecimento da
cidadania dos “novos” imigrantes e refugiados. Essas barreiras são de ordem formal, relativas à
concessão de visto e ao reconhecimento de refúgio e da cidadania brasileira. O processo para
conseguir a documentação é excessivamente burocratizado e caro para os imigrantes. Muitas
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vezes, isso acaba provocando a indocumentação de muitos deles, o que, na prática, significa a
exclusão da cidadania, ou seja, o não reconhecimento desses imigrantes como sujeito de
direitos. Para a concessão da cidadania brasileira, esse processo é ainda mais burocratizado e
de difícil acesso (Conti; Alves, 2019).

Se refletimos a respeito do aspecto substancial dessa cidadania, podemos entender que esses
imigrantes e refugiados vivem os fatores de expulsão na própria sociedade de origem, por isso
são obrigados a migrar, e ao chegarem no Brasil se defrontam novamente com muitas barreiras
da cidadania – como o acesso a um trabalho digno, à moradia, à educação de qualidade –, que
se colocam também para os brasileiros.

A lógica de exclusão dos estrangeiros, como vimos, acompanha a história da cidadania. No


entanto, essa lógica tende a se tornar mais agressiva nos momentos de crise e de ascensão de
políticas mais autoritárias. Além dos problemas formais com a lei, os imigrantes e refugiados
precisam lidar com uma sociedade nem sempre amistosa. Como sabemos, uma parte da
população brasileira pode enxergar os imigrantes como seus rivais na busca pelos direitos de um
cidadão. Mas a questão central é entendermos que a negação da cidadania para esses sujeitos
não é o meio eficaz para se conseguir a efetivação desses direitos para os brasileiros. Essa ideia
tem sido instrumentalizada pelos Estados, sobretudo pelos que são governados por partidos
nacionalistas. Todavia, de forma alguma essa exclusão implica que os direitos dos nacionais
estejam sendo de fato protegidos e respeitados.

Vamos Exercitar?

Diante do cenário mundial que buscamos analisar ao longo da aula e do histórico da cidadania e
dos direitos humanos que percorremos, como responder às questões colocadas inicialmente?
Quais caminhos as políticas internacionais devem tomar diante das grandes crises de
refugiados? O Brasil, país considerado hospitaleiro e com uma população cordial e pacífica, tem
sido capaz de receber e acolher os povos imigrantes e refugiados, garantindo sua dignidade?

Além de a reconhecermos, temos de lembrar que a cidadania, hoje, no mundo globalizado, é uma
cidadania transnacional, que não se limita ao território do estado-nação. Essa perspectiva
significa proteger também os brasileiros e seus direitos, mas, antes, reconhecer a dignidade e as
garantias legais de todo ser humano. Importante reconhecer que não é por meio da anulação da
Constituição Federal de 1988 que vamos resolver a questão da desigualdade e da exclusão
social dos cidadãos, pois, como vimos, a abolição de direitos consagrados não é a solução para
as demandas que ainda não foram efetivadas (Conti; Alves, 2019).

Em outras palavras, o fato de que nem todos os indivíduos conseguem usufruir de uma cidadania
plena não será resolvido com a supressão de todas as conquistas institucionais, mas sim por
meio do fortalecimento democrático que possa fomentar mais participação política e
responsabilidade do Estado no enfrentamento da questão social.
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Ademais, à medida que o Brasil se tornar uma nação capaz de respaldar a situação dos
imigrantes, a população em geral também usufrui do convívio em uma sociedade mais justa e
organizada sob a equalização de direitos.

Saiba mais

Exemplificando

A cidade de São Paulo é um laboratório vivo para entendermos o sentido da cidadania


transnacional. Em um passado relativamente recente, essa cidade era sobretudo formada por
imigrantes europeus. Atualmente São Paulo é considerada uma “cidade global”, por ser destino
de moradia para bolivianos, haitianos, senegaleses, sírios e moçambicanos, dentre um leque
muito diversificado de nacionalidades do mundo inteiro. Ali, você pode ter contato com muitas
iniciativas e organizações dos imigrantes e refugiados que, mesmo não tendo direito de voto no
Brasil, reivindicam seus direitos e espaços para expressar suas culturas e identidades.

Aprofundando conhecimentos

A obra de Ludmila Andrzejewski Culpi, Estudos migratórios (2020), disponível em sua biblioteca
virtual, fornece um importante panorama da questão migratória em diversos aspectos,
trabalhando conceitos fundamentais para essa discussão, políticas migratórias e bases teóricas
em sociologia, economia e relações internacionais. Discute a história das migrações,
examinando alguns momentos históricos, a influência da Organização das Nações Unidas e
criação da Organização Internacional de Migrações. A obra também destaca a legislação
brasileira e sua evolução, e a importância de se pensar nos refugiados.
CULPI, Ludmila Andrzejewsi. Estudos migratórios. Curitiba: Contentus, 2020. 71p.

E a posição da ONU no reconhecimento dos direitos humanos?


A Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU,
1948), após um preâmbulo muito importante por explicitar os princípios norteadores dos direitos
humanos, determina em seus primeiros artigos:

Artigo I
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo II
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião
política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra
condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou
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internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território
independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de
soberania.
Artigo III
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão
proibidos em todas as suas formas.
Artigo V
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo VI
Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a
lei.
Artigo VII
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.
Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente
Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. (ONU, 1948, p. 4-6)

Xenófobo no Brasil?

Sugerimos a leitura da reportagem a seguir, que trata da composição étnica e racial da


população europeia, e reflita se faz sentido, do ponto de vista da formação histórica da
população nacional, um brasi¬leiro se declarar xenófobo.
A Europa sempre foi povoada por diversas etnias, ao contrário do que pensam supremacistas
brancos.
AZEVEDO, G. Crise faz crescer o risco de o Brasil voltar ao Mapa da Fome, diz ONU. UOL, São
Paulo, 17 out. 2018.

Referências
AGÊNCIA DA ONU PARA REFUGIADOS (ACNUR). Página inicial. ACNUR, [s. d.]. Disponível em:
https://www.acnur.org/portugues/. Acesso em: 27 out. 2023.

AZEVEDO, G. Crise faz crescer o risco de o Brasil voltar ao Mapa da Fome, diz ONU. UOL, São
Paulo, 17 out. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-
noticias/2018/10/17/jose-graziano-fao-onu-mapa-da-fome-brasil-obesidade.htm. Acesso em: 27
out. 2023.
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BASSO, P. L’ascesa del razzismo nella crisi globale. In: BASSO, P. (org.). Razzismo di stato: Stati
Uniti, Europa, Italia. Milano: FrancoAngeli, 2010.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

CULPI, L. A. Estudos migratórios. Curitiba: Contentus, 2020. 71p.

HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Tradução de George Sperber, Paulo
Astor Soethe e Milton Camargo Mota. São Paulo: Edições Loyola, 2004.

HABERMAS, J. Direito e democracia. Entre facticidade e validade. Tradução de Flávio Beno


Siebeichler. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997. v. 2.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Assembleia Geral das Nações Unidas. Declaração
Universal dos Direitos Humanos. ONU, 1948. Disponível em:
https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acesso em: 27 out.
2023.

Aula 5
Encerramento da Unidade

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Ponto de Chegada
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Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é reconhecer os direitos
humanos conquistados e distinguir como eles vigoram na sociedade brasileira contemporânea
atrelados ao exercício cidadão, você deverá compreender primeiramente o significado dos
conceitos de cidadania e direitos humanos.
Com o intuito de fornecer elementos fundamentais para o estudo desse assunto, expomos o
significado da cidadania, pensada a partir de três dimensões: local, nacional e global. Toda vez
que uma dessas dimensões da vida em sociedade é comprometida negativamente,
necessariamente as outras também encontram mais obstáculos para a sua plena realização. O
desafio é assimilar de que forma, hoje, as sociedades estão (ou não) considerando a reflexão a
respeito das questões implicadas nessas noções e quais são as consequências disso.
É fundamental reconhecer também os direitos humanos e como essa instituição apareceu na
história moderna, tornando-se um padrão de referência universal para se pensar a vida em
sociedade, com seus limites e as fronteiras cada vez maiores na sociedade atual, tendo em vista
a predominância de outras lógicas – como o poder, a segurança, o nacionalismo, a riqueza – que
se colocam acima do ser humano.
Os casos de genocídio são os exemplos mais gritantes de barreiras à cidadania global e crime
contra a humanidade. Em geral, esse crime é associado ao extermínio dos judeus durante o
nazismo. No entanto, é importante lembrarmos que esse fenômeno é muito mais amplo.
Sobretudo, muito antes da barbárie do nazismo ocorrida no contexto europeu, a prática do
extermínio em massa já tinha precedentes com a atuação dos sistemas coloniais na América
Latina, África e Ásia (Bruneteau, 2006).
Com relação à América Latina, o autor David Stannard (1993) chamou de “holocausto americano”
a dizimação da população indígena, na América do Sul e do Norte, pelas armas dos
colonizadores europeus e pelas doenças biológicas que traziam. Muitos outros autores utilizam-
se das estimativas populacionais do período anterior à colonização (1500), comparando-as com
as primeiras décadas desse mesmo século, para iluminar o rápido e brutal decréscimo da
população indígena do continente, que nada mais é do que um verdadeiro genocídio.
O historiador Enzo Traverso, em seu livro La violenza nazista: uma genealogia (2002), mostrou
que a conquista do “espaço vital” baseado no critério racial – ocupação de novos territórios para
a “raça” “pura” alemã – já tinha sido amplamente utilizada pelos sistemas coloniais modernos
nas colônias e é um dos fatores que explica a genealogia do nazismo, ou seja, os processos que
estão em sua origem histórica no que se refere às práticas genocidas e violentas.
Você já parou para pensar, por exemplo, na relação dos estremecimentos dos valores
democráticos – espelhados nos novos cenários políticos em ascensão no atual contexto de crise
mundial –, com o desrespeito dos direitos fundamentais? Refletir a respeito desse percurso
formativo encoraja a despertar o cidadão que há em você, buscando o conhecimento crítico e
científico.
Outro exemplo concreto que pode ser mobilizado para a compreensão desse quadro no Brasil é
que o grupo social dos negros é o mais atingido pelas desigualdades, consequentemente,
encontra uma série de barreiras à cidadania. No que se refere à renda, essa desigualdade é
explícita: brancos ganham, em média, o dobro que negros (Oxfam, 2017), ocupando postos de
trabalho mais bem remunerados e de maior prestígio e poder. Essa desigualdade de renda se
desdobra em desvantagens no acesso à educação, à saúde e ao poder político, dentre outros
fatores. Ela atinge igualmente as mulheres e outros grupos sociais marginalizados, os indígenas,
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os migrantes internos e os imigrantes internacionais de perfil socioeconômico vulnerável.


Muitos movimentos sociais representantes desses grupos dentre outras reivindicações, apoiam-
se na defesa de políticas afirmativas a fim de contrastar os efeitos das desigualdades para
grupos sociais particulares e alcançar níveis de cidadania plena e efetivação dos direitos
humanos. No Brasil, esses movimentos ganham destaque atualmente com a luta antirracista e
pelas cotas nas universidades públicas, bem como pelas manifestações de mulheres para a
defesa de seus direitos.
Souza, Ribeiro e Carvalhaes (2010) oferecem um estudo completo das desigualdades de acesso
à educação para os negros no Brasil. Apesar de progressos conquistados pelo esforço desses
indivíduos e de suas organizações coletivas, os autores apontam “um abismo” que ainda persiste
no Brasil se considerado o acesso e a permanência, de brancos e negros, no ensino superior. A
educação é considerada pelos autores como um fator determinante para agir nessa
desigualdade. De fato, embora o Brasil tenha sido um dos principais destinos do maior
movimento de migração forçada da história, o tráfico negreiro, sendo que mais da metade da sua
população se identifica como afrodescendente, apenas 25% desse contingente tem ensino
superior completo, segundo dados do Censo (2010).
A defesa das políticas afirmativas responde à necessidade de agir nas desigualdades
reproduzidas nas sociedades. Como ressalta Silva (2017), “a ação afirmativa não é concessão,
ação afirmativa é garantia de direitos” (Silva, 2017, p. 15) – sobretudo, lembremo-nos, de direitos
fundamentais. Essas políticas têm como alvo diferenças internas historicamente construídas –
negros, indígenas, migrantes internos – e as “novas diferenças” que provêm dos movimentos
imigratórios para o Brasil na contemporaneidade. Para que essa população não seja excluída, é
igualmente urgente que políticas de inclusão sejam aplicadas, a exemplo da Cátedra Sérgio
Vieira de Mello (Brasil), que promove o direito de refugiados ingressarem ou continuarem seus
estudos no ensino superior.
Para combater esses estereótipos e preconceitos, são iluminadoras as palavras de Luiz Felipe de
Alencastro, historiador de nacionalidade brasileira, que foi um refugiado em Paris (França)
durante a ditadura militar no Brasil. Graças ao reconhecimento de sua cultura pela reputada
Universidade La Sorbonne de Paris, Alencastro pôde ensinar a história das Américas nessa
universidade. Como explica o historiador, a sociedade brasileira como um todo ganha com as
políticas afirmativas. Que sociedade, que democracia pode existir se grupos majoritários como
os negros, ou mesmo minoritários como os imigrantes e refugiados, forem excluídos do acesso
aos direitos fundamentais?
Os movimentos feministas também tiveram um papel histórico igualmente importante no mundo
e também no Brasil, para entendermos as formas de combater as desigualdades e a luta pelo
reconhecimento. O direito de voto foi uma das primeiras bandeiras reivindicadas por esse
movimento nos séculos XIX e XX. Atualmente a questão feminina se revela em diferentes
reivindicações, desde a luta pela igualdade salarial, maior participação nos postos com mais
prestígio e poder, até o direito ao aborto.
No que se refere aos dados de concentração de renda, no Brasil a situação é ainda mais
alarmante. Desde os anos 1990, muitos autores das diferentes áreas do conhecimento vêm
demostrando o impacto da globalização no aprofundamento das desigualdades e da exclusão
social – também, portanto, a sua relação com o funcionamento frágil da nossa democracia e de
seus caminhos no futuro, caso não se tome consciência a respeito da questão da distribuição de
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renda e riquezas.
A reportagem de Rossi (2017), referindo-se a dados também fornecidos pela Oxfam, nos ajuda a
entrar mais a fundo nesse quadro de desigualdades no Brasil ao evidenciar que “seis brasileiros
concentram a mesma riqueza que a metade da população”, ou seja, um pouco mais de cem
milhões de pessoas, e os “5% mais ricos [da população brasileira] detêm a mesma fatia de renda
que os demais 95%”! Segundo dados da Oxfam (2017), 165 milhões de brasileiros vivem com
uma renda per capita inferior a dois salários-mínimos (Conti; Alves, 2019).
Um indicador importante para entendermos esse quadro de desigualdade de renda no Brasil diz
respeito à estrutura fundiária, que revela números igualmente brutais apresentados pelo Censo
Agropecuário (2006): 0,91% dos estabelecimentos rurais (latifúndios) concentram 52% da área
total das propriedades rurais. Os estabelecimentos com dez hectares de terra, representando
47% do total dos estabelecimentos do país, ocupam apenas 2,3% da área total (Oxfam, 2016).
Essa desigualdade de distribuição de terras mantém estreita relação com a situação precária da
vida urbana, sobretudo das grandes metrópoles. Raquel Rolnik (2016) recupera dados que tratam
da proliferação de assentamentos e moradias informais nas periferias das grandes cidades do
mundo e do Brasil, explicando os mecanismos de produção de sem-tetos e da segregação
urbana pelo que chama de “guerra dos lugares” contemporânea. Estimou-se que, no Brasil
(2018), 6,9 milhões de famílias não têm uma casa para morar, ao passo que há 6 milhões de
imóveis desocupados (Odilla; Passarinho; Barrucho, 2018).
É claro que esse quadro socioeconômico reflete questões estruturais, sobretudo as antigas, as
novas e as diferentes faces das desigualdades, que foram agravadas de forma drástica pelo
contexto de crise econômica e política do Brasil, e pelo aumento do desemprego e do trabalho
terceirizado e/ou intermitente. Autores como Florestan Fernandes (1973) analisaram as
conexões dessa estrutura econômica das periferias do capitalismo com a reprodução de um
regime político autoritário. Seus estudos mostram bem como o traço colonial de opressão
política e exclusão da participação cidadã da maioria da população permanece existindo mesmo
depois de o Brasil se constituir como um Estado–nação com sua “própria” burguesia nacional,
ficando particularmente mais evidentes em contextos de interrupção do regime democrático
como no Estado Novo (1930-1945) e na ditadura militar (1964-1985) (Conti; Alves, 2019).
Devemos refletir a respeito da democracia, das desigualdades e das diferenças, em um exercício
que nos dá instrumentos para a compreensão das barreiras à cidadania, que são muitas vezes
invisíveis, mas importantíssimas para pensarmos as possibilidades de atuação política,
sobretudo por grupos sociais marginalizados.

É Hora de Praticar!

O tema das migrações é mobilizado neste Estudo de Caso por nos possibilitar discutir questões
importantes da cidadania e dos direitos humanos em nossa realidade social. A mobilidade
forçada opera na sociedade contemporânea com diversas lógicas de expulsão.
A socióloga Saskia Sassen, no seu livro Expulsões (2016), mostra como a mobilidade forçada de
pessoas é hoje um problema que atinge muitos países do mundo, sobretudo os do Sul Global,
países da periferia do capitalismo ou subdesenvolvidos. A autora discute o que chama de
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“lógicas de expulsão” – algumas antigas, outras novas – que estão ativas na contemporaneidade
provocando o deslocamento forçado de massas de pessoas.
Resta-nos entender como o Brasil se situa nessa questão. O que você responderia se lhe
perguntassem acerca da relação do funcionamento da democracia no Brasil com a efetividade
dos direitos humanos? Na sua opinião, podemos dizer que as gerações dos direitos
fundamentais são respeitadas no país?

Qual foi o panorama social da humanidade que deu ensejo ao desenvolvimento dos direitos
humanos?
Por que e para quem os direitos humanos se aplicam?
Qual seria o caminho para que a cidadania pudesse ser usufruída de modo pleno por toda a
população brasileira na realidade material, superando as múltiplas barreiras existentes?

O quadro dessas expulsões é complexo e abrange desde a questão do aumento das


desigualdades e do desemprego no mundo, a crise e o endividamento das economias dos
países, até o aumento da violência e de conflitos, a destruição da natureza, a expansão das
fronteiras agrícolas, a desertificação de regiões e o alagamento de outras. Fato é que há uma
quantidade cada vez maior de países que parece estar sofrendo com essas lógicas de expulsões
sistêmicas.
Essa perspectiva ajuda a compreender por que o Brasil atualmente ocupa tanto um lugar de país
de emigração como de imigração. Por um lado, temos problemas muito vivos no contexto atual,
como os altos índices de desemprego, o aumento das desigualdades e da violência, o racismo, a
xenofobia e a intolerância às diferenças, o avanço das fronteiras agrícolas, ou seja, fatores que
podem provocar o deslocamento de população dentro do espaço interno, nacional, e para fora do
país. Por outro lado, o Brasil recebe muitos imigrantes e refugiados de países como Haiti,
Venezuela, Colômbia, Síria e Angola, entre outros, o que é uma consequência e um sintoma da
atuação dessas lógicas de expulsão em outras regiões do mundo.
No atual contexto globalizado, a situação de pessoas deslocadas interna e internacionalmente é
emblemática para pensarmos as fronteiras, os desafios e as novas potencialidades da cidadania
e dos direitos humanos. Há muitas dimensões desses deslocamentos que podem ser objeto de
investigação. A questão central é como os deslocamentos forçados refletem tendências de
funcionamento da cidadania e dos direitos humanos no Brasil e no mundo.
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Figura 1 | Sínteses dos conteúdos abordados durante os estudos

ALENCASTRO, L. F. Conferência: políticas afirmativas, democracia e conhecimento do Brasil. In:


NETO, J. C. H; FERREIRA, A. N. Fórum inclusão e diversidade. Belo Horizonte: Instituto Casa da
Educação Física, 2017.
ALENCASTRO, L. F. de. O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Cia
das Letras, 2000.
ALENCASTRO, L. F. de. O pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira. Novos
estud. – CEBRAP, São Paulo, n. 87, p. 5-11, jul. 2010. Disponível em:
https://www.scielo.br/j/nec/a/5mrv9B8YLFFcrfGsHKhdsmJ/. Acesso em: 2 fev. 2024.
ALENCASTRO, L. F. de. Parecer sobre a arguição de descumprimento de preceito fundamental,
ADPF/186, apresentada ao Supremo Tribunal Federal. In: ALENCASTRO, L. F.; SILVÉRIO, V. R. As
cotas para negros no tribunal. A audiência pública no STF. São Carlos: Edufscar, 2012.
BRUNETEAU, B. El siglo de los genocídios: violencias, massacres y procesos genocidas desde
Armenia e Ruanda. Madrid: Alianza Editorial, 2006.
CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e
Distribuidora Educacional S.A. 2019.
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STANNARD, D. E. American holocaust: the conquest of the New World. New York, NY; Oxford:
Oxford University Press, 1993.
FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro:
Zahar, 1973.
FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes: o legado da “raça branca”. São
Paulo: Globo, 2008.
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,
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Unidade 3
Desafios da sociedade brasileira

Aula 1
A Reprodução da Miséria

A reprodução da miséria

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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você em mais uma aula. Sabemos bem que a miséria
no Brasil não é um fenômeno novo; tem raízes históricas muito antigas, que se reproduzem ao
longo do tempo. Vamos nos concentrar no século XXI, mas o encorajamos sempre a seguir
estudando a história do país para entender a historicidade de nossos dilemas. Vamos entender
as dinâmicas mais características da pobreza no mundo atual, sobretudo após a eclosão da crise
mundial (2007-2008) e sua manifestação com mais força no Brasil, a partir de 2014.

Como você explicaria as estimativas de que, no Brasil, cerca de 21.1 milhões de pessoas estão
em situação de vulnerabilidade alimentar, enquanto 41 mil toneladas de alimentos são
desperdiçadas por ano (CFN, 2023)?

Na visão científica, esse fenômeno é produzido pelas relações socioeconômicas, sendo possível
identificar – e enfrentar – suas causas objetivas. Independentemente das correntes teóricas, o
conhecimento produzido pelas diferentes ciências sociais – a partir de método e evidências,
portanto –, como a economia, a sociologia e a ciência política, concordam com o pressuposto de
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que a fome é um problema que passa por escolhas políticas e econômicas dos governos e da
sociedade, podendo, assim, ser combatida por políticas públicas e pela ação da sociedade. Por
exemplo, para José Graziano da Silva, diretor geral da Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO), e para Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz e membro
da Aliança da FAO pela Segurança Alimentar e Paz, a fome é, na verdade, um crime que alimenta
conflitos mais graves nas sociedades e ameaça a paz mundial (Silva; Esquivel, 2018).

No entanto, é importante entendermos que mesmo dentro de um debate científico – isto é,


racional, a partir de dados e de metodologias de pesquisa – se apresentam perspectivas
dissonantes. Como consequência, essas visões também resultam em diferentes formas de
enfrentar a fome. Antes de uma leitura mais aprofundada do tema, como você encara esse
dilema? Considera a fome do outro um problema que também é seu, como um problema
coletivo? Você enxerga a fome como um problema individual ou social? Que recomendações
você daria para o combate à fome no Brasil atual?

Vamos Começar!

Concentração de renda e outras faces da desigualdade


A tarefa de discutir o mapa da miséria no Brasil nos obriga, antes de tudo, a fazer uma pontuação
acerca do contexto internacional, para que possamos entender a amplitude desse tema e suas
características particulares de desenvolvimento no país.

Conforme nos explica Chossudovsky (1999), a pobreza é um fenômeno global e atinge com mais
força os países do Sul Global, e seu traço característico é o de aniquilar a subsistência humana,
ou seja, a possibilidade de sobrevivência das pessoas, destruindo sociedades inteiras. O estudo
de Chossudovsky foi produzido na década de 1990 e permanece ainda muito atual. Para o autor,
nesse período, a pobreza dizia respeito a 80% da população mundial, com uma incidência muito
mais acentuada nos países do Sul Global – ex-colônias –, já que os países ricos do Norte Global
(onde viviam 15% da população mundial) controlavam 80% da renda mundial, ao passo que os
países de média e baixa renda (onde viviam 85% da população mundial), apenas 20% da renda
mundial (Chossudovsky, 1999). Esse quadro não se modificou nos anos 2000; pelo contrário, só
tem se acentuado. Estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação apontam 821 milhões de pessoas atingidas pela fome no mundo em 2017
(Azevedo, 2018).

Na mesma linha de raciocínio, Raquel Rolnik (2016) sugere uma reflexão importante ao
evidenciar que os problemas urbanos vividos no século XXI – como a globalização, a
financeirização da economia, a desindustrialização, o desemprego –, talvez sejam piores que os
problemas sociais “clássicos” do início do processo de industrialização e urbanização no século
XIX.
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De fato, a pobreza nos países do Sul Global é historicamente enraizada e disseminada por meio
do funcionamento do sistema de colonização. O Brasil é um exemplo claro disso. Os níveis de
pobreza do país sempre foram muito altos, sobretudo devido à alta concentração de renda e de
riquezas, que situa o país como um dos mais desiguais do mundo, com níveis acima da média
global. Segundo Souza e Medeiros (2017), a alta concentração de renda no topo da pirâmide
social permaneceu intocada na última década:

Na prática, o Brasil “estar fora da curva” em relação aos padrões internacionais significa
pertencer a uma sociedade na qual “seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade
da população”, ou seja, um pouco mais de 100 milhões de pessoas e os “5% mais ricos [da
população brasileira] detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%” (Rossi, 2017).
Paralelamente, 165 milhões de brasileiros vivem com uma renda per capita inferior a dois
salários-mínimos (Oxfam, 2017).

O aumento da renda dos mais pobres e as políticas bem-sucedidas de combate à fome e à


miséria – que certamente são muito importantes, pois tiveram efeitos reais benéficos para a
população brasileira socioeconomicamente mais vulnerável – não foram suficientes para blindar
o Brasil de sua “sina” da desigualdade e da pobreza. Em 2014, a Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação anunciou que o Brasil saía do mapa da fome. Após esse ano, com
os efeitos perversos da crise – sobretudo o aumento do desemprego, do subemprego e de
pessoas que não têm renda alguma e não são beneficiadas por programas públicos de
transferência de renda –, alertou-se sobre o risco de o Brasil voltar novamente ao mapa da fome
(Azevedo, 2018).

É preciso perceber, portanto, que no século XXI a estrutura das desigualdades de renda e de
riqueza no Brasil não foi modificada. Isso nos ajuda a entender por que os efeitos da crise global
agravaram com tamanha rapidez a miséria. Esse agravamento, é claro, não está separado de
escolhas políticas que, ao contrário de agir nas causas da miséria, a acentua.

No que se refere à geografia dessa miséria, dados revelam que a Região Nordeste do Brasil
concentra 43,5% da população vivendo na linha da pobreza, enquanto a Região Sul 12,3%
(Oliveira, 2017). E é preciso nos atermos ao fato de que essa miséria também tem cor e sexo, já
que os negros e as mulheres são mais atingidos (Pearce, 1978; Moraes, 2018; Fernandes, 2008;
Martins; Martins, 2017). José Graziano da Silva, diretor geral da Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação também dá destaque ao alto número de crianças que voltam a
ser vítimas da fome no Brasil (Azevedo, 2018). Além disso, estudos evidenciam que as famílias
que moram na zona rural (cerca de 15% da população brasileira, segundo o censo de 2010) estão
mais expostas à situação de pobreza, sobretudo se considerada a renda (Buainain et al., 2012).

Siga em Frente...

Concentração fundiária e déficit habitacional


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Essa questão nos leva a discutir a estrutura fundiária do Brasil. Para Sorj (2008), a alta
concentração de terras no Brasil é uma característica histórica do país, que se tornou ainda mais
complexa com a reorganização e o processo de transformação das relações de produção no país
pela agroindústria.

A concentração de terras no Brasil não está separada dos problemas urbanos que se agravam no
país. Como é notório, o processo de urbanização e industrialização no Brasil – e, em geral, na
América Latina –, ocorreu de forma desordenada, rápida e concentrada no século XX (em parte
da Europa, por exemplo, esse mesmo processo demorou dois ou três séculos para se efetivar).
Embora a indústria absorvesse parte dessa população, muitas das pessoas que migravam para a
cidade não conseguiam arranjar empregos e eram segregadas em bairros periféricos (Conti;
Alves, 2019).

Atualmente, os estudos têm mostrado como a atração de pessoas para morar nas cidades é
impulsionada mais pela reprodução da pobreza, devido a fatores de expulsão do campo, que se
combinam com a falta de oferta de empregos e de renda nas cidades (Davis, 2006). Em
particular, esses estudos também mostram como há um aumento e uma multiplicação das
favelas (principalmente após os anos 1970), que passaram a expressar a fotografia da pobreza
nas cidades – e de todos os problemas sociais a ela relacionados (exploração do trabalho,
condições de vida, mortalidade, violência, insalubridade, segregação espacial).

