Sociedade Brasileira E Cidadania: Unidade 1
Sociedade Brasileira E Cidadania: Unidade 1
SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA
Unidade 1
Ética e Política
Aula 1
Vida Coletiva e Padrões de Ccomportamento Éticos
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Aqui iniciamos nossa jornada em direção à complexa rede de relações, valores e
estruturas que compõem a realidade brasileira. Este material se baseia no conhecimento
sistematizado por Hugo Conti e Patrícia Alves (2019). Em sua opinião, nossa sociedade tem
como orientação principal de funcionamento os princípios ou o poder? Agimos coletivamente em
função de uma busca para estabelecermos aquilo que consideramos correto ou nossa realidade
pode ser mais bem compreendida a partir das relações de força que são estabelecidas em nosso
país?
Repare que essa busca pela ação correta pode incluir processos amplos de nossa vida em
coletividade: há problema em empresas privadas financiarem campanhas políticas? Seria correto
manter benefícios para funcionários públicos que já recebem salários altíssimos? Há, ainda,
decisões que envolvem a nossa vida privada: se uma regra nos parece injusta, devemos obedecê-
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la? Considerar uma ação correta ou incorreta é algo que se faz sozinho ou deve-se levar em
conta aspectos sociais?
A mesma abrangência deve ser considerada na análise das relações de poder, já que elas se
manifestam em escalas elevadas: até onde deve ir à intervenção do Estado brasileiro em nossa
sociedade? A maioria deve sempre se impor? E em nosso cotidiano individual: o serviço público
que utilizo é um favor que me foi oferecido ou é um direito que me é assegurado? Meu ato
individual pode ter impacto na sociedade?
Vamos Começar!
Se é verdade que os juízos morais podem concordar com uma norma jurídica – ou mesmo com
duas normas que, em um caso concreto, são conflitantes –, é crucial observar que esses valores
derivam de uma consciência moral, a qual reflete valores e sentimentos pessoais. Na formação
da moral, mais relevante do que a existência de uma lei, estão as convicções individuais, que
podem ou não coincidir com a norma jurídica. Nesse contexto, a moral de uma pessoa pode até
mesmo contradizer uma norma social; contudo, a ética deve guiar a condução de nossas vidas.
O termo "ética" deriva da palavra grega "ethos", cujo significado em nosso idioma está
relacionado às ideias de "modo de ser" ou "bom costume". Isso revela que, pelo menos desde a
Grécia Antiga, o homem se dedica a analisar de que maneira as condutas dos indivíduos podem
contribuir para uma convivência satisfatória. Dessa forma, a ética se consolida como o campo do
conhecimento voltado para a determinação racional das finalidades boas e más a serem
buscadas pelos seres humanos. Ela investiga a essência das condutas consideradas certas ou
erradas, assim como os fundamentos dos princípios e valores que embasam os juízos,
obrigações e deveres que condicionam e qualificam o comportamento humano.
Trata-se de uma disciplina fortemente normativa, que prescreve ações e julgamentos a serem
valorizados na condução de nossas vidas, em vez de apenas retratar a realidade observada.
Além disso, ao destacar a razão como método para perceber o caráter correto ou incorreto de
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uma ação, a ética fortalece a responsabilização individual por uma conduta, uma vez que o ser
humano dispõe de mecanismos racionais para identificar a justiça ou injustiça de seus atos.
Entretanto, a ética não é um conhecimento encerrado, com determinações já totalmente
reveladas, mas sim o que estabelecerá fundamentos amplos para a apreciação da conduta
adequada em uma situação.
A resposta à pergunta "qual a conduta correta para o aprimoramento de nossa convivência
coletiva?", abrange diversos componentes da vida social, como a organização política, as
ciências e a moral. Esses elementos exercem influência nas maneiras de conceber a ética. No
que diz respeito à moral, alguns esclarecimentos se tornam necessários.
A classificação de um comportamento como "moral" ou "imoral" gera efeitos semelhantes à
afirmação de que uma conduta é "ética" ou "antiética". Isso ocorre porque esses termos são
frequentemente utilizados como se fossem conceitos equivalentes, inclusive em obras clássicas
do campo de estudo. No entanto, é crucial reconhecer a existência de importantes diferenças
entre esses conceitos.
Etimologicamente, a palavra "moral" deriva do termo latino “moralis”, cujo significado se
aproxima de "relativo aos costumes". Trata-se de um conjunto de normas que regulamenta a
conduta dos indivíduos na sociedade, seguindo tradições, referências educacionais, culturais e
práticas rotineiras.
Siga em Frente...
Ética e moral
Embora tanto a ética quanto a moral busquem orientar o que é certo e errado nas ações
humanas, a ética pressupõe que essa qualificação resulte de uma elaboração baseada na
coletividade, ultrapassando os indivíduos considerados isoladamente - não existe, portanto, uma
"ética individual". Já a moral fundamenta sua apreciação na razão e consciência pessoais,
levando em conta as repercussões e influências sociais do ato.
Assim, a moral pode apresentar maior diversidade, refletindo condutas, práticas e desejos
variáveis para cada indivíduo, tempo e local da ação. Por outro lado, a ética se ocupa da
sistematização da moralidade, objeto de seu estudo, apresentando, portanto, princípios e regras
relativamente mais amplos e duradouros.
Essas diferenças possibilitam divergências entre enquadramentos éticos e morais, pois uma
convenção moralmente aceita em uma sociedade específica pode não satisfazer uma reflexão
ética, por não se adequar a princípios gerais do que seria bom, justo ou correto.
Nesse mesmo sentido, é comum que grupos distintos de indivíduos, mesmo compondo uma
mesma coletividade, tenham comportamentos orientados por padrões diferentes do que
consideram moralmente aceitável. Isso ocorre devido às diferenças nos costumes, tabus e
vontades incorporados por cada um deles. No entanto, quando tratamos da ética, tais
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divergências são superadas, pois as concepções morais são interpretadas para identificar
padrões éticos aplicáveis a todos (Conti, Alves, 2019).
A origem dessas confusões reside no fato de que tanto a ética quanto a religião prescrevem
regras de conduta e postura aos indivíduos. Contudo, ética e religião apresentam divergências
que justificam sua distinção como campos autônomos do saber. A ética é eminentemente
racional, baseada em processos lógicos inteligíveis, enquanto a compreensão religiosa, em seus
diversos credos, possui forte componente dogmático, valendo-se de liturgias, mandamentos e
sacralizações que transcendem os limites racionais. Além disso, a fundamentação ética busca
regramentos aplicáveis a toda a coletividade, diferenciando-se da pluralidade religiosa presente
na sociedade.
Embora componentes éticos possam existir nos preceitos religiosos, é esperado que outros
mandamentos da religião difiram dos procedimentos racionais defendidos pela ética.
Inversamente, a ética não se vincula aos preceitos de um credo religioso específico, sendo
plenamente viável que um indivíduo ou sociedade desprovidos de confissões religiosas recorram
ao campo ético, já que os dilemas cotidianos não são exclusivos de uma crença específica.
Quando nos deparamos com uma situação em que nenhuma ação está livre de efeitos morais
negativos, sem uma solução óbvia e inquestionável, ou quando a resposta preconizada pela lei,
tradição ou outra fonte de orientação parece confrontar uma convicção racional relevante,
enfrentamos um dilema moral.
Dilemas morais
Os dilemas morais evidenciam a complexidade no exercício de nossa liberdade de escolha, pois
a existência de consequências negativas decorrentes de nossas decisões, ou a apreciação dos
valores a serem preferidos em um caso concreto, demandam o estabelecimento de certos
critérios racionais que podem não ser tão evidentes.
Imagine, estudante, um médico legista que tenha acesso aos corpos de vítimas de acidentes
fatais. Preocupado com a baixa disponibilidade de órgãos para doação, o médico resolve, por
conta própria e sem qualquer autorização formal, extrair dos finados os órgãos que permanecem
funcionais, destinando-os à doação. A atitude do médico pode ser considerada correta? Se você
acredita que sim, provavelmente fundamentou sua decisão no fato de que tal conduta apresenta
efeitos positivos, na medida em que novas vidas poderão ser salvas a partir da doação. Essa
justificativa se aproxima do raciocínio consequencialista, que busca nos resultados de um ato
sua validação. Esse critério de análise é representativo da filosofia utilitarista, que defende a
maximização da utilidade, ou da capacidade de produzir bem-estar e felicidade coletivos, algo
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que pode ser inclusive matematicamente quantificado pelo número de pessoas, intensidade ou
duração envolvidos no benefício em questão, conforme argumentava Jeremy Bentham (1748-
1832) e John Stuart Mill (1806-1873).
Se, em sentido oposto, você rejeita a conduta do médico, deve ser porque considera o ato de
retirar os órgãos sem qualquer autorização prévia do falecido ou de seus familiares como sendo
uma atitude por si só incorreta. Trata-se, nesse caso, de uma abordagem deontológica, que
categoriza a ação humana a partir de percepções principiológicas dos deveres e direitos
existentes, relativizando suas consequências, à luz do que defendia Immanuel Kant (1724-1804).
Considere-se, agora, de férias em um país estrangeiro; você repara que nesse Estado é comum
que crianças comecem a trabalhar desde idades muito precoces. Ao classificar tal fato como
algo incorreto, você provavelmente acredita que existem padrões mínimos de respeito à infância
que devem ser observados no Brasil, no país onde você se encontra e em qualquer outro lugar do
mundo, sob uma perspectiva universalista. Se, no entanto, você admite que existem
particularidades culturais desse povo que justifiquem tal situação, é o enfoque relativista que se
sobrepõe em seu raciocínio.
Esses impasses e outros dilemas morais presentes em nossas vidas ressaltam a pluralidade de
situações em que não há respostas absolutas ou preconcebidas, elevando a importância do
estudo da ética em nosso desenvolvimento individual e coletivo. A emergência dessas questões
é algo incontornável da vida humana, e a desatenção em relação aos dilemas tende a ser ainda
mais problemática do que as dúvidas por eles suscitadas, na medida em que sugere uma
condução automatizada dos afazeres cotidianos, cujo efeito prático é a negação da própria
liberdade (Conti, Alves, 2019).
Passados mais de dois mil anos do advento da ética enquanto campo fundamental do
conhecimento humano, continuamos a deparar com situações nas quais o exercício de nossa
liberdade de escolha encontra-se cheio de dúvidas e angústias diante da inexistência de valores
ou critérios incontestáveis para o agir humano. Se é verdade que os avanços tecnológicos nos
auxiliam a encontrar algumas respostas para problemas cotidianos que atingem a humanidade,
formulando maiores certezas em temas antes duvidosos, temos de reconhecer que as
potencialidades oferecidas pelo desenvolvimento científico contemporâneo abrem novos
campos de discussão envolvendo a ética.
Ética e tecnologia
Inovações nas áreas de biotecnologia, tecnologia da informação e automação, por exemplo, ao
mesmo tempo em que ampliam os horizontes da ação humana, levantam questionamentos
éticos essenciais: devemos clonar seres humanos? As empresas de telecomunicação deveriam
assumir compromissos no combate à propagação de notícias falsas? Podemos criar robôs
militares com capacidade letal? Assim, a expansão das atividades que conseguimos realizar
eleva proporcionalmente os questionamentos sobre o que efetivamente devemos fazer.
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Nesse sentido, a ampliação das capacitações humanas contrasta com a persistência de desafios
para os quais a humanidade já dispõe de soluções tecnológicas, revelando que a continuidade de
certos problemas individuais e/ou coletivos não se deve a questões técnicas, mas sim às
escolhas que fazemos enquanto sociedade organizada. Isso revela um vínculo primordial entre a
ética e a política. O zelo pela convivência coletiva defendido pela filosofia ética enriquece toda a
rede de relações em que nossa existência se desenvolve, reconhecendo os aspectos valorativos
essenciais de nossa condição humana.
Vamos Exercitar?
A liberdade é um dos valores fundamentais e marcantes da existência humana. O ser humano
encontra, na utilização de sua racionalidade e no exercício de seu livre arbítrio, a capacidade de
fazer escolhas diante de uma situação concreta. Essa liberdade de julgamento e conduta é
essencial, pois as situações que enfrentamos ao longo da vida são inúmeras e imprevisíveis
(Conti, Alves, 2019).
Apesar de nossas liberdades permitirem que nos manifestemos de acordo com nossas
individualidades, existem referências compartilhadas daquilo que devemos assumir como
condutas e finalidades éticas, diferindo dos padrões morais e religiosos aceitos por cada
indivíduo.
Assim, o raciocínio ético é uma atividade eminentemente humana. A ética não está sujeita a
processos de codificação e programação, como aqueles observados na construção de
máquinas, limitando o uso da tecnologia em contextos nos quais podemos deparar com dilemas
morais.
Definir que a vida humana importa mais do que bens materiais, que a gravidade de uma doença
justifica adiantar um paciente na fila de atendimentos médicos ou que a função de salvar vidas
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pode justificar o excesso de velocidade de um automóvel são ponderações éticas que apenas os
humanos são capazes de realizar.
Máquinas podem ser programadas de acordo com algumas considerações éticas estabelecidas
por seres humanos. Contudo, as diferentes justificativas para um mesmo ato e a impossibilidade
de prever todas as situações cotidianas que envolvem um juízo ético apresentam limites para a
visão tecnicista de que a tecnologia oferece solução para todos os problemas humanos.
Esse posicionamento reflete uma postura humanista que, no pleno exercício de nossas
liberdades, rejeita uma condução automatizada, mecanicista e, por que não dizer, antiética de
nossas vidas.
Saiba mais
O véu da ignorância
Resumidamente, a maior ingerência do Estado nos setores da vida cotidiana, por meio, por
exemplo, da prestação de serviços públicos gratuitos ou a preços módicos eleva os custos do
governo, que, frequentemente, passam a ser compensados por maiores impostos cobrados da
coletividade.
Imagine que você seja muito mais rico do que na situação financeira em que agora se encontra e,
portanto, capaz de pagar por todos os serviços que utiliza; você seria favorável ao aumento da
tributação para compensar esses gastos governamentais, que você sequer utiliza? Agora, em
sentido inverso, imagine-se muito pobre, dependendo quase que integralmente da assistência
pública; a sua opinião anterior sobre a justiça na concessão desses serviços seria mantida ou
alteraria seu posicionamento?
15. O QUE é um bom começo? [S.l.]: Harvard University, 15 nov. 2015. Postado pelo canal
Fundação Ivete Vargas. 1 vídeo (25min42s)
Referências
ALT, F.; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
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ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
ARENDT, H. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.
ARISTÓTELES. Os pensadores: Aristóteles. São Paulo: abril, 1978.
BAUDRILLARD, J. La société de consommation. Saint-Amand: Folio, 2008.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: contendo o velho e o novo testamento. Salt Lake City: A Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2015.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira-
cidade-brasileira-a-proibir-canudos-plasticos/. Acesso em: 27 nov. 2018.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2019.
Aula 2
Possibilidades Éticas no Mundo Contemporâneo
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Não é necessário ser muito atento à realidade brasileira para perceber que
alcançar o sucesso profissional, plena satisfação pessoal, segurança financeira e a capacidade
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Diante de uma variedade de dificuldades impostas pela vida contemporânea – as quais não
originamos, mas resultam da forma como a sociedade optou por se organizar –, seria razoável
que fôssemos cobrados por adotar um comportamento que valorize a manutenção e articulação
dos vínculos sociais? Ou o mundo contemporâneo demanda que nos concentremos
exclusivamente em nossas próprias vidas, buscando o que é melhor para nós mesmos, sem
sermos responsabilizados por problemas e situações que estão além de nossa esfera particular?
Vamos Começar!
Capitalismo e individualismo
Você já percebeu que determinados temas relacionados à vida e à organização coletiva têm o
poder de suscitar acaloradas polêmicas em nossas discussões cotidianas, assim como em
níveis mais elevados de debates acadêmicos e políticos? O sistema capitalista, sem dúvida, está
entre esses temas.
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características fundamentais do capitalismo são essenciais para definir esse sistema, como
veremos a seguir.
Primeiramente, observamos que um regime capitalista adota o mercado como principal meio de
produção e distribuição de bens e serviços, onde compradores e vendedores interagem para
satisfazer suas necessidades. Adicionalmente, a presença da propriedade privada constitui um
elemento fundamental do capitalismo, com uma série de direitos garantindo o domínio exclusivo
sobre determinados bens. Além disso, o capitalismo requer que uma parcela da população venda
sua força de trabalho no mercado para garantir seu sustento. Por fim, identificamos como quarto
elemento do capitalismo o comportamento individualista dos agentes econômicos (compradores
e vendedores), aspecto que merece atenção especial em nosso estudo, uma vez que, como
discutimos anteriormente, ética e política são conceitos coletivos por natureza.
O aspecto individualista do capitalismo foi enfatizado em suas origens por Adam Smith (1723-
1790), um dos clássicos do pensamento econômico. Smith argumentou que a prosperidade
econômica é essencial para a busca da felicidade humana e deve, portanto, ser o objetivo
primordial das sociedades e de seus governantes. Segundo o autor, esse nível mais elevado de
produção não decorre da benevolência ou solidariedade dos indivíduos, mas, ao contrário, da
busca de cada um por sua própria felicidade.
Existem diversas tarefas necessárias à vida coletiva, e, segundo Smith, cada indivíduo deveria se
especializar naquilo que lhe proporcionasse maiores vantagens e resultados individuais. Esse
comportamento egoísta, de acordo com o pensamento do autor, leva os indivíduos a trocarem
entre si o que produzem e não consomem, resultando em maior prosperidade econômica e
satisfação para toda a sociedade.
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Além disso, ao direcionarmos o foco para a conduta humana, é crucial reconhecer que existem
fatores que condicionam o comportamento individual que não estão estritamente vinculados ao
individualismo ou ao autointeresse. Em alguns casos, nossa conduta não busca apenas ganhos
pessoais, mas é motivada por sentimento de solidariedade ou simpatia, que justificam a
realização de doações e trabalhos voluntários, por exemplo. Da mesma forma, podemos orientar
nossas ações por compromissos com causas maiores, sejam elas abstratas, como a justiça, ou
concretas, como a preservação de um rio específico, mesmo que isso ocasionalmente limite
nossos benefícios pessoais.
Siga em Frente...
Amartya Sen
Embora se possa argumentar que todas as motivações mencionadas eventualmente resultam
em autointeresse, seja através da satisfação individual proveniente de condutas solidárias,
comprometidas ou inclusivas, é crucial reconhecer que essas motivações se diferenciam
essencialmente dos ganhos econômicos e do egoísmo mencionados anteriormente. Essa
distinção é destacada pelo economista indiano Amartya Sen (1933 -), autor de uma crítica
substancial ao individualismo como característica incontornável de nosso sistema econômico.
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Portanto, percebemos que o estudo da ética não apenas é plenamente compatível com os
padrões contemporâneos de organização política, econômica e social característicos do regime
capitalista, mas também fornece um instrumento valioso para enfrentar os problemas sociais
decorrentes desse sistema e compreender as motivações do comportamento humano nessa
realidade.
Hannah Arendt
Neste estudo, as contribuições da filósofa Hannah Arendt (1906-1975) se revelam incrivelmente
enriquecedoras, pois o vínculo entre o ser humano e a coletividade ao seu redor impõe
características específicas ao desfrute de sua liberdade e ao exercício de sua responsabilidade
(Conti, Alves, 2019).
Segundo Arendt, em meio ao contexto de afirmação do sistema capitalista, que se estende dos
séculos XVIII ao XX, o conceito de liberdade começa a refletir valores e perspectivas liberais,
concentrando-se nos aspectos da vida privada dos seres humanos. No âmbito deste estudo,
esses objetivos privados podem ser compreendidos como atividades voltadas para a satisfação
de metas e necessidades estritamente pessoais, diferenciando-se, assim, de outras práticas
focadas na esfera da vida pública, que, por definição, levam em consideração aspectos que
ultrapassam os interesses de um único indivíduo.
Liberdade e responsabilidade
Ao criticar essa perspectiva, Arendt apresenta uma compreensão da liberdade completamente
oposta a esse modelo, vinculando o conceito ao pleno exercício de práticas públicas. Argumenta
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que os seres humanos nascem livres para estabelecer diversas relações entre si, organizando
sua vida coletiva. Assim, surge uma ligação inseparável entre liberdade e política, e o campo
onde a liberdade passa a ser desenvolvida deixa de ser a esfera particular, transformando-se no
espaço público. Nas palavras da autora, "ação e política, entre todas as capacidades e
potencialidades da vida humana, são as únicas coisas que não poderíamos sequer conceber
sem ao menos admitir a existência da liberdade" (Arendt, 2005, p. 191). A classificação da
liberdade como ação política destaca a potência desse valor ao estimular a ação conjunta que
decide sobre questões de interesse comum, constantemente estabelecendo novas formas de
construir a realidade.
Arendt propõe que, dado que os seres humanos possuem a capacidade inata de fazer reflexões,
há um comprometimento de cada indivíduo, mesmo que não seja voluntariamente assumido, em
estabelecer juízos e refletir sobre os acontecimentos. A capacidade racional - e, portanto, a
responsabilidade - não seria exclusividade de filósofos ou governantes, uma vez que todos têm o
potencial para pensar, estabelecer juízos e recordar eventos passados, criando assim um padrão
comum daquilo que aceitamos enquanto sociedade, percebido por todos os indivíduos.
Esse processo é particularmente crucial à medida que os hábitos, costumes e tradições sociais
se transformam com o tempo, exigindo de nosso juízo e pensamento a responsabilidade de
evitar que essas mudanças conduzam à prática do mal. Nesse contexto, a realização do mal não
requer necessariamente uma intenção cruel ou o objetivo deliberado de praticar injustiças. A
simples negação individual de utilizar o senso de responsabilidade pessoal, a recusa em exercer
o pensamento crítico sobre a correção dos acontecimentos, pode permitir que barbaridades
ocorram, um processo descrito por Arendt como a "banalidade do mal" (Conti; Alves, 2019).
Os efeitos práticos do conceito de responsabilidade de Hannah Arendt são cruciais para reforçar
a importância do estudo da ética no mundo contemporâneo, pois negam o isolamento do
indivíduo em relação ao grupo social do qual ele faz parte. Isso ressalta a necessidade de
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Assim, percebemos que não apenas é possível manter um comportamento ético em tempos
contemporâneos, como essa conduta se torna extremamente necessária para ajustarmos
compreensões tradicionais de nossa sociedade, como o individualismo capitalista,
assegurarmos a evolução harmoniosa de nossa espécie - respeitando nosso ambiente e
perspectivas científicas - e solidificarmos uma inserção libertadora e responsável dos indivíduos
em nossa comunidade (Conti; Alves, 2019).
Vamos Exercitar?
Ao analisarmos cuidadosamente as perguntas que iniciaram este estudo, constatamos que os
problemas observados têm em comum o estabelecimento de uma relação de oposição, de
contraste, entre a busca de ganhos individuais e as necessidades coletivas de uma sociedade.
Nesse sentido, pareceria inviável assumir individualmente um comportamento baseado na
valorização dos laços sociais e no aprimoramento da vida coletiva - temas essenciais à conduta
ética. A necessidade de progredirmos individualmente que a realidade nos impõe deixaria em
segundo plano, nessa situação de contraste entre a pessoa e o grupo, os preceitos de uma vida
ética (Conti, Alves, 2019).
Entretanto, como vimos, a afirmação da esfera individual não exige necessariamente a negação
da vida coletiva, e vice-versa, mas existem vínculos de complementaridade que possibilitam que
esses dois campos se afirmem mutuamente.
Sob a lógica econômica do capitalismo, percebemos que o individualismo não é o único fator de
motivação individual; por vezes, é justamente a consideração de aspectos coletivos que orienta a
conduta individual. Além disso, identificamos que o autointeresse nem sempre produz o bem-
estar coletivo, sendo necessário, mais uma vez, o reconhecimento de juízos éticos para que
indivíduo e sociedade progridam de modo simultâneo.
Assim, percebemos que a sustentação de uma perspectiva humanista das atividades cotidianas,
baseadas na ética, não só demonstra que é possível ser ético no mundo contemporâneo, mas
que é necessário manter a ética como diretriz de nossas vidas, individual e coletiva.
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Saiba mais
Dessa forma, o filme e a Teoria dos Jogos de John Nash proporcionam uma base sólida para a
reflexão sobre como as interações humanas, mesmo as mais simples, podem ser moldadas por
estratégias que visam o benefício mútuo. Essa perspectiva é valiosa não apenas no campo
acadêmico, mas também na aplicação prática em diversas esferas da vida moderna.
UMA MENTE brilhante. Direção Ron Howard. Produção: Brian Grazer, Ron Howard. Intérpretes:
Russel Crowe, Ed Harris, Jennifer Connelly. Roteiro: Akiva Goldsman. [S.l.]: Universal Pictures;
DreamWorks, 2001. (135min), son., color., 35 mm.
Referências
ALT, F; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
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BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira-
cidade-brasileira-a-proibir-canudos-plasticos/. Acesso em: 27 nov. 2018.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: contendo o velho e o novo testamento. Salt Lake City: A Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2015.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2019.
COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das
Letras, 2016.
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HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
MAGNOLI, D. Essa coisa de sociedade não existe. O Globo, [S.l.], 11 abr. 2013. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/opiniao/essa-coisa-de-sociedade-nao-existe-8080595. Acesso em: 21
dez. 2018.
SEN, A. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SINGER, P. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.
WALLIN, C. A modesta vida dos juízes do Supremo da Suécia, sem auxílio-moradia nem carro
com motorista. BBC NEWS, 2 dez. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-
noticias/bbc/2018/12/02/a-modesta-vida-dos-juizes-do-supremo-da-suecia-sem-auxilio-moradia-
nem-carro-com-motorista.htm. Acesso em: 14 dez. 2018.
WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
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Aula 3
Importância do Debate Político
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Olá, estudante! Certamente, em algum momento, você se viu envolvido em uma discussão sobre
política, mesmo que involuntariamente, não é mesmo? Seja como uma forma de manter a
interação com um desconhecido em uma conversa casual no elevador, ou como uma afirmação
de suas convicções mais profundas em uma acalorada discussão sobre o que julga mais
importante nesta vida, a política é um tema recorrente em nosso dia a dia (Conti; Alves, 2019).
Basta recordarmos os impasses que surgem em nossas redes sociais - ou em nossas reuniões
familiares - para percebermos que, mesmo entre pessoas que não dedicam suas vidas a estudar
a política, este tema está presente em nossos cotidianos. Nesse sentido, não seria difícil lembrar
pelo menos uma discussão política que você presenciou - ou da qual participou - nas últimas
eleições, não é mesmo?
Se a frequência com que tratamos deste tema é alta, a profundidade das argumentações
envolvidas nos debates rotineiros nem sempre apresenta a mesma estatura, seja em função da
natureza complexa dos conceitos ou da repulsa atribuída a este assunto. O desafio que esta
situação exige de nós é um estudo mais cuidadoso sobre as características da política, em
benefício de nossas conversas cotidianas e de uma infinidade de aspectos da vida que se
relacionam com esta matéria.
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Essas reflexões se apoiam no conhecimento produzido por Hugo Conti e Patrícia Alves (2019) e,
ao final desta aula, nossas frequentes conversas sobre política poderão se desenvolver do modo
mais embasado, como também nossas próprias percepções, mais prazerosas e emancipadoras,
acerca do caráter abrangente e transformador da política em nossa realidade.
Vamos Começar!
Você já parou para refletir sobre o motivo de vivermos em sociedade? Se temos interesses,
afinidades e temperamentos diferentes, por que decidimos passar nossas vidas convivendo com
outras individualidades tão distintas daquilo que nos constitui? Certamente, muitas pessoas
encontrarão sua resposta na inércia ou na ausência de alternativas viáveis; se já nascemos em
um ambiente coletivo, torna-se extremamente penoso romper com esse padrão. O
questionamento persiste: o que, então, ocorre para que tenhamos essa origem já comunitária?
Aristóteles argumenta que o homem é, portanto, um "animal político", ou seja, orientado por sua
própria natureza para o desenvolvimento social e cívico em coletividades organizadas. Nessa
condição, a estruturação de sociedades não visaria apenas à sobrevivência da espécie humana,
mas também à promoção do bem-estar, compreendido igualmente como desígnio natural da
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Ao vincular a felicidade humana ao pleno exercício dessa natureza cívica, Aristóteles conecta a
satisfação individual ao engajamento em processos coletivos de busca de um bem comum.
Dessa forma, diferencia os habitantes dos cidadãos, na medida em que estes últimos não
apenas residem em sociedade organizada, como os primeiros, mas também atuam em prol
dessa concepção coletiva da existência humana.
Diante desse impulso para a atividade e da nossa relação com a realidade social que nos
circunda, o termo "política" certamente se insere no rol de vocábulos utilizados cotidianamente,
que, no entanto, não apresenta uma conceituação evidente ou um único sentido. Cabe-nos,
portanto, delimitar essa pluralidade de significados aplicáveis ao termo, ressaltando os sentidos
e conceitos que a palavra "política" introduz no âmbito de nosso presente estudo.
Siga em Frente...
De acordo com a professora Chauí (2000), é fundamental ressaltar o potencial que a política nos
fornece para o ajuste de visões conflitantes e opiniões diversas sem a necessidade de
recorrermos a confrontos abertos por meio do uso da força. Assim, traduzindo "o modo pelo qual
os humanos regulam e ordenam seus interesses conflitantes, seus direitos e obrigações
enquanto seres sociais. Como explicar, então, que a política seja percebida como distante,
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Justamente por se tratar de uma atividade potencialmente ampla, cujas intersecções abrangem
todas as áreas de nossa vida rotineira, o exercício efetivo da administração pública pode
apresentar significativa diferença no alcance da intervenção estatal, definindo variados sistemas
políticos percebidos ao longo da história.
O exercício de pensar sobre quais devem ser as funções do Estado pode ser beneficiado pela
percepção oposta, imaginando como seriam as relações humanas sem esta organização
política, em uma conjuntura na qual cada homem atua isoladamente – o denominado Estado de
Natureza. Para o filósofo inglês Thomas Hobbes (1588-1679), esta situação resultaria em um
conflito permanente, uma vez que cada indivíduo, temendo por sua vida, desenvolveria métodos
para se proteger, estimulando que os demais também ampliem seu poderio; a inexistência de
garantias de proteção tornaria o medo uma constante da existência humana, já que os indivíduos
constituiriam ameaças uns aos outros, conforme ilustra a famosa ideia de que "o homem é o
lobo do homem". Nesta situação, seria razoável que os homens acordassem em renunciar parte
de suas liberdades individuais para, coletivamente, estabelecer uma autoridade superior, capaz
de assegurar a paz; trata-se da formação do Estado soberano, ao qual os súditos cederiam seu
poder.
Modelos de Estado
A metáfora estabelecida por Hobbes para o produto deste pacto social é a do Leviatã, um
gigantesco monstro bíblico, refletindo a concepção de poder absoluto que o Estado assumiria
em sua prerrogativa de manutenção da ordem. Neste sistema político, seria legítimo que o ente
soberano concentrasse o poder de intervir, sem responsabilizações, em quaisquer dos domínios
da vida coletiva ou de seus súditos, conforme efetivamente se observou nos modelos de
monarquia absolutista contemporâneos deste pensador inglês.
No século XVIII, entretanto, a forte conexão entre o poder do monarca absolutista com as
prerrogativas do Estado começa a ser questionada, sobretudo à medida que o crescimento
econômico da burguesia europeia se avoluma, demandando a equivalente ampliação de direitos
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civis e políticos desta importante camada social. O poder concentrado do soberano, neste
contexto, passa a ser compreendido como uma afronta à liberdade individual, e o
estabelecimento de limites à intervenção do Estado nas vidas privada e coletiva passa a ser
defendido com mais vigor (Conti; Alves, 2019).
