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Giramundo 18 01

O artigo analisa a importância do desenvolvimento do raciocínio geográfico no currículo de Geografia da escola básica brasileira, destacando sua conexão com o pensamento espacial e a linguagem cartográfica. Os autores argumentam que essa cognição é essencial para a formação cidadã e deve ser mediada por perguntas geográficas em contextos selecionados pelos professores. A relevância da Geografia no currículo escolar é enfatizada como um caminho para garantir a formação de cidadãos críticos e reflexivos.
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Giramundo 18 01

O artigo analisa a importância do desenvolvimento do raciocínio geográfico no currículo de Geografia da escola básica brasileira, destacando sua conexão com o pensamento espacial e a linguagem cartográfica. Os autores argumentam que essa cognição é essencial para a formação cidadã e deve ser mediada por perguntas geográficas em contextos selecionados pelos professores. A relevância da Geografia no currículo escolar é enfatizada como um caminho para garantir a formação de cidadãos críticos e reflexivos.
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RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO, PENSAMENTO ESPACIAL E

CARTOGRAFIA NA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA BRASILEIRA

GEOGRAPHICAL REASONING, SPATIAL THINKING AND CARTOGRAPHY IN BRAZILIAN GEOGRAPHY EDUCATION

S O NIA MA R I A VANZELLA CAST ELLA R


Doutora em Geografia (USP)
Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP)
[email protected]

R O NA L D O GOULART DUARTE
Doutor em Geografia (USP)
Professor Adjunto do Instituto de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ-Maracanã)
[email protected]

RESUMO: NESTE ARTIGO O NOSSO OBJETIVO SERÁ ANALISAR A CENTRALIDADE DO DESENVOLVIMENTO DO RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO NO
CURRÍCULO DE GEOGRAFIA DA ESCOLA BÁSICA BRASILEIRA. COMPREENDEMOS ESSA MODALIDADE COGNITIVA COMO UM SISTEMA DE
PENSAMENTO QUE PÕE EM MOVIMENTO ARTICULADO OS CONCEITOS E PRINCÍPIOS DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA EM CONEXÃO À CAPACIDADE
DE PENSAR ESPACIALMENTE, NOTADAMENTE COM O APOIO DA LINGUAGEM CARTOGRÁFICA. ESSA COGNIÇÃO GEOGRÁFICA É MOBILIZADA
POR PERGUNTAS GEOGRÁFICAS E ESTAS, POR SUA VEZ, ESTÃO CONTEXTUALIZADAS POR SITUAÇÕES GEOGRÁFICAS SELECIONADAS
OU CONSTRUÍDAS PELOS PROFESSORES DESSA MATÉRIA ESCOLAR. A CARTOGRAFIA ESCOLAR É, NESSE SISTEMA, SIMULTANEAMENTE
UM CONTEÚDO E UMA METODOLOGIA E O PENSAMENTO ESPACIAL É UM CONTEÚDO PROCEDIMENTAL QUE COMPÕE O RACIOCÍNIO
GEOGRÁFICO. ENTENDEMOS QUE ESSA TAREFA É DE IMENSA IMPORTÂNCIA PARA OS PROFISSIONAIS VINCULADOS À EDUCAÇÃO
GEOGRÁFICA, COMUNGANDO DO PRINCÍPIO DE QUE ESSE É UM CAMINHO ROBUSTO PARA ASSEGURAR RELEVÂNCIA SOCIAL E PERTINÊNCIA
DESSE COMPONENTE CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO CIDADÃ NO PAÍS.
PALAVRAS-CHAVE: RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO; EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA; CARTOGRAFIA ESCOLAR; PENSAMENTO ESPACIAL; PERGUNTAS
GEOGRÁFICAS.