As favelas são hoje, de fato, a máxima expressão da pobreza. Como mostra bem o estudo de
Mike Davis (2006), há uma “globalização das favelas”, que é a forma de moradia precária que se
dissemina em nível global, principalmente nos países do Sul Global (atingindo cerca de 80% da
população urbana desses territórios). Por esse motivo, muitos estudos têm alertado que a
pobreza urbana se tornaria o problema mais importante e explosivo do século XXI (Conti; Alves,
2019).

A questão da produção de desalojados – sobretudo relacionada a processos de financeirização


da moradia e de despejos – nos ajuda a entender esse cenário. No Brasil, estima-se que 6,9
milhões de famílias não possuem uma casa para morar (Odilla; Passarinho; Barrucho, 2018). Há
um debate bastante vivo no sentido de se perguntar até que ponto esses números espelham um
déficit de moradia, tendo em vista a estimativa de que há um número equivalente de imóveis
desocupados no país. Procura-se também entender até que ponto as políticas de moradia –
pensadas de forma individual e imbricadas ao fornecimento de créditos pelos bancos e ao
mercado privado de construção civil – resolvem ou pioram esse cenário do déficit de moradia
nas cidades, sobretudo nos períodos de desemprego e de rebaixamento de renda, como é o caso
do nosso país na atualidade (Rolnik, 2016; Fix, 2011).

Os movimentos que lutam pela moradia e denunciam essa pobreza urbana refletida na situação
dos sem-teto não estão separados desses processos estruturais de produção de desalojados.
Esses movimentos também mostram que a vulnerabilidade dessas pessoas e a sua exposição a
fatores sociais problemáticos podem se reverter em uma força de denúncia das contradições
das sociedades urbanas hoje, sendo determinantes para a transformação desses espaços
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urbanos e para pressionar o Estado para a realização de políticas efetivas no atendimento a


essas populações.

Da mesma forma, é impossível entender a dinâmica de funcionamento dos Movimento dos


Trabalhadores Sem Terra sem olharmos para os dados, já evidenciados, que tratam da
concentração de terra e da pobreza rural no Brasil. O direito à terra, assim como o direito à
moradia, é fundamental para que possamos caminhar para uma sociedade mais equilibrada e
próspera. Justamente por esse motivo, na grande maioria dos países atualmente considerados
desenvolvidos não há, nem de perto, uma concentração fundiária semelhante à do Brasil.
Lembremos também que as famílias assentadas desse movimento adotam um modelo de
produção alternativo ao agronegócio, que contempla um número infinitamente maior de famílias
envolvidas e é comprometido com a saúde da população brasileira e com a garantia da
biodiversidade de alimentos no país, pois não utilizam transgênicos e agrotóxicos (Conti; Alves,
2019).

Desemprego e outros efeitos sobre o mundo do trabalho


Diversos estudos têm mostrado os impactos perversos da atual crise na oferta e na qualidade do
emprego no Brasil, situação que foi agravada pelas políticas e reformas legislativas
recentemente aplicadas (Krein; Gimenez; Santos, 2018). Com base nos dados do Programa das
Nações Unidas para o Desenvolvimento, Di Cunto (2018) aponta que o Brasil, em julho de 2018,
era o segundo país com maior taxa de desemprego na América Latina (12,3%, perdendo apenas
para o Haiti). O tipo de trabalho majoritariamente ofertado hoje está longe de permitir a
estruturação de uma vida com segurança e dignidade. Constata-se a multiplicação dos
“minijobs” (empregos precários), empregos temporários, sem garantias e sem direitos, com
baixos salários, jornadas longas, flexíveis e intensas. A explosão da terceirização no Brasil
também contribui para esse quadro da pobreza, já que os terceirizados ganham menos e são
mais desprotegidos em relação a direitos e proteção social.

As reivindicações dos trabalhadores, de suas categorias e sindicatos para um trabalho mais bem
remunerado e protegido, que se opõem à tendência de deterioração da renda e devastação dos
direitos dos trabalhadores têm, portanto, um papel central nas sociedades modernas para
impulsionar as políticas sociais de distribuição de renda. A maior parte da sociedade brasileira
hoje depende de um salário para sobreviver, portanto, é importantíssimo que a qualidade do
emprego não seja negligenciada.

Além dessas perspectivas alternativas para um país mais igualitário, que partem de iniciativas da
própria sociedade – e são de enorme relevância para entendermos que esses problemas não são
“naturais” e podem ser combatidos –, devemos considerar também a importância das políticas
sociais e de combate à fome. Sem essas iniciativas e essas políticas, certamente caminharemos
para uma sociedade cada vez mais desigual, logo, também conflituosa e violenta.
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No Brasil, pode-se destacar alguns programas que foram importantes no período recente para o
esforço de combate à pobreza. Em primeiro lugar, a implementação da aposentadoria rural, que
garantiu aos trabalhadores rurais uma renda de um salário mínimo ao chegar à terceira idade. Em
segundo lugar, a política de valorização do salário mínimo, já que parte importante da população
brasileira tem seus salários vinculados a esse patamar mínimo e outra parte recebe benefícios
sociais também atrelados ao salário mínimo. Em terceiro lugar, o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que provê crédito subsidiado – ou, às vezes, a
fundo perdido –, para pequenos produtores agrícolas. E, finalmente, o Bolsa Família, resultante
da conglomeração de programas sociais anteriormente dispersos, atribuindo-lhes mais
organicidade (em vez de as famílias pobres precisarem lidar com inúmeros programas distintos,
passaram a ser atendidas de forma unificada, pelo Bolsa Família), volume (os valores destinados
a esses benefícios sociais aumentaram muito; de 2003 a 2014, os montantes direcionados para
o Bolsa Família passaram de R$ 3,4 bilhões a R$ 27,2 bilhões) e capilaridade (o programa passou
a atender famílias do país todo, até mesmo de pequenas comunidades do sertão nordestino ou
da Amazônia) (Conti; Alves, 2019).

O Bolsa Família foi iniciado em 2003, com o atendimento de mais de 3 milhões de famílias, e
chegou a contemplar, em 2014, 14 milhões de famílias. Segundo a pesquisa baseada em extensa
coleta de dados e relatos realizada por Rego e Pinzani (2013), o pequeno montante transferido
pelo programa para cada família assume um papel vital para os beneficiários, de forma que
cortá-lo significaria, além de negar a cidadania dessas pessoas, condená-las a passar fome,
expondo-as também ao risco de morte. O recebimento dessa renda, em geral, oferece mais
condições às pessoas em situação socioeconômica vulnerável de entrar para o mundo produtivo,
seja por meio de um emprego, seja por meio de uma produção própria ou até de uma fase
preparatória de qualificação/estudo. Trata-se, portanto, de garantir o mínimo – ou, na verdade,
menos do que o mínimo, se consideramos o custo de vida no país.

A questão central deste conteúdo é sabermos em qual país gostaríamos de viver: em um país
que assume a miséria como natural ou em um que aplica políticas públicas eficientes para
combatê-la. Lembremo-nos, portanto, de que a pobreza pode ser combatida. E é essencial que a
sociedade pressione o poder público nessa direção. Do contrário, como já acenado, sem dúvida
viveremos em uma sociedade conflituosa e violenta, que desperdiça seu potencial de
desenvolvimento.

Vamos Exercitar?

No atual contexto de crise econômica, cortes em programas sociais empurram com ainda mais
rapidez as famílias para a pobreza. Fala-se de “novos pobres”, que são produtos da crise, dos
cortes em programas sociais e da grave situação de desemprego e precarização do trabalho
(Conti; Alves, 2019). Como você enxerga esse fenômeno? Ele está relacionado com o aumento
da pobreza, é um problema individual ou social? Quais recomendações você daria para o
combate à fome no Brasil atual?
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Para responder é necessária uma contextualização acerca da pobreza e da fome no Brasil de


hoje. Vivemos uma crise que vem se configurando como uma das maiores da história do
capitalismo; sua dimensão internacional é de enorme relevância para uma análise cientifica de
suas características e efeitos, inclusive no Brasil.

Estudos têm mostrado o aumento da pobreza em escala mundial – reflexo da concentração de


renda e riquezas – e sua acentuação após a eclosão da crise, que afetou primeiramente os
países do Norte Global e, mais tarde, com ainda mais intensidade, os países do Sul Global, que
ocupam uma posição de dependência e subordinação no mercado mundial. Questões
problemáticas, que antes pareciam estar geograficamente delimitadas aos países do Sul Global
– como a acentuação das desigualdades de renda; o aumento do número de pessoas em
situação de rua; o trabalho pobre (working poor) e precário (precariado); o alto índice de
desemprego e de informalidade; a favelização; o endividamento; dentre outras –, invadem o
cotidiano das cidades, sobretudo das capitais, nos países do Norte Global (Basso, 2010).

Essas mesmas tendências pareciam estar longe de poder chegar ao Brasil, porém, em 2014, o
impacto da crise econômica se fez igualmente agressivo e generalizado no país, refletindo-se
claramente na estagnação, em 2014, e depois na queda brusca do produto interno bruto (PIB),
em 2015 e 2016. Desde 2015, as medidas de austeridade aplicadas significaram uma queda de
83% no orçamento das políticas públicas para a área social no Brasil (Instituto de Estudos
Socioeconômicos apud Oxfam, 2017).

A tendência colocada no contexto neoliberal, que se acentuou com a atual crise, é que o Estado
faça cortes em orçamentos destinados ao social e privatize seus bens, serviços e ativos,
sobretudo a partir da aplicação dos ajustes fiscais, como se esses fossem o único “remédio”
para resolver os efeitos da crise. Todavia, essa via caminha ao lado, como já problematizamos,
de uma sociedade desigual e conflituosa, que corre o risco de naturalizar a pobreza em vez de
combatê-la.

Saiba mais

A obra escrita por Noam Chomsky e Marv Waterstone, As consequências do capitalismo:


produzindo descontentamento e resistência (2021), disponível em sua biblioteca virtual, fornece
um importante panorama das conexões profundas – muitas vezes invisíveis – entre o "senso
comum" neoliberal e o poder estrutural.
Ao fazer essas ligações, vemos como a atual hegemonia mantém os movimentos de justiça
social divididos e marginalizados. E, mais importante, vemos como podemos lutar para superar
essas divisões. Uma cartilha essencial sobre capitalismo, política e como o mundo funciona.

A obra escrita por Fabíola de Lourdes Moreira Rabelo e Lana Mara de Castro Siman, Jovens em
situação de rua e seus rolés pela cidade: registros de subversão e (r)existência (2021), disponível
em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama dos processos de socialização
vivenciados por jovens em situação de rua na cidade de Belo Horizonte (MG).
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A obra apresenta reflexões acerca dos efeitos da segregação social e espacial na vida dos jovens
em situação de rua, discutindo a invisibilidade social, o racismo, os mecanismos de controle e
violência que afetam suas trajetórias. Para além disso, destaca as táticas cotidianas dos jovens
em situação de rua, tangenciadas por movimentos de (r)existência e reinvenção de suas
possibilidades de ser, viver e estar na cidade.

A pobreza no campo e na cidade


A pobreza rural e urbana em grande escala é um problema tipicamente moderno, produto das
transformações das sociedades, do modo de produção capitalista e da Revolução Industrial. Por
esse mesmo motivo, a miséria no campo e a condição de indigência e de sofrimento da classe
operária – em particular na Inglaterra, Escócia e Irlanda da segunda metade do século XVIII em
diante – foram estudadas como um fenômeno, o pauperismo, e passaram a ser objeto de estudo
das diferentes áreas da economia, da sociologia, e até mesmo largamente retratada na literatura
da época.
Assista ao vídeo a seguir, que traz uma reflexão que trata da miséria na história do Brasil, que não
deve ser considerada como “natural” – como se existisse desde sempre e devesse permanecer
para sempre –, pois é possível de ser reduzida por meio de políticas públicas. O vídeo é um
documentário dirigido por Camilo Tavares, intitulado Histórias da fome no Brasil (sugerimos que
assista do minuto 0:00 ao minuto 12:10).
Documentário: Histórias da Fome no Brasil. Direção: Camilo Tavares. [S. l.]: Ancine, 2017. 1 vídeo
(52min), son., color.

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2017. 1 vídeo (52min), son., color.
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Aula 2
Corrupção e Entraves ao Bem Comum

Corrupção e entraves ao bem comum

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Convidamos você a refletir a respeito de um dos temas mais discutidos nos
últimos anos no Brasil: a corrupção, um problema que não é exclusivamente brasileiro e não se
restringe aos fatos da atualidade, mas, é claro, há períodos e lugares em que a corrupção está
mais presente. Apesar de ser complexo, é possível identificar as causas que levam determinado
país, em determinado momento da sua história, a ser marcado por casos de corrupção.

No Brasil, após a ditadura (1964-1985) – período em que a discussão pública da corrupção foi
interditada, entendida pelos militares como um tipo de contestação e ameaça à ordem –, o tema
da corrupção ocupou um lugar central, primeiramente com o processo de impeachment de
Fernando Collor, depois com as acusações em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso –
e seu suposto favorecimento pelo chamado “engavetador geral da República” –, em seguida com
as denúncias em relação ao Mensalão, um pretenso esquema de compra de apoio no Congresso.
Mais tarde, sobretudo após 2014, novamente a corrupção reaparece na mídia como uma das
noções mais pronunciadas para explicar o contexto de crise no Brasil, tanto na sua dimensão
política quanto econômica. Essa noção ganhou uma atenção crescente e passou a ser
considerada tão evidente a ponto de dispensar qualquer tipo de demonstração.

O tema nos provoca a buscar, antes de tudo, o sentido dessa palavra. Segundo o Dicionário
Houaiss da língua portuguesa, corrupção vem do latim e é sinônimo de declínio, indecência e
suborno (Houaiss; Villar, 2009, p. 557). Essa conotação invoca a dimensão essencialmente ética
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do comportamento e das atitudes e balizou, de certa forma, a maior parte do debate sobre esse
tema. É como se toda a forma de discutir destacasse como o Brasil é corrupto, não atentando à
pergunta de como se tornou corrupto. Para além da questão ética, é importante investigar as
causas menos visíveis da corrupção e a forma como a discussão do tema é feita. Esse
fenômeno vai muito além do contexto nacional, assumindo, na verdade, uma dimensão global.

Reflita, então, a respeito da seguinte questão: na sua opinião, a forma de se discutir a corrupção
no Brasil traz ao conhecimento da população brasileira os problemas mais estruturais –
econômicos e políticos – implicados e o modo mais adequado de combatê-los? Ou o debate, em
geral, dá-se em torno apenas do comportamento e da ética individual?

Vamos Começar!

Corrupção e ética: a questão do público e do privado


Corrupção: ao falar do tema, quase sempre lembramos imediatamente da palavra “política”,
certo? Ainda assim, os atos de corrupção não estão circunscritos apenas àqueles que têm
cargos públicos. Como poderíamos redefinir essa noção?

A noção mais comumente pensada remete a um comportamento individual de desrespeito às


normas éticas, morais e jurídicas para tirar benefício próprio, a fim de beneficiar alguém ou um
grupo. Nesse sentido, a corrupção pode estar presente em todos os âmbitos da vida de uma
sociedade, desde as dinâmicas familiares até o funcionamento de uma empresa privada/pública
ou do Estado, podendo ser investigada a partir de diferentes ângulos – a cultura e os valores de
uma sociedade, a opinião pública e os costumes, entre outros (Conti; Alves, 2019).

Todavia, há uma outra perspectiva para tratarmos da corrupção, que busca iluminar a disputa
pelo poder econômico e político em uma dimensão mais sistêmica e estrutural, para além da
relação entre determinados indivíduos, que também envolve o desrespeito às normas no âmbito
de funcionamento de instituições como o Estado, o mercado, as empresas, as organizações não
governamentais (ONG), as igrejas e a mídia, dentre outras entidades.

Há um vasto campo de estudos sobre a corrupção atualmente, que destaca como nessa trama
de relações está envolvido principalmente o papel dos Estados em conjunto com os grandes
grupos econômicos e corporações transnacionais, que têm um enorme poder político (Jain,
2001).

Partiremos, portanto, da relação entre corrupção e ética, que, por sua vez, também nos obriga a
pensar na relação entre o público e o privado. Como vimos, as esferas do público e do privado,
além de terem um critério objetivo de definição em leis e em princípios da administração pública,
também abrangem a noção de interesse público (bem comum) e interesse privado (particular).
No Ocidente, a distinção entre público e privado está prevista em normas e princípios jurídicos,
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porém, se na teoria pode parecer mais simples separar essas dimensões, na prática elas estão
imbricadas. Ainda assim, essa distinção que se aplica às leis e normas não deixa de ter
importância, pois permite identificar a ação corrompida dos agentes que exercem a função
pública.

Ao buscarmos o entendimento da relação implícita do público e do privado na corrupção,


deparamo-nos também com um problema colocado pelo atual momento histórico, marcado pelo
debate em torno das atribuições do Estado. Após décadas de hegemonia de uma perspectiva
político-econômica que afirmava a importância de uma série de papéis do Estado nas
sociedades capitalistas – responsável pela saúde, educação e previdência, assim como de
estatais em áreas consideradas essenciais –, outra abordagem para essa situação passou a
crescer e se consolidou a partir dos anos 1970.

A (falta de) confiança nas corporações e instituições políticas

Sem dúvida, é na esfera pública – instituições, empresas e funcionários regidos pelas normas do
direito público – que a corrupção ganha mais visibilidade e é mais estudada. No entanto, como
esclarece o sociólogo José Artur Rios (1987), a esfera privada, sobretudo das empresas, também
é permeada por operações de “favoritismo, apropriação indébita, concorrência desleal” (Rios,
1987, p. 87), além de outras formas de corrupção, como o suborno e o falseamento de dados
para órgãos reguladores e ambientais. De fato, estudos e acontecimentos recentes mostram os
mecanismos de corrupção no mundo dos negócios privados. Nos últimos anos, por exemplo, o
polêmico site Wikileaks se tornou famoso ao expor documentos sigilosos que comprovavam
casos de corrupção e interesses escusos não apenas de governos, mas também de grandes
empresas.

Entendemos, assim, que a corrupção não apenas agrava as desigualdades sociais – econômicas,
políticas, culturais – da sociedade, como também as reproduz. Por esse motivo, a autora Célia
Regina Jardim Pinto (2011) nos convida a pensar na ideia da “legitimidade da hierarquia das
desigualdades” como princípio que baliza as relações sociais no Brasil e o terreno que possibilita
a emergência, a reprodução e o aprofundamento da corrupção (Pinto, 2011, p. 14).

Se considerarmos a corrupção a partir dessa perspectiva, verificamos que os casos de corrupção


são transversais à história do Brasil. Como explica Pedro Cavalcanti (1991), a história da
corrupção no Brasil tem raízes antigas e diz respeito à formação social e econômica do país.
Devemos considerar que cada período histórico tem uma definição específica de corrupção,
prevista na legislação e/ou nos costumes éticos e morais de um determinado contexto. No
entanto, a percepção que a sociedade brasileira tem da corrupção como um mal “de origem”,
assim como sua longa história em diferentes momentos políticos do país, leva à pergunta:
somos mais corruptos que outros povos? Para evitarmos naturalizar a corrupção – isto é,
considerá-la, além de natural, um problema insolúvel – é importante não cairmos nas armadilhas
que essa pergunta nos coloca. Por esse motivo, consideramos mais relevante discutir as
questões de fundo que explicam as características históricas do desenvolvimento do nosso
Estado e da nossa sociedade, com destaque para as marcas coloniais e escravocratas, que de
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certa forma se prolongam no presente, sobretudo se consideramos o papel subordinado do


Brasil no mercado mundial e o distanciamento do poder político com a real representação dos
interesses da nossa população (Conti; Alves, 2019).

Siga em Frente...

O fenômeno social da corrupção no Brasil


Os clássicos do pensamento social brasileiro nos fornecem diferentes perspectivas para
entendermos a formação do Estado no Brasil, portanto, também da organização do poder
político marcado pela corrupção. A perspectiva econômica, por exemplo, utilizada pelo
pesquisador Caio Prado Jr. (1907-1990) tentou explicar a formação do Estado brasileiro com
base na noção de colônia de exploração – em sua interpretação, responsável pelas nossas raízes
do subdesenvolvimento, que se prolongam até hoje – relativa à função que o Brasil assumiu no
mercado mundial de 1500 a 1822. Segundo o historiador, o Brasil nasceu para fornecer matérias-
primas e trabalho barato – de nativos e negros escravizados – para a metrópole, Portugal, e para
potências coloniais como a Inglaterra. As riquezas naturais – principalmente metais – e aquela
produzida no país sempre foram “drenadas” para fora. Por esse motivo, historiadores e
sociólogos que reforçaram a interpretação de Prado Jr. destacaram fontes daqueles que
questionaram o domínio da metrópole, como prova e denúncia da “rapina” como princípio de
funcionamento do poder político e da sociedade no Brasil.

Esse traço colonial e escravocrata modelou a economia e principalmente a natureza do poder


político nas colônias da América Latina – ou seja, o Estado deveria estar ao seu serviço.
Sobretudo para a historiografia que enfatizou um sentido (exploratório) da colonização, a região
foi considerada um território onde os colonizadores e os entes privados das metrópoles que
quisessem investir na aventura de colonizar tinham grandes possibilidades de conseguir lucro,
sem limites e de maneira rápida, contra os interesses mais gerais da população do território e da
natureza.

Nesse sentido, a sociologia, a partir dos anos 1960 e 1970, tendeu a reiterar a intepretação de
Prado Jr. Como diversos estudos afirmaram – tal como Fernandes (1973) –, trata-se de pensar
uma formação histórica que assume a concentração de poder político e econômico como seu
traço principal. Além disso, o próprio processo de modernização da sociedade brasileira também
fez com que os padrões corruptos que já existiam nas metrópoles fossem transportados e
potencializados nas colônias (Cavalcanti, 1991).

Um exemplo de como o sistema escravocrata, que construiu os jogos de poder que fundaram o
país, é marcadamente corrupto é o tráfico negreiro. Nesse sentido, mais do que imoral – mesmo
nos debates da época, a elite escravocrata o admitia como um “mal necessário” –, se
consideramos a corrupção a partir da perspectiva da infração de leis, o tráfico negreiro era uma
prática ilegal e exercida impunemente pela elite do país durante décadas após a sua
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independência. Foi a partir dessa prática ilegal – tanto para leis e tratados internacionais quanto
para leis nacionais – que mais de um milhão de africanos escravizados foram trazidos a um
Brasil já independente, para servirem aos interesses econômicos de uma elite escravocrata que
não apenas não pagaria por esse crime, mas também compunha câmaras e poderes políticos
que determinavam sua própria impunidade. Ao mesmo tempo, a partir desse crime, essa
pequena elite política e econômica que lucrava com a escravidão consolidava a estrutura
desigual e injusta do país (Cavalcanti, 1991, p. 33-34).

Outra interpretação clássica na sociologia, que nos ajuda a entender as relações entre corrupção
e história nacional, está em uma perspectiva culturalista, que enfatiza como os valores, os
costumes e a cultura herdados da sociedade portuguesa, que prevaleceram na formação
histórica do país, são determinantes para se explicar esse traço do funcionamento de poder
político no Brasil. O debate evidencia como esses valores culturais privilegiam o caráter privado e
os interesses particulares e individuais em detrimento do público e do coletivo. A explicação da
enraizada corrupção no Estado brasileiro é feita, assim, a partir de chaves de interpretação como
a tradição clientelista (prática eleitoreira), o patrimonialismo (a fusão de interesse privado e
público) e o nepotismo (favoritismo de parentes).

O pesquisador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em 1936 escreveu uma obra de


referência para entendermos as “raízes” desses traços de comportamento na política brasileira
que dificultam a separação do que é público e privado (Holanda, 2007). O autor faz alusão ao
“personalismo exagerado” como marca da cultura dos povos ibéricos, entre os quais estão os
portugueses, o que ajuda a entender as características de funcionamento das nossas
instituições movidas pela “desorganização”, “falta de espírito de solidariedade”, “individualismo” e
manutenção de “privilégios e hierarquias”. Para Holanda, o patrimonialismo – visão que
resguarda o próprio patrimônio privado – é a marca da gestão política no país, herdada dos
portugueses. Desse modo, na interpretação de Holanda, o “homem cordial”, símbolo dessa lógica
herdada da colônia, transformaria o mundo público em uma projeção da vida privada. As
relações políticas, que dependem do respeito à esfera pública, são obstaculizadas pelas relações
pessoais, nas quais interesses e afetos pessoais moldariam (ou burlariam) a lei sempre que
conveniente (Conti; Alves, 2019).

Em outra interpretação clássica, Raimundo Faoro (1925-2003), em seu Os donos do poder


(1958), buscou explicar os cenários de disputa política no Brasil e a reprodução da concentração
de poder (econômico e político) em determinadas famílias/grupos empresariais. Para o autor, é
possível falar de um “Estado patrimonial-estamental no Brasil”, no qual os interesses privados de
grupos poderosos totalmente desconectados da maioria da população prevalecem, em
detrimento de sua função pública. Para o autor, essa questão se mantém mesmo após
proclamada a República (1889) e só começa a ser modificada nos anos 1930, com a campanha
de nacionalização de Getúlio Vargas.

O mesmo ocorreu durante a Ditadura Militar (1964-1985). A negação do direito de participação e


controle do exercício do poder político pelos cidadãos desse regime interditou qualquer
discussão acerca do tema da corrupção, já que o poder militar deveria ser considerado
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incontestavelmente como o mais isento de corrupção. Em qualquer regime de exceção em que a


imprensa e os meios de comunicação passam a ser controlados pela censura prévia – e aqueles
que a desafiam, correm risco de vida – é esperado que a sociedade não debata ou divulgue
escândalos de corrupção. Nesse período, por exemplo, um dos casos de corrupção mais
escandalosos, da instituição de caridade gerida pelos militares, Capemi, no Rio de Janeiro, foi
resolvido com assassinatos (Cavalcanti, 1991, p. 107).

A instituição do regime democrático, com a Constituição de 1988 (Brasil, 1988) e a afirmação da


garantia da participação cidadã, abriu espaço para que essa discussão se tornasse pública e
para que os mecanismos de controle do poder fossem aplicados.

O grande mal relacionado à forma espetacularizada com a qual se discute o problema da


corrupção no Brasil é o de tirar o foco do que está realmente em jogo na corrupção: os malefícios
ao bem comum. É por esse motivo que José Arthur Rios (1987) descreve a corrupção como uma
grande “fraude social”; uma “forma de espoliação do povo comum”; uma “fonte de crime e
extorsões” (Rios, 1987, p. 88).

Alguns estudiosos da corrupção também destacam a impossibilidade de cálculo desse


fenômeno ao afetar o “equilíbrio de uma sociedade” (Rios, 1987, p. 87 e 96). São prejuízos
incalculáveis, refletidos principalmente no “afastamento da política”, a banalização dessa esfera
tão importante da vida em sociedade, justamente por ser a única dimensão capaz de resguardar
os interesses gerais e coletivos em detrimento dos interesses privados.

Qual é o efeito final desse processo de criminalização da política? Ora, uma maior concentração
de poder, que contradiz os princípios democráticos e apenas propicia a reprodução e o
aprofundamento da corrupção! Por esse motivo, lembremo-nos de que “a banalização da
corrupção não é a mesma coisa que a generalização da corrupção” (Pinto, 2011, p. 10). Com
essa expressão, a cientista política Céli Regina Pinto quer chamar a atenção ao fato de que,
apesar dessa marca negativa, o Estado brasileiro não pode ser reduzido apenas à corrupção,
uma vez que “outras formas de governar habitam a política brasileira”, respeitosas e
comprometidas com o público (Pinto, 2011, p. 10).

Nosso desafio, enquanto sociedade, é saber discernir a atuação do poder público em prol do bem
público, para garantir que o poder político sirva aos interesses gerais da população, e não apenas
à sua parcela privilegiada.

O combate à corrupção por vias democráticas nos ensina que esse problema não é um mal
crônico; ele pode ser combatido e reduzido (Filho; Kuntz, 2008). No entanto, trata-se de um
processo constante de exercício da cidadania que de forma alguma pode significar
“criminalização da política”, difamação pouco comprometida com a veracidade das acusações,
censura. Alternativamente, há um rol de ações muito mais efetivas para o controle da corrupção,
como: a pressão popular pela transparência do funcionamento das instituições públicas; a
informação consciente dos interesses por detrás das decisões políticas; a recusa da impunidade
dos infratores (após serem condenados seguindo o princípio do devido processo legal e da
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imparcialidade); a busca por canais de informação menos comprometidos com o poder político;
a existência de uma mídia e imprensa livres, transparentes e politicamente independentes; a
possibilidade de que a população tenha acesso a uma prestação de contas (accountability); a
alternância de poder. Todas essas iniciativas deveriam ser seriamente discutidas e aplicadas no
Brasil.

Vamos Exercitar?