Em linhas gerais, este liberalismo político reduz as funções do Estado, classificando-o como
"Estado mínimo" ou "Estado de polícia", concentrando a atuação pública na proteção das
garantias individuais, como o direito à propriedade privada, na manutenção da ordem social e na
defesa frente a ameaças externas. A aplicação prática desta nova mentalidade se desenvolve por
meio da imposição de constituições às quais os monarcas deveriam se subordinar, nas
chamadas monarquias constitucionais. Surgem também estruturas republicanas, como nos
Estados Unidos da América, e, sob a influência de John Locke (1632-1704), a lógica de separação
dos poderes, na qual a existência de entes distintos constitui importante instrumento de
contenção do poder do soberano.
A reação a este processo excludente manifesta-se já no fim do século XIX e início do XX, pela
retomada de concepções políticas favoráveis à maior atuação Estatal, focada, neste momento,
na solução de graves problemas sociais, como a fome e o desemprego. Nas experiências
socialistas observadas, sobretudo na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e em países do
leste europeu, o Estado assumiria a tarefa de reverter privilégios concentrados por certas classes
sociais, defendendo a expansão do controle estatal sobre os meios de produção e a subsequente
redistribuição das riquezas de modo mais igualitário – e teria como contrapartida a supressão de
ideias de livre iniciativa e outras liberdades da concepção liberal.
O modelo de Estado de bem-estar social, por sua vez, defenderia a intervenção estatal não como
detentora dos meios de produção, mas, preponderantemente, reconhecendo as funções de
regulação e estímulo que a atividade estatal pode exercer na dinâmica econômica e na prestação
de serviços públicos, conciliando interesses privados e públicos, a exemplo do que se observou
na presidência de Franklin Delano Roosevelt (1882-1945) nos Estados Unidos, nos anos de 1930
e 1940.
Já nas últimas três décadas do século XX, entretanto, a compreensão da importância das
intervenções estatais nos sistemas políticos volta a oscilar em direção aos preceitos do
liberalismo. Os avanços tecnológicos, o desenvolvimento de mercados financeiros e o fracasso
de experiências de orientação socialista podem ser citados como fatores que conferem à
atuação do Estado a classificação de obstáculo à lucratividade e ao aspecto global e dinâmico
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Essas variações nos fundamentos e nas consequências da atuação estatal apresentam fortes
vínculos com a capacidade de exercício dos direitos e das garantias individuais e coletivas,
exercendo, portanto, influência na afirmação do caráter democrático de uma sociedade. No
entanto, a classificação de um ambiente democrático não é exclusiva de um ou outro nível de
intervenção estatal, mas exige uma composição de procedimentos que ora se baseia na
abstenção do Estado de determinados atos, ora requer uma prestação de serviço público, a
depender do preceito democrático protegido.
Desse modo, a criação de direitos e a viabilização de meios efetivos para o exercício destas
prerrogativas também são elementos indispensáveis a uma democracia, exigindo que, em certas
situações, o Estado tenha uma conduta negativa, abstendo-se de interferir na vida cotidiana dos
cidadãos, em benefício, por exemplo, de seu direito à propriedade, à liberdade de culto e de
expressão. Em outros casos, é justamente pela intervenção do Estado que os princípios
democráticos são respeitados, ao propiciar condições mínimas de saúde e educação, ao
promover a inclusão de grupos marginalizados, entre outros. De modo semelhante, a negação
extrema da democracia, a ditadura, pode ser fortalecida pela execução arbitrária de atos do
poder público, como o cerceamento de direitos políticos dos cidadãos, ou da inércia do Estado
em assegurar condições básicas da dignidade humana, permitindo, por exemplo, o extermínio de
grupos sociais minoritários.
Diante das múltiplas potencialidades que o estudo da política nos fornece, abordando nossa
essência enquanto seres humanos, nossos hábitos e afazeres cotidianos e orientando o desfrute
efetivo dos direitos elementares de um Estado democrático, parece-nos que a discussão política
constitui recurso de valor inestimável para a compreensão de nossa realidade e de nossa própria
existência em sociedade.
Vamos Exercitar?
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As questões que iniciaram nosso estudo nos levaram até Aristóteles, pois existem elementos
característicos de nossa natureza humana que nos fazem insistir na vida em coletividade. Seria
razoável encontrarmos na esfera política um valor maior do que em outros núcleos de nossa
existência cotidiana, não é mesmo? Se somos "animais políticos", é porque é justamente na
condução das atividades típicas da existência em sociedade que o homem encontra lugar para
dar vazão a suas mais elevadas potencialidades.
Assim, a política deve considerar valores – e formas práticas de implementar esses valores em
nossa realidade – que são específicos de sua área de atuação, exigindo do Estado um
funcionamento diferente de outras organizações sociais menos abrangentes, como domicílios e
empresas privadas.
Embora a atuação do Estado tenha sido interpretada de diferentes maneiras ao longo da história,
em sintonia com diferentes movimentos e ideologias sociais vigentes, é preciso reconhecer que
esses diversos sistemas políticos já observados conferem ao Estado uma posição particular na
organização das dinâmicas sociais. Mesmo quando se pretende reduzir a intervenção estatal ao
mínimo possível, as atividades que ainda assim permanecem sob domínio do Estado – garantir
direitos, por exemplo – traduzem a essência da vida política que não encontra contrapartidas nas
formas de organização privada (CONTI, ALVES, 2019).
Neste mesmo sentido, os processos coletivos de definição da maior ou menor atuação estatal
são também essencialmente políticos. Assim, ainda quando se pretende defender a valorização
do âmbito privado da vida dos indivíduos, este posicionamento só terá relevância social se
obtiver força política, algo que demonstra a amplitude e a importância deste campo.
Por tratar de valores sociais, definindo quais são os princípios mais importantes de uma
coletividade e como aplicá-los, a atividade política não se restringe apenas à gestão técnica da
administração pública. Se bem verdade que o estabelecimento de um conjunto de mecanismos e
procedimentos práticos pode ser fundamental para a condução dos serviços públicos, a
formação de convicções mais amplas que servem de orientação a uma sociedade – a
democracia ou a dignidade da pessoa humana, por exemplo – asseguram que a política seja algo
mais do que a simples operacionalização da vida em grupo, mas, sim, uma forma da sociedade
expressar seus ideais mais fundamentais. Desse modo, mais do que uma necessidade prática, o
estudo da política é algo que nos qualifica enquanto seres humanos e define a essência da
sociedade que queremos formar.
Saiba mais
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sentimento de pertencimento a uma sociedade, ou apenas pelo receio de eventuais sanções que
o descumprimento de uma regra pode gerar, os indivíduos mostram-se, em linhas gerais,
dispostos a aceitar o que manda a norma. Esta relação, todavia, existe também no sentido
oposto, já que não são raras as vezes em que são justamente os hábitos de conduta popular os
fundamentos para a edição de uma lei.
Para leitura, indicamos esta reportagem para que você entenda melhor como este processo pode
ser importante para nossa vida em sociedade.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018.
Referências
ALT, F; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira-
cidade-brasileira-a-proibir-canudos-plasticos/. Acesso em: 27 nov. 2018.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: contendo o velho e o novo testamento. Salt Lake City: A Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2015.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2019.
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COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das
Letras, 2016.
CONTI, Hugo Martarello de. ALVES, Patrícia Villen Meirelles. Sociedade Brasileira e Cidadania.
Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2019.
HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
MAGNOLI, D. Essa coisa de sociedade não existe. O Globo, [S.l.], 11 abr. 2013. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/opiniao/essa-coisa-de-sociedade-nao-existe-8080595. Acesso em: 21
dez. 2018.
SEN, A. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
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SINGER, P. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.
WALLIN, C. A modesta vida dos juízes do Supremo da Suécia, sem auxílio-moradia nem carro
com motorista. BBC NEWS, 2 dez. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-
noticias/bbc/2018/12/02/a-modesta-vida-dos-juizes-do-supremo-da-suecia-sem-auxilio-moradia-
nem-carro-com-motorista.htm. Acesso em: 14 dez. 2018.
WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
Aula 4
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Ponto de Partida
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Não é raro nos deparamos com notícias ou declarações, incluindo aquelas feitas por nós
mesmos, indicando que um governo adotou uma postura incompatível com os valores
democráticos. Muitas vezes, é mencionada uma prática específica que constitui uma afronta à
pluralidade ou às liberdades fundamentais da democracia, ou ainda, uma inclinação autoritária
(Conti; Alves, 2019). Embora essas informações sejam compreensíveis para a maioria da
população, explicar os conceitos subjacentes a essas afirmações simples torna-se um desafio
mais complexo.
Essa dificuldade pode ser atribuída ao uso de termos comuns em nosso cotidiano, mas que, no
entanto, possuem fundamentos mais elaborados e não são tão explorados em nossa vida diária
(Conti; Alves, 2019). Tomando o Brasil como exemplo, podemos questionar se a realização de
eleições periódicas e legítimas é suficiente para considerarmos o país uma democracia plena.
Além disso, diante da ausência de representatividade das nações indígenas, que não têm um
único congressista eleito desde a Constituição de 1988, como avaliar a plenitude de nossa
democracia?
Outro exemplo que lança dúvidas sobre a integralidade de nossa democracia é apresentado
pelos dados inquietantes compilados pela Comissão de Combate à Intolerância Religiosa do Rio
de Janeiro (CCIR), os quais demonstraram que:
[...] mais de 70% de 1.014 casos de ofensas, abusos e atos violentos registrados no Estado entre
2012 e 2015 são contra praticantes de religiões de matrizes africanas. [...] Por um lado o racismo
e a discriminação que remontam à escravidão e que desde o Brasil colônia rotulam tais religiões
pelo simples fato de serem de origem africana, e, pelo outro, a ação de movimentos
neopentecostais que nos últimos anos teriam se valido de mitos e preconceitos para “demonizar”
e insuflar a perseguição a umbandistas e candomblecistas". (Puff[U1] , 2016, [s.p.]).
Se um grupo social específico, como as comunidades indígenas, não tiver meios institucionais
adequados para expressar publicamente suas opiniões e posições, isso comprometeria o caráter
democrático do país? E se essa restrição ocorresse no âmbito religioso, prejudicando, por
exemplo, o pleno exercício das crenças de matriz africana, o Brasil ainda poderia ser considerado
uma democracia? Ou a relativamente menor representatividade dessas comunidades diminuiria
a importância de garantir sua presença e expressões em nosso país?
Vamos Começar!
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Democracia moderna
Em grande medida, o conceito de democracia nos transmite a ideia de um regime político no qual
os cidadãos participam na condução do governo de uma coletividade, seja de maneira direta,
como numa consulta popular sobre um tema importante, ou por meio da representação, onde os
cidadãos elegem mandatários para tomar decisões em nome da coletividade, como nas eleições.
Esse sentido de participação popular, derivado do termo democracia, já se explica nas origens da
palavra, que, em grego antigo, une demos (povo) e kratos (poder), formando o poder do povo ou o
governo do povo. Embora essa noção de participação popular esteja vinculada ao termo
democracia desde a Grécia Antiga até os dias atuais, outras concepções foram gradualmente
adicionadas ao conceito para chegarmos à compreensão atual de democracia.
Esse funcionamento deve ser entendido no contexto em que o argumento foi produzido, no qual
a participação política era restrita a alguns homens considerados aptos para a vida pública,
excluindo escravos, estrangeiros e mulheres da dinâmica política. Dessa forma, o
desenvolvimento de novas concepções sobre a titularidade de direitos civis e políticos,
ampliando a categoria de indivíduos considerados capacitados para a atuação pública,
certamente terá impacto na compreensão do conceito de democracia. Portanto, podemos
avançar até o surgimento dos ideais liberais e do questionamento dos Estados absolutistas
europeus, a partir do século XVII.
Nesse período da história europeia, três processos políticos e sociais podem ser apontados
como determinantes para a ressignificação do Estado, das prerrogativas individuais e,
consequentemente, do aspecto democrático da era moderna. A Revolução Inglesa (1640-1688),
fortemente influenciada pelo pensamento de John Locke (1632-1704), foi essencial para limitar o
poder absoluto das monarquias absolutistas e está relacionada à consolidação de direitos
naturais dos indivíduos, nascidos livres e iguais, capazes de exercer o poder político conforme
determinado pela lei, como exemplificado pelo Bill of Rights ("Carta de direitos") de 1689. A
Revolução Americana (1776), por sua vez, foi fundamental para a afirmação das ideias de
supremacia da vontade popular, liberdade de associação e estabelecimento de mecanismos de
controle permanente sobre o governo, conforme defendido por Thomas Jefferson (1743-1826).
Por fim, a Revolução Francesa (1789) centralizou diversos interesses sob a ideia de nação e
estabeleceu preceitos importantes sobre a separação entre política e religião, ampliando o
alcance dos homens nascidos livres e iguais em direitos (Conti; Alves, 2019).
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Para Tocqueville, na época, o regime democrático tornou-se uma tendência ampla e inevitável
nas sociedades, caracterizado, em linhas gerais, por uma igualdade de condições – seja legal,
cultural ou política – incompatível com qualquer regime de castas sociais ou diferenças sociais
hereditárias. Essa situação permitia certa mobilidade social e facilitava o acesso a postos
profissionais ou políticos, constituindo os chamados "fatores geradores de igualdade". Para o
pensador francês, é indispensável para um ambiente democrático a efetivação de uma constante
atuação política dos cidadãos, exercida não apenas pelo voto, mas também nas atividades
administrativas, partidárias ou associativas.
Aprofundando suas considerações sobre o aspecto da igualdade, Tocqueville destaca o risco que
o excesso de homogeneização de uma sociedade poderia representar. Nesse cenário, a
homogeneidade excessiva estabeleceria uma certa tirania exercida pela maioria dos habitantes,
impedindo a diversificação de expressões científicas, filosóficas ou artísticas. Segundo o autor,
seria crucial encontrar um equilíbrio entre a busca pela igualdade e a preservação das liberdades
individuais, garantindo que a concepção de igualdade não seja incompatível com a pluralidade no
corpo social.
Nesse sentido, sempre que um consenso majoritário sobre um determinado tema é estabelecido
sem o devido respeito aos legítimos direitos dissidentes – os direitos das minorias que diferem
dessa concordância predominante –, enfrentamos um caso de tirania da maioria. O desrespeito
aos direitos minoritários ou às liberdades individuais pode se manifestar de diversas formas,
afetando expressões individuais ou coletivas.
A combinação desses dois elementos fornece a base teórica para a formação de outro aspecto
indispensável à noção contemporânea de democracia: o direito à alteridade ou direito à
diferença. Se os indivíduos são livres e devem ser tratados sem quaisquer preferências
injustificáveis, é natural que os elementos relacionados à identidade de uma pessoa possam ser
expressos da maneira que lhe convier. Essas manifestações, por mais plurais que sejam, devem
usufruir das mesmas garantias jurídicas que as demais.
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democrático. Desse modo, o exercício pleno dessas liberdades não se limita a afirmar aquilo que
se gosta ou preza, mas também deve consolidar o respeito pelo que difere da própria identidade,
em harmonia com a ideia de pluralidade aqui trabalhada.
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Democracia x Autoritarismo
Dessa forma, a democracia autoritária traduz a existência conjunta de alguns dos elementos
constitutivos de um ambiente democrático, como a realização de processos eleitorais ou a
manutenção de direitos para grupos específicos da população, com a eliminação de outras
características típicas do regime democrático, como a supressão do direito das minorias ou a
limitação de certas liberdades. Observa-se, na verdade, uma versão falha e limitada de uma
democracia tradicional, seja por deficiência involuntária no funcionamento das instituições,
reduzindo o alcance dos valores democráticos na sociedade, ou pelo objetivo expresso de certo
grupo social de impor sua vontade aos demais.
A possibilidade de que esse autoritarismo seja incorporado ao funcionamento dos Estados já era
prevista no pensamento de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778). Segundo o filósofo, a
formação da sociedade civil resulta da transferência das liberdades individuais dos homens a um
governo por meio de um pacto social, no qual o governante se compromete a buscar o bem
comum. Entretanto, prossegue o pensador, se esse acordo não se estabelece em condições de
simetria entre as partes ou sob conjunturas de limitação da liberdade de um dos pactuantes,
teríamos, na verdade, um pacto de submissão responsável por um regime autoritário e despótico.
Adicionalmente, segundo esse autor, a soberania resultante de um pacto social não seria detida
pelo governante, mas permaneceria em posse do povo, coletivamente. A soberania popular seria
absoluta, conferindo ao corpo social um poder sobre todos os indivíduos considerados
isoladamente, uma vez que, ainda de acordo com Rousseau, o interesse do indivíduo estaria
incluído no interesse público. Nesse contexto, mais uma vez nos deparamos com a possibilidade
do surgimento de uma tirania da maioria, caso as prerrogativas de grupos minoritários, ou
mesmo de indivíduos, sejam desconsideradas em função da vontade popular absoluta (Conti;
Alves, 2019).
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Em termos práticos, tais experiências autoritárias foram observadas com relativa frequência ao
longo do século XX, constituindo certos padrões políticos identificados pelos estudiosos do
tema. Em linhas gerais, esses regimes autoritários apresentavam elementos comuns, como
afrontas e abusos às liberdades civis; a falta de separação – legal ou efetiva – entre os poderes
executivo, legislativo e judiciário, com a primazia do primeiro sobre os outros dois; o controle dos
meios de comunicação; a censura; a eliminação, redução ou manipulação de procedimentos
eleitorais; o antiliberalismo; o nacionalismo exacerbado; o militarismo; o unipartidarismo político,
entre outros. Exemplos clássicos nesse sentido incluem os regimes nazista na Alemanha de
Adolf Hitler (1889-1945) e o fascismo italiano de Benito Mussolini (1883-1945), ambos chegando
ao poder por vias democráticas; o totalitarismo soviético de Joseph Stalin (1878-1953); e os
regimes ditatoriais do terceiro mundo, como o período militar brasileiro compreendido entre 1964
e 1985.
A forma mais extrema de autoritarismo, no entanto, observada no século XX, talvez seja o
extermínio de judeus que compôs o Holocausto nazista. Esse genocídio perpetrado pela
Alemanha hitlerista dizimou aproximadamente 6 milhões de pessoas ao longo das décadas de
1930 e 1940, sendo determinante para a reação internacional que culminaria no maior conflito
armado da história. A extensão geográfica, a duração e a alta mortalidade dos embates armados
desenvolvidos no contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) evidenciam os limites da
concertação da comunidade internacional e a ausência de uma instituição centralizada capaz de
mediar as desavenças entre países. Isso levou os Estados a entrarem em acordo para a criação
da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945 (Conti; Alves, 2019).
A ONU é uma organização internacional que possui direitos e deveres na ordem global. No
entanto, é importante ressaltar que ela não possui hierarquia superior aos países que a
compõem. Isso ocorre porque, da mesma forma que os indivíduos são sujeitos do direito interno
de seus países, os Estados constituem sujeitos do direito internacional público. Os indivíduos
encontram na atuação do Estado a hierarquia superior para impor, dentro de seu território, os
procedimentos a serem observados por todos, algo que não se verifica na ordem internacional.
Nota-se, portanto, que as decisões relativas à paz e à segurança tomadas pelo Conselho de
Segurança da ONU serão consideradas obrigatórias para todos os países, conferindo a este
órgão um poder sem precedentes na ordem internacional (Conti; Alves, 2019). Contudo, é
importante ressaltar que a composição desse conselho deriva do contexto imediatamente
posterior à Segunda Guerra Mundial, fazendo com que, desde 1945, esse órgão possua os
mesmos cinco membros permanentes (Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido), ao
lado de outros dez membros rotativos com poderes reduzidos (Conti; Alves, 2019).
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Assim, ao final desses mais de dois mil anos de história da democracia, avaliando considerações
teóricas e aplicações práticas do conceito em diferentes contextos e gradações, concluímos que
a pluralidade não configura um requisito obrigatório dos ambientes democráticos. Forçá-la
contra a liberdade dos indivíduos seria, inclusive, antidemocrático. No entanto, existindo qualquer
indício de uma diversidade espontânea, levada a cabo por seres humanos na plena afirmação de
suas mais variadas formas de manifestação individual, é dever do regime democrático assegurar
o respeito, a tolerância e a tutela dessa diversidade, encarada não como discórdia social, mas
como uma riqueza inigualável da natureza humana.
Vamos Exercitar?
À luz do que estudamos nesta aula, percebemos que o conceito de democracia passou por uma
longa evolução histórica para nos fornecer, atualmente, uma compreensão muito além do
simples estabelecimento de mecanismos eleitorais ou de tomadas de decisões sobre assuntos
da vida em coletividade. A democracia, em sua concepção vigente, reveste-se também de
fundamentos e valores voltados ao pleno desenvolvimento de nossas capacidades e liberdades,
em razão do simples fato de sermos considerados sujeitos dotados de direitos e prerrogativas
essenciais (Conti; Alves, 2019).
Assim, retomando os casos práticos que deram partida à nossa análise, pouco importa que as
comunidades indígenas sejam minoria em nosso país ou que apresentem certos modos de vida
particulares; é fundamental que asseguremos mecanismos institucionais de representatividade a
essas comunidades, sob pena de termos uma democracia incompleta. Caso esses povos não
tenham acesso direto aos processos decisórios e aos instrumentos de poder da sociedade
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Repare como o intervalo temporal de mais de 200 anos que separa a Declaração de
Independência dos Estados Unidos da América (1776), a Declaração Universal dos Direitos do
Homem e do Cidadão (1789) e a Constituição da República Federativa do Brasil (1988) não foi
suficiente para desfazer a influência de certas ideias liberais, fortalecidas ao longo do século
XVIII e relevantes até os dias de hoje:
Referências
ALT, F; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
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BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira-
cidade-brasileira-a-proibir-canudos-plasticos/. Acesso em: 27 nov. 2018.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada: contendo o velho e o novo testamento. Salt Lake City: A Igreja
de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, 2015.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Diário Oficial da União, Poder
Legislativo, Brasília, DF. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 10 jan. 2019.
COMPARATO, F. K. Ética: direito, moral e religião no mundo moderno. São Paulo: Companhia das
Letras, 2016.
HOBBES, T. Leviatã ou matéria, forma e poder de um estado eclesiástico e civil. São Paulo: Abril
Cultural, 1983.
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MAGNOLI, D. Essa coisa de sociedade não existe. O Globo, [S.l.], 11 abr. 2013. Disponível em:
https://oglobo.globo.com/opiniao/essa-coisa-de-sociedade-nao-existe-8080595. Acesso em: 21
dez. 2018.
SEN, A. Sobre ética e economia. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SINGER, P. Introdução à economia solidária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2002.
WALLIN, C. A modesta vida dos juízes do Supremo da Suécia, sem auxílio-moradia nem carro
com motorista. BBC NEWS, 2 dez. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/ultimas-
noticias/bbc/2018/12/02/a-modesta-vida-dos-juizes-do-supremo-da-suecia-sem-auxilio-moradia-
nem-carro-com-motorista.htm. Acesso em: 14 dez. 2018.
WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
Aula 5
Encerramento da Unidade
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Videoaula de Encerramento
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Ponto de Chegada
Olá, estudante! Para aprimorar a competência desta unidade, que consiste em compreender
criticamente os elementos essenciais relacionados à ética, dilemas morais e tensões políticas
atuais na sociedade brasileira, visando a uma formação humanista, é necessário familiarizar-se,
inicialmente, com os conceitos fundamentais que compõem uma intrincada teia de relações,
valores e estruturas.
Observe que, em uma sociedade, a busca pela ação correta pode abranger processos amplos de
nossa vida em coletividade e, também, decisões de nossa esfera privada. A mesma amplitude
deve ser levada em consideração na análise das relações de poder, uma vez que se manifestam
em escalas elevadas, no contexto do nosso cotidiano individual. Para examinar a diversidade de
fatores da vida coletiva em nosso país, é imprescindível incorporar, em nossa análise, estas duas
perspectivas: princípios e poder.
Portanto, recorremos a dois domínios do conhecimento voltados para essas questões: a ética e a
política. Embora esses temas estejam frequentemente presentes em nosso cotidiano, a
exploração mais aprofundada desses campos do conhecimento é um suporte fundamental para
a compreensão do ambiente que nos envolve, inclusive em nossa vida diária.
Dessa forma, a partir de uma compreensão humanista do que constitui a vida em sociedade,
torna-se possível identificar os requisitos para uma participação cidadã na comunidade que nos
acolhe. A análise desses dois temas clássicos das ciências humanas, ética e política, ganha
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relevância especial na atualidade, uma vez que seus amplos campos de estudo podem
contrastar com a precisão e a especialização de novas áreas do conhecimento humano.
É Hora de Praticar!
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Atuamos coletivamente em busca de estabelecer o que consideramos correto, ou será que nossa
realidade pode ser mais bem compreendida por meio das relações de poder que se estabelecem
em nosso país? Até que ponto a intervenção do Estado brasileiro em nossa sociedade é
justificada? A maioria deve sempre prevalecer ou meu ato individual pode ter impacto na
sociedade?
As respostas a essas indagações, assim como a outras, são exploradas à medida que
examinamos os fundamentos da filosofia ética e suas interações com os dilemas que surgem
em nosso cotidiano. Além disso, analisamos os diferentes tipos de organizações políticas e seus
vínculos com o nosso desenvolvimento enquanto sociedade.
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CIDADANIA
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CIDADANIA
ALT, F.; LAMA, D. O apelo do Dalai Lama ao mundo: ética é mais importante que religião. Salzburg:
Benevento Publishing, 2017.
ARENDT, H. Responsabilidade e julgamento. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 2005.
ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
ARISTÓTELES. Os pensadores: Aristóteles. São Paulo: abril, 1978.
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Martins Fontes, 2006.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. São Paulo: Edipro, 2014.
BARBOSA, V. Rio de Janeiro é primeira capital brasileira a proibir canudos plásticos. Revista
Exame, 5 jul. 2018. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/rio-de-janeiro-e-primeira-
Disciplina
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WEBER, M. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2004.
WEFFORT, F. C. (Org.). Os clássicos da política. São Paulo: Ática, 2006. v. 1.
,
Unidade 2
Cidadania e Direitos humanos
Aula 1
Cidadania e Participação Política
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Esta aula dedica-se ao tratamento de uma questão de fundamental importância
para a vida em sociedade: a cidadania e a participação política. Como você responderia à
pergunta: Qual é o estado da cidadania no seu país e no mundo hoje? Será que caminhamos para
uma verdadeira evolução da forma e do conteúdo da cidadania?
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Por que será que essa esfera de atuação política consciente dos reais problemas de uma
sociedade parece ficar cada vez mais distante e vazia de sentido? Será que as dinâmicas do alto
poder têm hoje interesse que você se sinta como um cidadão da sua cidade, do seu país e,
simultaneamente, do mundo? De que forma esses problemas atingem sociedades que
desrespeitam os direitos humanos?
Esta aula lhe fornecerá instrumentos para entender como a noção de “cidadão” variou muito ao
longo do tempo: veremos que a história do exercício da cidadania tem sido marcada por tensões,
progressos e regressos. Temos o simples, porém, nobre objetivo de apresentar elementos para
sua formação profissional, e esperamos que você consiga se apropriar de reflexões proveitosas e
as utilize com sabedoria.
Vamos Começar!
Cidadania
Vamos nos dedicar, neste momento, a pensar a noção de cidadania. Essa noção é antiga e
relaciona-se a um campo de discussão muito amplo, sendo objeto de estudo de diferentes áreas
do conhecimento. Trata-se de um tema bastante vivo no presente, que gera um enorme interesse,
curiosidade e até mesmo fervorosas polêmicas, justamente pela sua importância para a
compreensão de diferentes aspectos da vida em comunidade (Conti; Alves, 2019). A cidadania,
na verdade, exerce um fascínio para todos que se defrontam com o seu sentido político,
colocando-nos a essencial e difícil questão: o que significa ser parte intrínseca e indissociável de
uma coletividade?
Propomos um percurso didático que lhe permitirá entender especialmente o sentido político da
noção de cidadania diante da emergência dos estados-nação na Europa moderna, assim como a
leitura que se produziu do importante modelo de cidadania que existiu na Antiguidade, na Grécia.
Um dos historiadores mais renomados que estuda a civilização grega, Moyses Finley, em seu
livro Democracia: antiga e moderna (1988), fornece elementos contextualizados historicamente
para entendermos a origem do cidadão. O especialista nos transporta, em primeiro lugar, para o
espaço privilegiado do exercício da cidadania: a pólis grega (ou seja, a cidade grega). Tornou-se,
por isso, bastante conhecida a expressão “cidadão é aquele que participa do governo da cidade”.
Em especial, Atenas foi o lugar onde a política foi repensada e redefinida na prática. Nesse
contexto, a forma e o conteúdo da cidadania se colocaram como inseparáveis da noção de
democracia direta, na qual aboliu-se a hierarquia no exercício do poder para dar espaço à
igualdade dos cidadãos no plano político, o que permitia a real participação popular nas decisões
a respeito da vida na pólis.
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O cidadão é pensado, portanto, como um ser indissociável da cidade, o que acompanha o direito
de opinar sobre o seu destino. Quando o cidadão ateniense participava das assembleias, não
distinguia os seus interesses pessoais dos interesses da pólis. A possibilidade da iniciativa
popular torna a política algo natural da pólis e mostra com clareza a função saudável do debate
político, em que tomam conteúdo o exercício da liberdade individual de expressão e a ação no
espaço público. No exercício da cidadania se manifestam elementos de maior relevância, como a
soberania popular e a justiça que emana do povo (Conti; Alves, 2019).
Não podemos deixar de fazer uma crítica à exclusão que se fazia, nesse mesmo contexto, das
mulheres, dos escravos, dos “estrangeiros” e de outros grupos sociais, do exercício desse direito.
O que importa perceber, pelo momento, é que o sentido de uma cidadania ativa se colocava
como o principal elemento da vida coletiva na pólis. Esse sentido fez a civilização ateniense ser
considerada, já naquela época, um modelo, por iluminar questões tão essenciais da vida em
sociedade, que continuam a ser estudadas depois de séculos, até nos dias atuais. Vale destacar,
no entanto, que o modelo ateniense não se tornou hegemônico na Antiguidade.
Siga em Frente...
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pessoas, de forma que o sentido da participação ativa na vida pública acaba sendo colocado em
segundo plano. A Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão,
ambas de 1789, são marcos importantes dessa redefinição.
Nesse novo contexto, ser cidadão invoca um regime republicano, que retira os privilégios de
participação política até então restritos à aristocracia, à monarquia absolutista e ao clero, para
afirmar seu sentido universal, colocando todos os nacionais de um Estado em posição de
igualdade quanto a direitos e a deveres. Ainda que o sentido primeiro da participação na vida
política não seja colocado em primeiro plano, o cidadão moderno tem inegavelmente o direito de
participar do governo de sua vida, de sua cidade e de seu Estado.
Lembremos que esse cidadão moderno, como na Grécia, emerge como um sujeito que também
tem deveres civis. Jean Jacques Rousseau (1717-1778) foi um pensador de enorme importância
para entendermos essa ligação do sentido moderno de cidadania com a coletividade. Para
Rousseau, a cidadania não é um presente, mas um dever de participação política na defesa do
“interesse geral” – que é universal a todos os cidadãos – acima dos interesses particulares e
individuais. Só assim uma república poderia garantir o bem-estar de seus cidadãos, ou seja, não
fecharia os olhos para a justiça social e para a construção de uma sociedade menos desigual.