ABSTRACT: IN THIS PAPER, OUR GOAL IS TO ANALYZE THE PEDAGOGICAL IMPORTANCE OF DEVELOPING GEOGRAPHIC REASONING IN
BRAZILIAN GEOGRAPHY K-12 CURRICULUM. WE UNDERSTAND THIS TYPE OF COGNITION AS A SYSTEM OF THOUGHT THAT SETS IN MOTION
THE CONCEPTS AND PRINCIPLES EMBEDDED IN GEOGRAPHY IN CONNECTION WITH THE ABILITY TO THINK SPATIALLY, NOTABLY USING
THE CARTOGRAPHIC LANGUAGE. IN ADDITION, SUCH GEOGRAPHIC WAY OF THINKING IS TRIGGERED BY GEOGRAPHIC QUESTIONS RELATED
TO GEOGRAPHIC SITUATIONS, SELECTED OR CONSTRUCTED BY THE TEACHER OF THIS SUBJECT MATTER. SCHOOL CARTOGRAPHY IS, IN
THIS SYSTEM, SIMULTANEOUSLY A CONTENT AND A METHODOLOGY AND SPATIAL THINKING, IS A PROCEDURAL CONTENT THAT ENABLES
GEOGRAPHIC REASONING. WE UNDERSTAND THAT THIS TASK IS QUITE IMPORTANT FOR THE GEOGRAPHIC EDUCATION COMMUNITY,
SHARING THE PRINCIPLE THAT THIS IS A POWERFUL WAY TO ENSURE SOCIAL RELEVANCE AND PERTINENCE TO BUILD UP CRITICAL
CITIZENSHIP IN THE COUNTRY.
KEYWORDS: GEOGRAPHICAL REASONING; GEOGRAPHY EDUCATION; CARTOGRAPHY; SPATIAL THINKING; GEOGRAPHICAL QUESTIONS.

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INTRODUÇÃO defendermos que essa modalidade cognitiva


não se restringe a uma dimensão geométrica do
Este texto expressa a firme e inequívoca espaço nem está atrelada a um único paradigma
posição dos autores de que a finalidade maior científico. Na sexta e última parte, vamos
da Educação Geográfica na escola básica é a procurar vincular, de maneira sinótica, toda essa
de viabilizar a construção discente do raciocínio discussão à uma estratégia didática fundamentada
geográfico, em linha com as reflexões de diversos teórico-metodologicamente nas representações
autores (MORGAN, 2013, 2018; CASTELLAR, 2019; cartográficas e na situação geográfica, orientada a
CASTELLAR e DE PAULA, 2020; CASTELLAR, partir de perguntas geográficas. Por fim, na conclusão
PEREIRA E GUIMARÃES, 2021; CASTELLAR do artigo, nos propomos a realizar uma articulação
E BOTELHO, 2022; BOTELHO, 2022; DUARTE, sintética das nossas reflexões, buscando realçar os
2016, 2017a, 2017b; CAVALCANTI, 2005, 2019). nexos que estabelecemos entre os componentes do
Compreendemos o raciocínio geográfico como um raciocínio geográfico que evocamos neste texto.
sistema de pensamento que põe em movimento
articulado os conceitos e princípios da Ciência RACIOCINAR GEOGRAFICAMENTE: TAREFA PRINCIPAL
Geográfica em conexão à capacidade de pensar DA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA
espacialmente, notadamente com o apoio da
linguagem cartográfica. O raciocínio geográfico O lugar ocupado por um campo do
é mobilizado por perguntas geográficas e estas, conhecimento no currículo escolar nacional é o
por sua vez, estão contextualizadas por situações resultado de um complexo campo de forças sociais.
geográficas selecionadas ou construídas pelos Autores como Ivor Goodson (1990, 2018), Michael
professores. A Cartografia Escolar é, nesse sistema, Young (1971, 2007, 2011) e Basil Bernstein (1971),
simultaneamente um conteúdo e uma metodologia há muito nos ensinaram que para compreender
e o pensamento espacial é um conteúdo as dinâmicas que envolvem os saberes presentes
procedimental que compõe o raciocínio geográfico. nos currículos escolares, devemos analisar tanto
Com esse propósito, o artigo será organizado as complexas e assimétricas relações de poder
em seis seções, além da introdução e da conclusão. existentes nas sociedades quanto investigar o
Na primeira parte, realizaremos um conjunto de universo desses mesmos componentes curriculares,
apontamentos acerca do que entendemos ser a a partir de uma abordagem que as enxerga como
finalidade da Educação Geográfica na escola básica, possuidoras de uma vigorosa comunidade de
na perspectiva da sua relevância como componente profissionais, simultaneamente em competição e
curricular destinado a contribuir para a formação em colaboração entre si.
do cidadão brasileiro. Em seguida, faremos alguns Este nosso brevíssimo enquadramento de
breves apontamentos concernentes aos nexos uma perspectiva sociológica do currículo vincula-
que existem entre as reflexões sobre o raciocínio se aos propósitos deste texto como uma lembrança
geográfico na epistemologia científica da Geografia importante, que deveria ser óbvia, mas que nem
e no âmbito acadêmico da Geografia Escolar. sempre parece clara a todos. O lugar que uma matéria
Na terceira e na quarta partes, desenvolveremos escolar ocupa no currículo em dado momento
algumas considerações sobre o campo científico histórico, não é, de modo algum, imutável. As
que vem sendo denominado como pensamento possibilidades de que a relevância curricular desse
espacial (Spatial Thinking), objetivando situar conhecimento seja ampliada, diminuída ou mesmo
sinoticamente tanto a concepção mais difundida que ela seja eliminada do currículo, dependem
sobre essa modalidade cognitiva quanto algumas de todo esse complexo conjunto de forças sociais
de suas implicações e questionamentos no âmbito e corporativas que mencionamos no parágrafo
pedagógico. Ainda sobre a temática do pensamento anterior. Destaque-se que, em sociedades com
espacial, usaremos a quinta seção do texto para maior grau de democracia e acesso à informação,