A situação-problema desta aula levanta uma reflexão a respeito da forma como a corrupção vem
sendo discutida no Brasil. A questão central é se essa forma traz ao conhecimento da população
brasileira os problemas mais estruturais – econômicos e políticos – implicados. Para a reflexão,
ressaltou-se a necessidade de entendimento da relação do público e do privado na noção de
corrupção, que remete à necessidade de entender se a corrupção existe apenas no setor público
ou se podemos analisá-la também no setor privado e, particularmente, na imbricação dessas
duas esferas.

Para uma análise estrutural, é necessário o entendimento da relação implícita do público e do


privado na noção de corrupção. O senso comum tende a apresentar o problema da corrupção
como algo que existe apenas no setor público, defendendo a falsa tese de que o setor privado
seria mais protegido desse mal que assola a maior parte das sociedades do globo.

Basta uma pesquisa muito básica nos livros e estudos científicos na última década para
percebermos como o setor privado está profundamente envolvido no sistema de corrupção.
Crimes como a fraude nos balanços das empresas para conseguir obter melhor preço na venda
de ações, o uso privilegiado de informações para se beneficiar nos negócios, o suborno e o
pagamento de propinas a agentes públicos, a fraude ao licenciamento ambiental e as operações
ilícitas que danificam o meio ambiente, a fraude com relação à obediência da legislação de
proteção à saúde dos trabalhadores, as falsas falências de empresas, que têm o mero propósito
de desobrigá-las do pagamento de dívidas aos trabalhadores, aos fornecedores e ao erário
público, dentre muitos outros exemplos, evidenciam o enorme poder de setores econômicos –
sobretudo quando representados por grandes corporações e empresas transnacionais – e sua
interação com o modo de agir do Estado (Conti; Alves, 2019).

A questão de os políticos serem comissários do poder econômico e não exercerem a sua função
de representar os cidadãos e seus interesses gerais é o problema de fundo que não podemos
negligenciar. Além da importante questão do interesse público, esse debate envolve a análise de
efeitos mais amplos relativos ao exercício do poder político em uma sociedade, sobretudo
remetendo ao significado de democracia (Johnston, 2001, p. 23).

Cabe, portanto, a discussão das questões estruturais da corrupção para que possamos ter
melhores parâmetros para discutir os “remédios” apresentados para seu combate. É claro, longe
dessa discussão nos afastar da política – como se pensar o coletivo e a vida em sociedade
fosse algo menor, por ser tão suscetível à corrupção –, vamos retomar o sentido da cidadania e
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da participação democrática como o principal antídoto para combater a corrupção (Conti; Alves,
2019).

Saiba mais

Aprofundando conhecimentos

A obra escrita de Leandro Mitidieri Figueiredo, Corrupção e desigualdade: combate à corrupção


efetivo, republicano e democrático como redutor da desigualdade social (2020), disponível em
sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama do fenômeno da corrupção e sua relação
com a desigualdade.
São abordadas a cultura, a lei, a relação de custo e benefício da prática de corrupção e
experimentos de psicologia da desonestidade. Mas, fundamentalmente, a obra explora a tese de
que a corrupção é concentradora de renda, minando as defesas do Estado e neutralizando seu
poder de gerar distribuição de riqueza e justiça social.
A corrupção é um dos fatores causadores da desigualdade social, mas a desigualdade social é
um dos fatores que favorecem a corrupção. Nestes termos, o enfrentamento à corrupção é uma
política realizadora do objetivo fundamental constitucional de redução da desigualdade. Contudo,
não é qualquer combate à corrupção que cumpre esse papel de redutor da desigualdade social, e
sim o enfrentamento à corrupção efetivo, republicano e democrático.

Impostômetro e sonegômetro
Duas medidas distintas que nos permitem quantificar e refletir a respeito da corrupção e seus
efeitos no país são o impostômetro e o sonegômetro. Enquanto a primeira busca simular o
cálculo, em tempo real, dos impostos pagos pela população – o que permite pensarmos,
portanto, no dinheiro arrecadado pelo Estado e que deveria ser integralmente revertido em
políticas para o bem comum –, a segunda aponta para a quantidade de tributos sonegados e
para os grandes devedores de impostos, valor que, uma vez mais, poderia ser revertido em obras
e ações que favoreceriam o bem público. Conheça os sites das iniciativas, indicados a seguir:
• ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO

• SINDICATO NACIONAL DOS PROCURADORES DA FAZENDA NACIONAL

A cultura da impunidade e a ditadura

Na palestra indicada a seguir, entre os minutos 9 e 18 o historiador José Alves de Freitas Neto
expõe os efeitos da “não condenação das mazelas do regime militar” no período de transição
democrática. O historiador explica “a impunidade que se perpetua”, tanto em relação aos graves
crimes contra a humanidade cometidos nesse período – como a tortura, assassinatos em
massa, entre outros – quanto também aos prejuízos aos cofres públicos. A “interdição de falar
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das mazelas do regime ditatorial” e o “esquecimento e silenciamento” impostos estão


diretamente ligados à falsa ideia de que regimes militares e autoritários estão isentos de
corrupção.

FOI para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário Mazzilli.
Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).

Referências

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Aula 3
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Violência e punitivismo

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Esta aula vai tratar de um importante dilema da sociedade moderna: as lógicas
de punição que também se expressam nos crimes contra a humanidade. A partir dos
ensinamentos do filósofo Michel Foucault e de autores que o atualizaram, trataremos das lógicas
punitivistas na sociedade moderna, sua relação com o saber-poder e sua plena aplicação na
contemporaneidade.

Para abrir essa reflexão, vamos pensar no populismo penal midiático. Veja esses exemplos de
manchetes de violência sensacionalista: "Ataque brutal: assassinato chocante em área
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residencial!", "Violência sem limites: jovem espancado em festa de rua", "Assassinato cruel: corpo
encontrado com sinais de tortura!", “Roubos violentos: onda de crimes assusta moradores!",
“Série de sequestros: pânico se espalha na cidade!".

Essas manchetes sensacionalistas muitas vezes se concentram na violência extrema para atrair
a atenção do público, podendo ser exageradas ou manipuladas para aumentar o
sensacionalismo e o impacto emocional, sem necessariamente fornecer toda a informação
contextual ou relevante sobre os incidentes.

Devemos nos perguntar: o que significa esse populismo penal midiático? Quais são os seus
efeitos emocionais e sociais? Quem são os agentes envolvidos na veiculação desse populismo
midiático penal?

Esse fenômeno social consiste em promover um conjunto de práticas (discursos, propostas)


políticas elaboradas para a massa da população, com veiculação midiática para implementar
políticas punitivas mais severas, explorando casos de criminalidade chocantes para inflar o medo
da população em relação à criminalidade. Trata-se ainda de uma exposição exagerada de prisões
e acusações policiais, sem provas, contrários aos princípios de imparcialidade e neutralidade do
jornalismo, e estabelecendo, no lugar, juízos de valor, com postura agressiva e o uso de palavras
de forte calão.

Neste momento, vamos explorar as entranhas do punitivismo e da violência, meandros de um


sistema que molda nossa sociedade, para descobrir como a compreensão destes temas pode
transformar nossa perspectiva de interpretação da realidade, de justiça e do comportamento
humano. O conhecimento é a chave para qualquer forma de mudança e as reflexões oportunizam
a busca de alternativas para construir um mundo mais justo e pacífico e, por isso, o estudo
destes temas é o primeiro passo para transformar nossa realidade.

Vamos Começar!

“Normalidade” e vigilância
Os períodos mais obscuros e mortíferos da humanidade explicitam, na verdade, a sistemática
aplicação de uma lógica punitiva em um contexto ditatorial. No entanto, se pararmos para refletir,
percebemos que essas lógicas também podem estar presentes no funcionamento das
sociedades em um Estado democrático e até mesmo na nossa cotidianidade, perpassada por
instituições como a escola, os hospitais e as prisões.

É necessário um tratamento aprofundado para entendermos por que a população adere


irrefletidamente ao punitivismo, entendido como uma lógica de punição, ou seja, a ideia de que a
punição, o castigo, a pena é a única e mais eficaz solução. Sem considerar o papel da mídia de
construir essa visão única para olhar para o problema da violência – silenciando outras
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violências em nível macro, como a do sistema econômico ou da ação do próprio Estado –, é


impossível entender essa questão.

Michel Foucault (1926-1984) nos ajudar a refletir a respeito desse dilema antigo e atual ao
explicar que o punitivismo é também uma forma de governar do poder, que passa pela
incorporação da lógica de punição pelos sujeitos. O autor é uma referência para reconhecermos
o caráter brutal da repressão e do controle no funcionamento das sociedades modernas que,
paralelamente à afirmação dos direitos humanos, colocaram no centro de sua organização “a
vontade de punir”, as técnicas de punição e vigilância permanentes, legitimadas por saberes que
evoluíram para um tipo específico de práticas disciplinares, amplamente disseminadas e, mais
do que tudo, internalizadas pelos próprios sujeitos.

O modelo arquitetônico de prisão de Jeremy Benthan do Panopticon (pan significa tudo e


optikós, visão) é utilizado por Foucault para explicar a especificidade do que chama “poder
disciplinar”, uma vez que retrata concretamente a operacionalização da lógica punitiva
internalizada pelos próprios indivíduos e pensada cientificamente (Conti; Alves, 2019). Segundo
Foucault,

O Panóptico de Bentham é a figura arquitetural dessa composição. O princípio é conhecido: na


periferia uma construção em anel; no centro, uma torre; essa é vazada de largas janelas que se
abrem sobre a face interna do anel; a construção periférica é dividida em celas, cada uma
atravessando toda a espessura da construção; elas têm duas janelas, uma para o interior,
correspondendo às janelas da torre; outra, que dá para o exterior, permite que a luz atravesse a
cela de lado a lado. Basta então colocar um vigia na torre central, e em cada cela trancar um
louco, um doente, um condenado, um operário ou um escolar. Pelo efeito da contraluz, pode-se
perceber da torre, recortando-se exatamente sobre a claridade, as pequenas silhuetas cativas
nas celas da periferia. Tantas jaulas, tantos pequenos teatros, em que cada ator está sozinho,
perfeitamente individualizado e constantemente visível (Foucault, 1997, p. 166).

O segredo da técnica de vigilância contínua é que o condenado não sabe se de fato está sendo
observado, já que existe apenas um vigia no centro da prisão para controlar todos os detentos.
Todavia, o simples fato de supostamente estar sob vigilância faz com que o detento internalize
essa norma e obedeça às regras de bom comportamento. No contato com essa disciplina,
reproduzida por instituições como as prisões, escolas, hospitais, nascem os “corpos dóceis”,
“obedientes” e “produtivos”: “uma sujeição real nasce mecanicamente de uma relação fictícia. De
modo que não é necessário recorrer à força para obrigar o condenado ao bom comportamento, o
louco à calma, o operário ao trabalho, o escolar à aplicação, o doente à observância de receitas”
(Foucault, 1997, p. 167).

Saber-poder: mecanismos de controle

A relação “poder-saber”, expressa em discursos científicos e no senso comum sobre a punição,


também tem um papel fundamental para a construção da verdade sobre o crime e para a
legitimação de sua punição pelas práticas disciplinares, que incluem a vigilância contínua. O
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filósofo Michael Foucault (1997) nos explica que esse saber construído é também uma forma de
controle político e social que se transforma em práticas generalizadas, atingindo determinados
grupos sociais, em particular os classificados como “anormais”: “loucos”, detentos,
homossexuais e prostitutas, dentre outros. Como exemplo podemos citar o discurso científico da
psiquiatria para classificar os “normais” e os “loucos”, estabelecendo práticas específicas, não
apenas para separar esses últimos da sociedade, mas também para puni-los quando infringiam
as regras de conduta nas instituições psiquiátricas. Lembremos que os hospitais psiquiátricos,
até pouco tempo atrás, utilizavam-se de práticas como a cadeira de choque, o açoite e as alas de
isolamento total, entre outras. Essas práticas eram consideradas pelo discurso psiquiátrico como
a única forma de curar as pessoas com problema psíquico. A questão é que essas pessoas, ao
contrário de serem curadas de forma humanizada e integrada com os familiares e a sociedade,
viviam e morriam nesses hospitais. Como estavam isoladas, a sociedade simplesmente não via,
ou não queria enxergar, o que ocorria dentro dessas instituições e como o discurso científico da
psiquiatria não correspondia aos fins de, de fato, “curar” esses pacientes (Conti; Alves, 2019).

O campo do saber está, portanto, intrinsecamente ligado ao exercício do poder por se basear em
discursos científicos para legitimar as suas práticas. Lembremos que essa relação poder-saber
também expressa relações de desequilíbrios entre os sexos. Baseado nos ensinamentos de
Foucault, o estudo de Silva (1985) mostra como o saber da legislação penal (que regulamenta a
sexualidade da mulher), a doutrina penal (que garante a aplicação dessas normas) e a
jurisprudência presente em toda a dogmática penal conseguem adaptar definições de
normalidade da conduta da mulher estabelecidas pelas estruturas de poder dominantes ao corpo
da mulher. Com base nessas definições de normalidade da conduta da mulher construídas pelo
poder patriarcal – que considera a mulher inferior e submissa ao homem – muitas sentenças
proferidas pelos tribunais penais absolvem os homens que cometeram crimes de violência e
abuso sexual contra as mulheres. Segundo a autora, o Direito Penal reproduz as relações
assimétricas entre os sexos na sociedade brasileira também com base em:

“elementos teóricos” ou recursos teóricos que reforçam, no nível do conhecimento e da


racionalidade, as técnicas de dominação [da mulher]. É sob este prisma que se analisaram o
discurso do poder judiciário, a partir da lei, para provar que, pelo poder de “normalização”,
instalou-se no direito penal, um conjunto de práticas, em forma de técnicas de controle físico-
corporal, da sexualidade feminina (Silva, 1985, p. 111).

Siga em Frente...

Cultura do medo
Carvalho (2010) explica que, desde as últimas décadas, o Brasil pode ser considerado, para todos
os efeitos, um país que segue a mesma tendência punitivista presente no cenário internacional,
em detrimento do direito à vida. O encarceramento em massa é prova disso. O autor discute
como, em um contexto de crise, incerteza e insegurança, a “cultura do medo”, do “ódio”, da
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“tolerância zero”, enfim, as lógicas punitivistas, fazem parte do imaginário das pessoas e,
sobretudo, da forma de governar dos Estados. A mídia é um vetor de enorme importância dessa
“racionalidade”. Não promove uma reflexão que evite o despertar de um sentimento de
insegurança, de impunidade, que acompanha, portanto, a ideia da punição, da vingança e da
privação de liberdade.

O maior problema a respeito dessa questão, como ressaltam diversos estudiosos, é que o
“clamor punitivista” caminha ao lado da violação de garantias e direitos – sobretudo dos direitos
humanos, do direito à vida – e do abuso de poder. O que se está produzindo, no fundo, são
sociedades mais violentas. Autores como Loïc Wacquant mostram como os países que mais
têm encarcerados no mundo, como os EUA, não são aqueles que têm menores índices de
criminalidade. Conforme explica o autor, o aprisionamento em massa reflete o funcionamento da
“tolerância zero” contra os grupos mais vulneráveis da sociedade: os de baixa renda, os negros e
os imigrantes, daí a sua famosa expressão “prisões da miséria” e “criminalização da pobreza”
(Conti; Alves, 2019).

Nesta temática, levantamos o tema do populismo penal midiático. Os especialistas em questões


penais veem a mídia brasileira como um Quarto Poder, uma força influente logo abaixo dos
Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. No entanto, a mídia tende a focar exageradamente o
crime, promovendo o chamado populismo penal midiático, cuja punição por encarceramento é a
resposta primária. Essa abordagem, no entanto, não visa à reabilitação do infrator, mas serve
apenas como um meio de vingança contra o delinquente.

Neste sentido, o trabalho de Luis Felipe Delgado Faleiros (2022) buscou responder ao seguinte
questionamento: “A mídia manipula a população, que acaba não buscando a verdade, enraizando
o fascínio pelo crime e sua punição?”. Dentre os resultados obtidos, o autor diz que:

[…] a mídia tende a ultrapassar o seu papel e, assim, acaba por influenciar a sociedade que por
sua vez anseia que o Poder Legislativo exerça o Direito Penal. Assim como não é diferente sua
influência no tribunal do júri, vez que restou provado por meio de casos fáticos aqui
apresentados, que crimes de grande repercussão da mídia tendem a ser condenados, assim com
o próprio juiz, que tende a decidir por penas mais rígidas (Faleiros, 2022).

Diante disso, as estratégias possíveis de serem desenvolvidas para combater o punitivismo


requerem uma abordagem multifacetada e sistêmica, que deve envolver a educação e a
conscientização em relação aos sistemas de justiça, aos efeitos das punições severas e à
complexidade do comportamento humano; à busca de reformas no sistema de Justiça que
priorizem a reabilitação e a reintegração em vez do simples encarceramento; além da ênfase na
prevenção, com programas que abordem as causas subjacentes da criminalidade, como a
combinação entre a falta de acesso à educação e as múltiplas formas de desigualdades.

A mudança na narrativa midiática também é necessária, com coberturas mais equilibradas e


contextualizadas, evitando sensacionalismo e fornecendo informações mais abrangentes a
respeito dos fatores por trás do crime, alicerçadas em evidências – dados e pesquisas, evitando
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decisões puramente emocionais ou políticas, além de reflexões cada vez mais aprofundadas
acerca das dinâmicas de organização da realidade social brasileira.

Vamos Exercitar?

Vamos exercitar o conhecimento sobre a lógica punitiva na realidade social voltando a refletir a
respeito do populismo penal midiático, exemplificados com manchetes de violência
sensacionalista. Quais são os efeitos emocionais e sociais? Quem são os agentes envolvidos na
veiculação desse populismo midiático penal?

Tais veiculações da mídia, além de agirem contra os princípios jornalísticos de factibilidade das
informações, violam a presunção da inocência (Silva; Oliveira, 2021), princípio básico do direito
internacional que garante que todas as pessoas devem ser consideras inocentes até que haja
sentença penal definitiva. Contrariamente, esta mídia age construindo narrativas chocantes e
sensacionalistas, consideram suspeitos como culpados antes mesmo de qualquer processo
investigativo, expõem identidades de forma invasiva e abusiva, transformando a violência em
espetáculo, explorando a dor alheia e em desrespeito aos processos judiciais, agredindo pessoas
verbalmente ou criminalmente, fazendo muitas vezes “humor” com base na violência.

Os agentes envolvidos na veiculação desse populismo midiático penal são elites sociais que
certamente não vivem a realidade das pessoas pobres e periféricas cuja imagem é explorada. A
preocupação de imparcialidade perante a opinião pública não existe; essa mídia noticia apenas
fatos compatíveis com os interesses privados de quem a controla. E assim, cria-se uma histeria
coletiva que explora a fragilidade humana com o medo da criminalidade, estimulando a sensação
de insegurança e criando um terreno fértil com a esperança de soluções míticas e milagrosas,
que prometem acabar com esse problema com a promessa de mais violência.

Atrelado a isso, há a falaciosa associação da criminalidade à pobreza, como se fosse intrínseco


ser pobre, periférico e, automaticamente, criminoso – o que revela, em realidade, o interesse
proposital de construir estereótipos perversos que moldam a opinião das massas e desinforma
sobre mecanismos de estruturação social – situação agravada com o marcador de raça. A
antropóloga Juliana Borges (2020) alerta:

Se pensarmos na realidade nas periferias e nas favelas hoje, e nas constantes violações de
direitos humanos presentes em denúncias de ações de braço indispensável da justiça criminal,
que é a polícia, inclusive sendo celebrada em filmes de grande sucesso nacional, podemos
afirmar que a tortura permanece como via, não ligada diretamente ao Judiciário, mas como
prática constante do aparato de vigilância e repressão. A prática ainda é, infelizmente, recorrente
no país e, a meu ver, mantém os fortes laços com o processo de formação do Estado brasileiro
(Borges, 2020, p. 37).

São recursos mobilizados – de violência e de manipulação – para manter interesses elitistas em


funcionamento, com uma população amedrontada e domesticada.
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Saiba mais

Aprofundando conhecimentos
A obra organizada por Maura Regina Modena, Conceitos e formas de violência (2016), disponível
em sua biblioteca virtual, fornece um conjunto de ensaios elaborados por mestrandos do
Programa de Pós-Graduação em Filosofia, na Universidade de Caxias do Sul. Estes ensaios
originaram-se da disciplina do professor Jayme Paviani, sob o título de “Conceitos e formas de
violência”.

Exemplificando
Repare quantas vezes você escuta nos jornais e nos programas televisivos notícias de crimes e
da ação da polícia. Compare com o tempo dedicado a discutir projetos para construir uma
sociedade com trabalho digno para todos, com acesso universal à educação de qualidade, à
cultura, à moradia, ou mesmo para revitalizar os espaços públicos das cidades para que as
pessoas andem nas ruas e frequentem praças e parques, evitando, assim, a propagação da
violência.

Referências

BORGES, J. Encarceramento em massa. São Paulo: Sueli Carneiro; Jandaíra, 2020.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

CARVALHO, S. de. O papel dos atores do sistema penal na Era do Punitivismo: o exemplo
privilegiado da aplicação da pena. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.

FOUCAULT, M. Dits et écrits. Paris: Gallimard, 1994.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1997.

FALEIROS, L. F. D. A mídia e o populismo penal midiático: influência na sociedade. Monografia


(Graduação em Direito) – Mackenzie, Higienópolis, São Paulo. Disponível em:
https://dspace.mackenzie.br/items/15a28f99-fdb2-4b10-a3cc-83e6f1d91736. Acesso em: 30
out. 2023.

MODENA, M. R. (org.). Conceitos e formas de violência. Caxias do Sul: Educs, 2016. Disponível
em:: https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/187833/pdf/0?
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code=/XjblT4N0NIY4tM24Om8nDOcrfjbRfFsGJ+ZZ+9oYmmdxxZOR4WZI3PIkS9F22+AX08ex2RD
wr1cxlIVCUL+oQ==. Acesso em: 04 abr. 2024.

SILVA, I. I. da. Direito ou punição? Representação da sexualidade feminina no Direito Penal. Porto
Alegre: Editora Movimento, 1985.

SILVA, G. F. R. G.; OLIVEIRA, N. A. de; DIAS, E. F. D. Tratados Internacionais e o Princípio da


Presunção da Inocência: Uma reflexão sobre suas Influências no ordenamento jurídico brasileiro.
Revista Jurídica Direito, Sociedade e Justiça, v. 5, n. 7, 2021. Disponível em:
https://periodicosonline.uems.br/index.php/RJDSJ/article/download/3083/2393/10402#:~:text=
O%20princ%C3%ADpio%20de%20presun%C3%A7%C3%A3o%20de,penal%20definitiva%20atestan
do%20sua%20culpa. Acesso em: 30 out. 2023.

WACQUANT, L. As prisões da miséria. Rio de Janeiro: Zahar, 2011.

Aula 4
Fanatismo e Intolerância

Fanatismo e intolerância

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Nesse momento de nosso estudo, já deve estar claro que a pluralidade e a
diversidade constituem atributos importantes para a democracia e a sociedade brasileiras.
Assim, seria enriquecedor para nosso país que testemunhássemos o florescimento de diferentes
modos de vida e de pensar em nosso território, não é mesmo?
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Entretanto, ao defendermos a multiplicidade de pontos de vista, é interessante nos


questionarmos se qualquer opinião, ideologia ou perspectiva encontraria proteção na tão
valorizada diversidade. E se, eventualmente, uma compreensão de mundo pregasse exatamente
a redução da pluralidade? Devemos considerá-la apenas mais um entendimento diverso, em linha
com a democracia plural, que deve, portanto, ser respeitado? Ou existiriam fatores específicos
nesse posicionamento que excluem essa concepção de mundo daquilo que valorizamos
enquanto sociedade diversificada? Em suma: a intolerância deve ser tolerada? Se não toleramos
algo intolerante, estamos sendo, nós também, intolerantes?

Veja como essas reflexões têm aplicabilidade imediata em nossa sociedade contemporânea,
sendo fácil identificarmos manifestações extremas, muitas vezes violentas, que se chocam com
a diversidade já existente em nosso país. Um caso emblemático nesse sentido foi o ataque a um
refugiado sírio, ocorrido em 2017, gravado em vídeo e tema da reportagem citada a seguir:

As imagens mostram um homem armado com dois pedaços de madeira agredindo verbalmente
Mohamed Ali, que vende esfirras e doces sírios no bairro. […] Nas imagens, o homem não
identificado grita “Saia do meu país!”. “Eu sou brasileiro e estou vendo meu país ser invadido por
esses homens-bomba miseráveis que mataram crianças, adolescentes. São miseráveis”, diz o
homem. “Vamos expulsar ele!” (Uol, 2017).

Poderíamos considerar a ameaça a um estrangeiro que fugiu de uma guerra sangrenta e está
trabalhando como autônomo em nosso país como algo normal dentro da dinâmica democrática
ou essa manifestação traduz um movimento estranho àquilo que consideramos como sociedade
plural? E quanto às outras formas de intolerância, como racismo, homofobia ou preconceito
religioso?

Sabemos que existem profundas diferenças entre o conceito de tolerância e a ideia de que tudo é
permitido, fato que nos obriga a manter um olhar atento a certas manifestações e movimentos
da atualidade, sobretudo em um país que tem na diversidade uma característica marcante de sua
história e de seu povo.

Vamos Começar!

Falta da alteridade: prejuízo para a humanidade


Alteridade é um conceito fundamental em filosofia e ética que se refere à capacidade de se
colocar no lugar do outro, de compreender e respeitar a perspectiva, a cultura, as crenças e os
valores de outras pessoas, mesmo que sejam diferentes dos seus. Trata-se da consideração e do
reconhecimento da diversidade e da individualidade dos outros, sem julgamentos preconcebidos.
Essa noção enfatiza a importância de reconhecer a dignidade e os direitos dos outros,
independentemente das diferenças, e promover relações baseadas na empatia, na compreensão
mútua e no respeito pelas diferenças culturais, sociais e individuais. A alteridade desafia a ideia
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de universalismo, reconhecendo a singularidade e a pluralidade das experiências humanas. Em


resumo, trata-se de uma atitude de abertura e consideração para com o próximo, promovendo a
convivência harmoniosa e o entendimento entre diferentes indivíduos e grupos na sociedade –
não exercitá-la é um prejuízo à humanidade.

Agora vamos fazer um exercício de imaginação. Pense em um homem alemão. Agora, o que vem
a sua cabeça se nos referirmos a uma mulher japonesa? E quanto a um garoto da Nigéria?
Provavelmente você não teve muitas dificuldades para estabelecer certas características físicas
a tais indivíduos, como a cor da pele e do cabelo. Obviamente, existem cidadãos desses países
que diferem da fisionomia imaginada, entretanto, o exercício mental nos conduz a certos
aspectos mais frequentes desses povos. Agora repita o exercício em relação a um homem
brasileiro – e, se possível, compare essas características com aquelas imaginadas e com as
características de seus familiares e amigos. Existe uma chance de que você tenha hesitado ao
tentar definir as características de nosso povo, ou mesmo que esses elementos sejam diferentes
daqueles pensados pelas outras pessoas.

Isso acontece porque a diversidade é um componente marcante de nossa população. Formados


historicamente por um contingente de povos nativos, imigrantes europeus e descendentes de
africanos, entre outros, a miscigenação é uma característica inegável de nossa população – e
impressa em nossas mais diversas características físicas (Conti; Alves, 2019).
Semelhantemente, essa formação plural forneceu à nossa sociedade inúmeras tradições,
culturas e hábitos que convivem – não sem conflitos – há séculos ao lado uns dos outros.

Nesse contexto, seria natural que as diferenças fossem compreendidas como algo autêntico e
genuíno da sociedade brasileira, manifestando suas particularidades de modo equilibrado e em
um ambiente de tolerância, não é mesmo? Porém, não é isso que se observa na prática; uma vez
que – infelizmente – não é difícil nos depararmos, desde os primórdios de nossa sociedade até
os dias de hoje, com as mais variadas formas de intolerância e discriminação em nosso
cotidiano.

Diante desse cenário, a conclusão é de que a intolerância ainda é algo presente na realidade
cotidiana de nosso país. Quando essa intolerância é praticada de modo intenso, em que
aparentemente não há limites para a afirmação de um ideal ou de uma convicção, em que uma
causa ou doutrina é perseguida ainda que em contrariedade a evidências científicas – revelando
uma adesão fervorosa e desmedida a uma convicção – e em total desprezo às outras maneiras
de se analisar o tema, podemos identificar o fanatismo nesse comportamento.