Infelizmente, essa dimensão coletiva da cidadania, do dever cívico para com a coletividade, se
tornará uma voz dissonante em termos de valores e de modelo de atuação política na
modernidade (Conti; Alves, 2019).
No século XX, por exemplo, há tensões que apontam para diferentes direções a fim de
pensarmos a cidadania. Por um lado, houve lutas importantes empreendidas por grupos sociais
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– mulheres, operários, negros, indígenas – para a conquista do direito ao voto, que resultaram em
progressos importantíssimos, como o reconhecimento do voto feminino na maioria dos países; o
fim do voto censitário (vinculado a um patamar de renda); o reconhecimento dos direitos civis
dos negros nos Estados Unidos; o fim do regime de apartheid na África do Sul e em outros
territórios ainda submetidos ao regime de colonização, que excluíam os nativos do direito à
cidadania; o reconhecimento da diversidade e do direito à cidadania dos povos indígenas nas
Américas do Sul e do Norte (Conti; Alves, 2019).
Por outro lado, talvez o século XX seja o exemplo mais explícito de grandes retrocessos para
pensarmos a cidadania. Os regimes totalitários, como o fascismo na Itália, o nazismo na
Alemanha, e o stalinismo na URSS, tinham como característica principal a negação dos direitos
políticos da população em favor de um regime autoritário com poderes ilimitados para tomar
todas as decisões do governo de um Estado. O direito de participação política era considerado
uma ameaça a ser combatida com a força das armas. Na América Latina, o século XX também
foi marcado por ditaduras que se baseavam nesse mesmo princípio e se disseminaram como
modelo de exercício do poder político em quase todo o continente.
Foi ao findar o último regime de exceção que se produziu a Constituição Federal de 1988 (Brasil,
1988): o mais importante marco histórico de reafirmação da cidadania e de reinstituição de um
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regime democrático, que possibilita a participação política dos cidadãos. A soberania popular foi
reafirmada em seus artigos, que tratam das questões mais essenciais da organização da
sociedade brasileira e estão acima de qualquer outra legislação do país, pois contêm os
princípios de um Estado baseado em direitos que podem ser reivindicados por qualquer cidadão
do país. Esse pacto federativo emerge em um momento histórico no qual o sentido de
participação da cidadania representava uma das principais bandeiras de luta da sociedade
brasileira e de seus diferentes movimentos sociais. Nesse momento, os cidadãos brasileiros e
não nacionais residentes no país denunciavam com toda força os prejuízos causados à
sociedade por um regime que nega (ou limita) a possibilidade de a população agir politicamente.
Simultaneamente, afirmava-se um projeto de sociedade que, além de garantir o direito civil de
representatividade nas decisões políticas, também referendava uma cidadania social na qual os
direitos básicos – como a saúde, a educação, o trabalho digno, a moradia e o meio ambiente –
ampliam o significado da noção de cidadania. O acesso universal a esses direitos básicos para
garantir a cidadania está previsto na nossa Constituição como um dever do Estado e da
sociedade brasileira (Conti; Alves, 2019).
Sem dúvida, a Constituição de 1988 é a maior expressão de um pacto de civilização que devolveu
ao Brasil a possibilidade de caminhar em direção ao respeito da cidadania. O que não significa
que todos os seus artigos sejam perfeitamente aplicados na realidade da sociedade brasileira.
De fato, são inúmeros os impasses substanciais da cidadania existentes na realidade do
funcionamento da sociedade brasileira com suas antigas e novas faces das desigualdades, que
acompanham a exclusão da cidadania. Basta pensarmos, por exemplo, no retrato das grandes
metrópoles como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Fortaleza – ou qualquer outra
grande cidade do país – onde uma parcela significativa da população é excluída desses direitos.
Vamos Exercitar?
Você já reparou como as calçadas das nossas cidades estão cada vez mais povoadas por
pessoas que vivem em situação de rua? Esse cenário nos provoca a pensar os limites da
cidadania, determinados sobretudo pelos imperativos econômicos que modelam o
funcionamento das sociedades e fazem da renda um requisito de acesso à cidadania (Conti;
Alves, 2019).
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sejam efetivados é o único caminho para que a cidadania no Brasil deixe de ser apenas um
direito formal e torne-se realidade.
Saiba mais
Aprofundar conhecimentos
A obra organizada por Jaime e Carla Pinsky, História da cidadania (2010), disponível em sua
biblioteca virtual, fornece um importante panorama da cidadania desde a Antiguidade.
O capítulo “Cidadania ambiental: natureza e sociedade como espaço de cidadania” (p. 545–562),
de Maurício Waldman, apresenta bases mais concretas para se refletir a respeito de uma nova
concepção de cidadania em debate atualmente, que considera mais enfaticamente as relações
entre as sociedades e o meio ambiente.
Exemplificando
José Damião Trindade (1998) coloca em evidência os artigos basilares da Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão (1789). Note que o povo, diferentemente do sentido que
assumia na democracia em Atenas (demos = povo, cracia = poder), não é considerado soberano,
ou seja, quem exerce o poder:
“Os homens nascem e são livres e iguais em direitos” (art. 1º) e “a finalidade de toda associação
política é a conservação dos direitos naturais e imprescindíveis do homem” (art. 2º). Quais são
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Referências
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 27 out. 2023.
FINLEY, M. Democracia: antiga e moderna. Tradução: Waldea Barcellos e Sandra Bedran. Rio de
Janeiro: Graal, 1988.
TRINDADE, J. D. L. Anotações sobre a história social dos direitos humanos. In: PROCURADORIA
GERAL DO ESTADO. Grupo de Trabalho de Direitos Humanos. Direitos humanos: construção da
liberdade e da igualdade. São Paulo: Centro de Estudos do Estado, 1998.
Aula 2
Direitos Humanos: Por que e Para quem?
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você nesta aula que vai tratar de um importante dilema
da sociedade moderna: a afirmação dos direitos humanos. Como veremos, um dos fenômenos
bastante ativos na contemporaneidade envolvendo os dois lados desse dilema (direitos humanos
e lógicas de punição) diz respeito aos deslocamentos forçados de população (Conti; Alves,
2019).
No Brasil, como veremos, grupos internos, como a população negra e periférica, são as maiores
vítimas dessa lógica. No entanto, o país não está separado do contexto internacional de aumento
das migrações e tende a receber cada vez mais deslocados forçados e refugiados de outros
países. Sobretudo, é importante lembrarmos que o Brasil também já foi, durante a ditadura,
produtor de refugiados. Esta aula nos ajudará a entender os fatores de desrespeito aos direitos
humanos nesse período obscuro da nossa história e da de outros países da América Latina.
Naquele momento, os brasileiros foram reconhecidos como refugiados, portanto, tiveram seus
direitos humanos respeitados em diversos países, como Estados Unidos, Inglaterra, França, Itália,
Espanha, Portugal e outros. Hoje, segundo dados do Comitê Nacional Para Refugiados (Conare,
2018), nós recebemos solicitantes de refúgio de mais de 80 países, em particular haitianos,
senegaleses, venezuelanos, sírios e angolanos. Você avalia que o Brasil caminha para o
reconhecimento do direito de refúgio e também dos direitos humanos dessas pessoas ou, ao
contrário, acredita que o país tende a assumir políticas que associam ideologicamente a
imigração ao crime – o que se chama atualmente de “crimigrar” (Moraes, 2016)?
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Vamos Começar!
Iluminismo e jusnaturalismo
Nesta aula, vamos começar trabalhando com a noção moderna de direitos humanos. Deixaremos
de discutir como esse direito era concebido nos séculos precedentes – a partir da perspectiva
religiosa e filosófica –, para nos concentrarmos em um período de enorme riqueza da sociedade
ocidental, denominado Iluminismo. Trata-se de um movimento cultural que nasce na Europa do
século XVIII, no bojo do processo de transição da sociedade feudal à capitalista. O Iluminismo
representa um marco histórico de mudanças significativas na forma de conceber o mundo, com
reflexos nas mais diversas áreas do pensamento: filosofia, literatura, artes, física, matemática,
direito. Esse período é chamado de “século das luzes” por defender como valor central o
conhecimento, a razão e o progresso da ciência e da cultura (Conti; Alves, 2019).
A imagem da luz era colocada como o antídoto ao que se considerava um atraso e, sobretudo,
um entrave ao desenvolvimento dos sujeitos e das sociedades: a ignorância, a superstição, o
fanatismo religioso, a intolerância e os abusos da Igreja e do Estado. A razão passa a ser
entendida como necessária, portanto, para iluminar uma nova visão de mundo, fundada em
valores como tolerância religiosa, liberdade de pensamento, liberdade política, liberdade religiosa,
direito de resistência à tirania, separação do Estado e da religião (laicidade), educação universal.
Muitos desses valores, que foram afirmados por diversos pensadores, exerceram um papel
importante para efetivar mudanças no plano jurídico, político e econômico-social daquela época
e permanecem sendo fundamentais para pensarmos as sociedades até hoje.
A noção de direitos humanos na modernidade é gerada nesse rico berço cultural do Iluminismo e
não deixa de refletir uma forma de crítica à sociedade, com um papel também transformador,
que, naquela época, foi encabeçado pela nascente classe burguesa. O liberalismo guiava os
princípios econômicos, e o jusnaturalismo – origem do latim ius naturale, direito natural – o
Direito, com base na doutrina que considera todos os indivíduos portadores de direitos inatos
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naturais. É importante perceber que a doutrina jusnaturalista, que tem diferentes vertentes
teóricas, mesmo na Antiguidade e na Idade Média, é reafirmada e desenvolvida no período
iluminista a partir de uma base racional (não religiosa). A igualdade e a liberdade formais são
norteadoras dessa concepção jusnaturalista moderna (Conti; Alves, 2019).
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Foi justamente nesse imediato pós-guerra, em 1945, que houve a operacionalização da punição
do crime contra a humanidade, a partir de princípios do direito internacional. O Tribunal de
Nuremberg foi uma iniciativa que transformou os ideais de defesa dos direitos humanos em uma
prática judicial, com o importante papel de também produzir memória para evitar que momentos
tenebrosos da história – que viraram as costas para os direitos humanos – se repitam. Os
principais representantes do regime nazista foram julgados nesse Tribunal pelos crimes de
guerra, sobretudo pelo extermínio de mais de seis milhões de judeus, além de opositores ao
regime, homossexuais e ciganos, dentre outros grupos sociais. Colocava-se, nessa ocasião, o
dever de reconhecer e punir as atrocidades que causam grande sofrimento e atingem a
integridade física e/ou mental de indivíduos ou grupos sociais (Conti; Alves, 2019).
Nessa ocasião foi afirmado um princípio de justiça global, que colocava a primazia do direito
internacional em relação ao nacional como instrumento de defesa dos direitos humanos para
coibir práticas consideradas intoleráveis porque atentam à humanidade. Na atualidade, a Corte
Penal Internacional ([s. d.]) é o principal órgão responsável por punir crimes contra a humanidade
e por denunciar práticas hediondas. É variado o quadro de violação de direitos humanos de
indivíduos ou grupos sociais por motivo político, econômico, religioso ou racial, compreendendo
assassinato, escravidão, deportação, tortura, prisão abusiva, abuso sexual, perseguição em
massa, desaparecimento de pessoas, apartheid, genocídio, crime de guerra, prostituição forçada
e esterilização forçada, dentre outros crimes.
Essa forma violenta de tratar grupos sociais específicos da nossa população, antes os
“selvagens” e hoje os mais pobres e os negros, não pertence apenas ao passado. Por exemplo,
atualmente a mídia tem um papel muito importante em difundir a ideia de que “bandido tem que
morrer”. Em nenhum momento se esclarece, no entanto, quem é esse bandido, qual é a sua
história de vida, de qual sistema de violência (do Estado e da sociedade) ele também foi vítima,
que tratamento ele recebe na prisão. Da mesma forma, em nenhum momento se discute como
sociedades que já foram marcadas pela violência e caminham para resolver de forma
humanizada o problema da criminalidade atacam suas causas, ou seja, como lidam com as
desigualdades sociais, o acesso ao trabalho digno, à moradia e à educação, o respeito aos
direitos humanos, enfim, o direito à vida.
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Sabemos que, nesse período, o Brasil também expulsou muitas pessoas que resistiam e lutavam
contra essas práticas, em defesa dos direitos humanos e da democracia, sobretudo da liberdade
de expressão, valor que, como já mencionado, havia sido reconhecido muitos séculos atrás. São
décadas nas quais o Brasil produziu muitos refugiados, jovens, estudantes, professores,
intelectuais, artistas, escritores e músicos. A liberdade, a imaginação, a criação, a crítica e a
participação cidadã na política não eram toleradas pelo regime.
Uma crítica muito pertinente ao nosso país refere-se à incapacidade, ou à falta de vontade
política, de trabalhar com essa longa história de desrespeito aos direitos humanos. Essa crítica
não vale apenas para o nosso passado remoto – da sociedade colonial, que não foi devidamente
discutido e ensinado criticamente para a população –, mas também vale para o nosso passado
recente do regime ditatorial.
A iniciativa da Comissão Nacional da Verdade, que foi referendada pela Lei nº 12.528 (Brasil,
2011), merece destaque como uma exceção a essa regra. A Comissão foi recentemente
implementada para agir nessa lacuna e representa uma conquista de pesquisadores,
professores, movimentos sociais e de pessoas – sobretudo de vítimas e/ou
familiares/conhecidos de mortos, perseguidos, torturados na ditadura – comprometidas com a
produção da memória por meio do exame e do esclarecimento das graves violações aos direitos
humanos cometidas no período da ditadura (1964–1988). Um relatório final foi produzido por
essa Comissão, no qual é possível analisar os limites e os desafios dessa iniciativa, sobretudo o
de comunicar os seus resultados para a população em geral e poder efetivar políticas públicas
para a conscientização dessa memória (Pereira, 2016).
Ao contrário, países como Uruguai, Chile e Argentina trabalharam de forma muito mais eficiente
com essa memória que trata da ditadura para explicar para a sua população o que significam os
crimes contra a humanidade cometidos durante esses regimes. Nesse último país, por exemplo,
há uma iniciativa que se sobressai nesse sentido. Você já ouviu falar das “Mães da Praça de
Maio”? São várias mulheres que tiveram seus filhos desaparecidos durante a ditadura argentina e
que marcham semanalmente em frente à Casa Rosada (sede do governo federal Argentino, em
Buenos Aires) com lenços brancos em suas cabeças, simbolizando as fraldas de seus bebês,
para protestar contra a ditadura e reivindicar a memória dessa atrocidade que matou seus filhos
e muitos outros jovens, a fim de que isso não se repita mais (Conti; Alves, 2019).
No Chile, a ditadura comandada pelo general Pinochet foi a mais mortífera da América do Sul. Na
capital, Santiago, há o Museu dos Direitos Humanos, onde é possível encontrar uma
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sistematização muito didática e acessível a toda a população com as práticas do terror durante
esse período e as memórias de suas vítimas. Lá podemos encontrar milhares de fotos, cartas a
parentes e desenhos de crianças, que nos ensinam muito a respeito do sofrimento humano e do
sacrifício de vidas acionado, sem escrúpulos, naquele período.
Atualmente há uma “nova” base social da imigração, principalmente proveniente de países do Sul
Global, que pertencem a culturas e têm línguas e histórias quase completamente desconhecidas
no Brasil, além de diferentes fés religiosas, como é caso dos haitianos, senegaleses, sírios e
palestinos, dentre outras nacionalidades. A cidade de São Paulo é um laboratório vivo das
organizações desse grupo social em defesa de seus direitos. A comunidade boliviana, por
exemplo, tem se destacado em diferentes iniciativas nesse sentido.
Por fim, é importante não nos esquecermos de que a questão da desigualdade e da diferença e
sua relação com a democracia está sendo transformada também pela presença, no Brasil e no
mundo, de imigrantes e refugiados de diversas nacionalidades. Essa imigração do século XXI nos
obriga a pensar na ampliação do sentido da cidadania.
Vamos Exercitar?
Muitos estudos acadêmicos comprovam que o Brasil já foi um produtor de refugiados, expulsou
inúmeras pessoas que resistiam e lutavam contra o governo militar e em defesa dos direitos
humanos e da democracia, sobretudo da liberdade de expressão, valor reconhecido há muitos
séculos. Elas eram sobretudo jovens, estudantes, professores, intelectuais, artistas, escritores e
músicos. A liberdade, a imaginação, a criação, a crítica e a participação cidadã na política,
quando vistos pelo regime como “ameaças”, não eram tolerados. Apesar de o Brasil não oferecer,
como outros países o fizeram, instrumentos para que a população entenda mais concretamente
essa fotografia do horror na nossa história – e a necessidade de que ela não se repita –, há
muitos relatos, filmes, livros e músicas que nos ensinam essa questão.
Embora não possamos defender que as “luzes da razão” podem resolver todos os problemas da
humanidade, sobretudo da emancipação humana, é válido retomar os princípios que motivaram o
Iluminismo. Esses valores são fundamentais como parâmetro para pensarmos a vida coletiva, e
continuam válidos e atuais para evitarmos que nossas sociedades caminhem em direção ao
obscurantismo da razão. A negação desses valores e a interdição antidemocrática da
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participação cidadã são sinais de um retrocesso que remonta a séculos atrás (Conti; Alves,
2019).
O acolhimento dos “novos” refugiados passa pelo reconhecimento da sua condição humana e
também da necessidade de proteção dos valores democráticos na nossa sociedade para que
nosso país não se transforme, novamente, em um país produtor de refugiados em massa. Ou
seja, a defesa de um refugiado de ser acolhido está totalmente conectada com a defesa de que
os próprios brasileiros tenham seus direitos respeitados, não precisando fugir para outros países.
A nossa Constituição Federal (Brasil, 1988) é guardiã desses valores bem como os tratados
internacionais firmados. Há, portanto, legitimidade jurídica para o pleito de proteção para todos
os cidadãos brasileiros e não nacionais que tenham ameaçada a sua liberdade de expressão, de
fé religiosa, de posicionamento político e de escolha de identidade sexual, dentre outros casos.
Saiba mais
Aprofundar conhecimentos
Hanashiro (2001) oferece um histórico e um panorama completo do desenvolvimento do sistema
de proteção aos direitos humanos nas Américas, que encontrou sua condensação na Carta da
Organização dos Estados Americanos (OEA), na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do
Homem (ambas de 1951) e na Convenção Americana de Direitos (1978). Em 1969, esses direitos
passaram a ser operacionalizados pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos e, mais
tarde, em 1979, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos.
FOI para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário Mazzilli.
Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).
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Referências
ADORNO, T.; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de
Guido Antônio de Almeida. Rio de Janeiro: J. Zahar, 1986.
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 27 out. 2023.
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 9.474, de
22 de julho de 1997. Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de
1951, e determina outras providências. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9474.htm. Acesso em: 27 out. 2023.
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei nº 12.528,
de 18 de novembro de 2011. Cria a Comissão Nacional da Verdade no âmbito da Casa Civil da
Presidência da República. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2011-
2014/2011/Lei/L12528.htm. Acesso em: 27 out. 2023.
COMITÊ NACIONAL PARA OS REFUGIADOS (CONARE). Refúgio em números. 3. ed. Brasília: CNJ,
2018. Disponível em: https://www.acnur.org/portugues/wp-content/uploads/2018/04/refugio-
em-numeros_1104.pdf. Acesso em: 27 out. 2023.
CORTE PENAL INTERNACIONAL. Página inicial. Corte Penal Internacional, [s. d.]. Disponível em:
https://www.icc-cpi.int. Acesso em: 27 out. 2023.
FOI para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário Mazzilli.
Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).
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KANT, E. Ideia de uma história universal com um propósito cosmopolita. Traduzido por Artur
Morão. [S. l.]: Lusosofiapress, 1784. Disponível em:
http://www.lusosofia.net/textos/kant_ideia_de_uma_historia_universal.pdf. Acesso em: 27 out.
2023.
MOURA, C. Rebeliões da senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas. São Paulo: Anita Garibaldi,
2014.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Assembleia Geral das Nações Unidas. Declaração
Universal dos Direitos Humanos. ONU, 1948. Disponível em:
https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acesso em: 27 out.
2023.
Aula 3
O Reconhecimento das Diferenças e as Desigualdades
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para você. Nela, você irá aprender
conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la? Bons estudos!
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Você já parou para pensar em quais são os grupos sociais do Brasil que mais
sofrem com as barreiras no acesso à cidadania, e quais são essas barreiras – visíveis, mas
também muitas vezes invisíveis – por eles enfrentadas para a atuação política, ou seja, para a
representação e a reinvindicação de seus direitos?
Desejamos boas-vindas a você em mais uma oportunidade de reflexão. Para discutirmos essas
questões no contexto nacional, tentaremos entender alguns problemas do funcionamento das
sociedades atualmente, em particular o aumento das desigualdades e sua relação intrínseca
com a culpabilização e a exclusão dos grupos sociais marginalizados denominados “diferença”
pelas ciências sociais. No mundo inteiro, mas no Brasil em particular, essa lógica tem crescido,
apesar de também existirem contratendências guiadas pela defesa dos direitos fundamentais e
dos direitos humanos e por políticas de inclusão e de reconhecimento das diferenças.
No Brasil, a análise das diferenças deve abranger as raízes históricas, que colocaram negros,
indígenas e outras populações marginalizadas na posição da “diferença” e de mais atingidos
pelas desigualdades. Como sabemos, essa questão social se reproduziu nos períodos históricos
posteriores.
Por que será que as mulheres pertencentes a esses grupos sociais são as mais atingidas pelos
fatores de discriminação, de desigualdade e de exclusão da participação política? Na sua
opinião, como seria o Brasil atualmente sem a luta por reconhecimento – no passado e no
presente – empreendida por esses grupos sociais? As desigualdades sociais estariam mais
equilibradas sem a reivindicação desses grupos? No que se refere à democracia, você acha que a
luta por reconhecimento interfere positiva ou negativamente na forma de funcionamento do
nosso regime democrático?
Nesta aula, tentaremos entender de que modo essas diferenças ainda atuam na
contemporaneidade, seja na forma de lógicas de exclusão e de incidência das desigualdades,
seja na forma de luta por reconhecimento, como força contrária à atuação dessas lógicas (Conti;
Alves, 2019). Esperamos que esta aula, ao discutir os direitos fundamentais em sua relação com
a democracia, a cidadania e o reconhecimento das diferenças, possa também iluminar esse
caminho.
Vamos Começar!
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Iniciaremos nosso percurso didático pelo tratamento da relação entre democracia e direitos
fundamentais. Na contemporaneidade, essa relação está prevista no que se chamou de quarta
geração dos direitos fundamentais que, segundo o jurista Paulo Bonavides (2004), surgiu no final
do século XX, no bojo da globalização e das décadas neoliberais, após um “processo cumulativo
e qualitativo” de formação das primeiras gerações dos direitos fundamentais (Bonavides, 2004, p.
563). O autor nos oferece uma síntese acerca da história dos direitos fundamentais, lembrando-
nos do fator que os distingue: os direitos fundamentais são aqueles previstos na Constituição
(Brasil, 1988) – têm, portanto, garantia constitucional – e são essencialmente voltados a “criar e
manter os pressupostos elementares de uma vida na liberdade e na dignidade humana”
(Bonavides, 2004, p. 560).
Como esclarece Bonavides (2004), a primeira geração dos direitos fundamentais surgiu durante a
Revolução Francesa (1789) para afirmar os direitos individuais, sobretudo os direitos civis e
políticos. A segunda geração se manifestou particularmente nas Constituições do pós-Segunda
Guerra Mundial, inclusive na brasileira (de forma um pouco tardia), com o fim de exigir a
implementação pelo Estado de políticas concretas para se efetivar os direitos sociais, culturais,
econômicos e coletivos. Dessa segunda geração deriva o dever, do Estado e da sociedade, de
garantir o básico para se prover uma vida digna a todos os cidadãos, ou seja, o direito do acesso
universal à saúde, à educação, a trabalho e moradia dignos, dentre outros. Todavia, percebeu-se
também, no final do século XX, a importância da terceira geração dos direitos fundamentais, que
proclama garantias universais para o gênero humano, como a paz entre os povos, a preservação
do meio ambiente, a comunicação livre e não submetida a monopólios e, por fim, a proteção de
locais que, pela sua importância cultural e artística, são patrimônio comum da humanidade.
Mas estejamos atentos. Bonavides (2004) também nos faz um alerta de que esse desenho
geracional dos direitos fundamentais, previstos na nossa Constituição de 1988 (Brasil, 1988) e de
enorme importância para a nossa sociedade, não é suficiente para a efetivação desses direitos
na realidade. Essa discussão foi colocada particularmente na década de 1990, justamente o
período no qual os sintomas socioeconômicos maléficos das políticas de abertura dos países à
globalização e de redução dos gastos públicos – a partir do princípio neoliberal do Estado
mínimo – passam a se manifestar mais explicitamente em âmbito global, com particular
intensidade nas sociedades dos países mais pobres, que são chamados, atualmente, de Sul
Global.
Nesse contexto, percebeu-se que a não efetivação dos direitos fundamentais guarda uma
estreita relação com a forma de exercício de poder na maioria dos países, ou seja, em âmbito
global, que nega a efetiva participação da maioria dos cidadãos nas decisões políticas que lhes
afetam diretamente. Diversos mecanismos servem a essa situação, desde a negação do acesso
à renda, trabalho, educação, saúde, transporte e moradia, até as tecnologias utilizadas para
manipular a informação. É por esse motivo que nasce a quarta geração dos direitos
fundamentais, centrada na “ação de controle” do poder político ao clamar pela participação
consciente e corretamente informada, não apenas pelo mero exercício do direito de voto, mas
também pela presença nos diferentes espaços políticos nos quais são discutidas e decididas
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Segundo Bonavides (2004), essa quarta geração reflete a necessidade da construção de uma
“globalização política” na qual os direitos fundamentais não estejam separados do modo de
funcionamento das democracias e sejam colocados como uma prioridade diante de todos os
outros fatores de funcionamento das sociedades, inclusive o econômico.
Dessa forma, o autor destaca o fato de que a relação dos direitos fundamentais com o exercício
da cidadania – pensada de forma articulada globalmente, para além da esfera nacional – e com
a democracia é umbilical. Sem um regime político que permita a participação cidadã
democrática, não é possível se falar em garantia dos direitos fundamentais. É por esse motivo
que a nossa Constituição de 1988 (Brasil, 1988) – a Carta Maior, que está acima de todas as
outras legislações do país –, além de estabelecer os direitos fundamentais, também resguarda a
democracia e a cidadania. A Constituição de 1988 se contrapõe frontalmente ao sistema político
das duas décadas anteriores à sua instituição – o regime militar – que interditou o exercício da
cidadania, ou seja, a participação no poder político pela população. Essa garantia da cidadania
pela Constituição é uma condição intrínseca dos direitos fundamentais e não podemos nos
esquecer disso.
Siga em Frente...
A questão da distribuição de renda está no coração dessa discussão. Nos últimos anos, os
dados do economista francês Thomas Piketty (2014) fizeram muito barulho por deixarem
evidente que a tendência à concentração de renda não é uma anomalia dos países do Sul Global.
Os Estados Unidos, centro do sistema econômico mundial, seguem criando desigualdades e
pobreza. Nesse país, a renda recebida pelos 10% mais ricos, nos anos 1970, era cerca de 35% da
renda total. A partir de então só foi aumentando, e hoje estima-se que os 10% mais ricos
recebam 48% da renda total.
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Esse estado de fato da divisão de renda no mundo torna muito atuais as análises de Charles
Wright Mills (1916-1962), que nos anos 1950 escreveu um clássico da sociologia, A elite do
poder (Mills, 1975), em que analisa a relação estreita entre economia e política para explicar a
mudança na estrutura de classes dos Estados Unidos e sua imbricação com a dominação de
uma elite econômica, política e militar nesse país. Essa análise foi atualizada por Robert Frank
(2007), ao analisar a evolução dessa estrutura social no século XXI, apontando para uma ainda
maior concentração de renda, de super-ricos que vivem com uma renda tão alta, muitas vezes
equivalente ao produto interno bruto de um país, ao passo que a maioria da população sofre a
pressão do empobrecimento, sobretudo após a eclosão da crise mundial em 2007/2008.
Aqui, importa percebermos o que essa teoria ilumina, ou seja, que uma democracia efetiva não
negligencia o problema do que chama “minorias ‘inatas’”, tampouco aquele que surge “quando
uma cultura majoritária, no exercício do poder político, impinge às minorias a sua forma de vida,
negando assim aos cidadãos de origem cultural diversa uma efetiva igualdade de direitos”
(Habermas, 2004, p. 170). A igualdade formal de direitos, prevista no regime republicano com
base no princípio universalista, não exclui, segundo o autor, a necessidade do reconhecimento
das diferenças pelas políticas de inclusão.
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sistema de colonização, pessoas com deficiência, homossexuais – para que possa ocorrer uma
“articulação e afirmação de identidades coletivas” em prol da efetivação do Estado de direito por
uma “via democrática” (Habermas, 2004, p. 237 e 245).
Para finalizarmos, será interessante revisitar um texto do autor escrito nos anos 1990, no qual é
levantada a questão da imigração e do refúgio na Europa. Habermas (1997) advertiu que essa
questão ocuparia um lugar central nessas sociedades no futuro. Sua análise também se mostra
acertada ao advertir que o aumento da presença de imigrantes e refugiados acompanharia o que
ele chamou de “chauvinismo do bem-estar” (Conti; Alves, 2019).
Como Habermas (1997) explica, o respeito pela democracia e pelos direitos fundamentais na
atual configuração das sociedades só pode ocorrer no quadro de uma “sociedade mundial”
formada por “cidadãos do mundo”. Assim, nessa “sociedade mundial” as diferenças são
reconhecidas dentro de um quadro no qual “a cidadania em nível nacional e a cidadania em nível
mundial formam um continuum” (Habermas, 1997, p. 305).
Vamos Exercitar?
Retomemos a reflexão a respeito das formas de luta contra as desigualdades e contra o estigma
da “diferença” dos grupos sociais que, em geral, mais encontraram – e ainda encontram –
barreiras no Brasil para o reconhecimento e para o pleno exercício da cidadania.
Como sabemos, os indígenas, nossos povos originários, desde o período colonial foram
considerados a “diferença” em relação aos padrões de cultura, língua, poder político e modelo
econômico que foram impostos como hegemônicos pelo Estado Colonial. A imagem de que
esses povos são “selvagens”, “incivilizados”, “atrasados” e “ingênuos” para atuar politicamente na
representação de seus direitos – devendo, portanto, “assimilar” a cultura e os modos de vida
considerados “mais avançados” –, desde então serviu (e ainda serve) de arma ideológica para
negar seus direitos e excluí-los da participação política.
Mas a imagem de que os indígenas são “incapazes”, para, por exemplo, atuar na política, não
corresponde à realidade. Sabemos que esses povos são organizados politicamente para a
defesa de seus direitos e a preservação de suas terras e da biodiversidade nelas presente, muitas
vezes até de forma articulada internacionalmente. Os movimentos indígenas colocam em
discussão como a nossa identidade nacional não reconhece a sua diversidade e, por meio de
diferentes formas de luta concreta, tentam combater a injustiça social pela defesa do direito às
suas terras e à preservação de suas culturas.
