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Conceito de Autonomia

O documento discute o conceito de autonomia sob uma perspectiva bio-psico-social, enfatizando que a autonomia é um processo de auto-organização que depende da interação com o mundo externo e com os outros. A autora argumenta que a verdadeira autonomia é alcançada através de vínculos interdependentes que promovem a individualidade e a coesão social, em contraste com vínculos de dependência ou independência que limitam a percepção crítica da realidade. Além disso, a autonomia significativa é vista como um reflexo da socialidade, onde a liberdade e a individualidade se desenvolvem em um contexto de relações sociais complexas e mútuas.

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Conceito de Autonomia

O documento discute o conceito de autonomia sob uma perspectiva bio-psico-social, enfatizando que a autonomia é um processo de auto-organização que depende da interação com o mundo externo e com os outros. A autora argumenta que a verdadeira autonomia é alcançada através de vínculos interdependentes que promovem a individualidade e a coesão social, em contraste com vínculos de dependência ou independência que limitam a percepção crítica da realidade. Além disso, a autonomia significativa é vista como um reflexo da socialidade, onde a liberdade e a individualidade se desenvolvem em um contexto de relações sociais complexas e mútuas.

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O conceito de autonomia* - uma abordagem bio-psico-social

Denise Lemos**

Morin (1996), refletindo sobre a noção de sujeito e sobre o conceito de autonomia,


afirma a necessidade de iniciar a sua definição no plano biológico, e para isso, apoia-
se em Heinz Von Ferster (1968), que havia assinalado a existência de um paradoxo
implícito a essa concepção. Segundo Ferster, autonomia implica em auto-organização,
que necessita estar permanentemente sendo construída e reconstruída e para isso
precisa de energia. Em virtude do princípio da termodinâmica, é necessário que esse
sistema extraia energia do exterior, isto é, para ser autônomo, é necessário depender
do mundo externo. Essa dependência não é só energética, é também informativa, pois
o ser vivo extrai informação do mundo exterior para organizar o seu comportamento.

Na dimensão psicossocial da interação, da relação com a alteridade, Larrosa e Lara


(1998) argumentam que estamos obrigados à relação com a alteridade se queremos
estar vivos, se desejamos ser sujeitos de um processo. O Eu é parte do Outro, assim, a
liberdade não pode ser exercida solitariamente, “Não há possibilidade de construção
do Eu sem respeito ao não do Outro, que é dialeticamente um Outro e por sua vez,
um eu, e não há possibilidade de construção de um Eu sem responsabilizar-se
(respondere: responder diante de) por aqueles que foram excluídos.Não é uma defesa
nem um ataque, mas uma aprendizagem longa, comum e solidária” (LARROSA; LARA,
1998, p.166).

Pichon-Rivière (1985) traz a necessidade de compreender a diferença do vínculo


maduro, do vínculo saudável com outros tipos de vínculos psíquicos entre o indivíduo
e o grupo, ou entre o indivíduo e a instituição. Para o autor, existem três tipos de
vínculo: o vínculo de dependência ou não diferenciação que é um vínculo simbiótico,
onde não existe diferença entre o indivíduo e a instituição, há um processo de fusão,

*Trecho extraído da tese de doutorado “ Alienação no trabalho docente? o professor no centro da contradição”
. Defendida no programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFBA, 2007
** Psicóloga, Doutora em Ciências Sociais. Professora da Universidade Federal da Bahia. Página 1
de idealização, não é possível distinguir o Eu do Outro, “todos somos uno”, com
conseqüência da perda total de uma visão crítica sobre a realidade. O outro tipo de
vínculo é o da independência, que é o vínculo narcísico, onde o Eu está acima do
Outro, partindo do pressuposto do auto-abastecimento, da inexistência da
necessidade de compartilhamento, chegando à atitude da indiferença, que também,
não permite uma percepção crítica da realidade, devido ao processo de alheamento
da mesma. Finalmente, o vínculo interdependente, onde o Eu e o Outro são instâncias
diferenciadas, mas intercambiantes no sentido de que as necessidades são
reciprocamente significativas, e as relações estão baseadas em mecanismos de
comunicação e aprendizagem mútua. Em função dessa estrutura, caracteriza-se como
um vínculo cooperativo em relação à tarefa coletiva, um vínculo e um poder solidário.
É esse tipo de vínculo que permite desenvolver a autonomia, o ser sujeito no
processo, onde é possível, ao mesmo tempo, preservar a individualidade e articular-se
coletivamente em torno das necessidades comuns e complementares. Em síntese,
uma autonomia que só é possível existir, na medida em que constrói a coesão do
grupo e da instituição.