O fanatismo pode ser exercido nas mais diversas áreas da vida humana, seja na paixão a um
time de futebol ou, em uma perspectiva mais pertinente aos estudos aqui empreendidos, por
meio da adesão a movimentos sociais mais amplos, envolvendo componentes mais abrangentes
da vida em comunidade, como política e religião. Se é verdade que as motivações que estimulam
o comportamento fanático são inúmeras, e as formas pelas quais essa conduta se manifesta
são também muito variadas, e existem alguns fatores levantados pelos estudiosos do tema que
revelam, em linhas gerais, algumas tendências do fanatismo (Conti; Alves, 2019).
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Nesse sentido, constata-se a tendência de se distinguir as pessoas em categorias ou grupos,


muitas vezes em apenas duas classes opostas – adeptos de uma religião versus não adeptos
dessa religião; nacionais de um país versus não nacionais –, com o objetivo de reforçar nossas
necessidades ou aquilo em que acreditamos. Também nesses grupos observa-se a prática de
enaltecer as próprias características – ignorando críticas e vulnerabilidades aplicáveis a essa
conduta ou modo de pensar –, em um processo que eleva a rejeição em relação ao outro, àquele
que não faz parte dessa comunidade, visto, por vezes, como inimigo.

Um elemento importante nesse cenário é o desenvolvimento de histórias ou narrativas – da vida


de um líder, da formação de um Estado – que fortalecem os vínculos emocionais que
estabelecemos com as causas e ideias relatadas. Assim, criamos uma mentalidade coletiva
uniforme, compartilhando interesses e finalidades por meio de uma identidade social dentro do
grupo. Quando a afirmação dessa identidade social é intensa, corremos o risco de limitar nossa
percepção do mundo, enxergando apenas o que esse grupo expressa, ignorando outras
orientações presentes em nosso dia a dia e acentuando as características que nos vinculam a
esse grupo específico. Esse comportamento coletivo pode servir de incentivo para que as
pessoas assumam condutas que normalmente não teriam sozinhas, revelando a influência do
meio social sobre a ação individual, algo ainda mais forte se coordenado por um líder
carismático (Fernandes; Tanji, 2015).

Siga em Frente...

A defesa das liberdades individuais contra o fanatismo


Um dos campos da vida coletiva em que o fanatismo encontra terreno fértil para se desenvolver
é na conjunção entre a dinâmica política e a lógica religiosa. Se em tempos passados de nossa
história os poderes político e religioso estavam frequentemente concentrados em uma mesma
autoridade – o rei ou o imperador, por exemplo –, um marco histórico significativo para a
separação desses dois domínios da vida social se dá na eclosão da Revolução Francesa (1789).

Do ponto de vista individual – e em linha com a afirmação dos direitos civis e políticos dos
movimentos liberais do século XVIII –, afirmou-se a liberdade de crença, permitindo que cada
indivíduo professasse sua fé independentemente da religião adotada; nesse sentido, é exemplar
o artigo 10º da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789): “Ninguém pode ser
molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não
perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.” (Declaração…, 1789, [s. p.]). Em âmbito estatal,
essa separação se dá por meio da subordinação dos órgãos religiosos ao poder político,
aproximando a classe religiosa francesa do que hoje chamamos de funcionários públicos (Conti;
Alves, 2019).

Esse processo de afastamento da atuação política da condução da vida religiosa se


desenvolveria com mais intensidade a partir de então, até que chegássemos ao conceito de
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laicidade estatal, reconhecendo, em linhas gerais, a neutralidade do Estado em relação às


questões religiosas, a liberdade de religião e a pluralidade.

Adotada atualmente na grande maioria dos países do globo, a exemplo do Brasil, a laicidade
determina que não há uma religião oficial do Estado e permite que os cidadãos estejam livres – e
protegidos – para praticarem a religião que escolherem. Note que a laicidade, ao negar a
existência de uma fé estatal, não estabelece a proibição das manifestações religiosas, mas,
muito pelo contrário, autoriza a exteriorização de toda e qualquer crença religiosa, amparando-as
de modo igualitário.

Assim, é a laicidade do Estado brasileiro que estabelece fundamentos constitucionais para que
ninguém tenha seus direitos reduzidos sob justificativas religiosas, que possibilita que os
indivíduos disponham de total liberdade para exprimirem sua fé de modo pleno e salvaguardado
– tornando ilegais ofensas por parte tanto do Estado quanto de outros indivíduos ou órgãos da
sociedade civil – e que impede que órgãos estatais – poder judiciário, polícias, hospitais públicos
ou quaisquer que sejam – estabeleçam uma religião manifesta, sob risco de afetar a liberdade
religiosa e o tratamento igualitário aos cidadãos nacionais. Percebe-se, portanto, a centralidade
desse conceito para a manutenção da pluralidade da democracia de nosso país.

Sob tal entendimento, são variados os dilemas de nossa sociedade contemporânea que se
vinculam ao preceito de tolerância – ou intolerância – religiosa, incluindo situações que já se
encontram incorporadas em nosso dia a dia, mas que ganham destaque sob perspectivas mais
atentas sobre o tema. Nesse sentido, a presença frequente de oratórios dispostos em locais
públicos, construídos com verbas públicas e destinados a cultos específicos pode ser
polemizada, à luz do conceito de laicidade do Estado (Balan, 2019). Semelhantemente, a
autorização para o ensino religioso em escolas públicas na modalidade confessional – isto é, em
que se aprofunda o estudo de uma crença específica – poderia prejudicar a neutralidade do
Estado no campo religioso, uma vez que a fé ensinada em uma instituição pública estaria em
situação de privilégio frente às demais. Segundo Elcio Cecchetti, coordenador-geral do Fórum
Nacional Permanente de Ensino Religioso (Fonaper), a possibilidade do ensino confessional:

acaba beneficiando a religião católica, que tem uma estrutura de catequistas, editoras e meios de
comunicação capaz de atuar em todo o país. ‘As outras instituições saem em desvantagem. Fico
imaginando como uma instituição como a umbanda, que não tem editoria, não tem TV, não tem
estrutura. Como vai formar professores para dar aula nas escolas? Como as culturas indígenas
vão preparar professores? Estamos selando uma desigualdade de partida (Moreno, 2017, [s. p.]).

Em âmbito político, também, podemos questionar a manutenção ou não da laicidade estatal, e o


consequente impacto sobre a tolerância religiosa, se mantivermos o foco na formação de grupos
parlamentares religiosos, que buscam em suas crenças os fundamentos para a normatização de
temas como o aborto, a política de drogas ou o casamento homoafetivo, condicionando a
atuação da dinâmica legislativa a uma determinada visão religiosa (Marini; Carvalho, 2018).
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Laicidade estatal

Em bases teóricas, percebemos que a laicidade reconhece de modo acertado a existência de


fundamentos distintos para a condução da dinâmica política e para o exercício da vida religiosa
(Conti; Alves, 2019). Há que se reconhecer que as variáveis que orientam a performance política
devem ser estritamente racionais, isto é, por mais que existam diferentes opiniões acerca de
como a política deve ser conduzida, é fundamental que tais argumentos sejam estabelecidos
com base em dados, estudos e análises empíricos – do mundo real –, uma vez que é nesse
campo terreno – e não no domínio celeste ou divino – que as relações políticas se estabelecem.
Na religião, por sua vez, existem dogmas, crenças e princípios que estão além da razão humana,
situando-se no campo da fé, do sagrado, questões inquestionáveis do ponto de vista
estritamente racional; e é justamente nessa condição que o fanatismo religioso se torna
problemático.

Estabelecer toda uma série de preceitos religiosos – sejam ele de qualquer religião – como
parâmetros para a determinação de políticas públicas seria retirar a política do campo da razão e
transferi-la para a lógica da fé. Esse movimento não só constituiria um desrespeito à liberdade
religiosa, uma vez que os adeptos de crenças diversas à religião preponderante estariam em
situação de inferioridade, ao se verem obrigados a acatar uma crença diferente da sua, mas
também a ausência de laicidade estatal fragiliza a administração da vida pública, já que torna a
política distante da argumentação racional, que é igualmente acessível a todos os cidadãos.

Vale lembrar que se o fundamentalismo religioso se torna evidente quando exercido por meio de
ações extremas – como atentados violentos ou perseguições a minorias religiosas –, esse
mesmo fanatismo pode muito bem ser praticado por meio de atuações mais sutis, como o
aparelhamento dos cargos públicos por integrantes de uma doutrina específica, pelo desvio da
atuação estatal em benefício – ou em detrimento – de um grupo religioso e mesmo pela
utilização de princípios religiosos particulares na produção legislativa, na atividade judiciária ou
na administração pública. O fundamentalismo religioso também pode apresentar diferentes
facetas no que se refere à sua autoria, já que essa prática pode ser empreendida por autoridades
e órgãos estatais, condicionando a atividade pública a certa concepção religiosa discriminatória,
a também pode resultar da ação da sociedade civil, a exemplo da expulsão – ou mesmo
agressão – de membros praticantes de religiões distintas daquelas predominantes em suas
comunidades (Conti; Alves, 2019).

Nota-se, portanto, que o fundamentalismo religioso contemporâneo apresenta obstáculos


significantes ao pluralismo e à consolidação de ambientes democráticos. Essa modalidade de
fanatismo estimula a segregação social, ao criar categorias dos adeptos e não adeptos da fé
oficial; reduz as possibilidades de diálogo em meio à comunidade, já que orienta sua conduta por
crenças específicas unilaterais; e estimula a intolerância, na medida em que atinge a pluralidade
social.

Nesse momento do estudo, torna-se importante ressaltar que embora normalmente se costume
atribuir o fundamentalismo religioso a esta ou aquela crença, é necessário reconhecer que o
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fanatismo – infelizmente – não é exclusividade de nenhuma religião, existindo exemplos


históricos nas mais diversas devoções.

Podemos identificar, por exemplo, a atuação fundamentalista de grupos católicos irlandeses,


como o Exército Republicano Irlandês (IRA, na sigla em inglês), que se utilizavam do terrorismo
para forçar a separação da Irlanda do Norte do Reino Unido, justificando sua atuação sob
fundamentos da fé católica aplicados às questões políticas da região. No campo do
protestantismo, são emblemáticas a opressão e a segregação pregadas pelo Ku Klux Klan nos
Estados Unidos, cuja ideologia mesclava dogmas religiosos com teorias racistas, resultando em
violência extrema contra as comunidades negra e hispânica, entre outras. No mundo islâmico,
por sua vez, o pensamento wahhabista constituiria o fundamento teórico para as atrocidades
cometidas pelo autointitulado Estado Islâmico contra indivíduos considerados “infiéis”
(Fernandes, [s. d.]).

Nota-se, portanto, que a percepção de que o fundamentalismo religioso constitui atributo de uma
fé específica, ou de um grupo praticante dessa crença, não resiste a uma averiguação mais
detalhada de nossa história ou de nossa realidade contemporânea, já que essa prática esteve –
ou está – presente nas mais diversas religiões de nosso planeta (Conti; Alves, 2019).

Se o aspecto religioso pode ser identificado como fundamento para fanatismos que remontam a
séculos passados e que persistem até os dias de hoje, existem outras formas de radicalismo que
são marcantes da época contemporânea, sobretudo por se utilizarem dos meios tecnológicos
característicos de nosso tempo.

No século XXI, esses fanatismos foram possivelmente intensificados em razão da acentuação


dos movimentos migratórios, que, em âmbito nacional ou internacional, fortalecem a mobilidade
humana e, consequentemente, elevam o contato com pessoas originárias de outros países ou
regiões; não por acaso, os estrangeiros e os migrantes internos são vítimas frequentes desses
movimentos fanáticos. Adicionalmente, inovações nas tecnologias de comunicação e
informação têm o efeito prático de intensificar o contato, ainda que virtual, entre povos distintos,
em um processo que gera reações defensivas de grupos que se sentem ameaçados e precisam
reforçar sua identidade local (Kaplan, 2012).

Analisados os diversos movimentos de fanatismo contemporâneos, torna-se evidente que


existem fatores comuns à intolerância por eles defendida, dentre os quais podemos citar a
utilização de argumentos sem embasamento científico ou racional, valendo-se, portanto, de
mitos que não espelham e realidade, bem como o profundo medo ou incompreensão daquilo que
é diferente, revelando a fragilidade que reside por trás da aparência de força, tradicional aos
movimentos fanáticos.

Vamos Exercitar?
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Qualquer maneira de expressar um comportamento intolerante não encontrará qualquer tipo de


defesa teórica – ou mesmo de justificativa prática – que fundamente sua permanência em
território nacional a partir do momento em que estudamos o modo como a diversidade e a
pluralidade se manifestam neste século XXI, aplicando-as, sobretudo, à sociedade brasileira
contemporânea (Conti; Alves, 2019).

Do ponto de vista teórico, como vimos, a eventual aceitação ou complacência com quaisquer
mentalidades intolerantes coloca em risco a própria tolerância, que tanto valorizamos em nossa
sociedade e no exercício de nossa cidadania. A constituição de uma sociedade brasileira
tolerante não implica o acolhimento de todo e qualquer pensamento e ideologia, mas, sim,
daqueles que mantêm igual respeito ao conceito de tolerância, assegurando-se um ciclo virtuoso
de fortalecimento desse valor.

Sob uma lógica prática, a tolerância não deveria encontrar espaço para se desenvolver em um
ambiente já tão plural e diverso em suas origens. Marcado por uma formação histórica e social
extremamente miscigenada, o Brasil deve reconhecer em sua multiplicidade de tradições,
culturas, hábitos e modos de vida um de seus ativos mais valiosos.

Por isso, o comportamento xenófobo de atacar um refugiado sírio – assim como qualquer outro
imigrante, de qualquer outra nacionalidade – por sua simples acolhida em território nacional é
evidentemente algo incompatível com os preceitos de nossa democracia pluralista, devendo ser
prontamente repudiado pela sociedade civil e pelas autoridades públicas. As ofensas desferidas
pelo agressor contra Mohamed Ali são exemplos claros de um pensamento preconceituoso,
dotado de estereótipos grosseiros e desprovidos de qualquer fundamentação real.

Desse modo, se é verdade que ainda se observam no país movimentos mais próximos de
concepções fanáticas, os motivos elencados justificam uma conduta atuante e concertada,
exercida por parte da sociedade civil e dos órgãos públicos, para revelar as deficiências e
fragilidades conceituais que estão por trás das mobilizações fundamentalistas, extremistas,
negacionistas, xenófobas e ultranacionalistas, ressaltando o distanciamento entre as lógicas
autoritárias e reducionistas por elas pregadas e a diversidade e pluralidade típicas de nossa
constituição nacional – assim como de outras formas de intolerância.

Saiba mais

Leia o trecho a seguir:

Fanático por caipirinha. Fanático por samba. Fanático por viagens. Há fanáticos para tudo. Ou
melhor, há fanáticos e fanáticos. Entretanto, parece óbvio que um fanático por novela é algo bem
diferente - e bem menos perigoso - que um nazista fanático. Numa época de perplexidade, em
que olhamos para as conquistas da humanidade, por um lado, mas vemos, por outro, os homens
exibindo sua face mais cruel, torna-se necessária uma obra que dê conta das várias faces que o
fanatismo adquiriu ao longo do tempo e em contextos distintos. Num tempo de homens-bomba,
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atentados terroristas, manifestações racistas, ações extremistas, massacre de inocentes pensar


o fanatismo é atual, relevante e urgente. Cruzadas, caça às bruxas, expurgos stalinistas,
macartismo, nazismo, terrorismo político, torcidas organizadas, fundamentalismo islâmico e
várias outras formas de fanatismo são cuidadosamente tratadas neste livro lúcido e revelador
(Pinsky; Pinsky, 2004).

A obra organizada por Carla Bassanezi Pinsky e Jaime Pinsky (org.), chamada Faces do
fanatismo (2004), disponível em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama do
fenômeno do fanatismo e como ele se apresenta em nossa trama social.

Referências

BALAN, M. MP pede retirada de todos os oratórios em praças do Rio de Janeiro. Gazeta do Povo,
2019. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/justica/mp-pede-a-retirada-de-todos-os-
oratorios-em-pracas-do-rio-de-janeiro-6628yk8xq3v5yip6is41mnbc2/. Acesso em: 13 fev. 2019.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A. 2019.

DECLARAÇÃO de direitos do homem e do cidadão. Biblioteca Virtual de Direitos Humanos – USP.


França, 1789. Disponível em:
https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4247260/mod_resource/content/1/declaracao%20direit
os%20humanos.pdf. Acesso em: 27 out. 2023.

FERNANDES, C. O que é fundamentalismo? Mundo educação, [s. d.]. Disponível em:


https://mundoeducacao.bol.uol.com.br/filosofia/fundamentalismo.htm. Acesso em: 31 jan.
2019.

FERNANDES, N.; TANJI, T. O Brasil virou o país do fanatismo. Galileu, 2015. Disponível em:
https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/05/o-brasil-virou-o-pais-do-fanatismo.html.
Acesso em: 30 jan. 2019.

KAPLAN, R. The revenge of geography: what the map tells us about coming conflicts and the
battle against fate. New York: Random House, 2012.

MORENO, A. C. Ensino religioso confessional pode gerar disputa por espaço em sala de ala,
dizem especialistas. G1, 2017. Disponível em:
https://g1.globo.com/educacao/noticia/autorizacao-de-ensino-religioso-confessional-pelo-stf-
pode-criar-caos-de-gestao-dizem-especialistas.ghtml. Acesso em: 13 fev. 2019.

PINSKY, J.; PINSKY, C. B. (org.) Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. 292 p. Disponível
em: https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/1590/pdf/0?
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code=G2s1zdFJKSUPbCupLum8AdpGH+bZ7cURzj9+b28WH1kgS2nUJamvfZ//F2y+xGkP7WEbR+
adR5Ku9QF78OwXsw== . Acesso em: 04 abr. 2024.

Aula 5
Encerramento da Unidade

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Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para você. Nela, você irá aprender
conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la? Bons estudos!

Ponto de Chegada

Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é conhecer alguns dos
principais desafios que afetam a sociedade brasileira e seus processos de formação, para
fortalecer o senso coletivo, despertar a consciência crítica e a participação cidadã, você deverá
primeiramente refletir a respeito de alguns desses desafios.

Assim, tratamos de obstáculos centrais para a construção de uma sociedade democrática e


mais justa: a miséria, a corrupção, o punitivismo e a intolerância, questões de enorme relevância
para entendermos e enfrentarmos problemas atuais, e ao mesmo tempo históricos, de nosso
país. Se, por um lado, é verdade que esses problemas não são novos e se consolidaram como
elementos estruturais, constituintes da sociedade brasileira, por outro lado, também é correto
afirmar que em cenários de crise econômica e política as contradições já existentes explicitam-
se e acirram-se.

Em um país com um quarto de sua população vivendo abaixo da linha da miséria (são 55
milhões de brasileiros vivendo com renda mensal menor do que R$ 400), um cenário de crise
econômica e inflação é mais do que um incômodo: é um risco de vida. Do mesmo modo, em
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cenários de crise e aumento do desemprego, populações historicamente marginalizadas são


aquelas que mais sofrem e se veem, muitas vezes, obrigadas a aceitar condições de exploração
desumanas para sobreviverem. No caso brasileiro, por exemplo, se considerarmos o critério cor,
a população negra é particularmente atingida por esse quadro, pois convive com taxas de
desemprego muito acima daquelas enfrentadas pela população branca.

Ao mesmo tempo, diante das aflições sociais, são buscadas soluções imediatistas – para não
dizer “mágicas” – para problemas complexos. Sobretudo nesses momentos, a política, tida como
um espaço plural de debates e negociação de impasses, passa a ser entendida não como o
campo em que poderíamos resolver nossos obstáculos, mas como o próprio obstáculo. Diante
da crise, na mesma medida em que grande parte da sociedade passa a buscar “salvadores” –
líderes que seriam supostamente capazes de resolver sozinhos todos os nossos problemas –,
passa-se também a procurar os culpados de tal situação: por exemplo, não raramente
trabalhadores imigrantes são considerados injustamente os causadores do desemprego ou
estudantes cotistas são acusados de “roubarem” as vagas das universidades. Assim, nesse
cenário, enquanto a crise econômica reforça o fosso que separa os mais ricos dos mais pobres
e, no caso brasileiro, reitera as estatísticas que separam negros e brancos, a “política” se torna
sinônimo de “corrupção”, e as diversas formas de preconceito crescem.

Não à toa, é comum na população uma sensação de desesperança, muitas vezes resumida nos
termos populares de “esse país não tem jeito”. Isso não significa, porém, que nossa sociedade
seja marcada apenas pela desesperança ou pela inércia diante dos acontecimentos: a corrupção,
por exemplo, é um tema debatido por todos – independentemente de seu posicionamento ou
visão de mundo – e em todos os ambientes. Mesmo entre desconhecidos, em um caixa de
supermercado, por exemplo, o assunto aparece com frequência em conversas que podem durar
apenas alguns segundos ou gerar longas e acaloradas discussões.

Podemos dizer, de outro modo, que a sociedade brasileira também oferece suas respostas para
seus dilemas, denunciando injustiças e discutindo soluções. Da mesma forma, podemos afirmar
que predomina na população um desejo de oferecer propostas que levariam a sociedade para
uma outra direção. A constatação do problema ou o simples desejo de mudança, porém, não são
suficientes para que apontemos soluções reais e sustentáveis para o nosso futuro. É preciso
partir de um diagnóstico preciso, que vai além do senso comum e das respostas prontas como
“só no Brasil”.

Como agravante da desigualdade social no país, Katia Maia, em entrevista concedida ao G1, “a
terra expressa muito o que é uma sociedade e a América Latina é a região com maior
desigualdade na concentração de terra no mundo” (Gonzalez, 2016). Ao comentar os dados
fornecidos pela Oxfam que tratam da concentração de terra no Brasil, Katia Maia explica que o
país ocupa o quinto lugar na América Latina – depois de Paraguai, Chile, Colômbia e Venezuela –
em termos de concentração de terra. Essa pesquisa também indica que “aqueles [municípios]
que estão em área de maior produção agrícola do grande agronegócio têm os maiores níveis de
pobreza e desigualdade. Porque gera menos emprego e é mais concentrado [em termos
fundiários]” (Gonzalez, 2016).
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Os movimentos que lutam pela moradia e denunciam essa pobreza urbana refletida na situação
dos sem-teto não estão separados desses processos estruturais de produção de desalojados.
Esses movimentos também mostram que a vulnerabilidade dessas pessoas e sua exposição a
fatores sociais problemáticos podem se reverter em uma força de denúncia das contradições
das sociedades urbanas hoje, sendo determinantes para a transformação desses espaços
urbanos e para pressionar o Estado para a realização de políticas efetivas no atendimento a
essas populações.

Da mesma forma, é impossível entender a dinâmica de funcionamento dos Movimento dos


Trabalhadores Sem Terra sem olharmos para os dados, já evidenciados, da concentração de terra
e da pobreza rural no Brasil. O direito à terra, assim como o direito à moradia, é fundamental para
que possamos caminhar para uma sociedade mais equilibrada e próspera. Justamente por esse
motivo, na grande maioria dos países que atualmente são considerados desenvolvidos não há,
nem de perto, uma concentração fundiária semelhante à do Brasil. Lembremos também que as
famílias assentadas desse movimento adotam um modelo de produção alternativo ao
agronegócio, que contempla um número infinitamente maior de famílias envolvidas e é
comprometido com a saúde da população brasileira e com a garantia da biodiversidade de
alimentos no país, pois não utilizam transgênicos e agrotóxicos (Conti; Alves, 2019).

É válido olhar para as respostas dos movimentos sociais às desigualdades e à pobreza no Brasil,
pois elas nos ajudam a entender essas mazelas como socialmente produzidas. De fato, os
movimentos sociais refletem a ação organizada de uma coletividade para a defesa de
determinados interesses que são coletivos. As reivindicações desses movimentos nos permitem
identificar os fatores objetivos e as especificidades que situam as desigualdades e a pobreza
como um fenômeno histórico, não como um processo inevitável.

Assim, evitamos cair nas armadilhas de representações das desigualdades sociais e da miséria
como naturais, ou seja, como se fizessem parte, desde sempre e para sempre, das sociedades;
ou ainda como algo decorrente de um mero “atraso” de populações que estão aprendendo a se
modernizar e quando, finalmente, se modernizarem e alcançarem os padrões justos para o
desenvolvimento, poderão sanar seus problemas de desigualdade – ideia que remete à lógica
das velhas teorias racistas e evolucionistas do século XIX; ou, finalmente, como um problema
individual, resultante da indolência dos pobres.

A literatura é hoje razoavelmente consensual em entender a pobreza como um fenômeno


multidimensional (Oliveira; Buainain; Neder, 2012). Isso significa que a pobreza não é apenas
uma questão de ter ou não uma renda (ou do nível dessa renda), mas também de escolaridade,
tipo de emprego, acesso a saneamento básico e transporte, entre outros fatores. Uma política
pública eficiente deve levar em consideração essa multidimensionalidade. No entanto, como
vivemos em uma sociedade na qual o dinheiro é central, muitos estudos baseiam suas análises
da pobreza em um de seus elementos fundamentais: a renda.

De todo modo, se nossos problemas têm uma origem histórica – e eles têm –, isso significa que
eles também são possíveis de serem solucionados. Em outros termos, se os impasses que
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enfrentamos se originam na ação humana, é também a ação humana o caminho para a sua
resolução. O conhecimento de experiências bem-sucedidas de transformação social, assim
como dos princípios da ética, da política e da cidadania, deve, portanto, ocorrer lado a lado com a
ciência aprofundada de como se estruturam nossos problemas.

Outro desafio à sociedade brasileira, é o fenômeno da corrupção, assim definido:

Embora o conceito de corrupção tenha sido historica­mente empregado com vistas a caracterizar
compor­tamentos moralmente inadequados, a ciência social moderna abandonou esse tipo de
definição. Em vez disso, buscou descrever o conceito em termos do não seguimento de leis e,
mais recentemente, de ações que levem à sobreposição entre as esferas pública e privada —
mais especificamente, de ações que impli­quem algum tipo de ganho privado somado a dano ao
bem público (Geraldini, 2018, p. 26).

Segundo Rios (1987), os exemplos de corrupção são incontáveis e envolvem mecanismos


diversos de práticas fraudulentas nos pleitos eleitorais, falsificação de toda sorte de documentos
(públicos e/ou privados), facilitações em meios públicos e contratos suspeitos e assim por
diante. Sem contar os casos em que existe conluio entre instituições e/ou representantes
públicos e a criminalidade.

Quando voltamos o olhar para o Brasil, observamos que há uma relação complexa e promíscua
entre o Estado e o setor privado, entre servidores ou órgãos de Estado com grande poder para
alterar normas e procedimentos, como “reservas de mercado, meios financeiros e regulatórios de
criar oligopólios [concentração de poder e controle de serviços nas mãos de poucas empresas],
proteções exageradas contra a concorrência externa, multiplicidade confusa de licenças para
produzir e comerciar e controles de preços” (Freire, 2017, [s. p.]).

A questão central é entendermos por que esse fenômeno está mais presente em algumas
sociedades do que em outras, e qual é a relação disso com o funcionamento da democracia e,
sobretudo, com o grau de concentração do poder político e econômico.

Nos primeiros dias da independência, a corrupção brasileira colocou-se brutalmente a serviço do


tráfico de escravos. Foi esse, sem dúvida, o pior episódio, o mais abrangente, dramático e
vergonhoso da longa história da corrupção no país. Por uma série de tratados que a Inglaterra já
começara a impor desde 1810, o tráfico negreiro saía lentamente da legalidade em que
prosperara tranquilamente durante dois séculos e meio para uma espécie de ilegalidade teórica,
só para “inglês ver”.

Por esse motivo, os primeiros estudos realizados no Brasil sobre o tema passaram a ser
produzidos nesse período e ganharam ainda mais força na década de 1990, com o processo de
impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, que, para fugir do processo,
renunciou ao seu cargo, ficou um tempo inelegível e, depois, continuou atuando no cenário
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político brasileiro como senador. Aos poucos, o chamado “presidencialismo de coalizão” surgido
com a Nova República, expunha os dilemas da reconstrução da democracia no Brasil, a partir de
acordos – muitas vezes obscuros – da elite política do país. E sabemos que a discussão a
respeito da corrupção continuaria nos anos seguintes.

Esse desafio é ainda maior pois, conforme explica Pinto, o discurso da mídia sobre a corrupção
“condiciona a forma como cada brasileiro se relaciona com o mundo da política” e tem um peso
não desprezível na formação de opinião. Seu principal efeito é o de “impossibilitar uma
discussão política sobre a questão, que ultrapasse uma indignação moralista” (Pinto, 2011, p.
11).

Disso deriva o dilema dos regimes democráticos nos quais a denúncia da corrupção é permitida,
porém não deixa de ser também uma arma política alimentada pela mídia e por meios de
comunicação, sobretudo nos períodos eleitorais. O importante é entendermos que os
mecanismos democráticos de controle da corrupção são os únicos que podem realmente
combatê-la. Os regimes autoritários jamais serão um antídoto à corrupção. A única diferença,
como já destacado, é que nesses regimes os escândalos de corrupção devem ser
necessariamente abafados ou eliminados para garantir a manutenção do poder.