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Também não podemos deixar de pensar na luta dos trabalhadores para melhorar suas condições
de renda/salário e de trabalho, com importante papel para agir nas desigualdades sociais no
país. Os imigrantes europeus atuaram, também por meio dos sindicatos, para organizar e
empreender essas lutas no meio rural, mas sobretudo no urbano, na indústria. A Consolidação
das Leis Trabalhistas (CLT) foi aprovada em 1943 também como resposta a essas
manifestações. Sabemos que as lutas do trabalho hoje não são tão ativas como no passado, por
diversos motivos. Mas é importante perceber que o trabalho se depara na contemporaneidade
com diversas pressões e desafios, em particular devido a formas flexíveis de contratação,
informalidade, trabalho intermitente e desemprego que acompanham novas modalidades de
organização e de reivindicação de direitos. É evidente que essas lutas na esfera do trabalho
continuam tendo uma função importantíssima para agir nas desigualdades. Vale ressaltar que as
mulheres também têm um papel ativo em todas essas lutas, já que elas são as mais atingidas
pelos trabalhos mais precarizados e desvalorizados.
Também por esse motivo as suas lutas não são apenas legítimas, mas atuam como fatores
importantíssimos para a garantia do funcionamento do regime democrático no Brasil. O país
ainda tem muito o que avançar para a efetiva inclusão e o reconhecimento desses grupos sociais
(Conti; Alves, 2019).
Saiba mais
O seguinte trecho, de autoria do jurista Bonavides, coloca em evidência a relação entre direitos
fundamentais da quarta geração e a atuação política em nível global para garantia da
democracia:
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Qualificar a democracia
[…] agindo em sentido inverso, a redução das discriminações que ainda pesam sobre os afro-
brasileiros, hoje majoritários no seio da população, consolidará a democracia. Portanto, não se
trata aqui de uma simples lógica indenizatória, destinada a quitar dívidas da história e a garantir
direitos usurpados de uma comunidade específica, como o caso em boa medida dos
memoráveis julgamentos dessa corte [Supremo Tribunal Federal] sobre a demarcação de terras
indígenas. No presente julgamento trata-se, sobretudo, de inscrever a discussão sobre a política
afirmativa no aperfeiçoamento da democracia (Alencastro, 2017, p. 112-113).
Definição
1 patriotismo fanático, agressivo 1.1 p. ext. entusiasmo excessivo pelo que é nacional, e
menosprezo sistemático pelo que é estrangeiro 1.2 p. ext. entusiasmo intransigente por uma
causa, atitude ou grupo”. A etimologia, origem dessa palavra, vem de “Chauvin, nome de um
soldado francês que exaltava ingenuamente as armas do primeiro Império, tipo popularizado e
ridicularizado por seu extremado patriotismo.
HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2009. p. 450.
Diferenças e desigualdades
Por que defendemos a existência das diferenças entre os indivíduos e criticamos a permanência
das desigualdades em nossa sociedade? Afinal, deve haver diferenças entre homens e mulheres
em nossa sociedade? E desigualdades entre homens e mulheres? Assista à aula Conceitos de
igualdade, diferença e desigualdade (00:00 – 04:04), disponibilizada pela Univesp TV, e reflita
sobre tais questionamentos.
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Referências
BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Constituição
da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm. Acesso em: 27 out. 2023.
FRANK, R. A journey through the American Wealth Boom and lives of new rich. New York: River
Press, 2007.
HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Tradução de George Sperber, Paulo
Astor Soethe e Milton Camargo Mota. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2009. p. 450.
MILLS, C. A elite do poder. Tradução de Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1975.
OXFAM. Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural. [S. l.]: Oxfam
Brasil, nov. 2016. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/terrenos-da-desigualdade-
terra-agricultura-e-desigualdade-no-brasil-rural/. Acesso em: 27 out. 2023.
OXFAM. A distância que nos une: relatório anual da Oxfam – Brasil. [S. l.]: Oxfam Brasil, 2017.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/a-distancia-
que-nos-une/. Acesso em: 27 out. 2023.
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OXFAM. Recompensem o trabalho, não a riqueza. [S. l.]: Oxfam Internacional, jan. 2018.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/recompensem-o-trabalho-nao-a-riqueza/.
Acesso em: 27 out. 2023.
Aula 4
Globalizações e Deslocamentos no País
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para você. Nela, você irá aprender
conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la? Bons estudos!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você em mais uma unidade de estudo de cidadania
global. Veremos como o contexto globalizado dos dias atuais, que tem suas economias, suas
sociedades e suas culturas interligadas globalmente, coloca uma dimensão mais complexa para
pensarmos o exercício da cidadania. A nova realidade do número cada vez maior de pessoas
deslocadas coloca desafios para pensarmos a cidadania, sobretudo para desvincularmos o seu
sentido da esfera restrita ao nacional (Conti; Alves, 2019).
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Diante dos diversos fluxos migratórios do exterior para o Brasil – causados em grande medida
por guerras, conflitos políticos e miséria – como poderíamos receber e acolher os povos
imigrantes e refugiados, garantindo sua integridade física e moral, seus valores e culturas sem
projetar no estrangeiro o inimigo, o alvo e a causa dos problemas existentes no nosso país? A
fama do Brasil, de país acolhedor para os estrangeiros, tem se confirmado diante do cenário
crítico de que estamos tratando?
Vamos Começar!
Cidadania transnacional
Depois de percorrer diferentes contextos e épocas históricas que nos ajudam a refletir a respeito
da complexidade implicada na discussão do tema da cidadania, não poderíamos deixar de tratar
de uma dimensão que se torna cada vez mais evidente no contexto globalizado do século XXI: a
cidadania transnacional. Até este momento, conseguimos refletir acerca da dimensão local,
expressa no sentir-se membro de um corpo político no espaço das cidades e do estado-nação.
Agora, daremos um passo à frente na compreensão do sentido da cidadania para além da
dimensão local. Há diferentes perspectivas para explorar esse aspecto da cidadania (Conti;
Alves, 2019).
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nacional fica ainda mais recortado por um mosaico de nacionalidades, culturas, religiões e
etnias. É, por isso, uma contradição que essas pessoas sejam excluídas do exercício de seu
direito de cidadania e de participação política.
As declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e de governantes como Viktor
Orban (Hungria) e Matteo Savini (Itália), exemplificam a construção de um discurso que associa
automaticamente essa população ao “crime”, estabelecendo um clima de insegurança e medo
que tem efeitos práticos concretos de desrespeito aos direitos humanos dessas populações
também nos países para os quais elas emigram (ou tentam emigrar).
Do ponto de vista das pessoas que se deslocam internacionalmente, o direito de cidadania não
pode se restringir às fronteiras nacionais. Da mesma forma que determinadas instituições
exercem uma dimensão global do exercício do poder político – como a Organização das Nações
Unidas (ONU), o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) –, com decisões que
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Importa percebermos que essa reflexão nos traz a dimensão transnacional da cidadania como
uma esfera de discussão de enorme importância. Já que vivemos em um mundo globalizado, a
cidadania não pode mais ser analisada puramente a partir do nacional. Utilizar esse
“nacionalismo metodológico” significa negar a cidadania a milhões de pessoas que residem em
outros países ou que são obrigadas a deixar seus países de origem. Lembremos que, do ponto
de vista cosmopolita, essa visão redutiva da cidadania necessariamente nega a condição
humana dessas pessoas. Sobretudo, é necessário perceber que o exercício da cidadania, em
particular com o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação, assume
atualmente uma dimensão global. Esse alcance espacial traz consigo inúmeras potencialidades
para pensarmos o significado da ação cidadã (Conti; Alves, 2019).
Siga em Frente...
Deslocamentos forçados
As sociedades europeias no momento histórico dos anos 1990 ainda não sofriam com os
perversos efeitos da crise mundial eclodida em 2007/2008, pois, segundo Habermas, ainda
viviam no estado de graça (em relação a outras partes do mundo) de poder desfrutar de um
“bem-estar”. O momento agora mudou. Por esse motivo, essa mesma Europa vive atualmente
inúmeros conflitos sociais o causados pelos efeitos da crise mundial e acabam se condensado
na tendência de exacerbação do nacionalismo como uma forma de resolver os problemas que
supostamente vêm “de fora”, do estrangeiro, e pela presença do estrangeiro. São esses
momentos de crise que, como esclarece o autor, “trazem à tona a tensão latente entre cidadania
e identidade nacional” (Habermas, 1997, p. 298). Esse debate é de enorme relevância e devemos
estar atentos a ele
[…] os sujeitos privados do direito não poderão sequer desfrutar das mesmas liberdades
subjetivas enquanto não chegarem ao exercício conjunto de sua autonomia como cidadãos do
Estado, a ter clareza quanto aos interesses e parâmetros autorizados, e enquanto não chegarem
a um acordo acerca das visões relevantes segundo as quais se deve tratar como igual o que for
igual e desigual o que for desigual. Quando tomarmos a sério essa concatenação interna entre o
Estado de direito e a democracia, porém, ficará claro que o sistema dos direitos não fecha os
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olhos nem para as condições de vida sociais desiguais, nem muito menos para as diferenças
culturais (HABERMAS, 2004, p. 242-243).
Embora o Brasil ainda tenha uma porcentagem muito baixa de estrangeiros, estimada entre 1% e
1,5% da população, não está separado desse contexto internacional. As notícias que falam da
presença desses imigrantes e refugiados no país têm se tornado cada vez mais comuns.
Tivemos dois casos, dos haitianos e dos venezuelanos, que deram mais visibilidade a essa
questão nos últimos anos. A pergunta que questiona se Estado brasileiro tende a se abrir ou a se
fechar para o reconhecimento da cidadania desses imigrantes e refugiados não pode ser
respondida sem primeiramente levarmos em consideração o contexto internacional.
Se analisamos o contexto nacional, entendemos que apesar de o Brasil ter uma sociedade
formada por imigrantes (africanos, europeus, asiáticos etc.) e ter se apoiado secularmente no
trabalho dessas pessoas, atualmente coloca muitas barreiras para o reconhecimento da
cidadania dos “novos” imigrantes e refugiados. Essas barreiras são de ordem formal, relativas à
concessão de visto e ao reconhecimento de refúgio e da cidadania brasileira. O processo para
conseguir a documentação é excessivamente burocratizado e caro para os imigrantes. Muitas
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vezes, isso acaba provocando a indocumentação de muitos deles, o que, na prática, significa a
exclusão da cidadania, ou seja, o não reconhecimento desses imigrantes como sujeito de
direitos. Para a concessão da cidadania brasileira, esse processo é ainda mais burocratizado e
de difícil acesso (Conti; Alves, 2019).
Se refletimos a respeito do aspecto substancial dessa cidadania, podemos entender que esses
imigrantes e refugiados vivem os fatores de expulsão na própria sociedade de origem, por isso
são obrigados a migrar, e ao chegarem no Brasil se defrontam novamente com muitas barreiras
da cidadania – como o acesso a um trabalho digno, à moradia, à educação de qualidade –, que
se colocam também para os brasileiros.
Vamos Exercitar?
Diante do cenário mundial que buscamos analisar ao longo da aula e do histórico da cidadania e
dos direitos humanos que percorremos, como responder às questões colocadas inicialmente?
Quais caminhos as políticas internacionais devem tomar diante das grandes crises de
refugiados? O Brasil, país considerado hospitaleiro e com uma população cordial e pacífica, tem
sido capaz de receber e acolher os povos imigrantes e refugiados, garantindo sua dignidade?
Além de a reconhecermos, temos de lembrar que a cidadania, hoje, no mundo globalizado, é uma
cidadania transnacional, que não se limita ao território do estado-nação. Essa perspectiva
significa proteger também os brasileiros e seus direitos, mas, antes, reconhecer a dignidade e as
garantias legais de todo ser humano. Importante reconhecer que não é por meio da anulação da
Constituição Federal de 1988 que vamos resolver a questão da desigualdade e da exclusão
social dos cidadãos, pois, como vimos, a abolição de direitos consagrados não é a solução para
as demandas que ainda não foram efetivadas (Conti; Alves, 2019).
Em outras palavras, o fato de que nem todos os indivíduos conseguem usufruir de uma cidadania
plena não será resolvido com a supressão de todas as conquistas institucionais, mas sim por
meio do fortalecimento democrático que possa fomentar mais participação política e
responsabilidade do Estado no enfrentamento da questão social.
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Ademais, à medida que o Brasil se tornar uma nação capaz de respaldar a situação dos
imigrantes, a população em geral também usufrui do convívio em uma sociedade mais justa e
organizada sob a equalização de direitos.
Saiba mais
Exemplificando
Aprofundando conhecimentos
A obra de Ludmila Andrzejewski Culpi, Estudos migratórios (2020), disponível em sua biblioteca
virtual, fornece um importante panorama da questão migratória em diversos aspectos,
trabalhando conceitos fundamentais para essa discussão, políticas migratórias e bases teóricas
em sociologia, economia e relações internacionais. Discute a história das migrações,
examinando alguns momentos históricos, a influência da Organização das Nações Unidas e
criação da Organização Internacional de Migrações. A obra também destaca a legislação
brasileira e sua evolução, e a importância de se pensar nos refugiados.
CULPI, Ludmila Andrzejewsi. Estudos migratórios. Curitiba: Contentus, 2020. 71p.
Artigo I
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotados de razão e
consciência e devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade.
Artigo II
1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta
Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião
política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra
condição. 2. Não será também feita nenhuma distinção fundada na condição política, jurídica ou
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internacional do país ou território a que pertença uma pessoa, quer se trate de um território
independente, sob tutela, sem governo próprio, quer sujeito a qualquer outra limitação de
soberania.
Artigo III
Todo ser humano tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão
proibidos em todas as suas formas.
Artigo V
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo VI
Todo ser humano tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecido como pessoa perante a
lei.
Artigo VII
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei.
Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente
Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação. (ONU, 1948, p. 4-6)
Xenófobo no Brasil?
Referências
AGÊNCIA DA ONU PARA REFUGIADOS (ACNUR). Página inicial. ACNUR, [s. d.]. Disponível em:
https://www.acnur.org/portugues/. Acesso em: 27 out. 2023.
AZEVEDO, G. Crise faz crescer o risco de o Brasil voltar ao Mapa da Fome, diz ONU. UOL, São
Paulo, 17 out. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-
noticias/2018/10/17/jose-graziano-fao-onu-mapa-da-fome-brasil-obesidade.htm. Acesso em: 27
out. 2023.
Disciplina
SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA
BASSO, P. L’ascesa del razzismo nella crisi globale. In: BASSO, P. (org.). Razzismo di stato: Stati
Uniti, Europa, Italia. Milano: FrancoAngeli, 2010.
HABERMAS, J. A inclusão do outro: estudos de teoria política. Tradução de George Sperber, Paulo
Astor Soethe e Milton Camargo Mota. São Paulo: Edições Loyola, 2004.
ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ONU). Assembleia Geral das Nações Unidas. Declaração
Universal dos Direitos Humanos. ONU, 1948. Disponível em:
https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acesso em: 27 out.
2023.
Aula 5
Encerramento da Unidade
Videoaula de Encerramento
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Ponto de Chegada
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Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é reconhecer os direitos
humanos conquistados e distinguir como eles vigoram na sociedade brasileira contemporânea
atrelados ao exercício cidadão, você deverá compreender primeiramente o significado dos
conceitos de cidadania e direitos humanos.
Com o intuito de fornecer elementos fundamentais para o estudo desse assunto, expomos o
significado da cidadania, pensada a partir de três dimensões: local, nacional e global. Toda vez
que uma dessas dimensões da vida em sociedade é comprometida negativamente,
necessariamente as outras também encontram mais obstáculos para a sua plena realização. O
desafio é assimilar de que forma, hoje, as sociedades estão (ou não) considerando a reflexão a
respeito das questões implicadas nessas noções e quais são as consequências disso.
É fundamental reconhecer também os direitos humanos e como essa instituição apareceu na
história moderna, tornando-se um padrão de referência universal para se pensar a vida em
sociedade, com seus limites e as fronteiras cada vez maiores na sociedade atual, tendo em vista
a predominância de outras lógicas – como o poder, a segurança, o nacionalismo, a riqueza – que
se colocam acima do ser humano.
Os casos de genocídio são os exemplos mais gritantes de barreiras à cidadania global e crime
contra a humanidade. Em geral, esse crime é associado ao extermínio dos judeus durante o
nazismo. No entanto, é importante lembrarmos que esse fenômeno é muito mais amplo.
Sobretudo, muito antes da barbárie do nazismo ocorrida no contexto europeu, a prática do
extermínio em massa já tinha precedentes com a atuação dos sistemas coloniais na América
Latina, África e Ásia (Bruneteau, 2006).
Com relação à América Latina, o autor David Stannard (1993) chamou de “holocausto americano”
a dizimação da população indígena, na América do Sul e do Norte, pelas armas dos
colonizadores europeus e pelas doenças biológicas que traziam. Muitos outros autores utilizam-
se das estimativas populacionais do período anterior à colonização (1500), comparando-as com
as primeiras décadas desse mesmo século, para iluminar o rápido e brutal decréscimo da
população indígena do continente, que nada mais é do que um verdadeiro genocídio.
O historiador Enzo Traverso, em seu livro La violenza nazista: uma genealogia (2002), mostrou
que a conquista do “espaço vital” baseado no critério racial – ocupação de novos territórios para
a “raça” “pura” alemã – já tinha sido amplamente utilizada pelos sistemas coloniais modernos
nas colônias e é um dos fatores que explica a genealogia do nazismo, ou seja, os processos que
estão em sua origem histórica no que se refere às práticas genocidas e violentas.
Você já parou para pensar, por exemplo, na relação dos estremecimentos dos valores
democráticos – espelhados nos novos cenários políticos em ascensão no atual contexto de crise
mundial –, com o desrespeito dos direitos fundamentais? Refletir a respeito desse percurso
formativo encoraja a despertar o cidadão que há em você, buscando o conhecimento crítico e
científico.
Outro exemplo concreto que pode ser mobilizado para a compreensão desse quadro no Brasil é
que o grupo social dos negros é o mais atingido pelas desigualdades, consequentemente,
encontra uma série de barreiras à cidadania. No que se refere à renda, essa desigualdade é
explícita: brancos ganham, em média, o dobro que negros (Oxfam, 2017), ocupando postos de
trabalho mais bem remunerados e de maior prestígio e poder. Essa desigualdade de renda se
desdobra em desvantagens no acesso à educação, à saúde e ao poder político, dentre outros
fatores. Ela atinge igualmente as mulheres e outros grupos sociais marginalizados, os indígenas,
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renda e riquezas.
A reportagem de Rossi (2017), referindo-se a dados também fornecidos pela Oxfam, nos ajuda a
entrar mais a fundo nesse quadro de desigualdades no Brasil ao evidenciar que “seis brasileiros
concentram a mesma riqueza que a metade da população”, ou seja, um pouco mais de cem
milhões de pessoas, e os “5% mais ricos [da população brasileira] detêm a mesma fatia de renda
que os demais 95%”! Segundo dados da Oxfam (2017), 165 milhões de brasileiros vivem com
uma renda per capita inferior a dois salários-mínimos (Conti; Alves, 2019).
Um indicador importante para entendermos esse quadro de desigualdade de renda no Brasil diz
respeito à estrutura fundiária, que revela números igualmente brutais apresentados pelo Censo
Agropecuário (2006): 0,91% dos estabelecimentos rurais (latifúndios) concentram 52% da área
total das propriedades rurais. Os estabelecimentos com dez hectares de terra, representando
47% do total dos estabelecimentos do país, ocupam apenas 2,3% da área total (Oxfam, 2016).
Essa desigualdade de distribuição de terras mantém estreita relação com a situação precária da
vida urbana, sobretudo das grandes metrópoles. Raquel Rolnik (2016) recupera dados que tratam
da proliferação de assentamentos e moradias informais nas periferias das grandes cidades do
mundo e do Brasil, explicando os mecanismos de produção de sem-tetos e da segregação
urbana pelo que chama de “guerra dos lugares” contemporânea. Estimou-se que, no Brasil
(2018), 6,9 milhões de famílias não têm uma casa para morar, ao passo que há 6 milhões de
imóveis desocupados (Odilla; Passarinho; Barrucho, 2018).
É claro que esse quadro socioeconômico reflete questões estruturais, sobretudo as antigas, as
novas e as diferentes faces das desigualdades, que foram agravadas de forma drástica pelo
contexto de crise econômica e política do Brasil, e pelo aumento do desemprego e do trabalho
terceirizado e/ou intermitente. Autores como Florestan Fernandes (1973) analisaram as
conexões dessa estrutura econômica das periferias do capitalismo com a reprodução de um
regime político autoritário. Seus estudos mostram bem como o traço colonial de opressão
política e exclusão da participação cidadã da maioria da população permanece existindo mesmo
depois de o Brasil se constituir como um Estado–nação com sua “própria” burguesia nacional,
ficando particularmente mais evidentes em contextos de interrupção do regime democrático
como no Estado Novo (1930-1945) e na ditadura militar (1964-1985) (Conti; Alves, 2019).
Devemos refletir a respeito da democracia, das desigualdades e das diferenças, em um exercício
que nos dá instrumentos para a compreensão das barreiras à cidadania, que são muitas vezes
invisíveis, mas importantíssimas para pensarmos as possibilidades de atuação política,
sobretudo por grupos sociais marginalizados.
É Hora de Praticar!
O tema das migrações é mobilizado neste Estudo de Caso por nos possibilitar discutir questões
importantes da cidadania e dos direitos humanos em nossa realidade social. A mobilidade
forçada opera na sociedade contemporânea com diversas lógicas de expulsão.
A socióloga Saskia Sassen, no seu livro Expulsões (2016), mostra como a mobilidade forçada de
pessoas é hoje um problema que atinge muitos países do mundo, sobretudo os do Sul Global,
países da periferia do capitalismo ou subdesenvolvidos. A autora discute o que chama de
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“lógicas de expulsão” – algumas antigas, outras novas – que estão ativas na contemporaneidade
provocando o deslocamento forçado de massas de pessoas.
Resta-nos entender como o Brasil se situa nessa questão. O que você responderia se lhe
perguntassem acerca da relação do funcionamento da democracia no Brasil com a efetividade
dos direitos humanos? Na sua opinião, podemos dizer que as gerações dos direitos
fundamentais são respeitadas no país?
Qual foi o panorama social da humanidade que deu ensejo ao desenvolvimento dos direitos
humanos?
Por que e para quem os direitos humanos se aplicam?
Qual seria o caminho para que a cidadania pudesse ser usufruída de modo pleno por toda a
população brasileira na realidade material, superando as múltiplas barreiras existentes?
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STANNARD, D. E. American holocaust: the conquest of the New World. New York, NY; Oxford:
Oxford University Press, 1993.
FERNANDES, F. Capitalismo dependente e classes sociais na América Latina. Rio de Janeiro:
Zahar, 1973.
FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes: o legado da “raça branca”. São
Paulo: Globo, 2008.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Agropecuário. Rio de
Janeiro, 2006. Disponível em:
https://ftp.ibge.gov.br/Censo_Agropecuario/Censo_Agropecuario_2006/Segunda_Apuracao/cens
oagro2006_2aapuracao.pdf. Acesso: 27 out. 2023.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2010. [online]. Rio de
Janeiro, 2010. Disponível em: https://censo2010.ibge.gov.br/. Acesso: 27 out. 2023.
ODILLA, F.; PASSARINHO, N.; BARRUCHO, L. Brasil tem 6,9 milhões de famílias sem casa e 6
milhões de imóveis vazios. BBC Brasil em Londres, Londres, 7 maio 2018. Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44028774. Acesso em: 18 jan. 2019.
OXFAM. Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural. [S. l.]: Oxfam
Brasil, nov. 2016. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/terrenos-da-desigualdade-
terra-agricultura-e-desigualdade-no-brasil-rural/. Acesso em: 27 out. 2023.
OXFAM. A distância que nos une: relatório anual da Oxfam – Brasil. [S. l.]: Oxfam Brasil, 2017.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/a-distancia-
que-nos-une/. Acesso em: 27 out. 2023.
OXFAM. Recompensem o trabalho, não a riqueza. [S. l.]: Oxfam Internacional, jan. 2018.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/recompensem-o-trabalho-nao-a-riqueza/.
Acesso em: 27 out. 2023.
ROLNIK, R. A guerra dos lugares. A colonização da terra e da moradia na era das finanças.
Boitempo: São Paulo, 2016.
ROSSI, M. Seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade da população mais pobre.
El País Brasil, São Paulo, 25 set. 2017. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/09/22/politica/1506096531_079176.html. Acesso em: 18
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SASSEN, S. Territory, authority, rights: from Medieval to Global Assemblages. Princeton: Princeton
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SASSEN, S. Sociologia da globalização. Tradução de Ronaldo Cataldo Costa. Porto Alegre:
Artmed, 2010.
SASSEN, S. Expulsões: brutalidade e complexidade na economia global. Rio de Janeiro/São
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SILVA, P. B. G. Universidades públicas: o debate político sobre as cotas e ações afirmativas. In:
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SOUZA, P. F.; RIBEIRO, C. A. C.; CARVALHAES, F. Desigualdade de oportunidades no Brasil:
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TRAVERSO, E. La violenza nazista. Uma genealogia. Bolonha: Il Mulino, 2002.
,
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Unidade 3
Desafios da sociedade brasileira
Aula 1
A Reprodução da Miséria
A reprodução da miséria
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você em mais uma aula. Sabemos bem que a miséria
no Brasil não é um fenômeno novo; tem raízes históricas muito antigas, que se reproduzem ao
longo do tempo. Vamos nos concentrar no século XXI, mas o encorajamos sempre a seguir
estudando a história do país para entender a historicidade de nossos dilemas. Vamos entender
as dinâmicas mais características da pobreza no mundo atual, sobretudo após a eclosão da crise
mundial (2007-2008) e sua manifestação com mais força no Brasil, a partir de 2014.
Como você explicaria as estimativas de que, no Brasil, cerca de 21.1 milhões de pessoas estão
em situação de vulnerabilidade alimentar, enquanto 41 mil toneladas de alimentos são
desperdiçadas por ano (CFN, 2023)?
Na visão científica, esse fenômeno é produzido pelas relações socioeconômicas, sendo possível
identificar – e enfrentar – suas causas objetivas. Independentemente das correntes teóricas, o
conhecimento produzido pelas diferentes ciências sociais – a partir de método e evidências,
portanto –, como a economia, a sociologia e a ciência política, concordam com o pressuposto de
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que a fome é um problema que passa por escolhas políticas e econômicas dos governos e da
sociedade, podendo, assim, ser combatida por políticas públicas e pela ação da sociedade. Por
exemplo, para José Graziano da Silva, diretor geral da Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO), e para Adolfo Pérez Esquivel, Prêmio Nobel da Paz e membro
da Aliança da FAO pela Segurança Alimentar e Paz, a fome é, na verdade, um crime que alimenta
conflitos mais graves nas sociedades e ameaça a paz mundial (Silva; Esquivel, 2018).
Vamos Começar!
Conforme nos explica Chossudovsky (1999), a pobreza é um fenômeno global e atinge com mais
força os países do Sul Global, e seu traço característico é o de aniquilar a subsistência humana,
ou seja, a possibilidade de sobrevivência das pessoas, destruindo sociedades inteiras. O estudo
de Chossudovsky foi produzido na década de 1990 e permanece ainda muito atual. Para o autor,
nesse período, a pobreza dizia respeito a 80% da população mundial, com uma incidência muito
mais acentuada nos países do Sul Global – ex-colônias –, já que os países ricos do Norte Global
(onde viviam 15% da população mundial) controlavam 80% da renda mundial, ao passo que os
países de média e baixa renda (onde viviam 85% da população mundial), apenas 20% da renda
mundial (Chossudovsky, 1999). Esse quadro não se modificou nos anos 2000; pelo contrário, só
tem se acentuado. Estimativas da Organização das Nações Unidas para Agricultura e
Alimentação apontam 821 milhões de pessoas atingidas pela fome no mundo em 2017
(Azevedo, 2018).
Na mesma linha de raciocínio, Raquel Rolnik (2016) sugere uma reflexão importante ao
evidenciar que os problemas urbanos vividos no século XXI – como a globalização, a
financeirização da economia, a desindustrialização, o desemprego –, talvez sejam piores que os
problemas sociais “clássicos” do início do processo de industrialização e urbanização no século
XIX.
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De fato, a pobreza nos países do Sul Global é historicamente enraizada e disseminada por meio
do funcionamento do sistema de colonização. O Brasil é um exemplo claro disso. Os níveis de
pobreza do país sempre foram muito altos, sobretudo devido à alta concentração de renda e de
riquezas, que situa o país como um dos mais desiguais do mundo, com níveis acima da média
global. Segundo Souza e Medeiros (2017), a alta concentração de renda no topo da pirâmide
social permaneceu intocada na última década:
Na prática, o Brasil “estar fora da curva” em relação aos padrões internacionais significa
pertencer a uma sociedade na qual “seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade
da população”, ou seja, um pouco mais de 100 milhões de pessoas e os “5% mais ricos [da
população brasileira] detêm a mesma fatia de renda que os demais 95%” (Rossi, 2017).
Paralelamente, 165 milhões de brasileiros vivem com uma renda per capita inferior a dois
salários-mínimos (Oxfam, 2017).
É preciso perceber, portanto, que no século XXI a estrutura das desigualdades de renda e de
riqueza no Brasil não foi modificada. Isso nos ajuda a entender por que os efeitos da crise global
agravaram com tamanha rapidez a miséria. Esse agravamento, é claro, não está separado de
escolhas políticas que, ao contrário de agir nas causas da miséria, a acentua.
No que se refere à geografia dessa miséria, dados revelam que a Região Nordeste do Brasil
concentra 43,5% da população vivendo na linha da pobreza, enquanto a Região Sul 12,3%
(Oliveira, 2017). E é preciso nos atermos ao fato de que essa miséria também tem cor e sexo, já
que os negros e as mulheres são mais atingidos (Pearce, 1978; Moraes, 2018; Fernandes, 2008;
Martins; Martins, 2017). José Graziano da Silva, diretor geral da Organização das Nações Unidas
para Agricultura e Alimentação também dá destaque ao alto número de crianças que voltam a
ser vítimas da fome no Brasil (Azevedo, 2018). Além disso, estudos evidenciam que as famílias
que moram na zona rural (cerca de 15% da população brasileira, segundo o censo de 2010) estão
mais expostas à situação de pobreza, sobretudo se considerada a renda (Buainain et al., 2012).
Siga em Frente...
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Essa questão nos leva a discutir a estrutura fundiária do Brasil. Para Sorj (2008), a alta
concentração de terras no Brasil é uma característica histórica do país, que se tornou ainda mais
complexa com a reorganização e o processo de transformação das relações de produção no país
pela agroindústria.
A concentração de terras no Brasil não está separada dos problemas urbanos que se agravam no
país. Como é notório, o processo de urbanização e industrialização no Brasil – e, em geral, na
América Latina –, ocorreu de forma desordenada, rápida e concentrada no século XX (em parte
da Europa, por exemplo, esse mesmo processo demorou dois ou três séculos para se efetivar).
Embora a indústria absorvesse parte dessa população, muitas das pessoas que migravam para a
cidade não conseguiam arranjar empregos e eram segregadas em bairros periféricos (Conti;
Alves, 2019).
Atualmente, os estudos têm mostrado como a atração de pessoas para morar nas cidades é
impulsionada mais pela reprodução da pobreza, devido a fatores de expulsão do campo, que se
combinam com a falta de oferta de empregos e de renda nas cidades (Davis, 2006). Em
particular, esses estudos também mostram como há um aumento e uma multiplicação das
favelas (principalmente após os anos 1970), que passaram a expressar a fotografia da pobreza
nas cidades – e de todos os problemas sociais a ela relacionados (exploração do trabalho,
condições de vida, mortalidade, violência, insalubridade, segregação espacial).