Mészáros (1981) ressalta que não é qualquer processo de autonomia que pode
igualar-se à diferenciação, mas só, na medida em que, a mesma for concebida como
uma reciprocidade social. Segundo o autor “ser diferente por ser diferente nada vale,
o conteúdo real da diferença que importa é aquela que pode ser integrada
socialmente, contribuindo com isso para o enriquecimento e o desenvolvimento
positivo do indivíduo social” (MÉSZÁROS, 1981, p.239). Na sua ótica, a autonomia
envolve necessariamente o outro: a autonomia humanamente significativa, na qual as
pessoas envolvidas “adaptam-se mutuamente às condições de intercâmbio e ao
mesmo tempo conservam o poder da iniciativa” (MÉSZÁROS, 1981, p.240). Chama
atenção para a diferença entre esse tipo de autonomia e a autonomia individual, a
qual definida nesses termos, enquanto slogan psicológico faz parte do processo de
alienação.

*Trecho extraído da tese de doutorado “ Alienação no trabalho docente? o professor no centro da contradição”
. Defendida no programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFBA, 2007
** Psicóloga, Doutora em Ciências Sociais. Professora da Universidade Federal da Bahia. Página 2
Para Mészáros (1981), a essência da natureza humana, e que não é o egoísmo, mas a
socialidade (isto é, o conjunto das relações sociais), a qual ao contrário do egoísmo,
ela não pode ser uma qualidade abstrata, inerente ao indivíduo isolado. Só pode existir
nas relações mútuas dos indivíduos. Como corolário, a realização adequada da
natureza humana não pode ser a concorrência – essa condição inconsciente da
humanidade, que corresponde ao egoísmo, mas, associação consciente.

Baseia-se em Marx, que descreve o homem como um ser universal e, portanto, livre, e
o poder que permite ser esse ser é derivado da socialidade. Isso significa que há uma
conexão direta entre liberdade, como universalidade do homem e a socialidade. De
acordo com Marx, a essência humana da natureza só começa a existir para o homem
social, sendo assim, a verdadeira individualidade não pode ser compreendida se nos
abstrairmos da socialidade. Nem mesmo se a forma de individualidade, que temos em
mente, é a atividade científica ou mesmo artística, criativa.

Marx ressalta que todo ser natural tem sua natureza fora de si mesmo. O sol é o objeto
da planta – um objeto indispensável a ela, confirmando sua vida – tal como a planta é
objeto do sol, do poder essencial objetivo do sol. Para ele, um ser que não tem a sua
natureza fora de si mesmo não é um ser natural e não desempenha qualquer papel no
sistema da natureza. Um ser que não tem objeto fora de si mesmo não é um ser
objetivo, não está relacionado objetivamente. Um ser não objetivo é um não-ser.

Mészáros (1981) explica que um ser, um homem não alienado, apresenta as seguintes
fases:
1) O homem é um ser natural
2) Como ser natural, tem necessidades naturais e poderes naturais para a sua
satisfação;
3) É um ser que vive em sociedade e produz as condições necessárias à sua
existência, de uma forma inerentemente social;
4) Como ser social produtivo, ele adquire novas necessidades (criadas através da
associação social) e novos poderes para sua satisfação;

*Trecho extraído da tese de doutorado “ Alienação no trabalho docente? o professor no centro da contradição”
. Defendida no programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFBA, 2007
** Psicóloga, Doutora em Ciências Sociais. Professora da Universidade Federal da Bahia. Página 3
5) Como ser social produtivo, ele transforma o mundo à sua volta, de uma
maneira específica, deixando nele a sua marca; tudo passa a ser, pelo menos,
potencialmente, parte das relações humanas (a natureza, nessas relações,
surge sob uma grande variedade de formas, indo de elementos materiais de
utilidade a objetos de hipótese científica e de prazer estético);
6) Estabelecendo uma base natural para as suas próprias condições de vida, na
forma de instituições sócio econômicas e seus produtos, o homem se reproduz
praticamente, lançando com isso, bases para contemplar-se num mundo que
ele mesmo criou.
7) Por meio de seus novos poderes, que são, tal como suas novas necessidades,
criadas através da associação e da interação social, e com base nessa
reprodução prática, ele também reproduz-se a si mesmo intelectualmente.

Para o autor, considerando essas características, não isoladamente, mas em suas


múltiplas inter-relações, vemos que a satisfação das necessidades humanas ocorre de
uma forma alienada se há a sujeição ao culto do eu; ou, ainda, significa que o eu é
descrito como uma criatura egoísta por natureza, ou como uma auto-consciência
abstrata.

A sociedade é a segunda natureza do homem, no sentido de que, as necessidades


naturais, originais são transformadas por ela e, ao mesmo tempo, integradas numa
rede muito mais ampla de necessidades, que são, no conjunto, o produto do homem
socialmente ativo. Portanto, abstrair-se desse aspecto no culto do eu em oposição ao
homem social, equivale ao culto de um eu alienado e super simplificado, porque o
verdadeiro eu do ser humano é um eu social, cuja natureza está fora de si mesmo,
isto é, define-se em termos de relações interpessoais, sociais imensamente complexas
e específicas. Mesmo as potencialidades do indivíduo só podem ser definidas em
termos de relações de que ele é apenas uma parte.

*Trecho extraído da tese de doutorado “ Alienação no trabalho docente? o professor no centro da contradição”
. Defendida no programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais da UFBA, 2007
** Psicóloga, Doutora em Ciências Sociais. Professora da Universidade Federal da Bahia. Página 4

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