Paralelamente, é preciso se perguntar se essas questões estruturais são consideradas nas


políticas propostas para combater de modo mais eficiente a corrupção. A sociologia parte dessa
última perspectiva e tem a vantagem de afastar um tratamento “moralista”, que foca o
comportamento de um indivíduo determinado, ou “naturalizado”, que considera a corrupção um
fenômeno natural do ser humano e das sociedades. Ao contrário, nas ciências sociais preza-se
pela contextualização e desvendamento da dimensão política, usufruindo direta ou indiretamente
do poder público e administrativo "[…] fora de seu campo legítimo, a fim de que o detentor do
cargo ou do poder busque auferir vantagem em proveito próprio, ou para distribuí-las entre
amigos, servidores, parentes, confrades, correligionários, sócios ou partidários" (Rios, 1987, p.
86)

A luta contra a miséria, a corrupção, o punitivismo e o fanatismo são questões urgentes da


população brasileira – e mundial –, que invadem a sala de aula, porque certamente estão
determinando a sociedade ao seu redor. O desafio que cabe em um percurso de formação
universitária é exatamente o de colocar essas questões em um plano objetivo, com o devido
distanciamento, para podermos enxergar com mais nitidez quais elementos são de fato
importantes para proporcionar os parâmetros científicos de entendimento da nossa própria
realidade. Só assim podemos pensar com mais objetividade em caminhos alternativos ao
desenho de uma sociedade em crise.

É Hora de Praticar!
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Assimile os números da fome hoje no Brasil, que informam que atualmente cerca de 21.1
milhões de pessoas estão em situação de vulnerabilidade alimentar. Analise o excerto:

Os números da fome e da insegurança alimentar no Brasil revelam a triste


constatação de que a situação se agravou nos últimos anos. Entre 2014 e 2016, cerca
de 4 milhões de pessoas viviam em situação de vulnerabilidade alimentar no Brasil,
correspondendo a 1,9% da população. No entanto, os dados mais recentes referentes
ao período de 2020 a 2022 mostram um aumento alarmante, atingindo 21,1 milhões
de pessoas (9,9% da população).
Além disso, cerca de 70,3 milhões de brasileiros enfrentam algum grau de
insegurança alimentar, caracterizada como moderada ou severa. Esse número indica
que uma parcela significativa da população não possui acesso adequado à
alimentação necessária para uma vida saudável e digna. O relatório também aponta
que a crise da fome não é exclusiva do Brasil, mas sim uma realidade global. Desde
2019, mais de 122 milhões de pessoas em todo o mundo foram empurradas para a
fome, elevando o número total de pessoas em situação de insegurança alimentar para
cerca de 735 milhões (CFN, c2023).

Diante dessa complexidade, podemos nos questionar: esse fenômeno é um problema individual
ou social e quais seriam os caminhos para combatê-los?

Independentemente de sua opinião prévia, ao discutir, por exemplo, programas sociais de renda
mínima ou cotas étnicas, você saberia dizer quais têm sido os efeitos reais – os dados – dessas
políticas no Brasil ou no mundo?
Independentemente de sua posição política ou partidarismos, saberia apontar dados que tratam
da corrupção no país, assim como os poderes responsáveis por seu combate?

Sintetizamos duas matrizes de discussão acerca da miséria e da fome para refletir.


A abordagem individualista inspira-se na teoria econômica liberal, que considera a liberdade do
indivíduo e do funcionamento do mercado como elementos explicativos fundantes dos
fenômenos sociais, inclusive da pobreza e da fome. A pobreza e as desigualdades são
consideradas naturais das sociedades e, em alguma medida, benéficas ao próprio
funcionamento do mercado por fomentar a concorrência. Por exemplo, segundo essa visão, os
operários recebem menos porque têm menos qualificação e são mais numerosos em relação à
oferta reduzida de trabalhadores mais qualificados. A melhor forma de “equilibrar” a pobreza e as
desigualdades é deixar o mercado funcionar livremente e responsabilizar os indivíduos para que
tomem iniciativas a fim de melhorar sua condição no mercado.
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A partir da visão individualista da pobreza, o único papel do Estado e da sociedade é buscar


políticas que fomentem o próprio mercado e, em decorrência, ofereçam oportunidades aos
indivíduos para que estes tomem individualmente iniciativas para agir na sua situação vulnerável.
Já a abordagem do Estado social baseia-se em teorias que ganham corpo nos chamados “anos
gloriosos”, após a Segunda Guerra Mundial. Elas abandonam o enfoque assistencialista de
intervenção do Estado para agir pontualmente e de forma paliativa nas desigualdades e situam o
Estado como uma entidade separada e que pode regular os desequilíbrios de matriz econômica,
como árbitro garantidor e promotor concomitantemente: 1. dos interesses de mercado e da
liberdade “regulada” de ação de suas forças; 2. dos interesses sociais coletivos de seus
membros e do bem-estar social mínimo. Nessa visão, a pobreza e a fome não podem ser
consideradas um problema individual, mas sim um produto das relações sociais, portanto,
coletivo. Muitas reivindicações de movimentos sociais partem desse raciocínio de que é função
do Estado intervir no mercado para corrigir injustiças sociais e possibilitar a superação da
condição de desvantagem desses grupos no sistema político e econômico.
Quais seriam, então, as formas de combater a pobreza e a desigualdade no Brasil?
No Brasil, nós nunca tivemos um Estado social forte. No entanto, sobretudo com a campanha de
nacionalização de Getúlio Vargas e, mais tarde, com a redemocratização do país, em 1988, foram
criadas importantes estruturas sociais, como o sistema de educação e de saúde pública. Há
também um histórico de programas sociais para agir contra a pobreza e a fome. A questão
central é entendermos se o Estado deve se retirar de seu dever constitucional de combate à
pobreza e às desigualdades, como dita a Constituição de 1988 (Brasil, 1988), ou se deve manter
e melhorar a estrutura de suporte social que já foi construída.
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Figura 1 | Síntese dos conteídos abordados durante os estudos

BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília,


DF: Presidência da República, 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 6 nov. 2023.
CONSELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS (CFN). Aumento da Fome e Insegurança Alimentar no
Brasil: relatório da ONU revela dados preocupantes. CFN, 14 jul. 2023. Disponível em:
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GERALDINI, B. F. S. A Operação Lava-Jato nas páginas de opinião da Folha de São Paulo. 2018.
Dissertação (Mestrado em Ciência Política) – Universidade Federal de São Carlos, São Carlos,
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etica-social/post/estudo-mostra-concentracao-de-terras-no-brasil-expressao-maxima-da-
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OLIVEIRA, R.; BUAINAIN, A. M.; NEDER, H. Pobreza: conceitos e mensuração. In: BUAINAIN, A. M.
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Brasil, nov. 2016. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/terrenos-da-desigualdade-
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OXFAM. A distância que nos une: relatório anual da Oxfam – Brasil. [S. l.]: Oxfam Brasil, 2017.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/a-distancia-
que-nos-une/. Acesso em: 27 out. 2023.
OXFAM. Recompensem o trabalho, não a riqueza. [S. l.]: Oxfam Internacional, jan. 2018.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/recompensem-o-trabalho-nao-a-riqueza/.
Acesso em: 27 out. 2023.
PINTO, C. R. J. A banalidade da corrupção: uma forma de governar o Brasil. Belo Horizonte:
Editora UFMG, 2011.
RIOS, J. A. A fraude social da corrupção. In: LEITE, C. B. (org.). A sociologia da corrupção. Rio de
Janeiro: Zahar, 1987.
,

Unidade 4
Pluralidade e diversidade no século XXI

Aula 1
Combate ao Racismo e a Discriminação

Combate ao racismo e à discriminação

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você para mais esta aula, dedicada à discussão do
racismo, das desigualdades raciais e das respostas que a sociedade brasileira tem proposto para
atuar nesses problemas. Faremos um percurso didático a fim de ajudá-lo a refletir a respeito das
raízes históricas profundas do racismo e suas continuidades no presente, mas também suas
descontinuidades, que nos ajudam a entender o racismo nos tempos atuais e as diferentes
formas de combatê-lo, empreendidas por movimentos sociais e por políticas públicas.

No Brasil, presenciamos inúmeros casos graves de racismo. Os assassinatos constantes de


jovens negros são certamente o exemplo mais explícito dessa gravidade.

A indiferença reina, segundo a pesquisa da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da


Igualdade Racial (SEPPIR) e do Senado Federal, que evidencia que 56% da população brasileira
considera que “a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte de
um jovem branco” (ONUBR, [s. d.]).

Na atualidade, o fato de o racismo ser considerado um crime no Brasil, com penalidades


previstas em lei, parece não mais intimidar os ímpetos racistas latentes em nossa sociedade. As
redes sociais certamente são o lugar em que esse temor se desfaz com menos pudor, mas, para
além das telas, a realidade no Brasil também tem sido permeada de duras manifestações
racistas por meio de xingamentos, humilhações de todo tipo, pichações, violência psicológica e
física contra os negros e outros grupos vitimados por esse fenômeno.

É claro que o negro não é a única vítima do racismo. Poderíamos também alargar o nosso olhar
para as nossas diversidades originárias, ou seja, os povos indígenas. O que dizer desse assunto
em nossos dias? Diversas reportagens de jornais trazem declarações que parecem estimular a
violência contra os indígenas e, sobretudo, a espoliação de suas terras (Cunha, 2019). O Relatório
Violência contra os Povos Indígenas, de 2016, confirma que houve um aumento de diferentes
tipos de violência contra essa população em comparação com 2015 (CIMI, [s. d.]). A verdade é
que crimes desumanos continuam a acontecer, em especial contra as lideranças indígenas.

Afinal, há alguma diferença entre as características de atuação do racismo hoje e as do passado?


É possível pensar em medidas e práticas para reduzir ou até mesmo acabar com o racismo no
Brasil?

Vamos Começar!
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Formação da desigualdade étnico-racial no Brasil


Há muitas discussões no Brasil acerca de como combater o racismo aqui imperante. Lembramos
que racismo pressupõe diferença e hierarquia entre as “raças”, entendidas em perspectiva social,
como conjunto de características fenotípicas, culturais, históricas e sociais em comum de um
povo, caracterizando-os, por exemplo, como brancos, negros, indígenas etc. Um requisito básico
para enfrentarmos o racismo é nos basearmos em sua formação histórica, sua imbricação com
as desigualdades produzidas e reproduzidas no país.

A estrutura racializada da sociedade brasileira tem suas raízes no sistema colonial, em particular
na escravidão que vigorou por quase quatro séculos no Brasil. Isso significa que as raízes
históricas do racismo são antigas e profundas. Todavia, é igualmente importante entendermos
que o racismo não é algo natural, que deve ser considerado uma “essência” imutável do
funcionamento da sociedade brasileira e de sua mentalidade predominante. Pelo contrário, o
racismo foi construído historicamente por relações sociais, e da mesma forma que se reproduz
no tempo, também pode ser combatido e, quem sabe, eliminado.

A relação dos colonos portugueses com os indígenas é o primeiro terreno histórico para
pensarmos a estruturação do racismo no Brasil. Essa relação, longe de assumir uma base
igualitária, apoiou-se na construção das diferenças e hierarquias demarcadas em relação aos
costumes, culturas, línguas, religiosidades dos nossos povos originários. A concepção
hegemônica da história do Brasil, como se apenas tivesse começado depois da “descoberta”
pelos portugueses – já que, aqui, habitavam povos “sem história” e “sem cultura” – é exemplo
claro dessas hierarquias estabelecidas.

No início do sistema colonial, o racismo assumiu características religiosas. Embora os nativos


não tenham sido considerados hereges nem pagãos, mas povos gentis – bons selvagens, que
deveriam ser convertidos à fé cristã –, não foram reconhecidos como sujeitos em condição de
igualdade com os portugueses. Além disso, a população nativa não foi poupada de tentativas de
recrutamento para o trabalho forçado e muitos outros tipos de violência – inclusive torturas e
abuso sexual – nem de massacres continuados, tentativas de extermínio que certamente
perduram até hoje, sob velhas e novas roupagens – não sem a resistência contínua desses
povos, é claro (Lewis, 2019).

Os sistemas de tutela e de reserva de terras, instituições jurídicas nas quais o indígena foi
considerado um menor de idade que devia ser tutelado pelo Estado e devia se contentar com um
espaço reduzido de sua própria terra nativa, delimitado pela administração colonial, foram
utilizados para “apaziguar” as relações dos portugueses com os indígenas sobreviventes. Esse
sistema provocou o isolamento dessa população e até hoje é motivo de debates muito vivos a
respeito de como “integrar” essa “alteridade” que, a todos efeitos, é a autêntica população
brasileira. Essa população foi excluída da participação das dimensões mais variadas da
sociedade brasileira, como o sistema educacional, político, de saúde e o mercado de trabalho,
dentre tantas outras.
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A Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988) assegura aos povos originários o direito à terra e
reconhece suas organizações, costumes, tradições e crenças. As terras indígenas representam,
além de um direito, uma garantia de sobrevivência física e cultural dessa população. É por esse
motivo que a efetivação desse direito já reconhecido, ou seja, a demarcação de terras, continua
sendo a principal reivindicação dos povos indígenas no Brasil, que lutam também contra as
invasões de suas terras, a pobreza e as violações de seus direitos. Não devemos nos esquecer
de que essas terras concentram a maior reserva de biodiversidade do país, além de minerais
diversos, por isso são alvo de ambições desmedidas. Estereótipos do tipo “índio tem muita terra”,
“índio deveria trabalhar para comprar suas terras”, “índio é preguiçoso”, que reforçam a ideia do
“primitivo”, da “peça de museu”, continuam funcionando como um poderoso argumento para
justificar a expropriação dessa população e privá-la de um direito originário.

O racismo estrutural na sociedade brasileira

Paralelamente, o regime de escravidão, base da economia agrária de exportação colonial, foi


outro importante fator histórico estruturante do racismo na nossa sociedade. O historiador Luiz
Felipe de Alencastro (2000) fez um estudo de referência para entendermos o que ele chama de
“trato dos viventes” e sua importância para formação econômica e cultural do Brasil,
evidenciando como a escravidão penetrou nas dimensões mais íntimas do funcionamento da
sociedade e do Estado. Conforme explica, o país foi o principal importador de escravos das
Américas, ou seja, fez funcionar por séculos a migração forçada de cerca de 5 milhões de
africanos.

Isso comprova como o sistema racista – oficialmente legalizado no período da escravidão, ao


colocar os negros em uma condição de objeto que podia ser comprado e vendido, além de poder
ser utilizado à mercê dos caprichos de seu proprietário – representava uma estrutura econômica
altamente lucrativa e difícil de ser eliminada da mentalidade dos proprietários de escravos e do
funcionamento do Estado brasileiro.

Por esse motivo, o historiador dá destaque ao fato de que, mesmo após o tráfico negreiro ser
declarado ilegal pela Inglaterra, no início do século XIX, o Brasil simplesmente ignorou essa lei e
continuou “importando” e escravizando os negros que aqui chegavam. O historiador também
relata violência, açoites e punições utilizadas contra os negros que se revoltavam contra esse
sistema já declarado ilegal (Alencastro, 2000).

A luta dos escravos e libertos teve papel determinante para o fim da escravidão por meio de
diversas formas de resistência nas senzalas, fugas das fazendas, auto-organização dos
quilombos, mesmo sob o controle extremo do senhor e do aparato repressivo do Estado. A
questão central é que a sociedade moderna brasileira foi formada com base nessa estrutura
racializada, que não reconhecia que negros e indígenas tivessem a mesma natureza humana de
todos, tampouco seus direitos civis e religiosos. A prática da discriminação racial era onipresente
e se justificava ideologicamente pela associação entre “pureza da alma” e “brancura da pele”,
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colocando os portugueses na posição de proprietários e detentores do poder político, ao passo


que os negros e indígenas eram considerados unicamente objetos de exploração e dominação.
Boxer ressalta também que mesmo os mulatos, de “sangue misturado”, sempre ocuparam um
lugar rebaixado na sociedade colonial portuguesa por causa da cor da pele (Boxer, 1967, p. 104).

A questão racial se complexifica quando, em 1888, é abolida a escravidão e, em 1889, é


inaugurado o regime republicano, que reconhece a igualdade formal de direitos entre negros e
brancos. A partir de então, o racismo deixa de ser legalizado. Florestan Fernandes é um autor
essencial para entendermos o significado contraditório dessa transformação, ao mostrar que, ao
mesmo tempo que o reconhecimento formal de direitos dos negros passa a ser uma arma de
combate ao racismo, contraditoriamente, também serve como fator ideológico para justificar a
sua reprodução. A igualdade formal de direito tem como contrapartida tornar o racismo “mais
insidioso” e camuflado, uma vez que pressupõe que o negro, mesmo tendo sofrido um sistema
secular de exploração e opressão, parte de bases iguais para competir na sociedade de classes,
ou seja, é como se esse grupo social estivesse em condições de igualdade com o branco para
competir por uma vaga de trabalho, entrar e se manter no sistema escolar, por exemplo.

É por esse motivo que Florestan Fernandes critica veementemente o que ele chama de “mito da
democracia racial”, arraigado em nossa sociedade, por construir a ideia de que o Brasil,
diferentemente de outras sociedades, é menos preconceituoso, mais aberto à miscigenação de
raças e culturas. Na opinião de Fernandes, essa ideia, defendida por Gilberto Freyre (1900-1987)
como uma herança positiva do colonialismo português (Freyre, 1958), é retrato, na verdade, de
uma sociedade que aparenta “ter preconceitos de ter preconceito”, porém reforça as
desigualdades raciais criando “um consenso de que certas posições [de maior renda, prestígio
social e poder] pertencem ao branco” (Fernandes, 2008, p. 309 e 437).

Não faltam estatísticas para comprovar as desvantagens que a população negra enfrenta na
estrutura de emprego, qualificação educacional e distribuição de renda e riqueza, entre outras
dimensões da sociedade brasileira. As políticas de ação afirmativa são destinadas a agir nesse
quadro de desigualdades raciais e de reprodução de injustiças sociais. Moehlecke (2002) nos
explica que as ações afirmativas surgem nos EUA, na década de 1960, em decorrência das
reivindicações dos movimentos dos direitos civis – sobretudo impulsionados pelos movimentos
negros – para promoção da igualdade de oportunidades. Essas políticas também foram
implantadas em diversos países do mundo com o intuito de combater a discriminação e as
desigualdades contra grupos historicamente excluídos ou aqueles que nas estatísticas têm
grande possibilidade de o serem.

Além dos negros, essas políticas contemplam as mulheres e as minorias étnicas, religiosas,
linguísticas, nacionais. O foco dessas ações é principalmente o mercado de trabalho, o sistema
educacional (sobretudo o ensino superior), a promoção de funcionários, a representação política
e nos meios de comunicação, a incorporação do quesito cor nos sistemas de informação.
Conforme destaca a autora, no Brasil, essas políticas começam a ser discutidas nos anos 1980,
passam a ser aplicadas timidamente nos anos 1990 e com mais sistematicidade nos anos 2000.
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A política das cotas raciais no ensino superior acabou ganhando mais destaque por causar
polêmicas acirradas, sobretudo no que se refere ao argumento da “quebra” do princípio da
igualdade protegido pela Constituição e de supostos “privilégios” conferidos aos beneficiários
das cotas. Esses e outros argumentos foram totalmente descontruídos, empírica e teoricamente,
não apenas por estudos científicos, mas também pelo próprio Supremo Tribunal Federal (STF),
que declarou a constitucionalidade dessa política (Feres Jr.; Daflon; Campos, 2012).

Siga em Frente...

Combate ao eurocentrismo: ensino de história da África e dos


povos indígenas
O combate ao eurocentrismo e o ensino de história da África e dos povos indígenas também se
inserem nessa frente de combate ao racismo no Brasil, voltada a agir no campo da educação, em
especial nos currículos escolares e nas instituições de ensino. A Lei nº 10.639/03 (Brasil, 2003),
que declarou a obrigatoriedade do ensino da disciplina História e Cultura Afro-Brasileiras e
Africanas nas escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio e, posteriormente, a
Lei nº 11.645/2008 (Brasil, 2008), que incluiu os indígenas, são marcos institucionais de
reivindicações da população afrodescendente e indígena e seus movimentos de representação.

Essas legislações não ocorreram sem crítica, sobretudo ligadas à falta de efetividade na
implementação da política, e também acompanhou um rico debate acerca do reconhecimento da
diversidade dos povos indígenas e africanos e da necessidade da construção de uma nova
narrativa da história do Brasil, desvinculada dos parâmetros hegemônicos eurocêntricos – que
consideram a cultura europeia ocidental superior, portanto, a ser assimilada por todas
civilizações do mundo em detrimento de suas próprias culturas. Discute-se a necessidade de se
colocar os saberes dessas populações no mesmo patamar de importância dos saberes
hegemônicos do Ocidente. Para tanto, estabeleceu-se um novo currículo escolar que
contemplasse o combate aos estereótipos, às mistificações e à discriminação, e o estudo da
atuação dessas populações como sujeitos e protagonistas (Carvalho, 2005).

Santos e Meneses (2010) também denunciaram a violência epistemológica ocidental ligada ao


exercício do poder colonial, da economia capitalista e do processo de expansão da cultura
ocidental. A construção de epistemologias dominantes, para os autores, implica o
“epistemicídio”, ou seja, a supressão da diversidade de culturas e saberes dos povos submetidos
à dominação pelo ocidente hegemônico. Quando transladamos essa configuração sociorracial
para o nosso mundo, fomos forçados a pagar um preço muito alto em termos de silenciamento,
de censura, de repressão de outras visões de mundo – existem pelo menos 180 línguas
indígenas faladas atualmente no Brasil (Carvalho, 2005, p. 146).

Para desconstruir essa narrativa histórica contada a partir do ponto de vista dos dominantes, há
um esforço sendo feito de reconstrução da história dos países colonizados a partir de sua
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própria perspectiva, dos subalternos e suas lutas, com destaque ao seu papel ativo como
protagonistas dessa história. Na reconstrução dessa narrativa, houve e há diferentes frentes de
resistência e transformação dos indígenas e negros. A década de 1970 foi um marco para
entendermos o crescimento desses movimentos em nível nacional.

Movimentos de resistência negros e indígenas

No que se refere ao movimento indígena, há diversas organizações espalhadas pelo país que
também se articulam em nível regional e nacional. Eles contribuíram para a construção de uma
“nova imagem social” do indígena como sujeito político da sociedade civil brasileira (Matos,
2006, p. 40), com ações coletivas complexas e enfrentamentos diretos nas esferas de
institucionalização de representação política, em ONGs, partidos políticos e gestão
administrativa nas instituições.

Os movimentos negros também assumem um papel de enorme relevância na sociedade


brasileira. A resistência secular à escravidão – na forma política, cultural e religiosa – é central
para combater o racismo no Brasil. Desde as primeiras décadas do século XX, esses movimentos
tinham uma expressão significativa na imprensa e na literatura, e construíam diversas
organizações com diferentes pautas de atuação.

Destacamos o protagonismo das mulheres negras nesses movimentos, que também assumem
pautas dando destaque à opressão de gênero da mulher negra. A atuação desse movimento foi
determinante para a implantação das políticas de cotas raciais no país, anteriormente discutidas,
além de outras frentes de combate ao racismo. É importante lembrarmos que essas conquistas
podem sofrer retrocessos. O momento que estamos vivendo, no Brasil e no mundo, é de
“agudização do racismo” (Basso, 2015) e coloca desafios enormes para esses movimentos e
para todos os setores da sociedade empenhados em combater esse fenômeno e seus efeitos
nefastos.

Vamos Exercitar?
No Brasil, presenciamos inúmeros casos graves de racismo, com assassinatos constantes de
jovens negros e da população indígena, em particular de suas lideranças. Afinal, há alguma
diferença entre as características de atuação do racismo de hoje e as do passado?

Não é possível entender as manifestações de racismo em nossa sociedade sem a compreensão


das raízes históricas profundas, ligadas ao funcionamento do sistema colonial e da escravidão
no Brasil. O olhar para a nossa história ilumina o quão enraizado esse fenômeno está na
sociedade brasileira. Mas não é uma situação natural ou imutável. Da mesma forma que o
racismo é historicamente construído por relações sociais, ele também pode ser combatido e,
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quem sabe, também eliminado. Para isso, é necessário combater a dimensão material
(estrutural), cultural e ideológica.

Não há, portanto, uma ruptura com a forma de agir desse fenômeno no passado. Pelo contrário,
o movimento de “agudização” e “ascensão” do racismo evidencia como esse fenômeno pode
voltar a ser um elemento explícito e legalizado na sociedade, como ocorria na época de
funcionamento dos sistemas coloniais. As frentes de combate ao racismo devem ter em mente
as esferas institucional, cultural, econômica e política.

As políticas de ação afirmativa são destinadas a agir no quadro de desigualdades e


discriminação raciais e de reprodução de injustiças sociais. O foco dessas ações é
principalmente o mercado de trabalho para melhora no acesso aos postos de trabalho; o sistema
educacional (sobretudo o ensino superior) para promover a qualificação das populações
discriminadas; o incentivo para empresas fomentarem a diversidade; a representação política e
nos meios de comunicação; o questionamento do lugar das populações discriminadas nos
meios de comunicação para evitar a reprodução de estereótipos; a incorporação do quesito cor
nos sistemas de informação para que políticas públicas de combate à discriminação possam ser
aplicadas com mais eficácia.

Com esse fim, a política de cotas, por exemplo, foi implementada por diversas instituições de
ensino superior no Brasil, públicas e privadas, nos concursos públicos e no mercado de trabalho,
porém, ainda há muito a ser feito, tendo em vista a necessidade de diversas frentes para
promover o reconhecimento da diversidade e o combate ao racismo no Brasil.

O combate ao eurocentrismo e o ensino de história da África e dos povos indígenas também se


insere nesse enfrentamento do racismo. Não podemos esquecer também que o racismo é
considerado crime no Brasil. Portanto, a punição efetiva é uma frente de combate que o Estado e
a sociedade devem reconhecer. Por fim, é imprescindível conhecermos as reivindicações e
frentes de ação dos movimentos indígenas e negros para entendermos o combate ao racismo no
Brasil.

Saiba mais

A obra escrita por Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos (2013), é um clássico das
ciências sociais no que tange às questões raciais, e está disponível em sua biblioteca virtual.

A obra fornece um importante panorama da situação do negro e do mulato na sociedade


brasileira, vista a partir de São Paulo. Centrado na preocupação com a supremacia da “raça
branca” e o controle do poder que ela exerce em nossa sociedade, o livro ajuda a avaliar a
situação real do negro na sociedade brasileira.

Ilustrando
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Sugerimos que você assista ao vídeo produzido pela Editora Perspectiva sobre o livro do escritor
e Professor Abdias do Nascimento (1914-2011), O genocídio do negro brasileiro em suas
diversas formas (1978). Perceba como o genocídio não remete apenas à sua dimensão concreta,
de extermínio físico da população negra, mas também à simbólica, relativa à psique, à identidade
do negro, que sofre diversos tipos de violência cotidiana em uma sociedade racista.

O GENOCÍDIO do negro brasileiro em suas diversas formas (1978). São Paulo: Perspectiva, 2018.
1 vídeo (3min06s).

A ilegalidade do tráfico negreiro

O historiador Luiz Felipe de Alencastro, especialista no tema, coloca, de forma exemplar, o


caráter estruturalmente ilegal e imoral da escravidão/tráfico negreiro na fundação de nosso país.
Segundo ele, desde 1818 havia tratados que vetavam o tráfico de escravos, mas isso não coibiu a
entrada de milhares de africanos no país, do citado ano até 1856. Muitos desses escravos,
mesmo com a lei de 1831, que garantia a sua liberdade, foram mantidos cativos pelos seus
senhores que não foram, posteriormente, condenados por tal crime. Como o autor cita, foram
760 mil escravos que entraram até 1856 e que foram mantidos ilegalmente como escravos até a
publicação da Lei Áurea, em 1888. Observe:

Resta que este crime coletivo guarda um significado dramático: ao arrepio da lei, a maioria dos
africanos cativados no Brasil a partir de 1818 - e todos os seus descendentes - foram mantidos
na escravidão até 1888. Ou seja, boa parte das duas últimas gerações de indiví­duos escravizados
no Brasil não era escrava. Moralmente ilegítima, a escravidão do Império era ainda - primeiro e
sobretudo - ilegal. Como escrevi, tenho para mim que este pacto dos sequestradores constitui o
pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira.

Firmava-se duradouramente o princípio da impuni­dade e do casuísmo da lei que marca nossa


história e permanece como um desafio constante aos tribunais e a esta Suprema Corte.
Consequentemente, não são só os negros brasileiros que pagam o preço da herança escravista
(Alencastro, 2010, [s. p.]).

Referências

BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. […] [inclui] no currículo oficial da Rede de Ensino a
obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras provi­dências. Diário
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acesso em: 25 fev. 2019.

BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. […] [inclui] no currículo oficial da rede de ensino a
obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Diário Oficial da União:
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CARVALHO, J. J. Inclusão étnica e racial no Brasil: a questão das cotas no ensino superior. São
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aumenta nos gabinetes e nas aldeias. Cimi, [s. d.]. Disponível em:
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CIDADANIA

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SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. (org.) Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.