As favelas são hoje, de fato, a máxima expressão da pobreza. Como mostra bem o estudo de
Mike Davis (2006), há uma “globalização das favelas”, que é a forma de moradia precária que se
dissemina em nível global, principalmente nos países do Sul Global (atingindo cerca de 80% da
população urbana desses territórios). Por esse motivo, muitos estudos têm alertado que a
pobreza urbana se tornaria o problema mais importante e explosivo do século XXI (Conti; Alves,
2019).
Os movimentos que lutam pela moradia e denunciam essa pobreza urbana refletida na situação
dos sem-teto não estão separados desses processos estruturais de produção de desalojados.
Esses movimentos também mostram que a vulnerabilidade dessas pessoas e a sua exposição a
fatores sociais problemáticos podem se reverter em uma força de denúncia das contradições
das sociedades urbanas hoje, sendo determinantes para a transformação desses espaços
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As reivindicações dos trabalhadores, de suas categorias e sindicatos para um trabalho mais bem
remunerado e protegido, que se opõem à tendência de deterioração da renda e devastação dos
direitos dos trabalhadores têm, portanto, um papel central nas sociedades modernas para
impulsionar as políticas sociais de distribuição de renda. A maior parte da sociedade brasileira
hoje depende de um salário para sobreviver, portanto, é importantíssimo que a qualidade do
emprego não seja negligenciada.
Além dessas perspectivas alternativas para um país mais igualitário, que partem de iniciativas da
própria sociedade – e são de enorme relevância para entendermos que esses problemas não são
“naturais” e podem ser combatidos –, devemos considerar também a importância das políticas
sociais e de combate à fome. Sem essas iniciativas e essas políticas, certamente caminharemos
para uma sociedade cada vez mais desigual, logo, também conflituosa e violenta.
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No Brasil, pode-se destacar alguns programas que foram importantes no período recente para o
esforço de combate à pobreza. Em primeiro lugar, a implementação da aposentadoria rural, que
garantiu aos trabalhadores rurais uma renda de um salário mínimo ao chegar à terceira idade. Em
segundo lugar, a política de valorização do salário mínimo, já que parte importante da população
brasileira tem seus salários vinculados a esse patamar mínimo e outra parte recebe benefícios
sociais também atrelados ao salário mínimo. Em terceiro lugar, o Programa Nacional de
Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), que provê crédito subsidiado – ou, às vezes, a
fundo perdido –, para pequenos produtores agrícolas. E, finalmente, o Bolsa Família, resultante
da conglomeração de programas sociais anteriormente dispersos, atribuindo-lhes mais
organicidade (em vez de as famílias pobres precisarem lidar com inúmeros programas distintos,
passaram a ser atendidas de forma unificada, pelo Bolsa Família), volume (os valores destinados
a esses benefícios sociais aumentaram muito; de 2003 a 2014, os montantes direcionados para
o Bolsa Família passaram de R$ 3,4 bilhões a R$ 27,2 bilhões) e capilaridade (o programa passou
a atender famílias do país todo, até mesmo de pequenas comunidades do sertão nordestino ou
da Amazônia) (Conti; Alves, 2019).
O Bolsa Família foi iniciado em 2003, com o atendimento de mais de 3 milhões de famílias, e
chegou a contemplar, em 2014, 14 milhões de famílias. Segundo a pesquisa baseada em extensa
coleta de dados e relatos realizada por Rego e Pinzani (2013), o pequeno montante transferido
pelo programa para cada família assume um papel vital para os beneficiários, de forma que
cortá-lo significaria, além de negar a cidadania dessas pessoas, condená-las a passar fome,
expondo-as também ao risco de morte. O recebimento dessa renda, em geral, oferece mais
condições às pessoas em situação socioeconômica vulnerável de entrar para o mundo produtivo,
seja por meio de um emprego, seja por meio de uma produção própria ou até de uma fase
preparatória de qualificação/estudo. Trata-se, portanto, de garantir o mínimo – ou, na verdade,
menos do que o mínimo, se consideramos o custo de vida no país.
A questão central deste conteúdo é sabermos em qual país gostaríamos de viver: em um país
que assume a miséria como natural ou em um que aplica políticas públicas eficientes para
combatê-la. Lembremo-nos, portanto, de que a pobreza pode ser combatida. E é essencial que a
sociedade pressione o poder público nessa direção. Do contrário, como já acenado, sem dúvida
viveremos em uma sociedade conflituosa e violenta, que desperdiça seu potencial de
desenvolvimento.
Vamos Exercitar?
No atual contexto de crise econômica, cortes em programas sociais empurram com ainda mais
rapidez as famílias para a pobreza. Fala-se de “novos pobres”, que são produtos da crise, dos
cortes em programas sociais e da grave situação de desemprego e precarização do trabalho
(Conti; Alves, 2019). Como você enxerga esse fenômeno? Ele está relacionado com o aumento
da pobreza, é um problema individual ou social? Quais recomendações você daria para o
combate à fome no Brasil atual?
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Essas mesmas tendências pareciam estar longe de poder chegar ao Brasil, porém, em 2014, o
impacto da crise econômica se fez igualmente agressivo e generalizado no país, refletindo-se
claramente na estagnação, em 2014, e depois na queda brusca do produto interno bruto (PIB),
em 2015 e 2016. Desde 2015, as medidas de austeridade aplicadas significaram uma queda de
83% no orçamento das políticas públicas para a área social no Brasil (Instituto de Estudos
Socioeconômicos apud Oxfam, 2017).
A tendência colocada no contexto neoliberal, que se acentuou com a atual crise, é que o Estado
faça cortes em orçamentos destinados ao social e privatize seus bens, serviços e ativos,
sobretudo a partir da aplicação dos ajustes fiscais, como se esses fossem o único “remédio”
para resolver os efeitos da crise. Todavia, essa via caminha ao lado, como já problematizamos,
de uma sociedade desigual e conflituosa, que corre o risco de naturalizar a pobreza em vez de
combatê-la.
Saiba mais
A obra escrita por Fabíola de Lourdes Moreira Rabelo e Lana Mara de Castro Siman, Jovens em
situação de rua e seus rolés pela cidade: registros de subversão e (r)existência (2021), disponível
em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama dos processos de socialização
vivenciados por jovens em situação de rua na cidade de Belo Horizonte (MG).
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SOCIEDADE BRASILEIRA E
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A obra apresenta reflexões acerca dos efeitos da segregação social e espacial na vida dos jovens
em situação de rua, discutindo a invisibilidade social, o racismo, os mecanismos de controle e
violência que afetam suas trajetórias. Para além disso, destaca as táticas cotidianas dos jovens
em situação de rua, tangenciadas por movimentos de (r)existência e reinvenção de suas
possibilidades de ser, viver e estar na cidade.
Referências
AZEVEDO, G. Crise faz crescer o risco de o Brasil voltar ao Mapa da Fome, diz ONU. Uol, São
Paulo, 17 out. 2018. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-
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BUAINAIN, A. M. et al. A nova cara da pobreza rural: desafios para políticas públicas. Brasília, DF:
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SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA
KREIN, J. D.; GIMENEZ, D. M.; SANTOS, A. L. Dimensões críticas da reforma trabalhista no Brasil.
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MARTINS, R.; MARTINS, M. Seis estatísticas que mostram o abismo racial no Brasil. Carta
Capital, 20 nov. 2017.
ODILLA, F.; PASSARINHO, N.; BARRUCHO, L. Brasil tem 6,9 milhões de famílias sem casa e 6
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https://www.bbc.com/portuguese/brasil-44028774.. Acesso em: 6 nov. 2023.
OLIVEIRA, N. IBGE: 50 milhões de brasileiros vivem na linha da pobreza. Agência Brasil, Rio de
Janeiro, 15 dez. 2017. Disponível em: http://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2017-
12/ibge-brasil-tem-14-de-sua-populacao-vivendo-na-linha-de-pobreza. Acesso em: 19 fev. 2019.
OXFAM. Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural. [S. l.]: Oxfam
Brasil, nov. 2016. Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/terrenos-da-desigualdade-
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Disciplina
SOCIEDADE BRASILEIRA E
CIDADANIA
OXFAM. A distância que nos une: relatório anual da Oxfam – Brasil. [S. l.]: Oxfam Brasil, 2017.
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OXFAM. Recompensem o trabalho, não a riqueza. [S. l.]: Oxfam Internacional, jan. 2018.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/recompensem-o-trabalho-nao-a-riqueza/.
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PEARCE, D. The feminization of poverty: women. Work and welfare. The Urban and Social Change
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RABELO, F. de L. M.; SIMAN, L. M. de C. Jovens em situação de rua e seus rolés pela cidade:
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https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Loader/211506/epub/0?keep=False. Acesso em: 04
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REGO, W. L.; PINZANI, A. Vozes do Bolsa Família. Autonomia, dinheiro e cidadania. São Paulo:
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ROLNIK, R. A guerra dos lugares. A colonização da terra e da moradia na era das finanças. São
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ROSSI, M. Seis brasileiros concentram a mesma riqueza que a metade da população mais pobre.
El país Brasil, [S. l.], 26 set. 2017.
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https://brasil.elpais.com/brasil/2018/06/26/opinion/1530022522_378648.html. Acesso em: 6
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SORJ, B. Estado e classes sociais na agricultura brasileira. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de
Pesquisas Sociais, 2008. Disponível em: http://books.scielo.org/id/cjnwk/pdf/sorj-
9788599662281.pdf. Acesso em: 19 fev. 2019.
TAVARES, C. Histórias da Fome no Brasil [documentário]. Direção: Camilo Tavares. [S. l.]: Ancine,
2017. 1 vídeo (52min), son., color.
Disciplina
SOCIEDADE BRASILEIRA E
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Aula 2
Corrupção e Entraves ao Bem Comum
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Convidamos você a refletir a respeito de um dos temas mais discutidos nos
últimos anos no Brasil: a corrupção, um problema que não é exclusivamente brasileiro e não se
restringe aos fatos da atualidade, mas, é claro, há períodos e lugares em que a corrupção está
mais presente. Apesar de ser complexo, é possível identificar as causas que levam determinado
país, em determinado momento da sua história, a ser marcado por casos de corrupção.
No Brasil, após a ditadura (1964-1985) – período em que a discussão pública da corrupção foi
interditada, entendida pelos militares como um tipo de contestação e ameaça à ordem –, o tema
da corrupção ocupou um lugar central, primeiramente com o processo de impeachment de
Fernando Collor, depois com as acusações em relação ao governo Fernando Henrique Cardoso –
e seu suposto favorecimento pelo chamado “engavetador geral da República” –, em seguida com
as denúncias em relação ao Mensalão, um pretenso esquema de compra de apoio no Congresso.
Mais tarde, sobretudo após 2014, novamente a corrupção reaparece na mídia como uma das
noções mais pronunciadas para explicar o contexto de crise no Brasil, tanto na sua dimensão
política quanto econômica. Essa noção ganhou uma atenção crescente e passou a ser
considerada tão evidente a ponto de dispensar qualquer tipo de demonstração.
O tema nos provoca a buscar, antes de tudo, o sentido dessa palavra. Segundo o Dicionário
Houaiss da língua portuguesa, corrupção vem do latim e é sinônimo de declínio, indecência e
suborno (Houaiss; Villar, 2009, p. 557). Essa conotação invoca a dimensão essencialmente ética
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do comportamento e das atitudes e balizou, de certa forma, a maior parte do debate sobre esse
tema. É como se toda a forma de discutir destacasse como o Brasil é corrupto, não atentando à
pergunta de como se tornou corrupto. Para além da questão ética, é importante investigar as
causas menos visíveis da corrupção e a forma como a discussão do tema é feita. Esse
fenômeno vai muito além do contexto nacional, assumindo, na verdade, uma dimensão global.
Reflita, então, a respeito da seguinte questão: na sua opinião, a forma de se discutir a corrupção
no Brasil traz ao conhecimento da população brasileira os problemas mais estruturais –
econômicos e políticos – implicados e o modo mais adequado de combatê-los? Ou o debate, em
geral, dá-se em torno apenas do comportamento e da ética individual?
Vamos Começar!
Todavia, há uma outra perspectiva para tratarmos da corrupção, que busca iluminar a disputa
pelo poder econômico e político em uma dimensão mais sistêmica e estrutural, para além da
relação entre determinados indivíduos, que também envolve o desrespeito às normas no âmbito
de funcionamento de instituições como o Estado, o mercado, as empresas, as organizações não
governamentais (ONG), as igrejas e a mídia, dentre outras entidades.
Há um vasto campo de estudos sobre a corrupção atualmente, que destaca como nessa trama
de relações está envolvido principalmente o papel dos Estados em conjunto com os grandes
grupos econômicos e corporações transnacionais, que têm um enorme poder político (Jain,
2001).
Partiremos, portanto, da relação entre corrupção e ética, que, por sua vez, também nos obriga a
pensar na relação entre o público e o privado. Como vimos, as esferas do público e do privado,
além de terem um critério objetivo de definição em leis e em princípios da administração pública,
também abrangem a noção de interesse público (bem comum) e interesse privado (particular).
No Ocidente, a distinção entre público e privado está prevista em normas e princípios jurídicos,
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porém, se na teoria pode parecer mais simples separar essas dimensões, na prática elas estão
imbricadas. Ainda assim, essa distinção que se aplica às leis e normas não deixa de ter
importância, pois permite identificar a ação corrompida dos agentes que exercem a função
pública.
Sem dúvida, é na esfera pública – instituições, empresas e funcionários regidos pelas normas do
direito público – que a corrupção ganha mais visibilidade e é mais estudada. No entanto, como
esclarece o sociólogo José Artur Rios (1987), a esfera privada, sobretudo das empresas, também
é permeada por operações de “favoritismo, apropriação indébita, concorrência desleal” (Rios,
1987, p. 87), além de outras formas de corrupção, como o suborno e o falseamento de dados
para órgãos reguladores e ambientais. De fato, estudos e acontecimentos recentes mostram os
mecanismos de corrupção no mundo dos negócios privados. Nos últimos anos, por exemplo, o
polêmico site Wikileaks se tornou famoso ao expor documentos sigilosos que comprovavam
casos de corrupção e interesses escusos não apenas de governos, mas também de grandes
empresas.
Entendemos, assim, que a corrupção não apenas agrava as desigualdades sociais – econômicas,
políticas, culturais – da sociedade, como também as reproduz. Por esse motivo, a autora Célia
Regina Jardim Pinto (2011) nos convida a pensar na ideia da “legitimidade da hierarquia das
desigualdades” como princípio que baliza as relações sociais no Brasil e o terreno que possibilita
a emergência, a reprodução e o aprofundamento da corrupção (Pinto, 2011, p. 14).
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Nesse sentido, a sociologia, a partir dos anos 1960 e 1970, tendeu a reiterar a intepretação de
Prado Jr. Como diversos estudos afirmaram – tal como Fernandes (1973) –, trata-se de pensar
uma formação histórica que assume a concentração de poder político e econômico como seu
traço principal. Além disso, o próprio processo de modernização da sociedade brasileira também
fez com que os padrões corruptos que já existiam nas metrópoles fossem transportados e
potencializados nas colônias (Cavalcanti, 1991).
Um exemplo de como o sistema escravocrata, que construiu os jogos de poder que fundaram o
país, é marcadamente corrupto é o tráfico negreiro. Nesse sentido, mais do que imoral – mesmo
nos debates da época, a elite escravocrata o admitia como um “mal necessário” –, se
consideramos a corrupção a partir da perspectiva da infração de leis, o tráfico negreiro era uma
prática ilegal e exercida impunemente pela elite do país durante décadas após a sua
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independência. Foi a partir dessa prática ilegal – tanto para leis e tratados internacionais quanto
para leis nacionais – que mais de um milhão de africanos escravizados foram trazidos a um
Brasil já independente, para servirem aos interesses econômicos de uma elite escravocrata que
não apenas não pagaria por esse crime, mas também compunha câmaras e poderes políticos
que determinavam sua própria impunidade. Ao mesmo tempo, a partir desse crime, essa
pequena elite política e econômica que lucrava com a escravidão consolidava a estrutura
desigual e injusta do país (Cavalcanti, 1991, p. 33-34).
Outra interpretação clássica na sociologia, que nos ajuda a entender as relações entre corrupção
e história nacional, está em uma perspectiva culturalista, que enfatiza como os valores, os
costumes e a cultura herdados da sociedade portuguesa, que prevaleceram na formação
histórica do país, são determinantes para se explicar esse traço do funcionamento de poder
político no Brasil. O debate evidencia como esses valores culturais privilegiam o caráter privado e
os interesses particulares e individuais em detrimento do público e do coletivo. A explicação da
enraizada corrupção no Estado brasileiro é feita, assim, a partir de chaves de interpretação como
a tradição clientelista (prática eleitoreira), o patrimonialismo (a fusão de interesse privado e
público) e o nepotismo (favoritismo de parentes).
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Qual é o efeito final desse processo de criminalização da política? Ora, uma maior concentração
de poder, que contradiz os princípios democráticos e apenas propicia a reprodução e o
aprofundamento da corrupção! Por esse motivo, lembremo-nos de que “a banalização da
corrupção não é a mesma coisa que a generalização da corrupção” (Pinto, 2011, p. 10). Com
essa expressão, a cientista política Céli Regina Pinto quer chamar a atenção ao fato de que,
apesar dessa marca negativa, o Estado brasileiro não pode ser reduzido apenas à corrupção,
uma vez que “outras formas de governar habitam a política brasileira”, respeitosas e
comprometidas com o público (Pinto, 2011, p. 10).
Nosso desafio, enquanto sociedade, é saber discernir a atuação do poder público em prol do bem
público, para garantir que o poder político sirva aos interesses gerais da população, e não apenas
à sua parcela privilegiada.
O combate à corrupção por vias democráticas nos ensina que esse problema não é um mal
crônico; ele pode ser combatido e reduzido (Filho; Kuntz, 2008). No entanto, trata-se de um
processo constante de exercício da cidadania que de forma alguma pode significar
“criminalização da política”, difamação pouco comprometida com a veracidade das acusações,
censura. Alternativamente, há um rol de ações muito mais efetivas para o controle da corrupção,
como: a pressão popular pela transparência do funcionamento das instituições públicas; a
informação consciente dos interesses por detrás das decisões políticas; a recusa da impunidade
dos infratores (após serem condenados seguindo o princípio do devido processo legal e da
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imparcialidade); a busca por canais de informação menos comprometidos com o poder político;
a existência de uma mídia e imprensa livres, transparentes e politicamente independentes; a
possibilidade de que a população tenha acesso a uma prestação de contas (accountability); a
alternância de poder. Todas essas iniciativas deveriam ser seriamente discutidas e aplicadas no
Brasil.
Vamos Exercitar?
A situação-problema desta aula levanta uma reflexão a respeito da forma como a corrupção vem
sendo discutida no Brasil. A questão central é se essa forma traz ao conhecimento da população
brasileira os problemas mais estruturais – econômicos e políticos – implicados. Para a reflexão,
ressaltou-se a necessidade de entendimento da relação do público e do privado na noção de
corrupção, que remete à necessidade de entender se a corrupção existe apenas no setor público
ou se podemos analisá-la também no setor privado e, particularmente, na imbricação dessas
duas esferas.
Basta uma pesquisa muito básica nos livros e estudos científicos na última década para
percebermos como o setor privado está profundamente envolvido no sistema de corrupção.
Crimes como a fraude nos balanços das empresas para conseguir obter melhor preço na venda
de ações, o uso privilegiado de informações para se beneficiar nos negócios, o suborno e o
pagamento de propinas a agentes públicos, a fraude ao licenciamento ambiental e as operações
ilícitas que danificam o meio ambiente, a fraude com relação à obediência da legislação de
proteção à saúde dos trabalhadores, as falsas falências de empresas, que têm o mero propósito
de desobrigá-las do pagamento de dívidas aos trabalhadores, aos fornecedores e ao erário
público, dentre muitos outros exemplos, evidenciam o enorme poder de setores econômicos –
sobretudo quando representados por grandes corporações e empresas transnacionais – e sua
interação com o modo de agir do Estado (Conti; Alves, 2019).
A questão de os políticos serem comissários do poder econômico e não exercerem a sua função
de representar os cidadãos e seus interesses gerais é o problema de fundo que não podemos
negligenciar. Além da importante questão do interesse público, esse debate envolve a análise de
efeitos mais amplos relativos ao exercício do poder político em uma sociedade, sobretudo
remetendo ao significado de democracia (Johnston, 2001, p. 23).
Cabe, portanto, a discussão das questões estruturais da corrupção para que possamos ter
melhores parâmetros para discutir os “remédios” apresentados para seu combate. É claro, longe
dessa discussão nos afastar da política – como se pensar o coletivo e a vida em sociedade
fosse algo menor, por ser tão suscetível à corrupção –, vamos retomar o sentido da cidadania e
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da participação democrática como o principal antídoto para combater a corrupção (Conti; Alves,
2019).
Saiba mais
Aprofundando conhecimentos
Impostômetro e sonegômetro
Duas medidas distintas que nos permitem quantificar e refletir a respeito da corrupção e seus
efeitos no país são o impostômetro e o sonegômetro. Enquanto a primeira busca simular o
cálculo, em tempo real, dos impostos pagos pela população – o que permite pensarmos,
portanto, no dinheiro arrecadado pelo Estado e que deveria ser integralmente revertido em
políticas para o bem comum –, a segunda aponta para a quantidade de tributos sonegados e
para os grandes devedores de impostos, valor que, uma vez mais, poderia ser revertido em obras
e ações que favoreceriam o bem público. Conheça os sites das iniciativas, indicados a seguir:
• ASSOCIAÇÃO COMERCIAL DE SÃO PAULO
Na palestra indicada a seguir, entre os minutos 9 e 18 o historiador José Alves de Freitas Neto
expõe os efeitos da “não condenação das mazelas do regime militar” no período de transição
democrática. O historiador explica “a impunidade que se perpetua”, tanto em relação aos graves
crimes contra a humanidade cometidos nesse período – como a tortura, assassinatos em
massa, entre outros – quanto também aos prejuízos aos cofres públicos. A “interdição de falar
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FOI para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário Mazzilli.
Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).
Referências
FAORO, R. Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro. Porto Alegre: Globo,
1958.
FILHO, B. M. B.; KUNTZ, R. A. Corrupção política: a luta social pelo resgate da dignidade no
exercício do poder. São Paulo: Madras, 2008.
HOUAISS, A.; VILLAR, M. S. Dicionário Houaiss da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva,
2009. p. 450.
JAIN, A. K. (ed.). The political economy of corruption. London/New York: Routledge, 2001.
JOHNSTON, M. The definitions debate: old conflicts in new guises. In: JAIN, A. K. (ed.). The
political economy of corruption. London/New York: Routledge, 2001.
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NETO, J. A. F. Foi para isto que lutamos pela liberdade? José Alves de Freitas Neto. Diretor: Mário
Mazzilli. Produção: Instituto CPFL. [S. l.]: Instituto CPFL, 2017. 1 vídeo (48min05s).
RIOS, J. A. A fraude social da corrupção. In: LEITE, C. B. (org.). A sociologia da corrupção. Rio de
Janeiro: Zahar, 1987.
Aula 3
Violência e Punitivismo
Violência e punitivismo
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Esta aula vai tratar de um importante dilema da sociedade moderna: as lógicas
de punição que também se expressam nos crimes contra a humanidade. A partir dos
ensinamentos do filósofo Michel Foucault e de autores que o atualizaram, trataremos das lógicas
punitivistas na sociedade moderna, sua relação com o saber-poder e sua plena aplicação na
contemporaneidade.
Para abrir essa reflexão, vamos pensar no populismo penal midiático. Veja esses exemplos de
manchetes de violência sensacionalista: "Ataque brutal: assassinato chocante em área
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residencial!", "Violência sem limites: jovem espancado em festa de rua", "Assassinato cruel: corpo
encontrado com sinais de tortura!", “Roubos violentos: onda de crimes assusta moradores!",
“Série de sequestros: pânico se espalha na cidade!".
Essas manchetes sensacionalistas muitas vezes se concentram na violência extrema para atrair
a atenção do público, podendo ser exageradas ou manipuladas para aumentar o
sensacionalismo e o impacto emocional, sem necessariamente fornecer toda a informação
contextual ou relevante sobre os incidentes.
Devemos nos perguntar: o que significa esse populismo penal midiático? Quais são os seus
efeitos emocionais e sociais? Quem são os agentes envolvidos na veiculação desse populismo
midiático penal?
Vamos Começar!
“Normalidade” e vigilância
Os períodos mais obscuros e mortíferos da humanidade explicitam, na verdade, a sistemática
aplicação de uma lógica punitiva em um contexto ditatorial. No entanto, se pararmos para refletir,
percebemos que essas lógicas também podem estar presentes no funcionamento das
sociedades em um Estado democrático e até mesmo na nossa cotidianidade, perpassada por
instituições como a escola, os hospitais e as prisões.
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Michel Foucault (1926-1984) nos ajudar a refletir a respeito desse dilema antigo e atual ao
explicar que o punitivismo é também uma forma de governar do poder, que passa pela
incorporação da lógica de punição pelos sujeitos. O autor é uma referência para reconhecermos
o caráter brutal da repressão e do controle no funcionamento das sociedades modernas que,
paralelamente à afirmação dos direitos humanos, colocaram no centro de sua organização “a
vontade de punir”, as técnicas de punição e vigilância permanentes, legitimadas por saberes que
evoluíram para um tipo específico de práticas disciplinares, amplamente disseminadas e, mais
do que tudo, internalizadas pelos próprios sujeitos.
O segredo da técnica de vigilância contínua é que o condenado não sabe se de fato está sendo
observado, já que existe apenas um vigia no centro da prisão para controlar todos os detentos.
Todavia, o simples fato de supostamente estar sob vigilância faz com que o detento internalize
essa norma e obedeça às regras de bom comportamento. No contato com essa disciplina,
reproduzida por instituições como as prisões, escolas, hospitais, nascem os “corpos dóceis”,
“obedientes” e “produtivos”: “uma sujeição real nasce mecanicamente de uma relação fictícia. De
modo que não é necessário recorrer à força para obrigar o condenado ao bom comportamento, o
louco à calma, o operário ao trabalho, o escolar à aplicação, o doente à observância de receitas”
(Foucault, 1997, p. 167).
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filósofo Michael Foucault (1997) nos explica que esse saber construído é também uma forma de
controle político e social que se transforma em práticas generalizadas, atingindo determinados
grupos sociais, em particular os classificados como “anormais”: “loucos”, detentos,
homossexuais e prostitutas, dentre outros. Como exemplo podemos citar o discurso científico da
psiquiatria para classificar os “normais” e os “loucos”, estabelecendo práticas específicas, não
apenas para separar esses últimos da sociedade, mas também para puni-los quando infringiam
as regras de conduta nas instituições psiquiátricas. Lembremos que os hospitais psiquiátricos,
até pouco tempo atrás, utilizavam-se de práticas como a cadeira de choque, o açoite e as alas de
isolamento total, entre outras. Essas práticas eram consideradas pelo discurso psiquiátrico como
a única forma de curar as pessoas com problema psíquico. A questão é que essas pessoas, ao
contrário de serem curadas de forma humanizada e integrada com os familiares e a sociedade,
viviam e morriam nesses hospitais. Como estavam isoladas, a sociedade simplesmente não via,
ou não queria enxergar, o que ocorria dentro dessas instituições e como o discurso científico da
psiquiatria não correspondia aos fins de, de fato, “curar” esses pacientes (Conti; Alves, 2019).
O campo do saber está, portanto, intrinsecamente ligado ao exercício do poder por se basear em
discursos científicos para legitimar as suas práticas. Lembremos que essa relação poder-saber
também expressa relações de desequilíbrios entre os sexos. Baseado nos ensinamentos de
Foucault, o estudo de Silva (1985) mostra como o saber da legislação penal (que regulamenta a
sexualidade da mulher), a doutrina penal (que garante a aplicação dessas normas) e a
jurisprudência presente em toda a dogmática penal conseguem adaptar definições de
normalidade da conduta da mulher estabelecidas pelas estruturas de poder dominantes ao corpo
da mulher. Com base nessas definições de normalidade da conduta da mulher construídas pelo
poder patriarcal – que considera a mulher inferior e submissa ao homem – muitas sentenças
proferidas pelos tribunais penais absolvem os homens que cometeram crimes de violência e
abuso sexual contra as mulheres. Segundo a autora, o Direito Penal reproduz as relações
assimétricas entre os sexos na sociedade brasileira também com base em:
Siga em Frente...
Cultura do medo
Carvalho (2010) explica que, desde as últimas décadas, o Brasil pode ser considerado, para todos
os efeitos, um país que segue a mesma tendência punitivista presente no cenário internacional,
em detrimento do direito à vida. O encarceramento em massa é prova disso. O autor discute
como, em um contexto de crise, incerteza e insegurança, a “cultura do medo”, do “ódio”, da
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“tolerância zero”, enfim, as lógicas punitivistas, fazem parte do imaginário das pessoas e,
sobretudo, da forma de governar dos Estados. A mídia é um vetor de enorme importância dessa
“racionalidade”. Não promove uma reflexão que evite o despertar de um sentimento de
insegurança, de impunidade, que acompanha, portanto, a ideia da punição, da vingança e da
privação de liberdade.
O maior problema a respeito dessa questão, como ressaltam diversos estudiosos, é que o
“clamor punitivista” caminha ao lado da violação de garantias e direitos – sobretudo dos direitos
humanos, do direito à vida – e do abuso de poder. O que se está produzindo, no fundo, são
sociedades mais violentas. Autores como Loïc Wacquant mostram como os países que mais
têm encarcerados no mundo, como os EUA, não são aqueles que têm menores índices de
criminalidade. Conforme explica o autor, o aprisionamento em massa reflete o funcionamento da
“tolerância zero” contra os grupos mais vulneráveis da sociedade: os de baixa renda, os negros e
os imigrantes, daí a sua famosa expressão “prisões da miséria” e “criminalização da pobreza”
(Conti; Alves, 2019).
Neste sentido, o trabalho de Luis Felipe Delgado Faleiros (2022) buscou responder ao seguinte
questionamento: “A mídia manipula a população, que acaba não buscando a verdade, enraizando
o fascínio pelo crime e sua punição?”. Dentre os resultados obtidos, o autor diz que:
[…] a mídia tende a ultrapassar o seu papel e, assim, acaba por influenciar a sociedade que por
sua vez anseia que o Poder Legislativo exerça o Direito Penal. Assim como não é diferente sua
influência no tribunal do júri, vez que restou provado por meio de casos fáticos aqui
apresentados, que crimes de grande repercussão da mídia tendem a ser condenados, assim com
o próprio juiz, que tende a decidir por penas mais rígidas (Faleiros, 2022).
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decisões puramente emocionais ou políticas, além de reflexões cada vez mais aprofundadas
acerca das dinâmicas de organização da realidade social brasileira.
Vamos Exercitar?
Vamos exercitar o conhecimento sobre a lógica punitiva na realidade social voltando a refletir a
respeito do populismo penal midiático, exemplificados com manchetes de violência
sensacionalista. Quais são os efeitos emocionais e sociais? Quem são os agentes envolvidos na
veiculação desse populismo midiático penal?
Tais veiculações da mídia, além de agirem contra os princípios jornalísticos de factibilidade das
informações, violam a presunção da inocência (Silva; Oliveira, 2021), princípio básico do direito
internacional que garante que todas as pessoas devem ser consideras inocentes até que haja
sentença penal definitiva. Contrariamente, esta mídia age construindo narrativas chocantes e
sensacionalistas, consideram suspeitos como culpados antes mesmo de qualquer processo
investigativo, expõem identidades de forma invasiva e abusiva, transformando a violência em
espetáculo, explorando a dor alheia e em desrespeito aos processos judiciais, agredindo pessoas
verbalmente ou criminalmente, fazendo muitas vezes “humor” com base na violência.
