Resenha bibliográfica
Perma, A. G.História das idéias psicológicas. Rio de Janeiro, Zahar, 1980. 151 p.
Depois de sua Introdução à história da psicologia contemporânea, publicada em 1978 pela
mesma editora, Gomes Perma retoma a temática histórica com o presente texto que revela uma
abordagem nova e crítica de como se deve escrever a história de uma ciência. Durante a leitura
das primeiras páginas, o leitor reconhece logo que tem pela frente um scholar que alia, a uma
invejável cultura ftlosófico-psicológica, uma grande facilidade de expor suas idéias num estilo
agradável, claro e preciso, sem fazer concessões à superficialidade.
Mas o que reserva o texto aos estudantes e profissionais da área de psicologia e disciplinas
afms? Do meu ponto de vista reserva uma agradável surpresa, pois representa uma quebra na
rotina dos textos clássicos da história da psicologia por se achar impregnado de uma preocu-
pação metateórica e crítica. O livro é dividido em três partes: a) história das ciências e seus
problemas; b) história das idéias psicológicas; c) emergência da psicologia científica.
A primeira parte constitui"sem dúvida, a parte central do texto já que o autor coloca o
leitor informado sobre os complexos e ricos meandros de uma metodologia histórica. Questões
relativas à evolução da ciência psicológica, e, se esta evolução se fez e se faz dentro de um
_ quadro de continuismo ou não, ou se ela se desenvolve em períodos de crise, como sugere
Kuhn, são amplamente discutidas e fundamentadas numa rica citação da literatura e estrutura
lógica. Para os psicólogos não deixam de ser inquietantes as colocações que o autor apresenta,
fundamentado em Canguilhem, Piaget e Bartlett, se a psicologia é ou não uma ciência. Seria a
psicologia atual, mesmo após o seu primeiro século de experimentalismo " .•. mistura de uma
ftlosofia sem rigor, de uma ética sem exigência e de uma medicina sem controle" (p. 37), ou,
como argumenta Piaget, uma ciência que se fundamenta, entre outros pontos, no fato de adotar
modelos fornecidos pela ciência da natureza e por delimitar rigorosamente os seus métodos?
Concluindo esta primeira parte, Gomes Perma coloca o leitor informado sobre o problema que
hoje se abate sobre a psicologia e que é o da psicologia histórica, e, que encontra apoio em
pensadores co·mo Foucault e Meyerson. O último, por exemplo, empresta à história aquele
poder de quadro de referência obrigatório na explicação da evolução da psicologia, sendo uma
ciência rectrix.
Já na segunda parte do seu texto, Gomes Perma aponta os momentos críticos nos quais a
história das idéias psicológicas sofreram inflexões que determinaram mudança no seu rumo,
como, por exemplo, nos momentos grego, cristão, renascentista e na época das luzes. No
momento cristão são destacados dois teólogos clássicos, Agostinho e Thomas de Aquino. A
importância, por exemplo, de Agostinho para o nascimento da futura psicologia da linguagem é
reconhecida pelos modernos, já que tentou reconstruir seu próprio aprendizado da fala. (veja
... Confissões). O problema da possibilidade da existência da psicologia já era posto desde então. O
autor coloca esta questão fundamentado em Kant, cujas críticas sobre a possibilidade de uma
psicologia humana de natureza empírica incomodam até hoje. Kant a colocou em três questões:
Arq. bras. Psic., Rio de Janeiro, 34 (l): 93-98, jan./mar. 1982
a) o sujeito que pensa pode ser ao mesmo tempo sujeito e objeto do experimento? b) os
fenômenos psíquicos formam, na realidade, urna totalidade, e suas partes podem ser decom-
postas? ... c) Como não ver nesta questão o problema da gestalt? c) a experiência, por si própria
constitui u~ fator que muda e altera o estado do objeto sobre o qual se pretende explicar.
Como fundamentá-la?
Finalmente, na terceira parte, o autor considera a emergência da psicologia científica que
foi possível graças aos trabalhos de Muller, Fechner, Wundt, Ebbinghaus, James e Darwin. Não
deixa de ser inquietante seguir sua análise quando, fundamentado em Foucault, mostra que a
emergência da pSicologia científica está estreitamente veiculada à experiência patológica. Mas
logo atenua estas "origens" dizendo: "Mas outros critérios, não obstante, se poderão explorar
( ...) A idéia de urna psicologia capaz de se fundamentar no modelo da física, ( ...) a preocu-
pação com medida" (p. 133).
Este novo livro do Prof. Gomes Penna, aliado à sua introdução, oferece aos professores de
~icolga um curso muito bem montado de nossa ciência na sua dimensão histórica. ~ de se
lamentar, contudo, que o autor não tenha tido tempo de estudar o desenvolvimento das idéias
psicológicas no Brasil, e que está ainda para ser feita. A apresentação gráfica do livro poderia
também ter sido mais bem cuidado pela Zahar. Caso sua composição gráfica seguisse os padrões
europeus, sua apresentação seria mais estética e durável. Mas se já constitui um esforço quase
sobre-humano publicar-se no Brasil, saúdo, com boas-vindas, este livro do Prof. Gomes Penna.
ANTONIO RIBEIRO DE ALMEIDA
Touzard, Hubert. La mediLzción y la solución de /os conflictos. Barcelona, Herder, 1981. 365 p.
Em tempo de crise, quando a procura de rumos estáveis para superação de impasses aumenta e
se multiplicam as soluções para os mesmos problemas, diminui o consenso sobre as realizações
-
passadas e presentes. O conflito normal existente em todo organismo vivo, social ou biológico,
como processo da sua trajetória de auto-realização, torna-se, em tais circunstâncias, motivo de
preocupação.
Os últimos anos vêm presenciando, em vários campos do conhecimento, o estudo de
fenômenos ligados ao conflito, como a violência, a competição, o poder, com vistas ao desen-
volvimento de teorias voltadas para a solução dos mesmos. Hubert Touzard resume neste livro
as principais teorias e estudos experimentais sobre conflito social, e de modo sistemático traça o
desenvolvimento da negociação e mediação nos problemas grupais, sociais e internacionais. Inclui
nesta análise crítica, teorias de orientação psicológica, que situam o conflito na perspectiva das
motivações e reações individuais; teorias de orientação sociológica, que examinam o conflito a
partir das estruturas e entidades sociais; e, teorias de orientação psicossociológica, onde o
conflito é considerado do ponto de vista da interação das dimensões individuais e do sistema
social.
Situado numa posição molar, o autor conclui que nenhuma das concepções pode oferecer
uma descrição ou explicação satisfatória. Todas identificam fatores específicos a suas áreas de
investigação à exclusão de outros igualmente importantes, os quais em sua totalidade multidis-
ciplinar poderiam resultar na melhor estratégia para a elaboração de uma teoria mais realista do ....
conflito.
* N. do A. Como não ver nesta questão o problema da gestalt?
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