Aula 2
O que é Identidade de Gênero e Sexualidade

O que é identidade de gênero e sexualidade

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você para mais uma aula. Como ponto de partida,
questionamos: o que justifica uma prática como um comportamento deste ou daquele sexo? De
onde se origina a ideia de que uma atitude é coisa de homem ou de mulher? Da biologia? Da
tradição de nosso povo? Da cultura vigente em nossa sociedade?

A fim de melhor entendermos como essas questões se desenvolvem em nossa sociedade,


focaremos o estudo nos fundamentos e nas consequências do conceito de gênero, tão frequente
nas discussões atuais. Para tanto, será enriquecedor voltarmos um pouco no tempo, nos
familiarizando com pensamentos e autoras que, alertando para certas desigualdades entre
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homens e mulheres, nos ajudarão a analisar a situação feminina contemporânea, sobretudo no


campo profissional.

Além de uma análise conceitual e histórica, essa reflexão pode nos ajudar a entender outra
situação recorrente na sociedade brasileira: a violência contra a mulher e os crescentes casos de
feminicídio. Dependendo de seu sexo e de sua vida até este momento, essa situação pode lhe
parecer distante. Além disso, um leitor menos empático pode ainda se basear em um dado
verdadeiro, mas generalizante: o Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo e, por
isso, tanto mulheres quanto homens são assassinados aos milhares todos os anos.

No entanto, basta usar seu buscador na internet com as frases “homem morto por” – ao que o
algoritmo responderá “acidente”, “bandido”, “carro”, “policial” – e “mulher morta por” – que terá
entre as primeiras ocorrências nas notícias “namorado”, “marido”, “companheiro” – para
constatar um dado evidente e triste: milhares de mulheres são assassinadas todos os anos por
seus familiares, parceiros e ex-parceiros. Como dados da ONU mostram, o lugar mais perigoso
para as mulheres – onde elas mais correm o risco de sofrerem uma morte violenta – é a própria
casa (Reuters, 2018). Isso porque, apesar de haver certos avanços no campo da igualdade entre
homens e mulheres, as sociedades ainda apresentam enormes desafios para assegurar às
mulheres uma vida verdadeiramente digna (Conti; Alves, 2019).

Vamos Começar!

Gênero e sexualidades

Nas mais diversas situações da vida social em que precisamos nos apresentar ou nos definir
enquanto pessoa, há uma grande chance de que nossa condição enquanto homens ou mulheres
seja incluída no rol de características essenciais de nossa identidade. Isso acontece porque não
são raras as vezes em que esta condição, ser homem ou mulher, traz consigo uma série de
expectativas acerca dos gostos, das preferências e das predisposições que temos, de certa
forma atribuindo ao fato de sermos homens ou mulheres um agregado de características já
preconcebidas.

Entretanto, essa amplificação de informações que surge apenas do fato de sermos homens ou
mulheres não acontece de modo automático e invariável – e até por isso essas expectativas se
mostram erradas em boa parte das vezes –, uma vez que existe uma diferença fundamental
entre o sexo de que dispomos e o conceito de gênero vigente em uma sociedade.

Quando falamos de sexo, nos referimos aos elementos orgânicos decorrentes de nossa
composição genética, isto é, das características biológicas que se manifestam em nosso corpo
em razão de sermos homens ou mulheres: aparelhos reprodutivos, hormônios e anatomia, entre
outros. Muito embora a afirmação do sexo se dê majoritariamente em termos binários – homem
ou mulher –, existem outras formas de composição biológica dos seres humanos na
denominada intersexualidade.
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O conceito de gênero, por sua vez, pode ser compreendido como uma elaboração histórica de
padrões de comportamento e sociabilidade reproduzidos ao longo do tempo em nossas
estruturas sociais. Em outras palavras, o gênero é uma construção social atribuída a um sexo
biológico, apresentando uma série de condutas, hábitos e modos a serem observados
especificamente por homens ou mulheres, em conformidade com a cultura, história e tradições
de um determinado povo.

Essa concepção acerca da masculinidade e da feminilidade baseada na ideia de gênero tem sua
origem em meados do século XX, em um contexto de busca pela ampliação dos direitos das
mulheres e da consequente afirmação da cidadania da comunidade feminina. Nesse cenário, a
constatação de que as diferentes realidades vivenciadas por homens e mulheres não constituem
um produto das diferenças naturais entre os sexos, mas, sim, de uma assimetria de condições –
direitos, oportunidades, estímulos – socialmente estabelecidas evidenciaria uma relação de
poder, também cultural e socialmente determinada, na qual as mulheres teriam suas liberdades
limitadas.

Nesse contexto, é importante ressaltar que a perspectiva levantada pelo conceito de gênero não
procura negar a existência de diferenças entre homens e mulheres, mas apenas salientar que as
distinções biológicas entre os sexos masculino e feminino não são capazes de explicar toda uma
vastidão de ideias concebidas a respeito de como homens e mulheres devem se comportar. As
diferenças são intrínsecas à existência do ser humano, entretanto tais contrastes não são
suficientes para atribuir aos sexos certas propensões – por exemplo, de que os homens teriam
uma aptidão natural à liderança, ao passo que as mulheres devem ser submissas –, tratando-se,
em verdade, de relações sociais de poder.

Rejeitando essa naturalização das assimetrias políticas, jurídicas, sociais e econômicas


observadas entre homens e mulheres, e fornecendo explicações socioculturais para essa
realidade, a análise propiciada pelo conceito de gênero fornece novas qualificações às diferenças
constatadas nas sociedades, alertando para a existência de desigualdades e privilégios sociais
em favor dos homens e em detrimento das mulheres.

Essa tomada de consciência por parte de alguns segmentos da população de mulheres, de que
as desigualdades constatadas em suas sociedades resultavam de uma construção social
tendente a subjugar o papel feminino em suas coletividades, serviu de importante estímulo aos
crescentes movimentos feministas observados ao longo do século XX. Se é bem verdade que
manifestações de afirmação dos direitos da mulher podem ser identificadas em diversos
períodos da história humana, não se pode negar que a segunda metade do século XX se mostra
particularmente rica no que se refere ao fortalecimento de movimentos e intelectuais feministas.

De imediato, torna-se importante esclarecer que o feminismo de modo algum pode ser
considerado o equivalente feminino do machismo, isso porque este último termo traduz a ideia
de superioridade e supervalorização das características culturais ou físicas vinculadas ao
homem, estabelecendo, assim, uma relação de hierarquia entre homens e mulheres, com o
predomínio dos primeiros. O feminismo, em sentido contrário, consiste na articulação de
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argumentos filosóficos, políticos e sociais, entre outros, visando à defesa da igualdade de


direitos entre homens e mulheres, em suas mais diversas manifestações sociais; trata-se,
portanto, do esforço no sentido de eliminar as mais diversas formas de subordinação ou
inferioridade das mulheres frente aos homens, com vistas a uma sociedade mais igualitária.

Movimentos sociais e intelectuais feministas

Expoente da intelectualidade feminista do século XX, Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma
escritora e filósofa francesa notabilizada por investigar o papel das mulheres nas sociedades,
utilizando-se de um vasto instrumental teórico que engloba história, literatura, ciências médicas e
filosofia, entre demais fontes de conhecimento. Em seus estudos, Beauvoir critica a posição de
inferioridade que socialmente se atribuía às mulheres, incluindo em sua desaprovação tanto as
mulheres que se mostravam passivas, submissas e sem ambições quanto os homens cujo
comportamento cruel e covarde tendia a oprimir suas contemporâneas femininas.

Em sua defesa da emancipação da mulher, a filósofa francesa argumentava que não há destino
ou predisposição natural da figura feminina a, por exemplo, trabalhos domésticos – conforme
tradicionalmente se observava na época –, uma vez que a mulher poderia responsabilizar-se por
outras atividades profissionais, sobretudo se fortalecesse seu acesso ao mercado de trabalho e
garantisse uma maior autonomia em termos de controle de natalidade. Nesse sentido, tornou-se
célebre sua ideia de rejeição a papéis naturalmente vinculados à mulher, e, sim, de existência de
construções sociais com esses efeitos.

Assim, a inferioridade social atribuída à mulher não teria sua origem no nascimento, tampouco
seria algo inevitável ou predeterminado na constituição biológica das mulheres, mas, sim, algo
culturalmente imposto pela comunidade que gradativamente seria incorporado no agir feminino,
daí a expressão “torna-se mulher”. O simbolismo estabelecido por Beauvoir na figura do “produto
intermediário entre o macho e o castrado”, colocando a mulher numa posição inferior ao homem,
pode até parecer estranho à primeira vista; entretanto, temos que reconhecer que, em nossa
linguagem, frequentemente estabelecemos esse processo de negar a masculinidade e afirmar a
feminilidade – de “castrar” – o indivíduo que apresenta fraquezas ou incapacidades: chamar um
garoto de “mulherzinha” ou dizer-lhe “achei que você fosse homem”, ideias sempre associadas à
vulnerabilidade, exemplificam essa representação feita pela filósofa.

Merece também destaque a contribuição teórica fornecida pela filósofa norte-americana Judith
Butler (1956), sobretudo em razão das novas abordagens trazidas em sua ideia de
“performances de gênero”. Segundo essa concepção, a perspectiva de que o sexo é algo
estritamente biológico, ao passo que o gênero pode ser compreendido pela cultura e pela
história, é algo equivocado; existiria, em verdade, uma construção social que afetaria igualmente
o sexo, o gênero e os desejos de um indivíduo. Assim, há em nossa sociedade contemporânea
uma “ordem compulsória”, exclusivamente heterossexual, que estabelece uma relação fixa entre
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um determinado sexo, um gênero e um desejo – por exemplo, ter pênis, ser e comportar-se como
menino e gostar de meninas.

Muito embora esses movimentos feministas do século XX tenham efetivamente contribuído para
uma maior equiparação de direitos entre homens e mulheres, sobretudo em termos de garantias
políticas e civis e de uma maior liberdade social para a população feminina, existem
desigualdades ainda persistentes que impedem que se possa falar, em termos da realidade
internacional ou do contexto estritamente brasileiro, de uma efetiva igualdade nas condições de
vida percebidas por homens e mulheres em tempos contemporâneos.

Siga em Frente...
Mudanças e avanços decorrentes dos estudos e movimentos de gênero

Se focamos a análise na experiência brasileira, constata-se que as últimas décadas foram


proveitosas em variáveis inquestionavelmente relevantes para a emancipação da mulher, a
exemplo da elevação dos níveis educacionais médios da população feminina do Brasil e da
consagração definitiva do direito ao voto e à elegibilidade das mulheres. Todavia, em certos
critérios, sobretudo naqueles relacionados à participação da mulher no mercado de trabalho
nacional, os desafios ainda são imensos para que se observe uma paridade de condições
verdadeira.

Se é verdade que as mulheres têm assumido um protagonismo cada vez maior em termos de
participação no mercado de trabalho brasileiro, elevando o percentual de mulheres no total de
empregos formais ao longo dos últimos anos, essa inserção não se dá nas mesmas condições
observadas pelos trabalhadores homens. De imediato, constata-se que a renda média percebida
pelas trabalhadoras mulheres ainda se mostra bastante inferior aos proventos observados pela
população masculina, atingindo, em dados de 2016, apenas 76,5% dos rendimentos dos homens
(Conti; Alves, 2019).

Ainda do ponto de vista quantitativo, observamos que as mulheres se responsabilizam por


encargos domésticos com uma frequência significativamente superior àquela apresentada pelos
homens, conforme alerta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística: “No Brasil, em 2016, as
mulheres dedicaram aos cuidados de pessoas e/ou afazeres domésticos cerca de 73% a mais de
horas do que os homens (18,1 horas contra 10,5 horas)” (IBGE, 2018, p. 3).

Essa percepção torna-se particularmente importante quando trabalhamos a questão de gênero,


uma vez que os dados computados revelam que os afazeres do domicílio permanecem
compreendidos como responsabilidade predominantemente feminina, em linha com os
processos históricos de construção social anteriormente analisados. Esse processo é
responsável por criar o fenômeno da dupla jornada de trabalho da mulher, haja vista a
necessidade de compatibilizar os trabalhos profissionais externos com as atividades do
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domicílio, fato que inquestionavelmente torna a inserção profissional ainda mais cansativa para
as mulheres sujeitas a tal duplicidade de tarefas.

Sob uma perspectiva qualitativa, mas ainda com os efeitos nocivos derivados de concepções
estereotipadas de gênero, os diversos tipos de preconceitos atribuídos à conduta profissional da
mulher podem ser identificados como fatores limitadores do desenvolvimento feminino em um
ambiente de trabalho. Se, conforme visto, concepções limitadoras do conceito de gênero podem
ser extremamente nocivas aos indivíduos, estabelecendo padrões de condutas restritivos e
muitas vezes preconceituosos a respeito das reais capacidades de uma pessoa, a afirmação de
novas configurações de gênero que emergem nas sociedades atuais podem atuar no sentido
inverso, ampliando as potencialidades individuais e fortalecendo o sentimento de identidade e
realização de cada ser humano.

Nesse contexto, cabe-nos, inicialmente, conceituar a ideia de identidade de gênero, tão frequente
nas discussões contemporâneas que tratam do tema. Na medida em que o gênero traduz uma
construção social imposta a um sexo, a identidade de gênero corresponde a uma percepção
pessoal de qual o gênero a que este mesmo indivíduo pertence, independentemente do sexo
biológico; em outras palavras, é a perspectiva subjetiva de uma pessoa em relação à sua própria
existência, no que se refere aos diferentes gêneros observados. Assim, caso a identidade de
gênero de uma pessoa seja coincidente com o gênero que lhe foi originalmente designado, trata-
se de um indivíduo cisgênero; do contrário, observa-se um transgênero. Desse modo, em termos
concretos, se uma pessoa é designada, no nascimento, como mulher, mas tem uma percepção
diferente a respeito de si mesma, enxergando-se e sentindo-se como homem, trata-se de um
homem transgênero; caso alguém seja apontado como homem, e realmente se identifique com
essa característica, estamos diante de um homem cisgênero. Há também pessoas não binárias,
que percebem a si mesmas fora de uma lógica binária estritamente masculina ou feminina, e fora
da cisnormatividade (Conti; Alves, 2019).

Outro critério relevante para essa discussão, que no entanto não deve ser confundido com sexo
biológico, gênero ou identidade de gênero, é a orientação afetivo-sexual, a qual apresenta a
inclinação para as relações amorosas e eróticas do indivíduo, qualificando-se como
heterossexual caso esse desejo seja dirigido a pessoas de outro gênero; homossexual no caso
do interesse por indivíduos que compartilham o mesmo gênero; bissexual na existência do
desejo por ambos os gêneros masculino e feminino; pansexual, diante da atração por pessoas
independentemente do gênero; e, ainda, assexual diante da não atração afetivo-sexual por
quaisquer dos gêneros.

Nota-se, assim, que vivemos um processo contínuo de estabelecimento de novas perspectivas e


configurações envolvendo aspectos elementares de nossa constituição enquanto seres
humanos. Desqualificar essa série de aprendizados e constatações desenvolvidas ao longo de
nossa história, classificando tais argumentos como radicalismos, lamentações exageradas, ou
ideologias sem fundamentação real seria desconsiderar as adversidades que efetivamente
atingem grupos significativos de nossa sociedade, bem como negar os benefícios que as
mobilizações políticas e sociais podem trazer em termos de igualdade de direitos.
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É evidente que todo e qualquer processo de transformação histórica deve estar sujeito a críticas,
entretanto, rejeitar a própria existência de movimentos que nada mais buscam do que equiparar
direitos diante de situações reais e desiguais – o que, repita-se, é algo diferente de buscar
privilégios ou vantagens – seria atribuir ao funcionamento da sociedade uma neutralidade
inexistente, ignorando que há, como visto, relações de poder, desequilíbrios prejudiciais e
violências específicas sobre determinados grupos.

A pluralidade e a diversidade resultantes do reconhecimento das diferentes formas que os


indivíduos encontram para afirmar suas personalidades somente ampliam as liberdades de que
dispomos para buscarmos a felicidade e a realização pessoal, assegurando que as diferenças –
e não as desigualdades – sejam elemento consagrados das democracias que pretendemos
construir neste século XXI.

Vamos Exercitar?

Conforme observamos em relação às pensadoras e aos movimentos feministas de meados do


séculos XX, e, mais recentemente, no que se refere ao surgimento de novas concepções
envolvendo os estudos de gênero, a humanidade apresenta um contínuo esforço teórico e
importantes manifestações sociais, culturais e políticas, no sentido de manter definições não
restritivas acerca daquilo que nos define enquanto seres humanos, transcendendo os aspectos
meramente materiais ou biológicos em favor da valorização de quaisquer identidades ou
liberdades que contemplem, de modo mais integral, aquilo que nos faz feliz (Conti; Alves, 2019).

Aquilo que entendemos em um determinado momento e local como “natural” pode, em verdade,
representar uma imposição – voluntária ou involuntária – das concepções do grupo dominante
nesse espaço e tempo, assim como são as perspectivas machistas em relação às mulheres e,
possivelmente, as compreensões limitadoras acerca das novas afirmações da identidade de
gênero.

Assim, a permanência de uma mentalidade machista constitui fator fundamental para a


persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira. A conservação de perspectivas
antiquadas, de que a mulher deve se sujeitar a atividades subordinadas e de que essas
limitações seriam justificadas pela natureza feminina tendem a relegar as mulheres a uma
posição de inferioridade em relação aos homens, sustentando uma relação de poder histórica e
culturalmente construída. Nesse cenário, a suposta supremacia do homem, enraizada numa
concepção machista, bem como a menor autonomia conferida à mulher – limitando sua
capacidade de reação –, acabam por produzir os alarmantes níveis de violência contra a mulher
que, infelizmente, testemunhamos ainda em nosso país.

A reversão desse quadro exige, inevitavelmente, a ruptura dessas concepções preconceituosas,


segregacionistas e sexistas. De imediato, o reconhecimento da opressão feminina como
resultado de um processo civilizatório machista, e não de uma inferioridade natural da mulher –
algo em linha com o conceito de gênero – torna-se o ponto de partida para o fortalecimento do
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papel da mulher na sociedade. Como consequência, identificaríamos não apenas a equiparação


das garantias legais entre homens e mulheres, como direitos civis e políticos, mas também de
toda uma série de concepções culturais de nossa sociedade, reconhecendo, por exemplo, a
igualdade no mercado de trabalho, o equilíbrio na responsabilização pelas tarefas domésticas e o
protagonismo feminino nas mais diversas áreas da vida coletiva, em posição de paridade com os
homens, entre outros. Sem dúvida, a eliminação da hierarquia entre homens e mulheres terá
efeitos positivos na redução dos índices de violência contra a mulher (Conti; Alves, 2019).

Saiba mais

Alguns dados sobre a violência de gênero no Brasil

– O Brasil registrou 1 estupro a cada 11 minutos em 2015. São os Dados do Anuário Brasileiro de
Segurança Pública, os mais utilizados sobre o tema. Levantamentos regionais feitos por outros
órgãos têm maior ou menor variação em relação a isso.
– As estimativas variam, mas em geral calcula-se que estes sejam apenas 10% do total dos
casos que realmente acontecem. Ou seja, o Brasil pode ter a medieval taxa de quase meio milhão
de estupros a cada ano.
[…]
– A cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física (Fonte: Relógios da Violência, do
Instituto Maria da Penha).
– Em 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, isto é, assassinato em
função de seu gênero. Cerca de 30% foram mortas por parceiro ou ex (Fonte: Mapa da Violência
2015).
– Esse número representa um aumento de 21% em relação a década passada. Ou seja, temos
indicadores de que as mortes de mulheres estão aumentando (Soares, 2017, [s. p.])

SEFFNER, F.; FELIPE, J. Educação, gênero e sexualidade: (im)pertinências. Petrópolis: Vozes,


2022. 400 p.

A obra organizada por Fernando Seffner e Jane Felipe, Educação, gênero e sexualidade:
(im)pertinências (2022), disponível em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama
de um conjunto de questões no campo dos estudos de gênero, sexualidade e educação no Brasil,
cujo alicerce teórico-político pauta-se nas produções feministas, nos estudos queer, no pós-
estruturalismo, na interface com as pedagogias decoloniais e interseccionais, em uma estreita
vinculação com o contexto cultural e político contemporâneo.
Nos últimos anos, temas como gênero, sexualidade e corpo têm gerado um grande desconforto
por parte de grupos conservadores. Pesquisas realizadas com essas temáticas são colocadas
em suspeição e docentes que atuam em todas as etapas de ensino relatam uma série de
perseguições ao conduzirem suas aulas pelo viés dos direitos humanos, em defesa da equidade
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de gênero, das identidades vistas como dissidentes e de uma educação para as relações étnico-
raciais.

Papéis masculinos e femininos – ou papéis conferidos a homens e mulheres?


Quando questionamos a perspectiva de que existem funções e ativi¬dades naturalmente
exercidas por homens ou mulheres – em benefício de uma outra visão, menos rígida e mais
focada nas influências histó¬ricas e culturais –, torna-se interessante conhecer realidades
diferentes da nossa, em que essas atribuições são determinadas de forma bem diversa. Você já
ouviu falar dos muxes, no México?

Dizem em Juchitán que São Vicente, patrono dessa região do sul do México, viajava com três
sacos cheios de grãos que ia distribuindo por todo o país. Em um deles, estavam os grãos
masculinos; no outro, os femininos; e, em um terceiro, eles eram misturados. “Em Juchitán, o
terceiro saco rasgou”, brincam os habitantes das comunidades zapotecas. Bem na cintura do
México, no Istmo de Tehuantepec (Estado de Oaxaca), vivem os muxes, indígenas nascidos com
sexo masculino que assumem papéis femininos. […]
Os muxes, presentes já na época pré-colombiana, são respeitados nas famílias tradicionais, onde
são considerados os melhores filhos, pois, diferentemente dos heterossexuais, que acabam
virando independentes, eles nunca saem de casa e se tornam um ponto de apoio incondicional,
especialmente para as mães. (García, 2017, [s. p.])

Esse é apenas um de vários casos que poderíamos citar a respeito de outras sociedades nas
quais os papéis normalmente atribuídos a homens e mulheres são distintos daqueles que
estamos habituados em nossa cultura. A partir disso, pense nas conexões entre sexo biológico,
cultura e deveres ou obrigações sociais.

Machismo – uma faca de dois gumes


As consequências negativas do machismo são evidentes quando focamos os efeitos perversos
dessa mentalidade sobre as mulheres: feminicídio, violência física e mental, preconceito e
opressão, entre diversas outras formas de afronta ou desrespeito à existência feminina.
Entretanto, novos olhares para o tema evidenciam os resultados prejudiciais do comportamento
machista também para os homens.
As ideias machistas de que não cabe aos homens expor seus senti¬mentos, ou de que eles
devem ser sempre durões, – expressas nas frases corriqueiras “homem não chora”, “vira homem”
– podem estar por trás da tristeza e angústia que atingem meninos, jovens e homens de nossa
sociedade, conforme argumenta o documentário A máscara em que você vive (do título original
em inglês The mask you live in, dir. Jennifer Siebel Newsom, Estados Unidos, 2015).
Sem que se tenha o intuito de relativizar o sofrimento das principais vítimas do machismo –
certamente as mulheres –, pense nas formas pelas quais o machismo pode afetar
negativamente os homens contemporâneos.
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Aula 3
Meio Ambiente e Consumo

Meio ambiente e consumo

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Ponto de Partida

Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você para mais uma aula. Como ponto de partida,
questionamos: será que estamos emprestando do planeta mais do que podemos pagar, e,
eventualmente, enfrentaremos a fatura pela nossa dívida ambiental?

Imagine que em uma determinada região, uma empresa de produtos eletrônicos está prestes a
lançar um novo modelo de smartphone altamente tecnológico. O dispositivo utiliza materiais
raros e de difícil extração, cuja mineração tem sido associada a impactos ambientais
significativos, como desmatamento, poluição do solo e da água, além de condições de trabalho
desumanas nas áreas de extração.

Além disso, a produção do smartphone envolve processos químicos complexos que geram
resíduos tóxicos, contribuindo para a degradação ambiental. A expectativa é que o novo produto
seja um sucesso de vendas, resultando em um aumento significativo no descarte de modelos
antigos, intensificando o problema do lixo eletrônico na região.

A situação levanta questões éticas relacionadas à bioética, meio ambiente e consumo. Entre os
dilemas enfrentados estão:

Impacto ambiental: como equilibrar os avanços tecnológicos com a responsabilidade


ambiental, considerando os danos causados pela extração de materiais e os resíduos
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tóxicos gerados durante a produção?


·Justiça social: como garantir que a produção do smartphone respeite os direitos dos
trabalhadores envolvidos na extração de materiais, bem como os direitos das comunidades
locais afetadas pelo impacto ambiental?
Obsolescência programada e lixo eletrônico: como lidar com o aumento esperado no
descarte de dispositivos antigos, considerando o impacto do lixo eletrônico na saúde
humana e no meio ambiente?
Conscientização do consumidor: como informar e conscientizar os consumidores a
respeito das consequências éticas e ambientais associadas ao ciclo de vida do produto,
incentivando escolhas mais sustentáveis?

Será interessante investigar alguns temas relevantes que se conectam a tais questionamentos: o
avanço científico e tecnológico e os efeitos sobre o ecossistema; a importância do
fortalecimento da bioética, como o campo responsável pelos princípios de utilização das novas
tecnologias nas áreas das ciências da vida; e ainda, como os padrões de consumo também se
relacionam com o ambiente em que vivemos e as novas possibilidades de intervenção humana
em seu funcionamento.

Vamos Começar!

Os debates que abordam o meio ambiente apresentam um importante ponto de convergência


com a ética em um dos campos mais representativos da evolução tecnológica na
contemporaneidade: a bioética. Mas, afinal de contas, em que consiste a bioética? Trata-se de
uma disciplina que envolve questões éticas relacionadas à vida, saúde, pesquisa científica e
tecnologia médica. Sua importância reside no fato de fornecer uma estrutura ética para lidar com
dilemas complexos que surgem no campo da biologia, medicina e ciências da saúde. Ela busca
equilibrar avanços científicos e tecnológicos com considerações éticas, promovendo o respeito
pelos direitos humanos, a dignidade e os valores fundamentais.

Além disso, a bioética desafia a sociedade a refletir acerca das implicações éticas de novas
descobertas e inovações no campo da saúde, como a engenharia genética, a reprodução
assistida, a pesquisa com células-tronco e a inteligência artificial na medicina, bem como atua na
proteção de pessoas que participam de pesquisas científicas, garantindo que os experimentos
sejam conduzidos de maneira ética e segura.

Deste modo, sua importância transcende as fronteiras nacionais pois os avanços científicos
muitas vezes têm impactos globais. Ao proporcionar uma estrutura ética, a bioética contribui
para a tomada de decisões informadas, políticas públicas justas e a construção de uma
sociedade que valoriza a integridade, a justiça e o bem-estar tanto no presente quanto para as
gerações futuras.

O avanço nas pesquisas científicas envolvendo campos da biologia e da medicina apresenta


inegáveis benefícios para a humanidade, na medida em que nos permite solucionar questões que
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há tempos impunham obstáculos ao desenvolvimento humano – por exemplo: a criação de


vacinas e novos tratamentos auxilia no combate a doenças graves; a melhoria no cultivo de
vegetais ou na duração dos alimentos constitui um aliado no combate à fome; e a compreensão
da genética humana pode ajudar a prevenir frequentes problemas de saúde.

Entretanto, o domínio de tecnologias antes inéditas amplia o potencial de intervenção do homem


sobre a natureza, possibilitando a realização de novas atividades cujos resultados ainda são
incertos, tanto do ponto de vista biológico quanto em uma perspectiva dos efeitos sobre a
convivência e organização de nossas sociedades.

O campo da bioética

No contexto dos debates ambientais, é fundamental questionarmos, também e por extensão, se


a modificação genética de plantas utilizadas em nossa alimentação terá impactos sobre o
ecossistema e sobre nossa saúde. Inexistindo, até o momento, uma resposta definitiva para essa
pergunta, seria correto continuarmos utilizando tais técnicas? Até que ponto devemos manter
artificialmente a vida de um ser humano, adiando a morte que certamente já teria ocorrido em
condições naturais? Se o aumento da expectativa de vida do homem causar pressões sobre o
meio ambiente, seria justo continuarmos desenvolvendo tecnologias para retardar a morte
humana? Seria correto clonarmos seres humanos? A alteração genética de embriões,
determinando características físicas do bebê que vai nascer, poderia aumentar o racismo em
nossa sociedade? Se sabemos que uma doença é incurável, seria justo reduzir o sofrimento do
paciente antecipando sua morte?

Desse modo, para além do que dispomos de tecnologia para fazer, devemos manter a discussão
do que seria efetivamente correto fazer. A bioética, assim, pode ser compreendida como o
campo de estudos que se utiliza de conceitos da filosofia, sociologia, psicologia e antropologia,
entre outros, para estabelecer juízos éticos a respeito da utilização de novas tecnologias nas
áreas das ciências da vida, animal e vegetal (Conti; Alves, 2019).