Os agentes envolvidos na veiculação desse populismo midiático penal são elites sociais que
certamente não vivem a realidade das pessoas pobres e periféricas cuja imagem é explorada. A
preocupação de imparcialidade perante a opinião pública não existe; essa mídia noticia apenas
fatos compatíveis com os interesses privados de quem a controla. E assim, cria-se uma histeria
coletiva que explora a fragilidade humana com o medo da criminalidade, estimulando a sensação
de insegurança e criando um terreno fértil com a esperança de soluções míticas e milagrosas,
que prometem acabar com esse problema com a promessa de mais violência.
Se pensarmos na realidade nas periferias e nas favelas hoje, e nas constantes violações de
direitos humanos presentes em denúncias de ações de braço indispensável da justiça criminal,
que é a polícia, inclusive sendo celebrada em filmes de grande sucesso nacional, podemos
afirmar que a tortura permanece como via, não ligada diretamente ao Judiciário, mas como
prática constante do aparato de vigilância e repressão. A prática ainda é, infelizmente, recorrente
no país e, a meu ver, mantém os fortes laços com o processo de formação do Estado brasileiro
(Borges, 2020, p. 37).
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Aprofundando conhecimentos
A obra organizada por Maura Regina Modena, Conceitos e formas de violência (2016), disponível
em sua biblioteca virtual, fornece um conjunto de ensaios elaborados por mestrandos do
Programa de Pós-Graduação em Filosofia, na Universidade de Caxias do Sul. Estes ensaios
originaram-se da disciplina do professor Jayme Paviani, sob o título de “Conceitos e formas de
violência”.
Exemplificando
Repare quantas vezes você escuta nos jornais e nos programas televisivos notícias de crimes e
da ação da polícia. Compare com o tempo dedicado a discutir projetos para construir uma
sociedade com trabalho digno para todos, com acesso universal à educação de qualidade, à
cultura, à moradia, ou mesmo para revitalizar os espaços públicos das cidades para que as
pessoas andem nas ruas e frequentem praças e parques, evitando, assim, a propagação da
violência.
Referências
CARVALHO, S. de. O papel dos atores do sistema penal na Era do Punitivismo: o exemplo
privilegiado da aplicação da pena. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2010.
MODENA, M. R. (org.). Conceitos e formas de violência. Caxias do Sul: Educs, 2016. Disponível
em:: https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/187833/pdf/0?
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wr1cxlIVCUL+oQ==. Acesso em: 04 abr. 2024.
SILVA, I. I. da. Direito ou punição? Representação da sexualidade feminina no Direito Penal. Porto
Alegre: Editora Movimento, 1985.
Aula 4
Fanatismo e Intolerância
Fanatismo e intolerância
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Nesse momento de nosso estudo, já deve estar claro que a pluralidade e a
diversidade constituem atributos importantes para a democracia e a sociedade brasileiras.
Assim, seria enriquecedor para nosso país que testemunhássemos o florescimento de diferentes
modos de vida e de pensar em nosso território, não é mesmo?
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Veja como essas reflexões têm aplicabilidade imediata em nossa sociedade contemporânea,
sendo fácil identificarmos manifestações extremas, muitas vezes violentas, que se chocam com
a diversidade já existente em nosso país. Um caso emblemático nesse sentido foi o ataque a um
refugiado sírio, ocorrido em 2017, gravado em vídeo e tema da reportagem citada a seguir:
As imagens mostram um homem armado com dois pedaços de madeira agredindo verbalmente
Mohamed Ali, que vende esfirras e doces sírios no bairro. […] Nas imagens, o homem não
identificado grita “Saia do meu país!”. “Eu sou brasileiro e estou vendo meu país ser invadido por
esses homens-bomba miseráveis que mataram crianças, adolescentes. São miseráveis”, diz o
homem. “Vamos expulsar ele!” (Uol, 2017).
Poderíamos considerar a ameaça a um estrangeiro que fugiu de uma guerra sangrenta e está
trabalhando como autônomo em nosso país como algo normal dentro da dinâmica democrática
ou essa manifestação traduz um movimento estranho àquilo que consideramos como sociedade
plural? E quanto às outras formas de intolerância, como racismo, homofobia ou preconceito
religioso?
Sabemos que existem profundas diferenças entre o conceito de tolerância e a ideia de que tudo é
permitido, fato que nos obriga a manter um olhar atento a certas manifestações e movimentos
da atualidade, sobretudo em um país que tem na diversidade uma característica marcante de sua
história e de seu povo.
Vamos Começar!
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Agora vamos fazer um exercício de imaginação. Pense em um homem alemão. Agora, o que vem
a sua cabeça se nos referirmos a uma mulher japonesa? E quanto a um garoto da Nigéria?
Provavelmente você não teve muitas dificuldades para estabelecer certas características físicas
a tais indivíduos, como a cor da pele e do cabelo. Obviamente, existem cidadãos desses países
que diferem da fisionomia imaginada, entretanto, o exercício mental nos conduz a certos
aspectos mais frequentes desses povos. Agora repita o exercício em relação a um homem
brasileiro – e, se possível, compare essas características com aquelas imaginadas e com as
características de seus familiares e amigos. Existe uma chance de que você tenha hesitado ao
tentar definir as características de nosso povo, ou mesmo que esses elementos sejam diferentes
daqueles pensados pelas outras pessoas.
Nesse contexto, seria natural que as diferenças fossem compreendidas como algo autêntico e
genuíno da sociedade brasileira, manifestando suas particularidades de modo equilibrado e em
um ambiente de tolerância, não é mesmo? Porém, não é isso que se observa na prática; uma vez
que – infelizmente – não é difícil nos depararmos, desde os primórdios de nossa sociedade até
os dias de hoje, com as mais variadas formas de intolerância e discriminação em nosso
cotidiano.
Diante desse cenário, a conclusão é de que a intolerância ainda é algo presente na realidade
cotidiana de nosso país. Quando essa intolerância é praticada de modo intenso, em que
aparentemente não há limites para a afirmação de um ideal ou de uma convicção, em que uma
causa ou doutrina é perseguida ainda que em contrariedade a evidências científicas – revelando
uma adesão fervorosa e desmedida a uma convicção – e em total desprezo às outras maneiras
de se analisar o tema, podemos identificar o fanatismo nesse comportamento.
O fanatismo pode ser exercido nas mais diversas áreas da vida humana, seja na paixão a um
time de futebol ou, em uma perspectiva mais pertinente aos estudos aqui empreendidos, por
meio da adesão a movimentos sociais mais amplos, envolvendo componentes mais abrangentes
da vida em comunidade, como política e religião. Se é verdade que as motivações que estimulam
o comportamento fanático são inúmeras, e as formas pelas quais essa conduta se manifesta
são também muito variadas, e existem alguns fatores levantados pelos estudiosos do tema que
revelam, em linhas gerais, algumas tendências do fanatismo (Conti; Alves, 2019).
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Siga em Frente...
Do ponto de vista individual – e em linha com a afirmação dos direitos civis e políticos dos
movimentos liberais do século XVIII –, afirmou-se a liberdade de crença, permitindo que cada
indivíduo professasse sua fé independentemente da religião adotada; nesse sentido, é exemplar
o artigo 10º da Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão (1789): “Ninguém pode ser
molestado por suas opiniões, incluindo opiniões religiosas, desde que sua manifestação não
perturbe a ordem pública estabelecida pela lei.” (Declaração…, 1789, [s. p.]). Em âmbito estatal,
essa separação se dá por meio da subordinação dos órgãos religiosos ao poder político,
aproximando a classe religiosa francesa do que hoje chamamos de funcionários públicos (Conti;
Alves, 2019).
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Adotada atualmente na grande maioria dos países do globo, a exemplo do Brasil, a laicidade
determina que não há uma religião oficial do Estado e permite que os cidadãos estejam livres – e
protegidos – para praticarem a religião que escolherem. Note que a laicidade, ao negar a
existência de uma fé estatal, não estabelece a proibição das manifestações religiosas, mas,
muito pelo contrário, autoriza a exteriorização de toda e qualquer crença religiosa, amparando-as
de modo igualitário.
Assim, é a laicidade do Estado brasileiro que estabelece fundamentos constitucionais para que
ninguém tenha seus direitos reduzidos sob justificativas religiosas, que possibilita que os
indivíduos disponham de total liberdade para exprimirem sua fé de modo pleno e salvaguardado
– tornando ilegais ofensas por parte tanto do Estado quanto de outros indivíduos ou órgãos da
sociedade civil – e que impede que órgãos estatais – poder judiciário, polícias, hospitais públicos
ou quaisquer que sejam – estabeleçam uma religião manifesta, sob risco de afetar a liberdade
religiosa e o tratamento igualitário aos cidadãos nacionais. Percebe-se, portanto, a centralidade
desse conceito para a manutenção da pluralidade da democracia de nosso país.
Sob tal entendimento, são variados os dilemas de nossa sociedade contemporânea que se
vinculam ao preceito de tolerância – ou intolerância – religiosa, incluindo situações que já se
encontram incorporadas em nosso dia a dia, mas que ganham destaque sob perspectivas mais
atentas sobre o tema. Nesse sentido, a presença frequente de oratórios dispostos em locais
públicos, construídos com verbas públicas e destinados a cultos específicos pode ser
polemizada, à luz do conceito de laicidade do Estado (Balan, 2019). Semelhantemente, a
autorização para o ensino religioso em escolas públicas na modalidade confessional – isto é, em
que se aprofunda o estudo de uma crença específica – poderia prejudicar a neutralidade do
Estado no campo religioso, uma vez que a fé ensinada em uma instituição pública estaria em
situação de privilégio frente às demais. Segundo Elcio Cecchetti, coordenador-geral do Fórum
Nacional Permanente de Ensino Religioso (Fonaper), a possibilidade do ensino confessional:
acaba beneficiando a religião católica, que tem uma estrutura de catequistas, editoras e meios de
comunicação capaz de atuar em todo o país. ‘As outras instituições saem em desvantagem. Fico
imaginando como uma instituição como a umbanda, que não tem editoria, não tem TV, não tem
estrutura. Como vai formar professores para dar aula nas escolas? Como as culturas indígenas
vão preparar professores? Estamos selando uma desigualdade de partida (Moreno, 2017, [s. p.]).
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Laicidade estatal
Estabelecer toda uma série de preceitos religiosos – sejam ele de qualquer religião – como
parâmetros para a determinação de políticas públicas seria retirar a política do campo da razão e
transferi-la para a lógica da fé. Esse movimento não só constituiria um desrespeito à liberdade
religiosa, uma vez que os adeptos de crenças diversas à religião preponderante estariam em
situação de inferioridade, ao se verem obrigados a acatar uma crença diferente da sua, mas
também a ausência de laicidade estatal fragiliza a administração da vida pública, já que torna a
política distante da argumentação racional, que é igualmente acessível a todos os cidadãos.
Vale lembrar que se o fundamentalismo religioso se torna evidente quando exercido por meio de
ações extremas – como atentados violentos ou perseguições a minorias religiosas –, esse
mesmo fanatismo pode muito bem ser praticado por meio de atuações mais sutis, como o
aparelhamento dos cargos públicos por integrantes de uma doutrina específica, pelo desvio da
atuação estatal em benefício – ou em detrimento – de um grupo religioso e mesmo pela
utilização de princípios religiosos particulares na produção legislativa, na atividade judiciária ou
na administração pública. O fundamentalismo religioso também pode apresentar diferentes
facetas no que se refere à sua autoria, já que essa prática pode ser empreendida por autoridades
e órgãos estatais, condicionando a atividade pública a certa concepção religiosa discriminatória,
a também pode resultar da ação da sociedade civil, a exemplo da expulsão – ou mesmo
agressão – de membros praticantes de religiões distintas daquelas predominantes em suas
comunidades (Conti; Alves, 2019).
Nesse momento do estudo, torna-se importante ressaltar que embora normalmente se costume
atribuir o fundamentalismo religioso a esta ou aquela crença, é necessário reconhecer que o
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Nota-se, portanto, que a percepção de que o fundamentalismo religioso constitui atributo de uma
fé específica, ou de um grupo praticante dessa crença, não resiste a uma averiguação mais
detalhada de nossa história ou de nossa realidade contemporânea, já que essa prática esteve –
ou está – presente nas mais diversas religiões de nosso planeta (Conti; Alves, 2019).
Se o aspecto religioso pode ser identificado como fundamento para fanatismos que remontam a
séculos passados e que persistem até os dias de hoje, existem outras formas de radicalismo que
são marcantes da época contemporânea, sobretudo por se utilizarem dos meios tecnológicos
característicos de nosso tempo.
Vamos Exercitar?
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Do ponto de vista teórico, como vimos, a eventual aceitação ou complacência com quaisquer
mentalidades intolerantes coloca em risco a própria tolerância, que tanto valorizamos em nossa
sociedade e no exercício de nossa cidadania. A constituição de uma sociedade brasileira
tolerante não implica o acolhimento de todo e qualquer pensamento e ideologia, mas, sim,
daqueles que mantêm igual respeito ao conceito de tolerância, assegurando-se um ciclo virtuoso
de fortalecimento desse valor.
Sob uma lógica prática, a tolerância não deveria encontrar espaço para se desenvolver em um
ambiente já tão plural e diverso em suas origens. Marcado por uma formação histórica e social
extremamente miscigenada, o Brasil deve reconhecer em sua multiplicidade de tradições,
culturas, hábitos e modos de vida um de seus ativos mais valiosos.
Por isso, o comportamento xenófobo de atacar um refugiado sírio – assim como qualquer outro
imigrante, de qualquer outra nacionalidade – por sua simples acolhida em território nacional é
evidentemente algo incompatível com os preceitos de nossa democracia pluralista, devendo ser
prontamente repudiado pela sociedade civil e pelas autoridades públicas. As ofensas desferidas
pelo agressor contra Mohamed Ali são exemplos claros de um pensamento preconceituoso,
dotado de estereótipos grosseiros e desprovidos de qualquer fundamentação real.
Desse modo, se é verdade que ainda se observam no país movimentos mais próximos de
concepções fanáticas, os motivos elencados justificam uma conduta atuante e concertada,
exercida por parte da sociedade civil e dos órgãos públicos, para revelar as deficiências e
fragilidades conceituais que estão por trás das mobilizações fundamentalistas, extremistas,
negacionistas, xenófobas e ultranacionalistas, ressaltando o distanciamento entre as lógicas
autoritárias e reducionistas por elas pregadas e a diversidade e pluralidade típicas de nossa
constituição nacional – assim como de outras formas de intolerância.
Saiba mais
Fanático por caipirinha. Fanático por samba. Fanático por viagens. Há fanáticos para tudo. Ou
melhor, há fanáticos e fanáticos. Entretanto, parece óbvio que um fanático por novela é algo bem
diferente - e bem menos perigoso - que um nazista fanático. Numa época de perplexidade, em
que olhamos para as conquistas da humanidade, por um lado, mas vemos, por outro, os homens
exibindo sua face mais cruel, torna-se necessária uma obra que dê conta das várias faces que o
fanatismo adquiriu ao longo do tempo e em contextos distintos. Num tempo de homens-bomba,
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A obra organizada por Carla Bassanezi Pinsky e Jaime Pinsky (org.), chamada Faces do
fanatismo (2004), disponível em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama do
fenômeno do fanatismo e como ele se apresenta em nossa trama social.
Referências
BALAN, M. MP pede retirada de todos os oratórios em praças do Rio de Janeiro. Gazeta do Povo,
2019. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/justica/mp-pede-a-retirada-de-todos-os-
oratorios-em-pracas-do-rio-de-janeiro-6628yk8xq3v5yip6is41mnbc2/. Acesso em: 13 fev. 2019.
FERNANDES, N.; TANJI, T. O Brasil virou o país do fanatismo. Galileu, 2015. Disponível em:
https://revistagalileu.globo.com/Revista/noticia/2015/05/o-brasil-virou-o-pais-do-fanatismo.html.
Acesso em: 30 jan. 2019.
KAPLAN, R. The revenge of geography: what the map tells us about coming conflicts and the
battle against fate. New York: Random House, 2012.
MORENO, A. C. Ensino religioso confessional pode gerar disputa por espaço em sala de ala,
dizem especialistas. G1, 2017. Disponível em:
https://g1.globo.com/educacao/noticia/autorizacao-de-ensino-religioso-confessional-pelo-stf-
pode-criar-caos-de-gestao-dizem-especialistas.ghtml. Acesso em: 13 fev. 2019.
PINSKY, J.; PINSKY, C. B. (org.) Faces do fanatismo. São Paulo: Contexto, 2004. 292 p. Disponível
em: https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/1590/pdf/0?
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adR5Ku9QF78OwXsw== . Acesso em: 04 abr. 2024.
Aula 5
Encerramento da Unidade
Videoaula de Encerramento
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Ponto de Chegada
Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é conhecer alguns dos
principais desafios que afetam a sociedade brasileira e seus processos de formação, para
fortalecer o senso coletivo, despertar a consciência crítica e a participação cidadã, você deverá
primeiramente refletir a respeito de alguns desses desafios.
Em um país com um quarto de sua população vivendo abaixo da linha da miséria (são 55
milhões de brasileiros vivendo com renda mensal menor do que R$ 400), um cenário de crise
econômica e inflação é mais do que um incômodo: é um risco de vida. Do mesmo modo, em
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Ao mesmo tempo, diante das aflições sociais, são buscadas soluções imediatistas – para não
dizer “mágicas” – para problemas complexos. Sobretudo nesses momentos, a política, tida como
um espaço plural de debates e negociação de impasses, passa a ser entendida não como o
campo em que poderíamos resolver nossos obstáculos, mas como o próprio obstáculo. Diante
da crise, na mesma medida em que grande parte da sociedade passa a buscar “salvadores” –
líderes que seriam supostamente capazes de resolver sozinhos todos os nossos problemas –,
passa-se também a procurar os culpados de tal situação: por exemplo, não raramente
trabalhadores imigrantes são considerados injustamente os causadores do desemprego ou
estudantes cotistas são acusados de “roubarem” as vagas das universidades. Assim, nesse
cenário, enquanto a crise econômica reforça o fosso que separa os mais ricos dos mais pobres
e, no caso brasileiro, reitera as estatísticas que separam negros e brancos, a “política” se torna
sinônimo de “corrupção”, e as diversas formas de preconceito crescem.
Não à toa, é comum na população uma sensação de desesperança, muitas vezes resumida nos
termos populares de “esse país não tem jeito”. Isso não significa, porém, que nossa sociedade
seja marcada apenas pela desesperança ou pela inércia diante dos acontecimentos: a corrupção,
por exemplo, é um tema debatido por todos – independentemente de seu posicionamento ou
visão de mundo – e em todos os ambientes. Mesmo entre desconhecidos, em um caixa de
supermercado, por exemplo, o assunto aparece com frequência em conversas que podem durar
apenas alguns segundos ou gerar longas e acaloradas discussões.
Podemos dizer, de outro modo, que a sociedade brasileira também oferece suas respostas para
seus dilemas, denunciando injustiças e discutindo soluções. Da mesma forma, podemos afirmar
que predomina na população um desejo de oferecer propostas que levariam a sociedade para
uma outra direção. A constatação do problema ou o simples desejo de mudança, porém, não são
suficientes para que apontemos soluções reais e sustentáveis para o nosso futuro. É preciso
partir de um diagnóstico preciso, que vai além do senso comum e das respostas prontas como
“só no Brasil”.
Como agravante da desigualdade social no país, Katia Maia, em entrevista concedida ao G1, “a
terra expressa muito o que é uma sociedade e a América Latina é a região com maior
desigualdade na concentração de terra no mundo” (Gonzalez, 2016). Ao comentar os dados
fornecidos pela Oxfam que tratam da concentração de terra no Brasil, Katia Maia explica que o
país ocupa o quinto lugar na América Latina – depois de Paraguai, Chile, Colômbia e Venezuela –
em termos de concentração de terra. Essa pesquisa também indica que “aqueles [municípios]
que estão em área de maior produção agrícola do grande agronegócio têm os maiores níveis de
pobreza e desigualdade. Porque gera menos emprego e é mais concentrado [em termos
fundiários]” (Gonzalez, 2016).
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Os movimentos que lutam pela moradia e denunciam essa pobreza urbana refletida na situação
dos sem-teto não estão separados desses processos estruturais de produção de desalojados.
Esses movimentos também mostram que a vulnerabilidade dessas pessoas e sua exposição a
fatores sociais problemáticos podem se reverter em uma força de denúncia das contradições
das sociedades urbanas hoje, sendo determinantes para a transformação desses espaços
urbanos e para pressionar o Estado para a realização de políticas efetivas no atendimento a
essas populações.
É válido olhar para as respostas dos movimentos sociais às desigualdades e à pobreza no Brasil,
pois elas nos ajudam a entender essas mazelas como socialmente produzidas. De fato, os
movimentos sociais refletem a ação organizada de uma coletividade para a defesa de
determinados interesses que são coletivos. As reivindicações desses movimentos nos permitem
identificar os fatores objetivos e as especificidades que situam as desigualdades e a pobreza
como um fenômeno histórico, não como um processo inevitável.
Assim, evitamos cair nas armadilhas de representações das desigualdades sociais e da miséria
como naturais, ou seja, como se fizessem parte, desde sempre e para sempre, das sociedades;
ou ainda como algo decorrente de um mero “atraso” de populações que estão aprendendo a se
modernizar e quando, finalmente, se modernizarem e alcançarem os padrões justos para o
desenvolvimento, poderão sanar seus problemas de desigualdade – ideia que remete à lógica
das velhas teorias racistas e evolucionistas do século XIX; ou, finalmente, como um problema
individual, resultante da indolência dos pobres.
De todo modo, se nossos problemas têm uma origem histórica – e eles têm –, isso significa que
eles também são possíveis de serem solucionados. Em outros termos, se os impasses que
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enfrentamos se originam na ação humana, é também a ação humana o caminho para a sua
resolução. O conhecimento de experiências bem-sucedidas de transformação social, assim
como dos princípios da ética, da política e da cidadania, deve, portanto, ocorrer lado a lado com a
ciência aprofundada de como se estruturam nossos problemas.
Embora o conceito de corrupção tenha sido historicamente empregado com vistas a caracterizar
comportamentos moralmente inadequados, a ciência social moderna abandonou esse tipo de
definição. Em vez disso, buscou descrever o conceito em termos do não seguimento de leis e,
mais recentemente, de ações que levem à sobreposição entre as esferas pública e privada —
mais especificamente, de ações que impliquem algum tipo de ganho privado somado a dano ao
bem público (Geraldini, 2018, p. 26).
Quando voltamos o olhar para o Brasil, observamos que há uma relação complexa e promíscua
entre o Estado e o setor privado, entre servidores ou órgãos de Estado com grande poder para
alterar normas e procedimentos, como “reservas de mercado, meios financeiros e regulatórios de
criar oligopólios [concentração de poder e controle de serviços nas mãos de poucas empresas],
proteções exageradas contra a concorrência externa, multiplicidade confusa de licenças para
produzir e comerciar e controles de preços” (Freire, 2017, [s. p.]).
A questão central é entendermos por que esse fenômeno está mais presente em algumas
sociedades do que em outras, e qual é a relação disso com o funcionamento da democracia e,
sobretudo, com o grau de concentração do poder político e econômico.
Por esse motivo, os primeiros estudos realizados no Brasil sobre o tema passaram a ser
produzidos nesse período e ganharam ainda mais força na década de 1990, com o processo de
impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, que, para fugir do processo,
renunciou ao seu cargo, ficou um tempo inelegível e, depois, continuou atuando no cenário
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político brasileiro como senador. Aos poucos, o chamado “presidencialismo de coalizão” surgido
com a Nova República, expunha os dilemas da reconstrução da democracia no Brasil, a partir de
acordos – muitas vezes obscuros – da elite política do país. E sabemos que a discussão a
respeito da corrupção continuaria nos anos seguintes.
Esse desafio é ainda maior pois, conforme explica Pinto, o discurso da mídia sobre a corrupção
“condiciona a forma como cada brasileiro se relaciona com o mundo da política” e tem um peso
não desprezível na formação de opinião. Seu principal efeito é o de “impossibilitar uma
discussão política sobre a questão, que ultrapasse uma indignação moralista” (Pinto, 2011, p.
11).
Disso deriva o dilema dos regimes democráticos nos quais a denúncia da corrupção é permitida,
porém não deixa de ser também uma arma política alimentada pela mídia e por meios de
comunicação, sobretudo nos períodos eleitorais. O importante é entendermos que os
mecanismos democráticos de controle da corrupção são os únicos que podem realmente
combatê-la. Os regimes autoritários jamais serão um antídoto à corrupção. A única diferença,
como já destacado, é que nesses regimes os escândalos de corrupção devem ser
necessariamente abafados ou eliminados para garantir a manutenção do poder.
É Hora de Praticar!
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Assimile os números da fome hoje no Brasil, que informam que atualmente cerca de 21.1
milhões de pessoas estão em situação de vulnerabilidade alimentar. Analise o excerto:
Diante dessa complexidade, podemos nos questionar: esse fenômeno é um problema individual
ou social e quais seriam os caminhos para combatê-los?
Independentemente de sua opinião prévia, ao discutir, por exemplo, programas sociais de renda
mínima ou cotas étnicas, você saberia dizer quais têm sido os efeitos reais – os dados – dessas
políticas no Brasil ou no mundo?
Independentemente de sua posição política ou partidarismos, saberia apontar dados que tratam
da corrupção no país, assim como os poderes responsáveis por seu combate?
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2018.
GONZALEZ, A. Estudo mostra concentração de terras no Brasil, expressão máxima de
desigualdade social. G1, 6 dez. 2016. Disponível em: https://g1.globo.com/natureza/blog/nova-
etica-social/post/estudo-mostra-concentracao-de-terras-no-brasil-expressao-maxima-da-
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OLIVEIRA, R.; BUAINAIN, A. M.; NEDER, H. Pobreza: conceitos e mensuração. In: BUAINAIN, A. M.
et al. A nova cara da pobreza rural: desafios para políticas públicas. Brasília, DF: IICA, 2012.
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terra-agricultura-e-desigualdade-no-brasil-rural/ . Acesso em: 27 out. 2023.
OXFAM. A distância que nos une: relatório anual da Oxfam – Brasil. [S. l.]: Oxfam Brasil, 2017.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/um-retrato-das-desigualdades-brasileiras/a-distancia-
que-nos-une/. Acesso em: 27 out. 2023.
OXFAM. Recompensem o trabalho, não a riqueza. [S. l.]: Oxfam Internacional, jan. 2018.
Disponível em: https://www.oxfam.org.br/publicacao/recompensem-o-trabalho-nao-a-riqueza/.
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PINTO, C. R. J. A banalidade da corrupção: uma forma de governar o Brasil. Belo Horizonte:
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RIOS, J. A. A fraude social da corrupção. In: LEITE, C. B. (org.). A sociologia da corrupção. Rio de
Janeiro: Zahar, 1987.
,
Unidade 4
Pluralidade e diversidade no século XXI
Aula 1
Combate ao Racismo e a Discriminação
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você para mais esta aula, dedicada à discussão do
racismo, das desigualdades raciais e das respostas que a sociedade brasileira tem proposto para
atuar nesses problemas. Faremos um percurso didático a fim de ajudá-lo a refletir a respeito das
raízes históricas profundas do racismo e suas continuidades no presente, mas também suas
descontinuidades, que nos ajudam a entender o racismo nos tempos atuais e as diferentes
formas de combatê-lo, empreendidas por movimentos sociais e por políticas públicas.
É claro que o negro não é a única vítima do racismo. Poderíamos também alargar o nosso olhar
para as nossas diversidades originárias, ou seja, os povos indígenas. O que dizer desse assunto
em nossos dias? Diversas reportagens de jornais trazem declarações que parecem estimular a
violência contra os indígenas e, sobretudo, a espoliação de suas terras (Cunha, 2019). O Relatório
Violência contra os Povos Indígenas, de 2016, confirma que houve um aumento de diferentes
tipos de violência contra essa população em comparação com 2015 (CIMI, [s. d.]). A verdade é
que crimes desumanos continuam a acontecer, em especial contra as lideranças indígenas.
Vamos Começar!
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A estrutura racializada da sociedade brasileira tem suas raízes no sistema colonial, em particular
na escravidão que vigorou por quase quatro séculos no Brasil. Isso significa que as raízes
históricas do racismo são antigas e profundas. Todavia, é igualmente importante entendermos
que o racismo não é algo natural, que deve ser considerado uma “essência” imutável do
funcionamento da sociedade brasileira e de sua mentalidade predominante. Pelo contrário, o
racismo foi construído historicamente por relações sociais, e da mesma forma que se reproduz
no tempo, também pode ser combatido e, quem sabe, eliminado.
A relação dos colonos portugueses com os indígenas é o primeiro terreno histórico para
pensarmos a estruturação do racismo no Brasil. Essa relação, longe de assumir uma base
igualitária, apoiou-se na construção das diferenças e hierarquias demarcadas em relação aos
costumes, culturas, línguas, religiosidades dos nossos povos originários. A concepção
hegemônica da história do Brasil, como se apenas tivesse começado depois da “descoberta”
pelos portugueses – já que, aqui, habitavam povos “sem história” e “sem cultura” – é exemplo
claro dessas hierarquias estabelecidas.
Os sistemas de tutela e de reserva de terras, instituições jurídicas nas quais o indígena foi
considerado um menor de idade que devia ser tutelado pelo Estado e devia se contentar com um
espaço reduzido de sua própria terra nativa, delimitado pela administração colonial, foram
utilizados para “apaziguar” as relações dos portugueses com os indígenas sobreviventes. Esse
sistema provocou o isolamento dessa população e até hoje é motivo de debates muito vivos a
respeito de como “integrar” essa “alteridade” que, a todos efeitos, é a autêntica população
brasileira. Essa população foi excluída da participação das dimensões mais variadas da
sociedade brasileira, como o sistema educacional, político, de saúde e o mercado de trabalho,
dentre tantas outras.
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A Constituição Federal de 1988 (Brasil, 1988) assegura aos povos originários o direito à terra e
reconhece suas organizações, costumes, tradições e crenças. As terras indígenas representam,
além de um direito, uma garantia de sobrevivência física e cultural dessa população. É por esse
motivo que a efetivação desse direito já reconhecido, ou seja, a demarcação de terras, continua
sendo a principal reivindicação dos povos indígenas no Brasil, que lutam também contra as
invasões de suas terras, a pobreza e as violações de seus direitos. Não devemos nos esquecer
de que essas terras concentram a maior reserva de biodiversidade do país, além de minerais
diversos, por isso são alvo de ambições desmedidas. Estereótipos do tipo “índio tem muita terra”,
“índio deveria trabalhar para comprar suas terras”, “índio é preguiçoso”, que reforçam a ideia do
“primitivo”, da “peça de museu”, continuam funcionando como um poderoso argumento para
justificar a expropriação dessa população e privá-la de um direito originário.
Por esse motivo, o historiador dá destaque ao fato de que, mesmo após o tráfico negreiro ser
declarado ilegal pela Inglaterra, no início do século XIX, o Brasil simplesmente ignorou essa lei e
continuou “importando” e escravizando os negros que aqui chegavam. O historiador também
relata violência, açoites e punições utilizadas contra os negros que se revoltavam contra esse
sistema já declarado ilegal (Alencastro, 2000).