É importante notar que a evolução tecnológica contemporânea não torna obsoleto o estudo da
ética em nossas sociedades, pelo contrário, levanta novos questionamentos, resultantes de
novas práticas científicas, para os quais a avaliação ética se torna indispensável. É nesse ponto
que precisamos refletir a respeito da relação entre consciência ambiental e a cidadania. Pensar
essa relação é ideal para retomarmos diversos significados da cidadania.

As décadas de 1970 e 1980 são marcos da emergência de um debate ambiental que questiona o
modelo de desenvolvimento que se espalhou pelo mundo (Zhouri; Laschefski, 2010). Além das
crises econômicas, esse período acompanha também recorrentes crises ambientais. O desastre
de Chernobyl (1986) passa a ser o símbolo do despertar da consciência de uma “cidadania
verde”, que não está descolado do sentido da cidadania transnacional. Começa-se a refletir com
mais força sobre os impactos para a população local, mas também para a vida humana no
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mundo todo, de ações que prejudicam a natureza, como a mudança do curso de um rio, a
poluição das águas, a expansão das fronteiras agrícolas e a utilização dos agrotóxicos e
transgênicos, além da destruição das florestas.

Siga em Frente...

Movimentos sociais ambientais


O líder indígena Ailton Krenak, desde seu memorável discurso na Assembleia Constituinte, em
1987, quando pintou o rosto com tinta preta de jenipapo em protesto contra o retrocesso na luta
pelos direitos indígenas, vem nos inspirando a repensar o modo egoísta, predatório e
individualista, como temos estabelecido nossa existência enquanto humanidade. Em Ideias para
adiar o fim do mundo (2019), Krenak nos convida a:

[…] refletir sobre o mito da sustentabilidade, inventado pelas corporações para justificar o assalto
que fazem à nossa ideia de natureza. Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de
que somos a humanidade. Enquanto isso — enquanto seu lobo não vem —, fomos nos alienando
desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós,
outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza.
Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza (Krenak,
2019).

Perceba que a dimensão política da cidadania está inserida também na discussão sobre o meio
ambiente. Um olhar ambientalista nos permite examinar os problemas que as mudanças
ambientais colocam para o processo político moderno, em particular para o exercício da
cidadania. Novamente, trata-se da articulação entre o local e o global como necessária para a
conscientização dos impactos ecológicos e, simultaneamente, a busca de ações políticas para
enfrentá-los (Conti; Alves, 2019).

Além de meio ambiente, impactos ecológicos e necessidade de desenvolvimento sustentável,


podemos falar também da corrupção relativa às normas de preservação ambientais – por
empresas, corporações e pelo Estado. Os prejuízos da corrupção são incalculáveis e podem até
mesmo ser irreparáveis. Na sociedade brasileira, é impossível discutir esse tema sem
mencionarmos os dois maiores crimes ambientais de nossa história – e dois dos maiores do
mundo – ocorridos nas cidades mineiras de Mariana (2015) e Brumadinho (2019).

Enquanto os acontecimentos de Brumadinho ainda se desenrolam, quase como uma repetição


inadvertida do primeiro desastre, podemos falar mais detalhadamente do crime ambiental que se
consolidou no Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, com o rompimento da barragem da
empresa Samarco Mineração S. A., que pertence à Vale e à BHP Billiton. Estima-se que 50
milhões de tipos de resíduos de metais pesados tenham sido lançados em diferentes rios, em
particular no Rio Doce. A devastação causou danos sociais, econômicos, públicos e privados de
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enorme envergadura, gerando mortes, doenças, contaminação, destruição de cidades e,


particularmente, a contaminação das águas dos rios, que caminhou por diferentes regiões até
desembocar no mar (Conti; Alves, 2019).

Esse desastre poderia ter sido evitado, pois, segundo notícias de jornais e alegações de
movimentos ligados à causa, o rompimento da barragem parece ter sua raiz última em uma
fraude do licenciamento ambiental e em operações ilícitas das atividades dessa empresa (MAB,
2016; Augusto, 2016). A empresa não teria cumprido seu dever de gestão do risco ambiental e de
fazer as reparações nas inúmeras rachaduras que estavam comprometendo a estrutura das
barragens. Também teria havido negligência e ausência de fiscalização efetiva por parte do
Estado para que as normas de segurança ambiental fossem cumpridas (Graça, 2018). Muitas
vezes, o alerta dos fiscais que trabalham comprometidos com seu dever público não é ouvido
pelos responsáveis políticos. Essa situação é muito mais abrangente no Brasil, não se resumindo
apenas ao caso da Samarco.

De fato, essa questão se repete no Brasil e no mundo. A questão da regulamentação, como


explicam Altimiras-Martin, Cooper-Ordoñez e Filho (2019), é fundamental para entendermos a
visão predominante do mundo corporativo sobre o respeito a normas ambientais. Como
explicam os autores, a visão tradicional que defende a necessidade de regulamentação
ambiental das empresas é vista como um custo, que implica burocracia e tempo, e reduz a
competitividade, pois geralmente exige investimentos. No entanto, segundo os autores, essa
visão não corresponde à realidade econômica das empresas comprometidas com o meio
ambiente. Como ressaltam, há um desconhecimento, mesmo por parte das universidades e de
engenheiros que trabalham com questões ambientais, dos benefícios das tecnologias verdes e
de “antipoluição”, bem como da gestão ambiental que segue as normas e investe em inovação
ambientalmente limpa.

O rompimento da barragem de Santarém, no município de Mariana (MG), causado pelo não


cumprimento de procedimentos de segurança pela Usina Samarco, é emblemático para
pensarmos essa questão. São incalculáveis os impactos desse crime que foi considerado o
maior dano ambiental da história do Brasil devido à enxurrada de lama tóxica jogada em vários
rios (principalmente o Rio Doce, que desemboca no mar); a destruição de uma cidade inteira, São
Bento; a contaminação de muitas pessoas das comunidades locais; o prejuízo econômico e os
danos à vida humana em geral. Um dos desafios dos movimentos dos atingidos pelas barragens
é justamente fortalecer a articulação de suas lutas com os movimentos ambientalistas
internacionais para reivindicar a reparação de danos para população local (que até hoje
permanece ignorada) e para evitar novas catástrofes.

Dificilmente um movimento ambientalista despreza a necessidade da ação global para a defesa


do meio ambiente. Vemos que há uma ampliação do conceito de cidadania que nos permite não
apenas reconhecer a natureza como um sujeito de direito, como também discutir questões
variadas relativas, por exemplo, à dimensão social e às relações étnico-raciais implicadas na
questão ambiental, à legitimidade de atuação dos movimentos ambientalistas, e à noção de
justiça ecológica local e global.
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No Brasil, a regulamentação ambiental parece estar muito longe de poder ser realizada de forma
plena, na mentalidade e na prática dos empresários e do Estado. Em vez de proteção ambiental,
predomina aqui a pressão que as corporações e megaempresas fazem no meio político para
quebrar todo tipo de barreira para explorar a natureza e/ou utilizar produtos químicos, como
agrotóxicos e venenos – chamados por seus apologistas de “defensores agrícolas”. Além dessa
pressão feita de fora para dentro, os empresários ligados ao agronegócio constituem no Poder
Legislativo (Câmara dos Deputados e Senado Federal) a “Bancada do Boi”. Ou seja, não só
operam na lógica da pressão e do lobby, como também ocupam os cargos de deputados e
senadores, articulando eles próprios as políticas e as leis favoráveis aos próprios negócios, como
flexibilização das leis de preservação ambiental e mudança do órgão responsável pela
demarcação de terras indígenas (Conti; Alves, 2019).

Além de grupos organizados ao redor da questão ambiental, pequenos agricultores, a população


indígena e tradicional, de ribeirinhos e quilombolas têm exercido um papel importante de defesa
do meio ambiente e de sua função social no Brasil (Zhouri, 2008). Não por acaso, a questão da
demarcação das terras indígenas tem sido noticiada recorrentemente nos jornais, com
denúncias, por parte dessa população, do desrespeito de leis de proteção de seus territórios e de
suas culturas. Não obstante alguns avanços realizados em matéria de proteção ambiental por
parte do público e do privado, os limites e desafios da regulamentação, sobretudo da justiça
ambiental, ainda são muitos (Shiki; Shiki; Rosado, 2015; Zhouri, 2008). O risco de não
conseguirmos avançar nesse sentido representa um dano para a população brasileira como um
todo.

De fato, a cidadania ambiental ilumina um sentido universal, essencialmente coletivo. A


cidadania clama pela urgência da ação e participação ativa cidadã em defesa do meio ambiente
de forma articulada, em âmbito local, nacional e global.

Ademais, um dos desafios mais significativos e atuais percebidos pelo Brasil – e profundamente
relacionado ao sistema econômico vigente e às ideias de individualismo e responsabilidade –
consiste na manutenção de uma ordem ambiental equilibrada em nosso território, sobretudo em
função dos padrões de consumo vigentes na sociedade contemporânea.

Consumo e consumismo

Avanços técnicos nos processos produtivos, bem como inovações na organização e


funcionamento de empresas, podem ser identificados como fatores de ampliação da capacidade
produtiva das companhias contemporâneas, ampliando a oferta de bens e serviços em nossa
sociedade. Do lado dos consumidores, a multiplicação de necessidades materiais – sejam elas
reais ou imaginadas – para a satisfação de uma infinidade de tarefas rotineiras e o significado
que coletiva e individualmente damos para a aquisição de novos produtos tendem a estimular a
demanda por bens e serviços em uma economia. O resultado do encontro dessas duas
tendências pode ser definido como o fortalecimento do consumismo.
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Enquanto o conceito de consumo expressa majoritariamente a aquisição de um bem ou de um


serviço para satisfazer uma necessidade, a ideia de consumismo, por sua vez, revela a
intensificação desse processo, atingindo níveis elevados de compra que nem sempre
apresentam uma utilidade real ou relevante. Assim, o consumismo pode ser ilustrado pela
aquisição frequente de produtos desnecessários, pela obtenção de bens ou serviços que
simbolizam um status elevado na sociedade em que vivemos – artigos de luxo, por exemplo – ou
pela compulsão a comprar, como forma de compensar algum sentimento desagradável. Do lado
da oferta, o consumismo pode ser estimulado pelo reforço que a publicidade fornece ao prazer
ou prestígio de uma compra, pela criação constante de novas necessidades materiais – ou
mesmo do sentimento de necessidade – e pela produção proposital de bens com prazo reduzido
de utilização, que quebrarão ou se tornarão ultrapassados brevemente, exigindo novas compras
– a chamada obsolescência programada (Conti; Alves, 2019).

Seja como for, o comportamento consumista apresenta profundos impactos no meio ambiente
em que vivemos, seja porque os recursos naturais são utilizados na produção desses bens e
serviços, na condição de insumos do processo produtivo, seja porque seu consumo produzirá
resíduos ou descartes prejudiciais ao ambiente. Os impactos ambientais podem sem
considerados externalidades negativas da dinâmica econômica, isto é, efeitos não propositais de
uma atividade econômica que acabam afetando, nesse caso negativamente, pessoas que sequer
participaram dessa atividade.

Assim, quando uma fábrica polui o ar de uma cidade inteira, ou quando nossos carros produzem
fumaça que contribuem para essa poluição, percebemos, uma vez mais, que nosso
comportamento individual não se desenvolve de modo separado da vida coletiva, reforçando a
necessidade de mantermos padrões éticos também no que se refere aos níveis de consumo que
desejamos enquanto indivíduos e sociedade. A aplicação dessa ética no campo ambiental pode
sugerir diferentes e criativos padrões alternativos, por exemplo, a consolidação da reciclagem
enquanto prática habitual no Brasil, o compartilhamento de bens e serviços que reduz os custos
ambientais – dar carona, dividir eletrodomésticos de uso esporádico entre vizinho ou familiares
–, o estabelecimento de clubes de trocas de produtos que possam ser reutilizados ou mesmo a
simples manutenção ou conserto de bens, evitando novas compras.

Vamos Exercitar?
Vamos retomar os questionamentos sobre uma hipotética empresa de produtos eletrônicos
prestes a lançar um novo modelo de smartphone produzido com materiais raros, de difícil
extração, cujos impactos ambientais são altamente degradantes e são adversas as condições da
mão de obra. De que modo os conteúdos trabalhados nesta aula auxiliam na busca por
orientações?

Trata-se de uma situação problemática que destaca a necessidade de abordagens éticas e


sustentáveis na indústria, promovendo o desenvolvimento de tecnologias inovadoras sem
comprometer o meio ambiente, a justiça social e a saúde global.
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Como vimos, a bioética é um campo interdisciplinar que lida com questões éticas emergentes
nas áreas da biologia, medicina e tecnologia, promovendo reflexão crítica a respeito das
implicações morais relacionadas à vida, saúde e pesquisa científica. Sua importância reside em
guiar práticas e decisões nessas áreas, garantindo que avanços científicos e tecnológicos
respeitem valores humanos fundamentais. Ela é crucial para orientar a aplicação responsável da
ciência e da tecnologia no domínio da vida (animal e vegetal) e da saúde.

Já no contexto da preservação ambiental, exemplo clássico de desafio coletivo, é justamente a


superação do consumismo individualista, em benefício de uma ética que associa o consumo
pessoal à preservação coletiva, o caminho para uma relação harmônica entre as duas ordens. Tal
perspectiva é mantida no campo da bioética, na medida em que as novas tecnologias, longe de
se afastarem do saber ético, buscam nesse campo de estudo os parâmetros para adaptarem as
inovações científicas aos valores que regem a sociedade.

O exercício da cidadania ambiental chama atenção, portanto, à finitude dos recursos ambientais
e à ameaça para a humanidade do uso predatório dos bens naturais (Acosta, 2016). Da mesma
forma, somos chamados para a reflexão de que um desastre ambiental não pode mais ser
considerado local ou nacional, mas sim global, já que seus efeitos ameaçam a vida na terra.

Saiba mais

A obra escrita por Elizeu Barroso Alves, Consumo e sociedade: um olhar para a comunicação e
as práticas de consumo (2019), disponível em sua biblioteca virtual, fornece um importante
panorama das relações do consumo com a sociedade, proporcionado ao leitor desenvolver sua
própria reflexão a respeito do assunto. Nesse sentido, fala das principais transformações da
sociedade (relacionando a discussão com o consumo e os pensamentos mercadológicos),
discute o papel da comunicação no consumo e debate a globalização e as relações mercantis.

Reflita

Leia os trechos a seguir de reportagem realizada um ano após o crime ambiental em Mariana:

Ao revisitar as ruínas do distrito de Bento Rodrigues, a agricultora Marinalva dos Santos Salgado,
conseguia explicar o que era cada cantinho do vilarejo, devastado pela avalanche de rejeitos.
Mesmo doído, o retorno ameniza a saudade e, porque as lembranças revividas ali a aproximam
de tudo que lhe faz falta: dos amigos que se foram, dos vizinhos que não estão por perto, de sua
casa e da carta que seu marido havia escrito com declarações de amor e registros de 22 anos de
casamento. Ele morreu cinco anos antes da destruição de Bento, e Marinalva não teve tempo de
pegar nenhuma recordação de seu companheiro naquele 5 de novembro.
“Casa eu consigo de volta, mas isso não consigo mais. Ele escreveu na agenda muitas coisas
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sobre a vida da gente, me agradecendo pelo que a gente viveu junto, os maus momentos, os
bons momentos, me declarando amor na hora da morte. Até a camisa que ele morreu com ela,
que nunca havia sido lavada, se foi com a lama. Isso daí era o meu bem mais precioso”, revela.
[…]
Os números da tragédia são todos de grandes proporções: 256 feridos, 300 desabrigados, 424
mil pessoas sem água. Exceto um deles, o de condenados ou presos até agora, que é zero. Um
ano depois, 22 pessoas são denunciadas, sendo 21 por homicídio com dolo eventual, quando se
assume o risco de matar. As lembranças ainda são latentes, como se o dia 5 de novembro de
2015 realmente nunca tivesse acabado. Bento Rodrigues virou ruína e permanece afundado em
lama, o rio Doce parece marcado para sempre por uma mancha escura de impurezas e tristeza
(Ferreira, [s. d.], [s. p.]).

Referências
ACOSTA, A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia
Literária, Elefante, 2016.

AUGUSTO, L. Samarco fraudou documentos e ocultou dados para manter barragem, diz MP.
Exame, São Paulo, 10. jun. 2016. Disponível em: https://exame.com/negocios/samarco-fraudou-
documentos-e-ocultou-dados-para-manter-barragem-diz-mp/. Acesso em: 7 fev. 2019.

ALTIMIRAS-MARTIN, A.; COOPER-ORDOÑEZ, R. E.; FILHO, W. L. Environmental friendly products


and sustainable development. In: LEAL FILHO, W. (ed.). Encyclopedia of sustain­ability in higher
education. [S. l.]: Springer, Cham., 2019.

ALVES, E. B. Consumo e sociedade: um olhar para a comunicação e as práticas de consumo.


Curitiba: Intersaberes, 2019. 196 p. Disponível em:
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/168152/pdf/0?
code=qEf4Kk+UeXXB8jSH8Zk7p/Rp5CsYuungE6LAqRM893DOGCdA7Nev++VKNPEoqzfv9CiHwi
Z1ksUXZPHILuEOIw==. Acesso em: 04 abr. 2024.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A., 2019.

FERREIRA, B. Tristeza que não tem fim. O Tempo, [s. d.]. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/polopoly_fs/1.1395510.1478314849!/tristeza.html. Acesso em: 7
fev. 2019.

GRAÇA, A. Samarco e o Poder Público. Jornal da Unicamp, 5 fev. 2018. Disponível em:
https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/02/05/samarco-e-o-poder-publico. Acesso
em: 7 fev. 2019.
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KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS (MAB). Secretaria Nacional. Análise do MAB do
crime causado pelo rompimento da barragem da Samarco (Vale/BHP Billiton). São Paulo: MAB,
set. 2016. Disponível em: https://issuu.com/mabnacional/docs/combinepdf. Acesso em: 7 fev.
2018.

SHIKI, S.; SHIKI, S. F. N.; ROSADO, P. L. Políticas de pagamento por serviços ambientais no Brasil:
avanços, limites e desafios. In: GRISA, C.; SCHNEIDER, S. Políticas públicas de desen­volvimento
rural no Brasil. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2015.

ZHOURI, A. Justiça ambiental, diversidade cultural e accountability: desafios para a governança


ambiental. Revista Brasileira de Ciências Sociais, São Paulo, v. 23, n. 68, out. 2008.

ZHOURI, A.; LASCHEFSKI, K. Desenvolvimento e conflitos ambientais: um novo campo de


investigação. In: ZHOURI, A.; LASCHEFSKI, K. Desenvolvimento e conflitos ambientais. Belo
Horizonte: UFMG, 2010.

Aula 4
Mídias digitais - desafios à um país autônomo

Mídias digitais: desafios a um país autônomo

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Ponto de Partida
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Em uma sociedade altamente conectada, as mídias digitais desempenham um papel central na


disseminação de informações. No entanto, a questão do anonimato on-line tem levantado
preocupações significativas, especialmente no contexto das fake news. Considere a seguinte
situação:

Em uma plataforma de mídia social popular, usuários têm a opção de permanecerem anônimos
ao compartilhar conteúdo, incluindo notícias e informações. Recentemente, têm surgido diversos
casos de disseminação deliberada de notícias falsas, calúnias e informações difamatórias,
muitas vezes perpetuadas por perfis anônimos. Essas fake news têm causado impactos sérios
na sociedade, influenciando decisões políticas, alimentando teorias conspiratórias e
prejudicando a reputação de pessoas e organizações. A confiança nas informações on-line está
erodindo, e as consequências estão se estendendo para além do ambiente digital.

Diante de tais ponderações, é interessante questionarmos: em uma sociedade democrática e


plural, qual tratamento deveria ser dispensado às ondas de preconceito contemporâneas nas
mídias digitais? Dentre os desafios específicos, levantamos:

Anonimato responsável: como equilibrar o direito ao anonimato on-line com a necessidade de


responsabilidade e transparência, especialmente quando isso contribui para a disseminação de
informações falsas?

Identificação de fontes: como as plataformas podem aprimorar os mecanismos de verificação de


identidade para garantir que as fontes de informação sejam confiáveis, sem comprometer a
privacidade dos usuários?

Impacto na confiança pública: como lidar com o impacto crescente na confiança pública em
relação às informações on-line e como isso afeta a participação cívica e a formação de opinião?

Legislação e regulação: qual deve ser o papel do governo na criação de legislação e regulação
que aborde a disseminação de fake news sem infringir os direitos de privacidade dos cidadãos?

Educação digital: como promover a alfabetização digital e educar os usuários acerca da


identificação de fontes confiáveis e a compreensão crítica das informações, reduzindo a
propagação de fake news?

Vamos Começar!

Mídias digitais e movimentos extremistas


A importância que a internet tem em nossas vidas, em meados do século XX, é, sem dúvida, um
divisor de águas no modo como conduzimos nossos afazeres cotidianos, não é mesmo? Os
benefícios em termos de difusão do conhecimento, ampliação dos contatos e acesso à
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informação são inegáveis, alterando hábitos e rotinas ao redor de todo o mundo. Entretanto, na
condição de instrumento técnico, a internet pode ser utilizada tanto para fazer o bem como para
propósitos perversos (Conti; Alves, 2019). Vamos explorar algumas das adversidades que
enfrentamos decorrentes dos usos perversos que o ser humano faz deste advento tecnológico.

O estabelecimento de mídias digitais – compreendidas, de modo resumido, como a


comunicação que estabelecemos por meio da internet – foi importante para a democratização
da informação, permitindo que novas fontes fossem criadas sem que se exigisse um custo
elevado, como os dos jornais impressos, por exemplo. Todavia, essa diversificação abrange a
difusão de conteúdos sérios e verdadeiros, mas também a proliferação de materiais mal-
intencionados ou mesmo pouco compromissados com a realidade. Consolidou-se, desse modo,
um ambiente propício para a divulgação de ideias extremistas, constituídas por pensamentos ou
doutrinas que visam à ruptura radical da realidade existente, utilizando-se de táticas e
procedimentos que, não raras vezes, se mostram ilegais e/ou violentos.

Podemos identificar que um dos problemas iniciais está na possibilidade de anonimato, um forte
estímulo ao comportamento extremista. A dificuldade de rastrear a origem ou a autoria de um
conteúdo divulgado pelas mídias digitais incentiva que esse seja o meio escolhido para a difusão
de materiais de doutrinação extremista. Semelhantemente, se a identidade pessoal pode ser
escondida mais facilmente na internet, o próprio conteúdo disseminado digitalmente sofre um
menor controle se comparado a outros tipos de comunicação, como jornais ou revistas,
facilitando que ideologias racistas ou preconceituosas, por exemplo, alastrem-se pelas redes
digitais.

A utilização das mídias digitais eleva a capacidade de mobilização dos agentes extremistas,
aproximando virtualmente indivíduos que se encontram geograficamente dispersos em um país
– ou mesmo ao redor do globo. Nesse contexto, a utilização de algoritmos pelas redes sociais e
outras plataformas digitais acaba por criar o chamado “efeito bolha”, ou “câmaras de eco”, na
medida em que os meios digitais são programados para reforçar os conteúdos já pesquisados
pelo internauta, reafirmando suas convicções e passando a impressão de que seu ponto de vista
é o único existente, ou o preponderante. Esse processo pode ser ainda mais intenso se o
internauta se recusa a acessar pontos de vista ou opiniões diferentes, na chamada
“autocensura”, um movimento que reduz a diversidade nas fontes e nas perspectivas por ele
analisadas.

Do ponto de vista metodológico, o pensamento extremista encontra forte potencial na utilização


das mídias sociais sob a forma de fake news, ou notícias falsas. Se é verdade que informações
incorretas podem causar graves consequências na percepção comunitária de determinado tema,
a elaboração proposital de conteúdos falsos, cuidadosamente preparados para causar comoção
e/ou desinformação sobre temas polêmicos, pode ter graves impactos, por exemplo, em
processos eleitorais. Semelhantemente, a programação de bots, ou robôs que assumem a
aparência de um internauta real, é frequentemente utilizada para acelerar a difusão ou o
compartilhamento de uma ideia, ampliando sua visibilidade e gerando uma percepção de que
determinada visão seria amplamente aceita, o que não é real (Conti; Alves, 2019).
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Um ponto que merece destaque nessa análise da utilização das mídias digitais para propósitos
extremistas é a facilidade com que qualquer indivíduo pode fazer parte dessa engrenagem. Se a
explosão de uma bomba, o ataque físico a minorias ou um ato de vandalismo exigem um
comprometimento maior do agente, a difusão de material extremista na internet ou a propagação
de fake news podem decorrer de um leve descuido dos internautas.

Siga em Frente...

Banalidade do mal
A respeito da reprodução de conteúdo falsos nas redes sociais, ao permitir que sejam postados
conteúdos desconhecidos em sua conta nas redes sociais, ou ao divulgar informações incertas
aos conhecidos, um indivíduo pode estimular o processo de desinformação característico das
mídias digitais. Nota-se, nesse caso, que não há necessariamente o objetivo expresso de causar
o mal, mas apenas a ausência de uma reflexão maior acerca das consequências negativas da
conduta estabelecida, aproximando-se do conceito de “banalidade do mal”, de Hannah Arendt.
Nessa concepção, a filósofa argumenta que a maldade não necessariamente está ligada
obrigatoriamente a uma finalidade cruel por parte do indivíduo, mas a simples falta de juízo
crítico sobre uma conduta, realizada de modo irrefletido, já é suficiente para caracterizar o mal
(Arendt, 2006); com o advento da internet, esse comportamento imprudente pode ter um alcance
inédito, com consequências extremamente perigosas.

Se essas considerações podem eventualmente parecer algo exagerado, a realidade insiste em


demonstrar que a proliferação descuidada de notícias falsas ou informações inverídicas tem o
potencial para originar graves desgraças, mesmo que não seja esse o intuito de tal
compartilhamento. Um boato disseminado na internet de que uma mulher estaria sequestrando
crianças para a prática de magia negra – algo que sequer ocorreu – promoveu a ira de alguns
habitantes do litoral paulista, que acabaram por assassinar uma inocente ao confundi-la com a
suposta – e, repita-se, inexistente – sequestradora, constituindo a primeira tragédia nacional de
grande repercussão causada pelas fake news. Longe de ser um caso isolado, o fenômeno insiste
em repetir seu desfecho:

Desde então, histórias bárbaras como esta se repetem. Recentemente, na Índia, um homem de
26 anos foi confundido com um sequestrador de crianças exibido em um vídeo. Apanhou até a
morte. Novamente uma invenção: tratava-se de uma campanha veiculada no Paquistão,
alertando para a segurança dos menores nas ruas. O material foi editado e compartilhado via
redes sociais, levando a população em pânico a matar outro inocente – nos últimos meses, o
país registrou dezenas de casos parecidos (Carpanez, 2018, [s. p.]).

Pós-verdade e negacionismo
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Em termos sociais mais amplos, a prática de disseminar notícias falsas, voluntária ou


involuntariamente, apresenta um dano coletivo extremamente grave, na medida em que fragiliza
o compromisso que a comunicação deve ter com a verdade. A profusão de inúmeras versões de
um mesmo fato – muitas das quais propositadamente falsas –, bem como a utilização das fake
news para divulgar eventos que sequer ocorreram, afeta negativamente a possibilidade de se
verificar a veracidade das informações recebidas. Nesse cenário, os fatos, objetivos, podem
receber menos importância para a formação das opiniões individuais ou pública do que, por
exemplo, apelos emocionais, boatos ou crenças pessoais – trata-se da “pós-verdade” (Conti;
Alves, 2019).

Termo recorrente nos dias de hoje, a pós-verdade inverte o processo tradicional da formação de
opiniões, no qual fatos objetivos produzem uma certa percepção sobre a realidade, fazendo com
que a própria vontade que um indivíduo tem sobre algo ser ou não verdade interfere na sua
compreensão dos fatos.

Consolidada com certa frequência nas conversas cotidianas e nas mídias digitais, a pós-verdade
se torna ainda mais preocupante quando inserida em contextos nos quais a busca pela verdade é
algo essencial, como na ciência. Assim, o estabelecimento de procedimentos científicos que
relativizam a verdade, desviando suas conclusões para objetivos e interesses específicos, dá
origem àquilo que chamamos de fake science, “falsa ciência” ou “pseudociência”. Nesse
contexto, muito embora a tecnologia possa fornecer, como vimos, instrumentos para a
propagação do fanatismo, o radicalismo pode, em sentido inverso, se opor aos avanços da
ciência, refutando evidências que os estudos e pesquisas sérias insistem em oferecer em
benefício de resultados alternativos obtidos pela fake science. Trata-se, nesse caso, do
negacionismo, cuja aplicação mais significativa da contemporaneidade tem por objeto o
aquecimento global.