A luta dos escravos e libertos teve papel determinante para o fim da escravidão por meio de
diversas formas de resistência nas senzalas, fugas das fazendas, auto-organização dos
quilombos, mesmo sob o controle extremo do senhor e do aparato repressivo do Estado. A
questão central é que a sociedade moderna brasileira foi formada com base nessa estrutura
racializada, que não reconhecia que negros e indígenas tivessem a mesma natureza humana de
todos, tampouco seus direitos civis e religiosos. A prática da discriminação racial era onipresente
e se justificava ideologicamente pela associação entre “pureza da alma” e “brancura da pele”,
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É por esse motivo que Florestan Fernandes critica veementemente o que ele chama de “mito da
democracia racial”, arraigado em nossa sociedade, por construir a ideia de que o Brasil,
diferentemente de outras sociedades, é menos preconceituoso, mais aberto à miscigenação de
raças e culturas. Na opinião de Fernandes, essa ideia, defendida por Gilberto Freyre (1900-1987)
como uma herança positiva do colonialismo português (Freyre, 1958), é retrato, na verdade, de
uma sociedade que aparenta “ter preconceitos de ter preconceito”, porém reforça as
desigualdades raciais criando “um consenso de que certas posições [de maior renda, prestígio
social e poder] pertencem ao branco” (Fernandes, 2008, p. 309 e 437).
Não faltam estatísticas para comprovar as desvantagens que a população negra enfrenta na
estrutura de emprego, qualificação educacional e distribuição de renda e riqueza, entre outras
dimensões da sociedade brasileira. As políticas de ação afirmativa são destinadas a agir nesse
quadro de desigualdades raciais e de reprodução de injustiças sociais. Moehlecke (2002) nos
explica que as ações afirmativas surgem nos EUA, na década de 1960, em decorrência das
reivindicações dos movimentos dos direitos civis – sobretudo impulsionados pelos movimentos
negros – para promoção da igualdade de oportunidades. Essas políticas também foram
implantadas em diversos países do mundo com o intuito de combater a discriminação e as
desigualdades contra grupos historicamente excluídos ou aqueles que nas estatísticas têm
grande possibilidade de o serem.
Além dos negros, essas políticas contemplam as mulheres e as minorias étnicas, religiosas,
linguísticas, nacionais. O foco dessas ações é principalmente o mercado de trabalho, o sistema
educacional (sobretudo o ensino superior), a promoção de funcionários, a representação política
e nos meios de comunicação, a incorporação do quesito cor nos sistemas de informação.
Conforme destaca a autora, no Brasil, essas políticas começam a ser discutidas nos anos 1980,
passam a ser aplicadas timidamente nos anos 1990 e com mais sistematicidade nos anos 2000.
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A política das cotas raciais no ensino superior acabou ganhando mais destaque por causar
polêmicas acirradas, sobretudo no que se refere ao argumento da “quebra” do princípio da
igualdade protegido pela Constituição e de supostos “privilégios” conferidos aos beneficiários
das cotas. Esses e outros argumentos foram totalmente descontruídos, empírica e teoricamente,
não apenas por estudos científicos, mas também pelo próprio Supremo Tribunal Federal (STF),
que declarou a constitucionalidade dessa política (Feres Jr.; Daflon; Campos, 2012).
Siga em Frente...
Essas legislações não ocorreram sem crítica, sobretudo ligadas à falta de efetividade na
implementação da política, e também acompanhou um rico debate acerca do reconhecimento da
diversidade dos povos indígenas e africanos e da necessidade da construção de uma nova
narrativa da história do Brasil, desvinculada dos parâmetros hegemônicos eurocêntricos – que
consideram a cultura europeia ocidental superior, portanto, a ser assimilada por todas
civilizações do mundo em detrimento de suas próprias culturas. Discute-se a necessidade de se
colocar os saberes dessas populações no mesmo patamar de importância dos saberes
hegemônicos do Ocidente. Para tanto, estabeleceu-se um novo currículo escolar que
contemplasse o combate aos estereótipos, às mistificações e à discriminação, e o estudo da
atuação dessas populações como sujeitos e protagonistas (Carvalho, 2005).
Para desconstruir essa narrativa histórica contada a partir do ponto de vista dos dominantes, há
um esforço sendo feito de reconstrução da história dos países colonizados a partir de sua
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própria perspectiva, dos subalternos e suas lutas, com destaque ao seu papel ativo como
protagonistas dessa história. Na reconstrução dessa narrativa, houve e há diferentes frentes de
resistência e transformação dos indígenas e negros. A década de 1970 foi um marco para
entendermos o crescimento desses movimentos em nível nacional.
No que se refere ao movimento indígena, há diversas organizações espalhadas pelo país que
também se articulam em nível regional e nacional. Eles contribuíram para a construção de uma
“nova imagem social” do indígena como sujeito político da sociedade civil brasileira (Matos,
2006, p. 40), com ações coletivas complexas e enfrentamentos diretos nas esferas de
institucionalização de representação política, em ONGs, partidos políticos e gestão
administrativa nas instituições.
Destacamos o protagonismo das mulheres negras nesses movimentos, que também assumem
pautas dando destaque à opressão de gênero da mulher negra. A atuação desse movimento foi
determinante para a implantação das políticas de cotas raciais no país, anteriormente discutidas,
além de outras frentes de combate ao racismo. É importante lembrarmos que essas conquistas
podem sofrer retrocessos. O momento que estamos vivendo, no Brasil e no mundo, é de
“agudização do racismo” (Basso, 2015) e coloca desafios enormes para esses movimentos e
para todos os setores da sociedade empenhados em combater esse fenômeno e seus efeitos
nefastos.
Vamos Exercitar?
No Brasil, presenciamos inúmeros casos graves de racismo, com assassinatos constantes de
jovens negros e da população indígena, em particular de suas lideranças. Afinal, há alguma
diferença entre as características de atuação do racismo de hoje e as do passado?
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quem sabe, também eliminado. Para isso, é necessário combater a dimensão material
(estrutural), cultural e ideológica.
Não há, portanto, uma ruptura com a forma de agir desse fenômeno no passado. Pelo contrário,
o movimento de “agudização” e “ascensão” do racismo evidencia como esse fenômeno pode
voltar a ser um elemento explícito e legalizado na sociedade, como ocorria na época de
funcionamento dos sistemas coloniais. As frentes de combate ao racismo devem ter em mente
as esferas institucional, cultural, econômica e política.
Com esse fim, a política de cotas, por exemplo, foi implementada por diversas instituições de
ensino superior no Brasil, públicas e privadas, nos concursos públicos e no mercado de trabalho,
porém, ainda há muito a ser feito, tendo em vista a necessidade de diversas frentes para
promover o reconhecimento da diversidade e o combate ao racismo no Brasil.
Saiba mais
A obra escrita por Florestan Fernandes, O negro no mundo dos brancos (2013), é um clássico das
ciências sociais no que tange às questões raciais, e está disponível em sua biblioteca virtual.
Ilustrando
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Sugerimos que você assista ao vídeo produzido pela Editora Perspectiva sobre o livro do escritor
e Professor Abdias do Nascimento (1914-2011), O genocídio do negro brasileiro em suas
diversas formas (1978). Perceba como o genocídio não remete apenas à sua dimensão concreta,
de extermínio físico da população negra, mas também à simbólica, relativa à psique, à identidade
do negro, que sofre diversos tipos de violência cotidiana em uma sociedade racista.
O GENOCÍDIO do negro brasileiro em suas diversas formas (1978). São Paulo: Perspectiva, 2018.
1 vídeo (3min06s).
Resta que este crime coletivo guarda um significado dramático: ao arrepio da lei, a maioria dos
africanos cativados no Brasil a partir de 1818 - e todos os seus descendentes - foram mantidos
na escravidão até 1888. Ou seja, boa parte das duas últimas gerações de indivíduos escravizados
no Brasil não era escrava. Moralmente ilegítima, a escravidão do Império era ainda - primeiro e
sobretudo - ilegal. Como escrevi, tenho para mim que este pacto dos sequestradores constitui o
pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira.
Referências
BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. […] [inclui] no currículo oficial da Rede de Ensino a
obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”, e dá outras providências. Diário
Oficial da União: Brasília, DF, p. 1, 10 jan. 2003. Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.639.htm. Acesso em: 25 fev. 2019.
BRASIL. Lei nº 11.645, de 10 de março de 2008. […] [inclui] no currículo oficial da rede de ensino a
obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena”. Diário Oficial da União:
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CARVALHO, J. J. Inclusão étnica e racial no Brasil: a questão das cotas no ensino superior. São
Paulo: Atar, 2005.
CUNHA, M. C. Povos da megadiversidade. Piauí, [S. l.], ed. 148, jan. 2019.
FERES JR., J.; DAFLON, V. T.; CAMPOS, L. A. As políticas de ação afirmativa no tribunal.
Separando os bons dos maus argumentos. In: SILVÉRIO, V. R. (org.). As cotas para negros no
tribunal. A audiência pública no STF. São Carlos: Edufscar, 2012.
FERNANDES, F. A integração do negro na sociedade de classes: no limiar de uma nova era. São
Paulo: Globo, [1964] 2008. v. 2.
FERNANDES, F. O negro no mundo dos brancos. 2. ed. São Paulo: Global, 2013. Disponível em:
https://plataforma.bvirtual.com.br/Leitor/Publicacao/184663/epub/0?
code=+Vn8/GgAmSHkS3HTk2B1QxVN44S6CqHLuSPsVhfEqp8LwtKnfja5SrZPBFzrBPx+2PJiomJ
gQOREZhqzRJmuZg==. Acesso em: 04 abr. 2024.
LEWIS, N. Genocídio. Em reportagem de 1969, o extermínio sem fim dos índios no Brasil. Piauí, p.
40-52, jan. de 2019.
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NAÇÕES UNIDAS NO BRASIL (ONUBR). Campanha Vidas Negras. Onu Br, [s. d.]. Disponível em:
http://vidasnegras.nacoesunidas.org. Acesso em: 22 fev. 2019.
O GENOCÍDIO do negro brasileiro em suas diversas formas (1978). São Paulo: Perspectiva, 2018.
1 vídeo (3min06s).
SANTOS, B. S.; MENESES, M. P. (org.) Epistemologias do Sul. São Paulo: Cortez, 2010.
Aula 2
O que é Identidade de Gênero e Sexualidade
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para você. Nela, você irá aprender
conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la? Bons estudos!
Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você para mais uma aula. Como ponto de partida,
questionamos: o que justifica uma prática como um comportamento deste ou daquele sexo? De
onde se origina a ideia de que uma atitude é coisa de homem ou de mulher? Da biologia? Da
tradição de nosso povo? Da cultura vigente em nossa sociedade?
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Além de uma análise conceitual e histórica, essa reflexão pode nos ajudar a entender outra
situação recorrente na sociedade brasileira: a violência contra a mulher e os crescentes casos de
feminicídio. Dependendo de seu sexo e de sua vida até este momento, essa situação pode lhe
parecer distante. Além disso, um leitor menos empático pode ainda se basear em um dado
verdadeiro, mas generalizante: o Brasil tem uma das maiores taxas de homicídio do mundo e, por
isso, tanto mulheres quanto homens são assassinados aos milhares todos os anos.
No entanto, basta usar seu buscador na internet com as frases “homem morto por” – ao que o
algoritmo responderá “acidente”, “bandido”, “carro”, “policial” – e “mulher morta por” – que terá
entre as primeiras ocorrências nas notícias “namorado”, “marido”, “companheiro” – para
constatar um dado evidente e triste: milhares de mulheres são assassinadas todos os anos por
seus familiares, parceiros e ex-parceiros. Como dados da ONU mostram, o lugar mais perigoso
para as mulheres – onde elas mais correm o risco de sofrerem uma morte violenta – é a própria
casa (Reuters, 2018). Isso porque, apesar de haver certos avanços no campo da igualdade entre
homens e mulheres, as sociedades ainda apresentam enormes desafios para assegurar às
mulheres uma vida verdadeiramente digna (Conti; Alves, 2019).
Vamos Começar!
Gênero e sexualidades
Nas mais diversas situações da vida social em que precisamos nos apresentar ou nos definir
enquanto pessoa, há uma grande chance de que nossa condição enquanto homens ou mulheres
seja incluída no rol de características essenciais de nossa identidade. Isso acontece porque não
são raras as vezes em que esta condição, ser homem ou mulher, traz consigo uma série de
expectativas acerca dos gostos, das preferências e das predisposições que temos, de certa
forma atribuindo ao fato de sermos homens ou mulheres um agregado de características já
preconcebidas.
Entretanto, essa amplificação de informações que surge apenas do fato de sermos homens ou
mulheres não acontece de modo automático e invariável – e até por isso essas expectativas se
mostram erradas em boa parte das vezes –, uma vez que existe uma diferença fundamental
entre o sexo de que dispomos e o conceito de gênero vigente em uma sociedade.
Quando falamos de sexo, nos referimos aos elementos orgânicos decorrentes de nossa
composição genética, isto é, das características biológicas que se manifestam em nosso corpo
em razão de sermos homens ou mulheres: aparelhos reprodutivos, hormônios e anatomia, entre
outros. Muito embora a afirmação do sexo se dê majoritariamente em termos binários – homem
ou mulher –, existem outras formas de composição biológica dos seres humanos na
denominada intersexualidade.
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O conceito de gênero, por sua vez, pode ser compreendido como uma elaboração histórica de
padrões de comportamento e sociabilidade reproduzidos ao longo do tempo em nossas
estruturas sociais. Em outras palavras, o gênero é uma construção social atribuída a um sexo
biológico, apresentando uma série de condutas, hábitos e modos a serem observados
especificamente por homens ou mulheres, em conformidade com a cultura, história e tradições
de um determinado povo.
Essa concepção acerca da masculinidade e da feminilidade baseada na ideia de gênero tem sua
origem em meados do século XX, em um contexto de busca pela ampliação dos direitos das
mulheres e da consequente afirmação da cidadania da comunidade feminina. Nesse cenário, a
constatação de que as diferentes realidades vivenciadas por homens e mulheres não constituem
um produto das diferenças naturais entre os sexos, mas, sim, de uma assimetria de condições –
direitos, oportunidades, estímulos – socialmente estabelecidas evidenciaria uma relação de
poder, também cultural e socialmente determinada, na qual as mulheres teriam suas liberdades
limitadas.
Nesse contexto, é importante ressaltar que a perspectiva levantada pelo conceito de gênero não
procura negar a existência de diferenças entre homens e mulheres, mas apenas salientar que as
distinções biológicas entre os sexos masculino e feminino não são capazes de explicar toda uma
vastidão de ideias concebidas a respeito de como homens e mulheres devem se comportar. As
diferenças são intrínsecas à existência do ser humano, entretanto tais contrastes não são
suficientes para atribuir aos sexos certas propensões – por exemplo, de que os homens teriam
uma aptidão natural à liderança, ao passo que as mulheres devem ser submissas –, tratando-se,
em verdade, de relações sociais de poder.
Essa tomada de consciência por parte de alguns segmentos da população de mulheres, de que
as desigualdades constatadas em suas sociedades resultavam de uma construção social
tendente a subjugar o papel feminino em suas coletividades, serviu de importante estímulo aos
crescentes movimentos feministas observados ao longo do século XX. Se é bem verdade que
manifestações de afirmação dos direitos da mulher podem ser identificadas em diversos
períodos da história humana, não se pode negar que a segunda metade do século XX se mostra
particularmente rica no que se refere ao fortalecimento de movimentos e intelectuais feministas.
De imediato, torna-se importante esclarecer que o feminismo de modo algum pode ser
considerado o equivalente feminino do machismo, isso porque este último termo traduz a ideia
de superioridade e supervalorização das características culturais ou físicas vinculadas ao
homem, estabelecendo, assim, uma relação de hierarquia entre homens e mulheres, com o
predomínio dos primeiros. O feminismo, em sentido contrário, consiste na articulação de
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Expoente da intelectualidade feminista do século XX, Simone de Beauvoir (1908-1986) foi uma
escritora e filósofa francesa notabilizada por investigar o papel das mulheres nas sociedades,
utilizando-se de um vasto instrumental teórico que engloba história, literatura, ciências médicas e
filosofia, entre demais fontes de conhecimento. Em seus estudos, Beauvoir critica a posição de
inferioridade que socialmente se atribuía às mulheres, incluindo em sua desaprovação tanto as
mulheres que se mostravam passivas, submissas e sem ambições quanto os homens cujo
comportamento cruel e covarde tendia a oprimir suas contemporâneas femininas.
Em sua defesa da emancipação da mulher, a filósofa francesa argumentava que não há destino
ou predisposição natural da figura feminina a, por exemplo, trabalhos domésticos – conforme
tradicionalmente se observava na época –, uma vez que a mulher poderia responsabilizar-se por
outras atividades profissionais, sobretudo se fortalecesse seu acesso ao mercado de trabalho e
garantisse uma maior autonomia em termos de controle de natalidade. Nesse sentido, tornou-se
célebre sua ideia de rejeição a papéis naturalmente vinculados à mulher, e, sim, de existência de
construções sociais com esses efeitos.
Assim, a inferioridade social atribuída à mulher não teria sua origem no nascimento, tampouco
seria algo inevitável ou predeterminado na constituição biológica das mulheres, mas, sim, algo
culturalmente imposto pela comunidade que gradativamente seria incorporado no agir feminino,
daí a expressão “torna-se mulher”. O simbolismo estabelecido por Beauvoir na figura do “produto
intermediário entre o macho e o castrado”, colocando a mulher numa posição inferior ao homem,
pode até parecer estranho à primeira vista; entretanto, temos que reconhecer que, em nossa
linguagem, frequentemente estabelecemos esse processo de negar a masculinidade e afirmar a
feminilidade – de “castrar” – o indivíduo que apresenta fraquezas ou incapacidades: chamar um
garoto de “mulherzinha” ou dizer-lhe “achei que você fosse homem”, ideias sempre associadas à
vulnerabilidade, exemplificam essa representação feita pela filósofa.
Merece também destaque a contribuição teórica fornecida pela filósofa norte-americana Judith
Butler (1956), sobretudo em razão das novas abordagens trazidas em sua ideia de
“performances de gênero”. Segundo essa concepção, a perspectiva de que o sexo é algo
estritamente biológico, ao passo que o gênero pode ser compreendido pela cultura e pela
história, é algo equivocado; existiria, em verdade, uma construção social que afetaria igualmente
o sexo, o gênero e os desejos de um indivíduo. Assim, há em nossa sociedade contemporânea
uma “ordem compulsória”, exclusivamente heterossexual, que estabelece uma relação fixa entre
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um determinado sexo, um gênero e um desejo – por exemplo, ter pênis, ser e comportar-se como
menino e gostar de meninas.
Muito embora esses movimentos feministas do século XX tenham efetivamente contribuído para
uma maior equiparação de direitos entre homens e mulheres, sobretudo em termos de garantias
políticas e civis e de uma maior liberdade social para a população feminina, existem
desigualdades ainda persistentes que impedem que se possa falar, em termos da realidade
internacional ou do contexto estritamente brasileiro, de uma efetiva igualdade nas condições de
vida percebidas por homens e mulheres em tempos contemporâneos.
Siga em Frente...
Mudanças e avanços decorrentes dos estudos e movimentos de gênero
Se é verdade que as mulheres têm assumido um protagonismo cada vez maior em termos de
participação no mercado de trabalho brasileiro, elevando o percentual de mulheres no total de
empregos formais ao longo dos últimos anos, essa inserção não se dá nas mesmas condições
observadas pelos trabalhadores homens. De imediato, constata-se que a renda média percebida
pelas trabalhadoras mulheres ainda se mostra bastante inferior aos proventos observados pela
população masculina, atingindo, em dados de 2016, apenas 76,5% dos rendimentos dos homens
(Conti; Alves, 2019).
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domicílio, fato que inquestionavelmente torna a inserção profissional ainda mais cansativa para
as mulheres sujeitas a tal duplicidade de tarefas.
Sob uma perspectiva qualitativa, mas ainda com os efeitos nocivos derivados de concepções
estereotipadas de gênero, os diversos tipos de preconceitos atribuídos à conduta profissional da
mulher podem ser identificados como fatores limitadores do desenvolvimento feminino em um
ambiente de trabalho. Se, conforme visto, concepções limitadoras do conceito de gênero podem
ser extremamente nocivas aos indivíduos, estabelecendo padrões de condutas restritivos e
muitas vezes preconceituosos a respeito das reais capacidades de uma pessoa, a afirmação de
novas configurações de gênero que emergem nas sociedades atuais podem atuar no sentido
inverso, ampliando as potencialidades individuais e fortalecendo o sentimento de identidade e
realização de cada ser humano.
Nesse contexto, cabe-nos, inicialmente, conceituar a ideia de identidade de gênero, tão frequente
nas discussões contemporâneas que tratam do tema. Na medida em que o gênero traduz uma
construção social imposta a um sexo, a identidade de gênero corresponde a uma percepção
pessoal de qual o gênero a que este mesmo indivíduo pertence, independentemente do sexo
biológico; em outras palavras, é a perspectiva subjetiva de uma pessoa em relação à sua própria
existência, no que se refere aos diferentes gêneros observados. Assim, caso a identidade de
gênero de uma pessoa seja coincidente com o gênero que lhe foi originalmente designado, trata-
se de um indivíduo cisgênero; do contrário, observa-se um transgênero. Desse modo, em termos
concretos, se uma pessoa é designada, no nascimento, como mulher, mas tem uma percepção
diferente a respeito de si mesma, enxergando-se e sentindo-se como homem, trata-se de um
homem transgênero; caso alguém seja apontado como homem, e realmente se identifique com
essa característica, estamos diante de um homem cisgênero. Há também pessoas não binárias,
que percebem a si mesmas fora de uma lógica binária estritamente masculina ou feminina, e fora
da cisnormatividade (Conti; Alves, 2019).
Outro critério relevante para essa discussão, que no entanto não deve ser confundido com sexo
biológico, gênero ou identidade de gênero, é a orientação afetivo-sexual, a qual apresenta a
inclinação para as relações amorosas e eróticas do indivíduo, qualificando-se como
heterossexual caso esse desejo seja dirigido a pessoas de outro gênero; homossexual no caso
do interesse por indivíduos que compartilham o mesmo gênero; bissexual na existência do
desejo por ambos os gêneros masculino e feminino; pansexual, diante da atração por pessoas
independentemente do gênero; e, ainda, assexual diante da não atração afetivo-sexual por
quaisquer dos gêneros.
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É evidente que todo e qualquer processo de transformação histórica deve estar sujeito a críticas,
entretanto, rejeitar a própria existência de movimentos que nada mais buscam do que equiparar
direitos diante de situações reais e desiguais – o que, repita-se, é algo diferente de buscar
privilégios ou vantagens – seria atribuir ao funcionamento da sociedade uma neutralidade
inexistente, ignorando que há, como visto, relações de poder, desequilíbrios prejudiciais e
violências específicas sobre determinados grupos.
Vamos Exercitar?
Aquilo que entendemos em um determinado momento e local como “natural” pode, em verdade,
representar uma imposição – voluntária ou involuntária – das concepções do grupo dominante
nesse espaço e tempo, assim como são as perspectivas machistas em relação às mulheres e,
possivelmente, as compreensões limitadoras acerca das novas afirmações da identidade de
gênero.
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Saiba mais
– O Brasil registrou 1 estupro a cada 11 minutos em 2015. São os Dados do Anuário Brasileiro de
Segurança Pública, os mais utilizados sobre o tema. Levantamentos regionais feitos por outros
órgãos têm maior ou menor variação em relação a isso.
– As estimativas variam, mas em geral calcula-se que estes sejam apenas 10% do total dos
casos que realmente acontecem. Ou seja, o Brasil pode ter a medieval taxa de quase meio milhão
de estupros a cada ano.
[…]
– A cada 7.2 segundos uma mulher é vítima de violência física (Fonte: Relógios da Violência, do
Instituto Maria da Penha).
– Em 2013, 13 mulheres morreram todos os dias vítimas de feminicídio, isto é, assassinato em
função de seu gênero. Cerca de 30% foram mortas por parceiro ou ex (Fonte: Mapa da Violência
2015).
– Esse número representa um aumento de 21% em relação a década passada. Ou seja, temos
indicadores de que as mortes de mulheres estão aumentando (Soares, 2017, [s. p.])
A obra organizada por Fernando Seffner e Jane Felipe, Educação, gênero e sexualidade:
(im)pertinências (2022), disponível em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama
de um conjunto de questões no campo dos estudos de gênero, sexualidade e educação no Brasil,
cujo alicerce teórico-político pauta-se nas produções feministas, nos estudos queer, no pós-
estruturalismo, na interface com as pedagogias decoloniais e interseccionais, em uma estreita
vinculação com o contexto cultural e político contemporâneo.
Nos últimos anos, temas como gênero, sexualidade e corpo têm gerado um grande desconforto
por parte de grupos conservadores. Pesquisas realizadas com essas temáticas são colocadas
em suspeição e docentes que atuam em todas as etapas de ensino relatam uma série de
perseguições ao conduzirem suas aulas pelo viés dos direitos humanos, em defesa da equidade
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de gênero, das identidades vistas como dissidentes e de uma educação para as relações étnico-
raciais.
Dizem em Juchitán que São Vicente, patrono dessa região do sul do México, viajava com três
sacos cheios de grãos que ia distribuindo por todo o país. Em um deles, estavam os grãos
masculinos; no outro, os femininos; e, em um terceiro, eles eram misturados. “Em Juchitán, o
terceiro saco rasgou”, brincam os habitantes das comunidades zapotecas. Bem na cintura do
México, no Istmo de Tehuantepec (Estado de Oaxaca), vivem os muxes, indígenas nascidos com
sexo masculino que assumem papéis femininos. […]
Os muxes, presentes já na época pré-colombiana, são respeitados nas famílias tradicionais, onde
são considerados os melhores filhos, pois, diferentemente dos heterossexuais, que acabam
virando independentes, eles nunca saem de casa e se tornam um ponto de apoio incondicional,
especialmente para as mães. (García, 2017, [s. p.])
Esse é apenas um de vários casos que poderíamos citar a respeito de outras sociedades nas
quais os papéis normalmente atribuídos a homens e mulheres são distintos daqueles que
estamos habituados em nossa cultura. A partir disso, pense nas conexões entre sexo biológico,
cultura e deveres ou obrigações sociais.
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Referências
AYUSO, B. Sou intersexual, não hermafrodita. El País, 17 set. 2016. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2016/09/17/estilo/1474075855_705641.html. Acesso em: 5 fev.
2024.
BEAUVOIR, S. O segundo sexo: a experiência vivida. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1967.
GARCÍA, J. Terceiro gênero do México: o povoado onde homens assumem papéis das mulheres.
El País, 2017. Disponível em:
https://brasil.elpais.com/brasil/2017/05/15/internacional/1494872910_337655.html. Acesso
em: 4 fev. 2019.
LUGAR mais perigoso para mulheres é a própria casa, diz ONU. Exame, 26 nov. 2018. Disponível
em: https://exame.com/mundo/lugar-mais-perigoso-para-mulheres-e-a-propria-casa-diz-onu/.
Acesso em: 12 fev. 2019.
OPINIÃO: Reconhecer “intersexo” é apenas um primeiro passo. Terra, 17 ago. 2018. Disponível
em: https://www.terra.com.br/noticias/opiniao-reconhecer-intersexo-e-apenas-um-primeiro-
passo,13bc09fa65b1318902cdcfb5644cabad8t8sqhc0.html. Acesso em: 5 fev. 2024.
SANCHES, D.; CONTARATO, A.; AZEVEDO, A. L. Dados públicos sobre violência homofóbica no
Brasil: 28 anos de combate ao preconceito. FGV DAPP, Rio de Janeiro, [2018].
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Aula 3
Meio Ambiente e Consumo
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Ponto de Partida
Olá, estudante! Desejamos boas-vindas a você para mais uma aula. Como ponto de partida,
questionamos: será que estamos emprestando do planeta mais do que podemos pagar, e,
eventualmente, enfrentaremos a fatura pela nossa dívida ambiental?
Imagine que em uma determinada região, uma empresa de produtos eletrônicos está prestes a
lançar um novo modelo de smartphone altamente tecnológico. O dispositivo utiliza materiais
raros e de difícil extração, cuja mineração tem sido associada a impactos ambientais
significativos, como desmatamento, poluição do solo e da água, além de condições de trabalho
desumanas nas áreas de extração.
Além disso, a produção do smartphone envolve processos químicos complexos que geram
resíduos tóxicos, contribuindo para a degradação ambiental. A expectativa é que o novo produto
seja um sucesso de vendas, resultando em um aumento significativo no descarte de modelos
antigos, intensificando o problema do lixo eletrônico na região.
A situação levanta questões éticas relacionadas à bioética, meio ambiente e consumo. Entre os
dilemas enfrentados estão:
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Será interessante investigar alguns temas relevantes que se conectam a tais questionamentos: o
avanço científico e tecnológico e os efeitos sobre o ecossistema; a importância do
fortalecimento da bioética, como o campo responsável pelos princípios de utilização das novas
tecnologias nas áreas das ciências da vida; e ainda, como os padrões de consumo também se
relacionam com o ambiente em que vivemos e as novas possibilidades de intervenção humana
em seu funcionamento.
Vamos Começar!
Além disso, a bioética desafia a sociedade a refletir acerca das implicações éticas de novas
descobertas e inovações no campo da saúde, como a engenharia genética, a reprodução
assistida, a pesquisa com células-tronco e a inteligência artificial na medicina, bem como atua na
proteção de pessoas que participam de pesquisas científicas, garantindo que os experimentos
sejam conduzidos de maneira ética e segura.
Deste modo, sua importância transcende as fronteiras nacionais pois os avanços científicos
muitas vezes têm impactos globais. Ao proporcionar uma estrutura ética, a bioética contribui
para a tomada de decisões informadas, políticas públicas justas e a construção de uma
sociedade que valoriza a integridade, a justiça e o bem-estar tanto no presente quanto para as
gerações futuras.
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O campo da bioética
Desse modo, para além do que dispomos de tecnologia para fazer, devemos manter a discussão
do que seria efetivamente correto fazer. A bioética, assim, pode ser compreendida como o
campo de estudos que se utiliza de conceitos da filosofia, sociologia, psicologia e antropologia,
entre outros, para estabelecer juízos éticos a respeito da utilização de novas tecnologias nas
áreas das ciências da vida, animal e vegetal (Conti; Alves, 2019).
É importante notar que a evolução tecnológica contemporânea não torna obsoleto o estudo da
ética em nossas sociedades, pelo contrário, levanta novos questionamentos, resultantes de
novas práticas científicas, para os quais a avaliação ética se torna indispensável. É nesse ponto
que precisamos refletir a respeito da relação entre consciência ambiental e a cidadania. Pensar
essa relação é ideal para retomarmos diversos significados da cidadania.
As décadas de 1970 e 1980 são marcos da emergência de um debate ambiental que questiona o
modelo de desenvolvimento que se espalhou pelo mundo (Zhouri; Laschefski, 2010). Além das
crises econômicas, esse período acompanha também recorrentes crises ambientais. O desastre
de Chernobyl (1986) passa a ser o símbolo do despertar da consciência de uma “cidadania
verde”, que não está descolado do sentido da cidadania transnacional. Começa-se a refletir com
mais força sobre os impactos para a população local, mas também para a vida humana no
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mundo todo, de ações que prejudicam a natureza, como a mudança do curso de um rio, a
poluição das águas, a expansão das fronteiras agrícolas e a utilização dos agrotóxicos e
transgênicos, além da destruição das florestas.
Siga em Frente...
[…] refletir sobre o mito da sustentabilidade, inventado pelas corporações para justificar o assalto
que fazem à nossa ideia de natureza. Fomos, durante muito tempo, embalados com a história de
que somos a humanidade. Enquanto isso — enquanto seu lobo não vem —, fomos nos alienando
desse organismo de que somos parte, a Terra, e passamos a pensar que ele é uma coisa e nós,
outra: a Terra e a humanidade. Eu não percebo onde tem alguma coisa que não seja natureza.