O aquecimento global pode ser compreendido, grosso modo, como um fenômeno de elevação
das temperaturas médias da atmosfera e dos oceanos terrestres, se comparados aos dados
registrados décadas atrás, em razão do calor ocasionado pela ação humana – sobretudo em
função dos gases causadores do efeito estufa. Por sua natureza transfronteiriça –isto é, que não
está restrita a nenhum país específico – esse fenômeno constitui um dos mais graves problemas
da ordem mundial contemporânea, cujas consequências se mostram extremamente perigosas –
incluindo o derretimento de calotas e áreas polares, a elevação dos níveis dos oceanos, a
desertificação de áreas férteis, por exemplo (Conti; Alves, 2019).

Instituição criada no âmbito da Organização das Nações Unidas, em 1988, o Painel


Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, ou IPCC (na sigla em inglês), é atualmente a
principal fonte de estudos a respeito do aquecimento global. Alertando com reiterada frequência
e intensidade acerca dos riscos trazidos pelo aquecimento global, essa entidade científica
produziu, em 2018, seu quinto relatório, no qual adverte a respeito da necessidade urgente de
uma ação climática em âmbito global. Aprovado por 195 Estados, o documento informa que os
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níveis atuais de emissão de gases de efeito estufa produzirão efeitos irreversíveis no ambiente,
afetando negativamente a saúde humana, o crescimento econômico mundial e, claro, os
ecossistemas de nosso planeta.

A perspectiva notificada pelo IPCC, relativa à existência e à gravidade do aquecimento global, foi
objeto de um estudo científico que, em 2013, constatou ser essa a conclusão obtida pela quase
totalidade dos artigos científicos que abordaram o tema, em escala global. Em um universo de
cerca de 12 mil trabalhos científicos, aproximadamente 99% atribuíam ao homem a principal
causa das mudanças climáticas observadas (Ebel, 2013). Nesse contexto, contando com um
suporte científico ínfimo – de cerca de 1% da produção especializada sobre o tema, e
contrariando o principal foro de análise da questão, o IPCC –, os negacionistas afirmam que o
aquecimento global é um fenômeno inexistente, ou que a ação humana seria irrelevante para tal
elevação das temperaturas. Por este motivo – a falta de embasamento científico, e a abundância
de conclusões em sentido contrário – os argumentos negacionistas são comumente
classificados como pseudocientíficos, isto é, podem até apresentar uma aparência científica,
mas, entretanto, não resistem a uma averiguação mais robusta. Foram constatados erro graves
na argumentação negacionista, por exemplo, a escolha enviesada de dados que contribuem para
a conclusão pretendida, mas que não representam com fidelidade o total de informações
disponíveis, ou mesmo a utilização de artifícios matemáticos para moldar os resultados obtidos
(Será que…, 2017).

Adicionalmente, e ainda mais grave, identificou-se que alguns dos estudos negacionistas foram
financiados por companhias interessadas em refutar a ideia de aquecimento global, como as do
ramo energético. Nesse caso, é evidente o conflito de interesses existente na elaboração das
pesquisas, reduzindo a credibilidade dos resultados obtidos (Orf, 2015).

Fluxos migratórios e xenofobia

Se, no caso do aquecimento global, o negacionismo apresenta uma abrangência também


mundial, em linha com o objeto de estudo transfronteiriço, há casos de ondas de fanatismos
contemporâneos preponderantemente interiores aos limites dos Estados soberanos, como é o
caso dos movimentos xenófobos e ultranacionalistas do século XXI (Conti; Alves, 2019).

A xenofobia pode ser caracterizada como o sentimento de aversão, desprezo ou ódio contra
aquele que é considerado diferente. Se a formação da palavra deriva da junção de xénos
(estrangeiro, estranho) e phóbos (medo), ambos do grego, a concepção atual do termo não se
restringe à repulsa unicamente ao estrangeiro, àquele que vem de outro país, mas também inclui
todo indivíduo considerado pelo xenófobo como diferente de seu grupo social, podendo ser
baseada em critérios de raça, etnia ou cultura, por exemplo, mesmo entre indivíduos de um
mesmo Estado. O ultranacionalismo, por sua vez, compreende uma valorização exacerbada e
fervorosa do sentimento de pertencimento a uma nação, apresentando, em contrapartida, um
desprezo em relação aos não nacionais; assim, são características frequentes do
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ultranacionalismo o conservadorismo e a valorização de uma homogeneidade – isto é, de uma


uniformidade – étnica.

Em comum, xenófobos e ultranacionalistas apresentam a repugnância e o ódio aos indivíduos


considerados distintos de seu grupo identitário, em um processo que frequentemente é marcado
pela mitificação de sua própria coletividade – estabelecendo uma uniformidade racial ou étnica
que não corresponde verdadeiramente ao processo de formação histórica desse povo, ou
mesmo uma série de glórias e atributos valorosos que não existiram de fato ou se mostram
exagerados –, somada ao desconhecimento e à estereotipação dos demais indivíduos, isto é, à
atribuição de características preconceituosas, depreciativas e clichês aos pertencentes de outras
coletividades. A esse respeito, é emblemática a declaração do presidente dos Estados Unidos,
Donald Trump, em conversa com Enrique Peña Nieto, presidente mexicano: “Você tem um bando
de homens maus aí. Você não está fazendo o suficiente para detê-los”, em repulsa
complementada por Trump na seguinte frase “Nós vamos construir o muro e vocês pagarão por
ele, queiram ou não queiram” (Trump…, 2017, [s. p.]).

Assim, crescem nesse período do século XXI os movimentos de oposição aos fluxos migratórios,
sendo observados, por exemplo, com grande vigor no continente europeu, no qual partidos
radicais têm obtido vitórias expressivas nos processos eleitorais, sob promessas de barrar a
entrada de imigrantes (Conti; Alves, 2019). No Brasil, esse preconceito é observado sob um
aspecto internacional, em que imigrantes são hostilizados em razão da utilização de serviços
públicos nacionais (como é o caso dos venezuelanos no estado de Roraima), por critérios raciais
(nas ofensas a imigrantes haitianos), por intolerância religiosa (nos ataques a refugiados sírios),
entre outros; ainda, constata-se no país uma nefasta discriminação regional, atribuindo-se a
populações de estados diversos da federação a responsabilidade por dificuldades de nosso país,
em clara perspectiva xenófoba (Nordeste…, 2018, [s. p.]).

É importante lembrar, também, os efeitos da crise econômica de 2008 no fortalecimento dos


movimentos xenófobos e ultranacionalistas do século XXI. A fragilização da economia mundial e
as graves consequências sociais dela decorrentes podem servir de estímulo para que se
busquem culpados para a situação de calamidade em que muitas comunidades se encontraram;
assim, atribuir ao outro – seja ele de outro país, de outra religião, de outra região – a
responsabilidade pelas mazelas sofridas funcionaria como fator de agregação social, ainda que
essa culpabilização não tenha fundamentos verídicos.

Para concluirmos nosso estudo, a contribuição do filósofo Karl Popper (1902–1994), em seu
paradoxo da tolerância, revela não haver espaço para ideologias autoritárias, preconceituosas e
antidemocráticas:

Menos conhecido é o paradoxo da tolerância: a tolerância ilimitada pode levar ao


desaparecimento da tolerância. Se estendermos tolerância ilimitada até àqueles que são
intolerantes; se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra os
ataques dos intolerantes, o resultado será a destruição dos tolerantes e, com eles, da tolerância
(Popper, 1974, p. 289).
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Vamos Exercitar?
Vamos exercitar o questionamento da situação-problema: qual tratamento deveria ser
dispensado às ondas de preconceito nas mídias digitais? Essa situação destaca a complexidade
da interação entre mídias digitais, anonimato on-line e disseminação preconceitos e de fake
news, exigindo uma abordagem holística que leve em consideração as dimensões éticas, sociais,
culturais legais e educacionais. É uma questão séria que demanda abordagens conscientes e
proativas para promover um ambiente on-line mais inclusivo e respeitoso. Algumas das possíveis
estratégias para tratar o preconceito nas mídias digitais são:

Educação e conscientização acerca da importância de diversidade, equidade e inclusão;


bem como de diferentes formas de preconceito, incluindo racismo, sexismo, homofobia e
xenofobia.
Políticas consistentes e transparentes contra discriminação e preconceito, com
penalidades assertivas para comportamentos inadequados.
Moderação efetiva para identificar e remover conteúdo preconceituoso e tomar decisões
justas e equitativas.
Incentivar a empatia e a compreensão mútua, destacando histórias de sucesso e
experiências positivas relacionadas à diversidade e inclusão.
Promover a participação da comunidade na definição de normas e políticas para criar um
senso de pertencimento e responsabilidade compartilhada.
Transparência nas plataformas em relação às políticas de moderação, com relatórios
regulares que tratem do progresso na identificação e remoção de conteúdo prejudicial.
Colaboração com especialistas em diversidade, psicólogos e grupos defensores dos
direitos civis para estratégias mais eficazes, consultando a comunidade afetada.
Ferramentas tecnológicas avançadas e inteligência artificial para identificar conteúdo
preconceituoso e aprimorar algoritmos que promovam a equidade.
Campanhas de sensibilização on-line que destaquem os impactos do preconceito e
incentivem a mudança de comportamento.
Apoio a vítimas de preconceito on-line, além de implementação de mecanismos de
denúncia eficazes e garantia de que as vítimas se sintam ouvidas e apoiadas.

A abordagem eficaz para tratar o preconceito nas mídias digitais requer uma combinação de
esforços, desde políticas robustas até educação e engajamento com a comunidade. As
plataformas on-line têm a responsabilidade de criar ambientes virtuais seguros e inclusivos para
todos os usuários.

Saiba mais
A obra organizada por Maria da Glória Gohn, chamada Ativismos no Brasil: movimentos sociais,
coletivos e organizações sociais civis - como impactam e por que importam? (2022), disponível
em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama de alternativas para um futuro que
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restitua direitos e dignidades que estão sendo usurpados. Este livro tem um diferencial: o tempo
histórico em que ele foi escrito e a maioria dos acontecimentos que são narrados e analisados.
Um tempo que afetou e impactou de forma diferente todos os seres humanos: o tempo da
pandemia da covid-19. Não só tempo de incertezas e de medo do presente, mas também de
busca de caminhos para mudanças sociopolíticas e culturais que possam manter viva a
esperança para um futuro diferente. Um futuro que nos livre da barbárie do presente, que
contemple novos horizontes, que reflita as mudanças operadas na sociedade, e não simples
tentativa de regresso ao passado. Ou seja, um futuro com justiça social, sem desigualdades
socioeconômicas, que nos dê esperança e “calma na alma”, como diria um poeta.

É relativo…

Assim como acontece no conceito de “pós-verdade”, algumas perspec¬tivas e modos


contemporâneos de se pensar a realidade apresentam uma maior flexibilidade em seus
conceitos e ponderações, reduzindo a rigidez nos critérios de análise. Nesse contexto,
classificado por muitos como a pós-modernidade, referências ou racionalidades fixas, objetivas e
coletivas – válidas para todos – têm menor importância, em benefício de ponderações
relativistas, que dependem de reflexões, identificações e considerações individuais, sendo,
portanto, subjetivas. Essas perspectivas fragmentadas, individualistas e fluidas, seriam, nos
termos do filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017), componentes de nossa modernidade
líquida, origem de certas instabilidades e incer¬tezas de nossas vidas contemporâneas,
desprovidas de parâmetros concretos.
BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

Inconveniente, mas presente

A problematização a respeito do aquecimento global ganhou forte ímpeto com o documentário


Uma verdade inconveniente (dir. Davis Guggenheim, Estados Unidos, 2006), que aborda uma
série de apresentações do ex-vi¬ce-presidente dos EUA, Al Gore, em sua jornada para
conscientizar a população mundial a respeito desse grave desafio da humanidade.

Referências

ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.


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CARPANEZ, J. O passo a passo do 1º caso de repercussão no Brasil em que notícias


fraudulentas levaram a uma tragédia. Uol, 2018. Disponível em:
https://www.uol/noticias/especiais/das-fake-news-ao-linchamento-como-uma-mentira-levou-a-
morte-de-uma-inocente.htm. Acesso em: 13 fev. 2019.

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A., 2019.

EBEL, I. Céticos do clima são menos de 1% da comunidade científica, diz estudo. DW Brasil, 2013.
Disponível em: https://www.dw.com/pt-br/c%C3%A9ticos-do-clima-s%C3%A3o-menos-de-1-da-
comunidade-cient%C3%ADfica-diz-estudo/a-
16830445#:~:text=An%C3%BAncio-,C%C3%A9ticos%20do%20clima%20s%C3%A3o%20menos%2
0de,da%20comunidade%20cient%C3%ADfica%2C%20diz%20estudo&text=An%C3%A1lise%20de%
20quase%2012%20mil,ultrapassada%20e%20n%C3%A3o%20tem%20embasamento. Acesso em:
31 jan. 2019.

ENTENDA quem são os rohingyas, a minoria mais perseguida do mundo. O Globo, 14 set. 2017.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/entenda-quem-sao-os-rohingyas-minoria-mais-
perseguida-do-mundo-21820859. Acesso em: 5 fev. 2024.

GOHN, M. da G. Ativismos no Brasil: movimentos sociais, coletivos e organizações sociais civis –


como impactam e por que importam? Petrópolis: Vozes, 2022. Disponível em:
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/204256/epub/0?
code=5Kl4tguwMNNt2C1HgjUpd0bxMo7lJ0IbgbRtG07KNXfGNRAUDWtUUI9raG2pr+48zAX2S5cI
YsAyzrj2MNaF3w==. Acesso em: 04 abr. 2024.

NORDESTE é alvo de preconceito e agradecimentos após apuração. Diário de Pernambuco, 2018.


Disponível em:
http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/politica/2018/10/08/interna_politica,76490
6/nordeste-e-alvo-de-preconceito-e-agradecimentos-apos-apuracao.shtml. Acesso em: 13 fev.
2019.

ORF, D. Cientista que nega o aquecimento global era financiado por empresas de energia.
Gizmodo, 24 fev. 2015. Disponível em: https://goo.gl/JYwAfH. Acesso em: 31 jan. 2019.

POPPER, K. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. v. 1.

SERÁ QUE fazem sentido os estudos que negam o aquecimento global? Galileu, 6 set. 2018.
Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/12/sera-que-fazem-
sentido-os-estudos-que-negam-o-aquecimento-global.html. Acesso em: 13 fev. 2019.

VILA-NOVA, C. Monge budista entoa sermões de ódio contra minoria islâmica de Mianmar. Folha
de S. Paulo, 22 out. 2017. Disponível em:
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https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1929190-monge-budista-entoa-sermoes-de-
odio-contra-minoria-islamica-de-mianmar.shtml. Acesso em: 5 fev. 2024.

Aula 5
Encerramento da Unidade

Videoaula de Encerramento

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Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para você. Nela, você irá aprender
conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la? Bons estudos!

Ponto de Chegada

Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é refletir a respeito das
relações étnico-raciais e a pluralidade da sociedade brasileira quanto a questões identitárias no
século XXI, seus valores culturais e modos de organização da vida coletiva, você deverá
compreender primeiramente conceitos e debates contemporâneos fundamentais.

Poucos tópicos de nosso estudo da sociedade brasileira e cidadania tendem a apresentar


discussões mais sensíveis do que os temas desta unidade: a pluralidade e a diversidade em
pleno século XXI. Isso porque, via de regra, lidar com realidades, dinâmicas ou problemas
estranhos a nosso cotidiano – processos incontornáveis quando tratamos das mais variadas
formas de pluralidade no Brasil contemporâneo – requer o esforço mental de imaginar situações
possivelmente desconhecidas e de forçar o exercício da alteridade, isto é, de reconhecer a
existência do outro e respeitar suas características e sua forma de vida, em um processo que
pode ampliar nossa tolerância ou, em sentido inverso, elevar nosso desconforto ao sairmos de
nossos espaços tradicionais.

Se é verdade que os avanços tecnológicos mais recentes podem expandir padrões de vida ao
redor do globo com maior facilidade, as reações naturais a essa uniformização tendem a
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ressaltar diferenças, que também serão divulgadas com mais profusão nos meios tecnológicos.
Os processos de padronização e diferenciação encontram-se, curiosamente, intensificados nos
dois sentidos.

Diante desse quadro, se queremos compreender alguns dos elementos fundamentais para uma
abordagem crítica dos dilemas éticos e políticos atuais, com o objetivo de fortalecer nossa
participação cidadã na sociedade brasileira contemporânea, devemos refletir a respeito de
questões importantes, como a relação entre a democracia e a pluralidade, levando em conta toda
uma série de conceitos específicos desses campos de estudo. Também, para assegurar o
aspecto crítico e humanista de nossa formação, precisamos nos atualizar em relação às novas
formas de afirmação das identidades contemporâneas; abordando, igualmente, a retomada de
movimentos tradicionalistas e avessos a essas novidades.

Você provavelmente já ouviu alguém dizer – inclusive nesta disciplina – que muitas das ideias
que temos hoje foram criadas ou influenciadas pelos movimentos liberais e pelo pensamento
iluminista, não é mesmo? E quando pensamos nos indivíduos que realizaram essas
contribuições, nos lembramos de Voltaire, Kant, Rousseau, Adam Smith – todos homens. Fica a
pergunta: as mulheres não influenciaram esses movimentos? Não houve mulheres intelectuais e
engajadas nesses processos? Absolutamente havia. Apesar de a sociedade ocidental moderna
ter se desenvolvido a partir de uma perspectiva androcêntrica, isto é, que coloca o homem como
medida de todas as coisas, as mulheres sempre estiveram presentes, ocuparam e concretizaram
todos os diferentes movimentos de participação social.

Contudo, a tendência de não nos lembrarmos de figuras femininas nesses processos históricos é
apenas mais um exemplo de como existem relações de poder que influenciam o modo como
apreendemos e reproduzimos o mundo, reduzindo, nesse caso, a importância histórica das
mulheres para a construção de nossa sociedade.

Podemos exemplificar e reconhecer a importante atuação de Marie Gouze (1748–1793) em meio


às lutas travadas na Revolução Francesa. Adotando o nome de Olympe de Gouges para divulgar
seus escritos, essa dramaturga e ativista política – considerada por muitos a primeira feminista
francesa – foi uma forte defensora da expansão dos direitos civis e políticos, da abolição da
escravidão e da emancipação da mulher – esta última ideia, sobretudo, contribuiu para sua
condenação à morte, declarada como “mulher desnaturada” e guilhotinada em 1793.

Autora da Declaração de Direitos da Mulher e da Cidadã (1791), Olympe de Gouges afirma, no


preâmbulo desse documento, que:

Mães, filhas, irmãs, mulheres representantes da nação reivin­dicam constituir-se em uma


assembleia nacional. Considerando que a ignorância, o menosprezo e a ofensa aos direitos da
mulher são as únicas causas das desgraças públicas e da corrupção no governo, resolvem expor
em uma declaração solene os direitos naturais, inalienáveis e sagrados da mulher. Assim, que
esta declaração possa lembrar sempre, a todos os membros do corpo social seus direitos e seus
deveres; que, para gozar de confiança, ao ser comparado com o fim de toda e qualquer
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instituição política, os atos de poder de homens e de mulheres devem ser inteiramente


respeitados; e, que, para serem fundamentadas, doravante, em princípios simples e
incontestáveis, as reivindica­ções das cidadãs devem sempre respeitar a constituição, os bons
costumes e o bem-estar geral.

Suas ideias progressistas e sua ousadia em desafiar as normas da sociedade contribuíram para
que fosse vista como uma figura controversa durante a Revolução Francesa. Infelizmente, sua
atividade política levou-a a ser perseguida e, em 1793, Olympe de Gouges foi condenada à
guilhotina durante o período mais radical da Revolução, conhecido como o Reinado do Terror.
Seu legado, no entanto, vive por meio de suas escritas, que continuam a ser estudadas e
lembradas como contribuições importantes para o movimento pelos direitos das mulheres e para
a história da Revolução Francesa.

Diante desse e outros tantos exemplos que nos convidam à revisão dos princípios que orientam
nosso olhar, discursos e condutas, devemos nos perguntar se vivemos em um mundo mais
receptivo ou mais fechado às mudanças, às diferenças, do que em tempos passados. Vejamos
como o líder indígena Ailton Krenak se posiciona frente à diversidade humana:

Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é
diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de
estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos
capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de
vida. Ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até
agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos (Krenak, 2019).

Nessa postura, Krenak (2019) chama atenção para o modo como podermos aprender a conviver
e a crescer, respeitando, coexistindo, com a pluralidade de possibilidades de existências dos
seres humanos, capazes de estabelecer suas preferências de forma autônoma.

A pluralidade é um conceito que se refere à diversidade, multiplicidade e coexistência de


elementos diferentes em um determinado contexto. Seja no âmbito social, cultural, político ou
biológico, a pluralidade reconhece e valoriza a existência de diversas perspectivas, identidades,
opiniões e formas de vida. Essa condição de diversidade pode enriquecer uma sociedade ou
sistema, promovendo a inclusão, o respeito às diferenças e a busca por equidade. Podemos
ilustrá-la trabalhando as questões de gênero, raça e etnia, religião, local de origem, dentre tantos
outros marcadores sociais de diferença (Silva; Silva, 2018).

Além disso, a pluralidade está intimamente ligada à tolerância e à compreensão mútua,


promovendo o diálogo e a aceitação das diferenças como elementos enriquecedores para o
desenvolvimento coletivo, em consonância ao respeito ao ecossistema, já que falar em proteção
ao meio ambiente é incluir a fauna, e contempla, ao mesmo tempo, os povos tradicionais e seus
modos de organização da vida coletivamente.
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Igualmente, a reflexão a respeito do meio ambiente aborda a interação complexa entre os seres
vivos e os componentes físicos do planeta, examinando os impactos das atividades humanas
nesse equilíbrio. Envolve a compreensão de ecossistemas, biodiversidade, mudanças climáticas
e a influência das ações humanas na saúde e sustentabilidade do ambiente. Este estudo busca
promover a conscientização acerca da importância da conservação, adoção de práticas
sustentáveis e políticas que visem à preservação ambiental para as gerações presentes e
futuras.

A interconexão entre as atividades humanas e a saúde do meio ambiente destaca a necessidade


de ações coletivas e responsabilidade global para garantir um futuro sustentável para o planeta.
Em um mundo cada vez mais interconectado, a compreensão e a valorização ambiental e da
pluralidade tornam-se fundamentais para a construção de sociedades mais justas, sustentáveis e
equitativas.

Devemos sempre prestar uma atenção especial para questionarmos se existem relações de
hierarquia que restringem a pluralidade inerente à espécie humana, transformando nossas
diferenças em desigualdades, hierarquizando pessoas e espécies. Se desejamos promover a
diversidade e a pluralidade como alicerces de nossos regimes políticos e das dinâmicas sociais
em nosso país e no mundo, é necessário admitir e fortalecer o valor de movimentos inovadores e
a revisão de nossos princípios para ideais mais críticos e emancipatórios.

É Hora de Praticar!

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Refletir a respeito do meio ambiente e dos desafios que a humanidade enfrenta para preservá-lo
no século XXI é uma preocupação que deve pautar nossa conduta profissional e nosso exercício
da cidadania.
Propomos a seguir um estudo de caso para sensibilizá-lo a essa postura. Leia os trechos da
reportagem realizada um ano após o crime ambiental em Mariana:

Ao revisitar as ruínas do distrito de Bento Rodrigues, a agricultora Marinalva dos


Santos Salgado, conseguia explicar o que era cada cantinho do vilarejo, devastado
pela avalanche de rejeitos. Mesmo doído, o retorno ameniza a saudade e, porque as
lembranças revividas ali a aproximam de tudo que lhe faz falta: dos amigos que se
foram, dos vizinhos que não estão por perto, de sua casa e da carta que seu marido
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havia escrito com declarações de amor e registros de 22 anos de casamento. Ele


morreu cinco anos antes da destruição de Bento, e Marinalva não teve tempo de
pegar nenhuma recordação de seu companheiro naquele 5 de novembro.
“Casa eu consigo de volta, mas isso não consigo mais. Ele escreveu na agenda
muitas coisas sobre a vida da gente, me agradecendo pelo que a gente viveu junto, os
maus momentos, os bons momentos, me declarando amor na hora da morte. Até a
camisa que ele morreu com ela, que nunca havia sido lavada, se foi com a lama. Isso
daí era o meu bem mais precioso”, revela. […]
Os números da tragédia são todos de grandes proporções: 256 feridos, 300
desabrigados, 424 mil pessoas sem água. Exceto um deles, o de condenados ou
presos até agora, que é zero. Um ano depois, 22 pessoas são denunciadas, sendo 21
por homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de matar. As lembranças
ainda são latentes, como se o dia 5 de novembro de 2015 realmente nunca tivesse
acabado. Bento Rodrigues virou ruína e permanece afundado em lama, o rio Doce
parece marcado para sempre por uma mancha escura de impurezas e tristeza
(Ferreira, [s. d.], [s. p.]).

Diante do sofrimento vivido pelos moradores de Bento Rodrigues no relato apresentado, e da


repetição do desastre no início de 2019, dessa vez em Brumadinho, podemos questionar:

Além dos danos causados ao meio ambiente, quais são os impactos sobre as vidas das
pessoas?
Como equacionar os interesses privados de uma grande empresa mineradora e o interesse
público, o bem comum?

Qual deveria ser o papel do Estado diante desse conflito?

O transcorrer do tempo traz consigo, automaticamente, mais liberdade e uma maior aceitação
das diferenças, ou essa pluralidade pode ser reduzida conforme os dias passam, exigindo um
esforço específico para sua manutenção? Além disso, essa diversidade seria boa ou ruim para a
formação das sociedades? Será que alguns problemas já longínquos da espécie humana –
racismo, machismo, nacionalismos – foram solucionados ou, pelo contrário, acentuados?
Sejam quais forem as respostas para tais questionamentos, a busca para defini-los exige,
certamente, reflexões e questionamentos fundamentais para nos situarmos de modo consciente
na sociedade em que vivemos.

Os crimes ambientais têm impactos significativos não apenas no meio ambiente, mas também
na sociedade como um todo. Alguns dos impactos sociais desses crimes se estendem para o
acometimento da saúde da população; promoção do deslocamento forçado de comunidades;
graves prejuízos materiais e econômicos; aumento das desigualdades sociais; perda da
biodiversidade e dos recursos naturais; falta de qualidade de vida; e ainda uma série de outras
repercussões sociais e legais. Em suma, os crimes ambientais têm ramificações profundas que
afetam diretamente a vida das comunidades impactadas. Combater esses crimes requer uma
abordagem holística que leve em consideração tanto os aspectos ambientais quanto os sociais.
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CIDADANIA

Equilibrar os interesses de uma grande empresa e do bem comum pode ser desafiador, mas é
fundamental para promover o desenvolvimento sustentável e a harmonia social. Dentre as
estratégias que podem ajudar a alcançar esse equilíbrio, podemos mencionar a
Responsabilidade Social Corporativa (RSC); a necessidade de diálogo e engajamento com os
stakeholders; a adoção de padrões éticos e a governança corporativa; a promoção da
sustentabilidade ambiental das operações, com gestão eficiente de recursos naturais e
investimento em inovações ecoeficientes; transparência e comunicação sobre as práticas da
empresa; cumprimento da conformidade legal e regulatória trabalhista e ambiental; educação e
capacitação para funcionários, clientes e comunidades, fortalecendo o capital humano e
contribuindo para o desenvolvimento sustentável.
Ao adotar uma abordagem equilibrada que considera não apenas os lucros, mas também os
impactos sociais e ambientais, as empresas podem desempenhar um papel construtivo na
promoção do bem comum e na construção de uma sociedade mais sustentável e equitativa.
O papel que o Estado desempenha também é crucial na abordagem de crimes ambientais, sendo
responsável por aplicar e fazer cumprir as leis e regulamentações que protegem o meio
ambiente. Além de ser o principal agente regulador e executor no combate a crimes ambientais,
aplicando penalidades quando necessário, é necessário que ele fomente, de forma preventiva, o
desenvolvimento de políticas públicas que abordam questões mais amplas relacionadas ao
desenvolvimento sustentável, planejamento urbano e conservação de ecossistemas.
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Figura 1 | Síntese dos conteúdos abordados durante os estudos

CONTI, H. M. de; ALVES, P. V. M. Sociedade Brasileira e Cidadania. Londrina: Editora e


Distribuidora Educacional S.A., 2019.
FERREIRA, B. Tristeza que não tem fim. O Tempo, [s. d.]. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/polopoly_fs/1.1395510.1478314849!/tristeza.html. Acesso em: 7
fev. 2019.
KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
SENADO FEDERAL. A Violência contra a Mulher. Institucional | Observatório da Mulher contra a
Violência, [s. d.]. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/institucional/omv/menu/entenda-
a-violencia/a-violencia-contra-a-
mulher#:~:text=A%20viol%C3%AAncia%20afeta%20mulheres%20de,da%20sociedade%20como%
20um%20todo. Acesso em: 17 abr. 2019.
SILVA, V. C.; SILVA, W. S. Marcadores sociais da diferença: uma perspectiva interseccional sobre
ser estudante negro e deficiente no Ensino Superior brasileiro. Revista Educação Especial, v. 31,
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CIDADANIA

n. 62, p. 569-585, 2018.

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