Tudo é natureza. O cosmos é natureza. Tudo em que eu consigo pensar é natureza (Krenak,
2019).
Perceba que a dimensão política da cidadania está inserida também na discussão sobre o meio
ambiente. Um olhar ambientalista nos permite examinar os problemas que as mudanças
ambientais colocam para o processo político moderno, em particular para o exercício da
cidadania. Novamente, trata-se da articulação entre o local e o global como necessária para a
conscientização dos impactos ecológicos e, simultaneamente, a busca de ações políticas para
enfrentá-los (Conti; Alves, 2019).
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Esse desastre poderia ter sido evitado, pois, segundo notícias de jornais e alegações de
movimentos ligados à causa, o rompimento da barragem parece ter sua raiz última em uma
fraude do licenciamento ambiental e em operações ilícitas das atividades dessa empresa (MAB,
2016; Augusto, 2016). A empresa não teria cumprido seu dever de gestão do risco ambiental e de
fazer as reparações nas inúmeras rachaduras que estavam comprometendo a estrutura das
barragens. Também teria havido negligência e ausência de fiscalização efetiva por parte do
Estado para que as normas de segurança ambiental fossem cumpridas (Graça, 2018). Muitas
vezes, o alerta dos fiscais que trabalham comprometidos com seu dever público não é ouvido
pelos responsáveis políticos. Essa situação é muito mais abrangente no Brasil, não se resumindo
apenas ao caso da Samarco.
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No Brasil, a regulamentação ambiental parece estar muito longe de poder ser realizada de forma
plena, na mentalidade e na prática dos empresários e do Estado. Em vez de proteção ambiental,
predomina aqui a pressão que as corporações e megaempresas fazem no meio político para
quebrar todo tipo de barreira para explorar a natureza e/ou utilizar produtos químicos, como
agrotóxicos e venenos – chamados por seus apologistas de “defensores agrícolas”. Além dessa
pressão feita de fora para dentro, os empresários ligados ao agronegócio constituem no Poder
Legislativo (Câmara dos Deputados e Senado Federal) a “Bancada do Boi”. Ou seja, não só
operam na lógica da pressão e do lobby, como também ocupam os cargos de deputados e
senadores, articulando eles próprios as políticas e as leis favoráveis aos próprios negócios, como
flexibilização das leis de preservação ambiental e mudança do órgão responsável pela
demarcação de terras indígenas (Conti; Alves, 2019).
Ademais, um dos desafios mais significativos e atuais percebidos pelo Brasil – e profundamente
relacionado ao sistema econômico vigente e às ideias de individualismo e responsabilidade –
consiste na manutenção de uma ordem ambiental equilibrada em nosso território, sobretudo em
função dos padrões de consumo vigentes na sociedade contemporânea.
Consumo e consumismo
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Seja como for, o comportamento consumista apresenta profundos impactos no meio ambiente
em que vivemos, seja porque os recursos naturais são utilizados na produção desses bens e
serviços, na condição de insumos do processo produtivo, seja porque seu consumo produzirá
resíduos ou descartes prejudiciais ao ambiente. Os impactos ambientais podem sem
considerados externalidades negativas da dinâmica econômica, isto é, efeitos não propositais de
uma atividade econômica que acabam afetando, nesse caso negativamente, pessoas que sequer
participaram dessa atividade.
Assim, quando uma fábrica polui o ar de uma cidade inteira, ou quando nossos carros produzem
fumaça que contribuem para essa poluição, percebemos, uma vez mais, que nosso
comportamento individual não se desenvolve de modo separado da vida coletiva, reforçando a
necessidade de mantermos padrões éticos também no que se refere aos níveis de consumo que
desejamos enquanto indivíduos e sociedade. A aplicação dessa ética no campo ambiental pode
sugerir diferentes e criativos padrões alternativos, por exemplo, a consolidação da reciclagem
enquanto prática habitual no Brasil, o compartilhamento de bens e serviços que reduz os custos
ambientais – dar carona, dividir eletrodomésticos de uso esporádico entre vizinho ou familiares
–, o estabelecimento de clubes de trocas de produtos que possam ser reutilizados ou mesmo a
simples manutenção ou conserto de bens, evitando novas compras.
Vamos Exercitar?
Vamos retomar os questionamentos sobre uma hipotética empresa de produtos eletrônicos
prestes a lançar um novo modelo de smartphone produzido com materiais raros, de difícil
extração, cujos impactos ambientais são altamente degradantes e são adversas as condições da
mão de obra. De que modo os conteúdos trabalhados nesta aula auxiliam na busca por
orientações?
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Como vimos, a bioética é um campo interdisciplinar que lida com questões éticas emergentes
nas áreas da biologia, medicina e tecnologia, promovendo reflexão crítica a respeito das
implicações morais relacionadas à vida, saúde e pesquisa científica. Sua importância reside em
guiar práticas e decisões nessas áreas, garantindo que avanços científicos e tecnológicos
respeitem valores humanos fundamentais. Ela é crucial para orientar a aplicação responsável da
ciência e da tecnologia no domínio da vida (animal e vegetal) e da saúde.
O exercício da cidadania ambiental chama atenção, portanto, à finitude dos recursos ambientais
e à ameaça para a humanidade do uso predatório dos bens naturais (Acosta, 2016). Da mesma
forma, somos chamados para a reflexão de que um desastre ambiental não pode mais ser
considerado local ou nacional, mas sim global, já que seus efeitos ameaçam a vida na terra.
Saiba mais
A obra escrita por Elizeu Barroso Alves, Consumo e sociedade: um olhar para a comunicação e
as práticas de consumo (2019), disponível em sua biblioteca virtual, fornece um importante
panorama das relações do consumo com a sociedade, proporcionado ao leitor desenvolver sua
própria reflexão a respeito do assunto. Nesse sentido, fala das principais transformações da
sociedade (relacionando a discussão com o consumo e os pensamentos mercadológicos),
discute o papel da comunicação no consumo e debate a globalização e as relações mercantis.
Reflita
Leia os trechos a seguir de reportagem realizada um ano após o crime ambiental em Mariana:
Ao revisitar as ruínas do distrito de Bento Rodrigues, a agricultora Marinalva dos Santos Salgado,
conseguia explicar o que era cada cantinho do vilarejo, devastado pela avalanche de rejeitos.
Mesmo doído, o retorno ameniza a saudade e, porque as lembranças revividas ali a aproximam
de tudo que lhe faz falta: dos amigos que se foram, dos vizinhos que não estão por perto, de sua
casa e da carta que seu marido havia escrito com declarações de amor e registros de 22 anos de
casamento. Ele morreu cinco anos antes da destruição de Bento, e Marinalva não teve tempo de
pegar nenhuma recordação de seu companheiro naquele 5 de novembro.
“Casa eu consigo de volta, mas isso não consigo mais. Ele escreveu na agenda muitas coisas
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sobre a vida da gente, me agradecendo pelo que a gente viveu junto, os maus momentos, os
bons momentos, me declarando amor na hora da morte. Até a camisa que ele morreu com ela,
que nunca havia sido lavada, se foi com a lama. Isso daí era o meu bem mais precioso”, revela.
[…]
Os números da tragédia são todos de grandes proporções: 256 feridos, 300 desabrigados, 424
mil pessoas sem água. Exceto um deles, o de condenados ou presos até agora, que é zero. Um
ano depois, 22 pessoas são denunciadas, sendo 21 por homicídio com dolo eventual, quando se
assume o risco de matar. As lembranças ainda são latentes, como se o dia 5 de novembro de
2015 realmente nunca tivesse acabado. Bento Rodrigues virou ruína e permanece afundado em
lama, o rio Doce parece marcado para sempre por uma mancha escura de impurezas e tristeza
(Ferreira, [s. d.], [s. p.]).
Referências
ACOSTA, A. O bem viver: uma oportunidade para imaginar outros mundos. São Paulo: Autonomia
Literária, Elefante, 2016.
AUGUSTO, L. Samarco fraudou documentos e ocultou dados para manter barragem, diz MP.
Exame, São Paulo, 10. jun. 2016. Disponível em: https://exame.com/negocios/samarco-fraudou-
documentos-e-ocultou-dados-para-manter-barragem-diz-mp/. Acesso em: 7 fev. 2019.
FERREIRA, B. Tristeza que não tem fim. O Tempo, [s. d.]. Disponível em:
https://www.otempo.com.br/polopoly_fs/1.1395510.1478314849!/tristeza.html. Acesso em: 7
fev. 2019.
GRAÇA, A. Samarco e o Poder Público. Jornal da Unicamp, 5 fev. 2018. Disponível em:
https://www.unicamp.br/unicamp/ju/noticias/2018/02/05/samarco-e-o-poder-publico. Acesso
em: 7 fev. 2019.
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KRENAK, A. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MOVIMENTO DOS ATINGIDOS POR BARRAGENS (MAB). Secretaria Nacional. Análise do MAB do
crime causado pelo rompimento da barragem da Samarco (Vale/BHP Billiton). São Paulo: MAB,
set. 2016. Disponível em: https://issuu.com/mabnacional/docs/combinepdf. Acesso em: 7 fev.
2018.
SHIKI, S.; SHIKI, S. F. N.; ROSADO, P. L. Políticas de pagamento por serviços ambientais no Brasil:
avanços, limites e desafios. In: GRISA, C.; SCHNEIDER, S. Políticas públicas de desenvolvimento
rural no Brasil. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2015.
Aula 4
Mídias digitais - desafios à um país autônomo
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Ponto de Partida
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Em uma plataforma de mídia social popular, usuários têm a opção de permanecerem anônimos
ao compartilhar conteúdo, incluindo notícias e informações. Recentemente, têm surgido diversos
casos de disseminação deliberada de notícias falsas, calúnias e informações difamatórias,
muitas vezes perpetuadas por perfis anônimos. Essas fake news têm causado impactos sérios
na sociedade, influenciando decisões políticas, alimentando teorias conspiratórias e
prejudicando a reputação de pessoas e organizações. A confiança nas informações on-line está
erodindo, e as consequências estão se estendendo para além do ambiente digital.
Impacto na confiança pública: como lidar com o impacto crescente na confiança pública em
relação às informações on-line e como isso afeta a participação cívica e a formação de opinião?
Legislação e regulação: qual deve ser o papel do governo na criação de legislação e regulação
que aborde a disseminação de fake news sem infringir os direitos de privacidade dos cidadãos?
Vamos Começar!
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informação são inegáveis, alterando hábitos e rotinas ao redor de todo o mundo. Entretanto, na
condição de instrumento técnico, a internet pode ser utilizada tanto para fazer o bem como para
propósitos perversos (Conti; Alves, 2019). Vamos explorar algumas das adversidades que
enfrentamos decorrentes dos usos perversos que o ser humano faz deste advento tecnológico.
Podemos identificar que um dos problemas iniciais está na possibilidade de anonimato, um forte
estímulo ao comportamento extremista. A dificuldade de rastrear a origem ou a autoria de um
conteúdo divulgado pelas mídias digitais incentiva que esse seja o meio escolhido para a difusão
de materiais de doutrinação extremista. Semelhantemente, se a identidade pessoal pode ser
escondida mais facilmente na internet, o próprio conteúdo disseminado digitalmente sofre um
menor controle se comparado a outros tipos de comunicação, como jornais ou revistas,
facilitando que ideologias racistas ou preconceituosas, por exemplo, alastrem-se pelas redes
digitais.
A utilização das mídias digitais eleva a capacidade de mobilização dos agentes extremistas,
aproximando virtualmente indivíduos que se encontram geograficamente dispersos em um país
– ou mesmo ao redor do globo. Nesse contexto, a utilização de algoritmos pelas redes sociais e
outras plataformas digitais acaba por criar o chamado “efeito bolha”, ou “câmaras de eco”, na
medida em que os meios digitais são programados para reforçar os conteúdos já pesquisados
pelo internauta, reafirmando suas convicções e passando a impressão de que seu ponto de vista
é o único existente, ou o preponderante. Esse processo pode ser ainda mais intenso se o
internauta se recusa a acessar pontos de vista ou opiniões diferentes, na chamada
“autocensura”, um movimento que reduz a diversidade nas fontes e nas perspectivas por ele
analisadas.
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Um ponto que merece destaque nessa análise da utilização das mídias digitais para propósitos
extremistas é a facilidade com que qualquer indivíduo pode fazer parte dessa engrenagem. Se a
explosão de uma bomba, o ataque físico a minorias ou um ato de vandalismo exigem um
comprometimento maior do agente, a difusão de material extremista na internet ou a propagação
de fake news podem decorrer de um leve descuido dos internautas.
Siga em Frente...
Banalidade do mal
A respeito da reprodução de conteúdo falsos nas redes sociais, ao permitir que sejam postados
conteúdos desconhecidos em sua conta nas redes sociais, ou ao divulgar informações incertas
aos conhecidos, um indivíduo pode estimular o processo de desinformação característico das
mídias digitais. Nota-se, nesse caso, que não há necessariamente o objetivo expresso de causar
o mal, mas apenas a ausência de uma reflexão maior acerca das consequências negativas da
conduta estabelecida, aproximando-se do conceito de “banalidade do mal”, de Hannah Arendt.
Nessa concepção, a filósofa argumenta que a maldade não necessariamente está ligada
obrigatoriamente a uma finalidade cruel por parte do indivíduo, mas a simples falta de juízo
crítico sobre uma conduta, realizada de modo irrefletido, já é suficiente para caracterizar o mal
(Arendt, 2006); com o advento da internet, esse comportamento imprudente pode ter um alcance
inédito, com consequências extremamente perigosas.
Desde então, histórias bárbaras como esta se repetem. Recentemente, na Índia, um homem de
26 anos foi confundido com um sequestrador de crianças exibido em um vídeo. Apanhou até a
morte. Novamente uma invenção: tratava-se de uma campanha veiculada no Paquistão,
alertando para a segurança dos menores nas ruas. O material foi editado e compartilhado via
redes sociais, levando a população em pânico a matar outro inocente – nos últimos meses, o
país registrou dezenas de casos parecidos (Carpanez, 2018, [s. p.]).
Pós-verdade e negacionismo
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Termo recorrente nos dias de hoje, a pós-verdade inverte o processo tradicional da formação de
opiniões, no qual fatos objetivos produzem uma certa percepção sobre a realidade, fazendo com
que a própria vontade que um indivíduo tem sobre algo ser ou não verdade interfere na sua
compreensão dos fatos.
Consolidada com certa frequência nas conversas cotidianas e nas mídias digitais, a pós-verdade
se torna ainda mais preocupante quando inserida em contextos nos quais a busca pela verdade é
algo essencial, como na ciência. Assim, o estabelecimento de procedimentos científicos que
relativizam a verdade, desviando suas conclusões para objetivos e interesses específicos, dá
origem àquilo que chamamos de fake science, “falsa ciência” ou “pseudociência”. Nesse
contexto, muito embora a tecnologia possa fornecer, como vimos, instrumentos para a
propagação do fanatismo, o radicalismo pode, em sentido inverso, se opor aos avanços da
ciência, refutando evidências que os estudos e pesquisas sérias insistem em oferecer em
benefício de resultados alternativos obtidos pela fake science. Trata-se, nesse caso, do
negacionismo, cuja aplicação mais significativa da contemporaneidade tem por objeto o
aquecimento global.
O aquecimento global pode ser compreendido, grosso modo, como um fenômeno de elevação
das temperaturas médias da atmosfera e dos oceanos terrestres, se comparados aos dados
registrados décadas atrás, em razão do calor ocasionado pela ação humana – sobretudo em
função dos gases causadores do efeito estufa. Por sua natureza transfronteiriça –isto é, que não
está restrita a nenhum país específico – esse fenômeno constitui um dos mais graves problemas
da ordem mundial contemporânea, cujas consequências se mostram extremamente perigosas –
incluindo o derretimento de calotas e áreas polares, a elevação dos níveis dos oceanos, a
desertificação de áreas férteis, por exemplo (Conti; Alves, 2019).
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níveis atuais de emissão de gases de efeito estufa produzirão efeitos irreversíveis no ambiente,
afetando negativamente a saúde humana, o crescimento econômico mundial e, claro, os
ecossistemas de nosso planeta.
A perspectiva notificada pelo IPCC, relativa à existência e à gravidade do aquecimento global, foi
objeto de um estudo científico que, em 2013, constatou ser essa a conclusão obtida pela quase
totalidade dos artigos científicos que abordaram o tema, em escala global. Em um universo de
cerca de 12 mil trabalhos científicos, aproximadamente 99% atribuíam ao homem a principal
causa das mudanças climáticas observadas (Ebel, 2013). Nesse contexto, contando com um
suporte científico ínfimo – de cerca de 1% da produção especializada sobre o tema, e
contrariando o principal foro de análise da questão, o IPCC –, os negacionistas afirmam que o
aquecimento global é um fenômeno inexistente, ou que a ação humana seria irrelevante para tal
elevação das temperaturas. Por este motivo – a falta de embasamento científico, e a abundância
de conclusões em sentido contrário – os argumentos negacionistas são comumente
classificados como pseudocientíficos, isto é, podem até apresentar uma aparência científica,
mas, entretanto, não resistem a uma averiguação mais robusta. Foram constatados erro graves
na argumentação negacionista, por exemplo, a escolha enviesada de dados que contribuem para
a conclusão pretendida, mas que não representam com fidelidade o total de informações
disponíveis, ou mesmo a utilização de artifícios matemáticos para moldar os resultados obtidos
(Será que…, 2017).
Adicionalmente, e ainda mais grave, identificou-se que alguns dos estudos negacionistas foram
financiados por companhias interessadas em refutar a ideia de aquecimento global, como as do
ramo energético. Nesse caso, é evidente o conflito de interesses existente na elaboração das
pesquisas, reduzindo a credibilidade dos resultados obtidos (Orf, 2015).
A xenofobia pode ser caracterizada como o sentimento de aversão, desprezo ou ódio contra
aquele que é considerado diferente. Se a formação da palavra deriva da junção de xénos
(estrangeiro, estranho) e phóbos (medo), ambos do grego, a concepção atual do termo não se
restringe à repulsa unicamente ao estrangeiro, àquele que vem de outro país, mas também inclui
todo indivíduo considerado pelo xenófobo como diferente de seu grupo social, podendo ser
baseada em critérios de raça, etnia ou cultura, por exemplo, mesmo entre indivíduos de um
mesmo Estado. O ultranacionalismo, por sua vez, compreende uma valorização exacerbada e
fervorosa do sentimento de pertencimento a uma nação, apresentando, em contrapartida, um
desprezo em relação aos não nacionais; assim, são características frequentes do
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Assim, crescem nesse período do século XXI os movimentos de oposição aos fluxos migratórios,
sendo observados, por exemplo, com grande vigor no continente europeu, no qual partidos
radicais têm obtido vitórias expressivas nos processos eleitorais, sob promessas de barrar a
entrada de imigrantes (Conti; Alves, 2019). No Brasil, esse preconceito é observado sob um
aspecto internacional, em que imigrantes são hostilizados em razão da utilização de serviços
públicos nacionais (como é o caso dos venezuelanos no estado de Roraima), por critérios raciais
(nas ofensas a imigrantes haitianos), por intolerância religiosa (nos ataques a refugiados sírios),
entre outros; ainda, constata-se no país uma nefasta discriminação regional, atribuindo-se a
populações de estados diversos da federação a responsabilidade por dificuldades de nosso país,
em clara perspectiva xenófoba (Nordeste…, 2018, [s. p.]).
Para concluirmos nosso estudo, a contribuição do filósofo Karl Popper (1902–1994), em seu
paradoxo da tolerância, revela não haver espaço para ideologias autoritárias, preconceituosas e
antidemocráticas:
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Vamos Exercitar?
Vamos exercitar o questionamento da situação-problema: qual tratamento deveria ser
dispensado às ondas de preconceito nas mídias digitais? Essa situação destaca a complexidade
da interação entre mídias digitais, anonimato on-line e disseminação preconceitos e de fake
news, exigindo uma abordagem holística que leve em consideração as dimensões éticas, sociais,
culturais legais e educacionais. É uma questão séria que demanda abordagens conscientes e
proativas para promover um ambiente on-line mais inclusivo e respeitoso. Algumas das possíveis
estratégias para tratar o preconceito nas mídias digitais são:
A abordagem eficaz para tratar o preconceito nas mídias digitais requer uma combinação de
esforços, desde políticas robustas até educação e engajamento com a comunidade. As
plataformas on-line têm a responsabilidade de criar ambientes virtuais seguros e inclusivos para
todos os usuários.
Saiba mais
A obra organizada por Maria da Glória Gohn, chamada Ativismos no Brasil: movimentos sociais,
coletivos e organizações sociais civis - como impactam e por que importam? (2022), disponível
em sua biblioteca virtual, fornece um importante panorama de alternativas para um futuro que
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restitua direitos e dignidades que estão sendo usurpados. Este livro tem um diferencial: o tempo
histórico em que ele foi escrito e a maioria dos acontecimentos que são narrados e analisados.
Um tempo que afetou e impactou de forma diferente todos os seres humanos: o tempo da
pandemia da covid-19. Não só tempo de incertezas e de medo do presente, mas também de
busca de caminhos para mudanças sociopolíticas e culturais que possam manter viva a
esperança para um futuro diferente. Um futuro que nos livre da barbárie do presente, que
contemple novos horizontes, que reflita as mudanças operadas na sociedade, e não simples
tentativa de regresso ao passado. Ou seja, um futuro com justiça social, sem desigualdades
socioeconômicas, que nos dê esperança e “calma na alma”, como diria um poeta.
É relativo…
Referências
ARENDT, H. (1963). Eichmann in Jerusalem: a report on the banality of evil. New York: Penguin
Books, 2006.
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31 jan. 2019.
ENTENDA quem são os rohingyas, a minoria mais perseguida do mundo. O Globo, 14 set. 2017.
Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/entenda-quem-sao-os-rohingyas-minoria-mais-
perseguida-do-mundo-21820859. Acesso em: 5 fev. 2024.
ORF, D. Cientista que nega o aquecimento global era financiado por empresas de energia.
Gizmodo, 24 fev. 2015. Disponível em: https://goo.gl/JYwAfH. Acesso em: 31 jan. 2019.
SERÁ QUE fazem sentido os estudos que negam o aquecimento global? Galileu, 6 set. 2018.
Disponível em: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/noticia/2017/12/sera-que-fazem-
sentido-os-estudos-que-negam-o-aquecimento-global.html. Acesso em: 13 fev. 2019.
VILA-NOVA, C. Monge budista entoa sermões de ódio contra minoria islâmica de Mianmar. Folha
de S. Paulo, 22 out. 2017. Disponível em:
Disciplina
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https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2017/10/1929190-monge-budista-entoa-sermoes-de-
odio-contra-minoria-islamica-de-mianmar.shtml. Acesso em: 5 fev. 2024.
Aula 5
Encerramento da Unidade
Videoaula de Encerramento
Estudante, esta videoaula foi preparada especialmente para você. Nela, você irá aprender
conteúdos importantes para a sua formação profissional. Vamos assisti-la? Bons estudos!
Ponto de Chegada
Olá, estudante! Para desenvolver a competência desta unidade, que é refletir a respeito das
relações étnico-raciais e a pluralidade da sociedade brasileira quanto a questões identitárias no
século XXI, seus valores culturais e modos de organização da vida coletiva, você deverá
compreender primeiramente conceitos e debates contemporâneos fundamentais.
Se é verdade que os avanços tecnológicos mais recentes podem expandir padrões de vida ao
redor do globo com maior facilidade, as reações naturais a essa uniformização tendem a
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ressaltar diferenças, que também serão divulgadas com mais profusão nos meios tecnológicos.
Os processos de padronização e diferenciação encontram-se, curiosamente, intensificados nos
dois sentidos.
Diante desse quadro, se queremos compreender alguns dos elementos fundamentais para uma
abordagem crítica dos dilemas éticos e políticos atuais, com o objetivo de fortalecer nossa
participação cidadã na sociedade brasileira contemporânea, devemos refletir a respeito de
questões importantes, como a relação entre a democracia e a pluralidade, levando em conta toda
uma série de conceitos específicos desses campos de estudo. Também, para assegurar o
aspecto crítico e humanista de nossa formação, precisamos nos atualizar em relação às novas
formas de afirmação das identidades contemporâneas; abordando, igualmente, a retomada de
movimentos tradicionalistas e avessos a essas novidades.
Você provavelmente já ouviu alguém dizer – inclusive nesta disciplina – que muitas das ideias
que temos hoje foram criadas ou influenciadas pelos movimentos liberais e pelo pensamento
iluminista, não é mesmo? E quando pensamos nos indivíduos que realizaram essas
contribuições, nos lembramos de Voltaire, Kant, Rousseau, Adam Smith – todos homens. Fica a
pergunta: as mulheres não influenciaram esses movimentos? Não houve mulheres intelectuais e
engajadas nesses processos? Absolutamente havia. Apesar de a sociedade ocidental moderna
ter se desenvolvido a partir de uma perspectiva androcêntrica, isto é, que coloca o homem como
medida de todas as coisas, as mulheres sempre estiveram presentes, ocuparam e concretizaram
todos os diferentes movimentos de participação social.
Contudo, a tendência de não nos lembrarmos de figuras femininas nesses processos históricos é
apenas mais um exemplo de como existem relações de poder que influenciam o modo como
apreendemos e reproduzimos o mundo, reduzindo, nesse caso, a importância histórica das
mulheres para a construção de nossa sociedade.
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Suas ideias progressistas e sua ousadia em desafiar as normas da sociedade contribuíram para
que fosse vista como uma figura controversa durante a Revolução Francesa. Infelizmente, sua
atividade política levou-a a ser perseguida e, em 1793, Olympe de Gouges foi condenada à
guilhotina durante o período mais radical da Revolução, conhecido como o Reinado do Terror.
Seu legado, no entanto, vive por meio de suas escritas, que continuam a ser estudadas e
lembradas como contribuições importantes para o movimento pelos direitos das mulheres e para
a história da Revolução Francesa.
Diante desse e outros tantos exemplos que nos convidam à revisão dos princípios que orientam
nosso olhar, discursos e condutas, devemos nos perguntar se vivemos em um mundo mais
receptivo ou mais fechado às mudanças, às diferenças, do que em tempos passados. Vejamos
como o líder indígena Ailton Krenak se posiciona frente à diversidade humana:
Definitivamente não somos iguais, e é maravilhoso saber que cada um de nós que está aqui é
diferente do outro, como constelações. O fato de podermos compartilhar esse espaço, de
estarmos juntos viajando não significa que somos iguais; significa exatamente que somos
capazes de atrair uns aos outros pelas nossas diferenças, que deveriam guiar o nosso roteiro de
vida. Ter diversidade, não isso de uma humanidade com o mesmo protocolo. Porque isso até
agora foi só uma maneira de homogeneizar e tirar nossa alegria de estar vivos (Krenak, 2019).
Nessa postura, Krenak (2019) chama atenção para o modo como podermos aprender a conviver
e a crescer, respeitando, coexistindo, com a pluralidade de possibilidades de existências dos
seres humanos, capazes de estabelecer suas preferências de forma autônoma.
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Igualmente, a reflexão a respeito do meio ambiente aborda a interação complexa entre os seres
vivos e os componentes físicos do planeta, examinando os impactos das atividades humanas
nesse equilíbrio. Envolve a compreensão de ecossistemas, biodiversidade, mudanças climáticas
e a influência das ações humanas na saúde e sustentabilidade do ambiente. Este estudo busca
promover a conscientização acerca da importância da conservação, adoção de práticas
sustentáveis e políticas que visem à preservação ambiental para as gerações presentes e
futuras.
Devemos sempre prestar uma atenção especial para questionarmos se existem relações de
hierarquia que restringem a pluralidade inerente à espécie humana, transformando nossas
diferenças em desigualdades, hierarquizando pessoas e espécies. Se desejamos promover a
diversidade e a pluralidade como alicerces de nossos regimes políticos e das dinâmicas sociais
em nosso país e no mundo, é necessário admitir e fortalecer o valor de movimentos inovadores e
a revisão de nossos princípios para ideais mais críticos e emancipatórios.
É Hora de Praticar!
Refletir a respeito do meio ambiente e dos desafios que a humanidade enfrenta para preservá-lo
no século XXI é uma preocupação que deve pautar nossa conduta profissional e nosso exercício
da cidadania.
Propomos a seguir um estudo de caso para sensibilizá-lo a essa postura. Leia os trechos da
reportagem realizada um ano após o crime ambiental em Mariana:
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Além dos danos causados ao meio ambiente, quais são os impactos sobre as vidas das
pessoas?
Como equacionar os interesses privados de uma grande empresa mineradora e o interesse
público, o bem comum?
O transcorrer do tempo traz consigo, automaticamente, mais liberdade e uma maior aceitação
das diferenças, ou essa pluralidade pode ser reduzida conforme os dias passam, exigindo um
esforço específico para sua manutenção? Além disso, essa diversidade seria boa ou ruim para a
formação das sociedades? Será que alguns problemas já longínquos da espécie humana –
racismo, machismo, nacionalismos – foram solucionados ou, pelo contrário, acentuados?
Sejam quais forem as respostas para tais questionamentos, a busca para defini-los exige,
certamente, reflexões e questionamentos fundamentais para nos situarmos de modo consciente
na sociedade em que vivemos.
Os crimes ambientais têm impactos significativos não apenas no meio ambiente, mas também
na sociedade como um todo. Alguns dos impactos sociais desses crimes se estendem para o
acometimento da saúde da população; promoção do deslocamento forçado de comunidades;
graves prejuízos materiais e econômicos; aumento das desigualdades sociais; perda da
biodiversidade e dos recursos naturais; falta de qualidade de vida; e ainda uma série de outras
repercussões sociais e legais. Em suma, os crimes ambientais têm ramificações profundas que
afetam diretamente a vida das comunidades impactadas. Combater esses crimes requer uma
abordagem holística que leve em consideração tanto os aspectos ambientais quanto os sociais.
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Equilibrar os interesses de uma grande empresa e do bem comum pode ser desafiador, mas é
fundamental para promover o desenvolvimento sustentável e a harmonia social. Dentre as
estratégias que podem ajudar a alcançar esse equilíbrio, podemos mencionar a
Responsabilidade Social Corporativa (RSC); a necessidade de diálogo e engajamento com os
stakeholders; a adoção de padrões éticos e a governança corporativa; a promoção da
sustentabilidade ambiental das operações, com gestão eficiente de recursos naturais e
investimento em inovações ecoeficientes; transparência e comunicação sobre as práticas da
empresa; cumprimento da conformidade legal e regulatória trabalhista e ambiental; educação e
capacitação para funcionários, clientes e comunidades, fortalecendo o capital humano e
contribuindo para o desenvolvimento sustentável.
Ao adotar uma abordagem equilibrada que considera não apenas os lucros, mas também os
impactos sociais e ambientais, as empresas podem desempenhar um papel construtivo na
promoção do bem comum e na construção de uma sociedade mais sustentável e equitativa.
O papel que o Estado desempenha também é crucial na abordagem de crimes ambientais, sendo
responsável por aplicar e fazer cumprir as leis e regulamentações que protegem o meio
ambiente. Além de ser o principal agente regulador e executor no combate a crimes ambientais,
aplicando penalidades quando necessário, é necessário que ele fomente, de forma preventiva, o
desenvolvimento de políticas públicas que abordam questões mais amplas relacionadas ao
desenvolvimento sustentável, planejamento urbano e conservação de ecossistemas.
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