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é muito relevante nesse cenário considerar o grau Por conta de todo esse quadro de
de valoração de cada saber pela maioria dos incertezas e transformações sociais, é imperativo
indivíduos que compõem essa sociedade. que a comunidade de profissionais da Geografia
O conteúdo de latim, por exemplo, já fez parte esteja plenamente consciente de que o seu lugar
do currículo da escola básica, tendo sido eliminada no currículo só subsistirá se formos competentes
do antigo ginasial (atual segmento do 6º ao 9º ano para impactar significativamente, e de modo
do ensino fundamental) em 1961, com a primeira singular, a formação do cidadão brasileiro. Caso
Lei de Diretrizes e Bases brasileira. A partir daquele contrário, existe sim o risco futuro desse campo
ano, o latim foi mantido apenas no equivalente a de conhecimentos ser socialmente percebido
um dos antigos ramos do atual ensino médio, então como desnecessário e ser eliminado, ao menos
chamado de Clássico (focado nas Humanidades), enquanto componente autônomo do currículo. Para
até ser banido completamente da educação básica, refletir sobre isso, é fundamental nos colocarmos
com o advento da Lei 5692/1971, a segunda LDB a seguinte pergunta: Qual a relevância atual da
do país. Podemos acrescentar a esses exemplos, contribuição da Geografia escolar para a formação
as matérias que existiram no período da ditadura do cidadão brasileiro? Ou perguntando de forma
militar, como OSPB (Organização Social e Política mais simples: Se a Geografia fosse retirada do
do Brasil) e Moral e Cívica, eliminadas com a currículo escolar ou passasse a ser ministrada
redemocratização do país. Há também o caso do também no ensino fundamental como parte do
ensino da língua francesa, que já foi obrigatória e conjunto de conhecimentos das Ciências Humanas
tem presença muito restrita na escola atual. e Sociais (como ocorre em muitas nações, como já
No caso específico da Geografia, é bom mencionamos), haveria uma grande reação contrária
lembrar que, na maioria dos sistemas escolares do por parte da maioria dos brasileiros? Será que a
mundo, é rara a obrigatoriedade desse conteúdo contribuição da Geografia é claramente percebida
figurar como conteúdo autônomo no currículo e valorizada pelos cidadãos? As respostas a essas
do equivalente ao nosso ensino fundamental. perguntas, a nosso juízo, são centrais para o futuro
Predominam os conteúdos geográficos no âmbito da Geografia na educação básica.
de matérias escolares, denominadas como Nossa posição é que uma resposta robusta
Ciências Sociais, ou amalgamadas com a História. a essas perguntas, e que assegure a relevância
No Brasil, ao contrário, vivemos a realidade pouco desse componente curricular escolar, passa
comum de termos a geografia com componente justamente pela capacidade da enorme comunidade
autônomo nos nove anos do fundamental, de especialistas da Geografia (aí incluídos tanto os
ministrada por professores, em princípio, com professores e pesquisadores universitários quanto
formação universitária específica nos quatro anos os professores da educação básica) ter sucesso
finais dessa etapa da escolaridade. em construir um processo de ensino-aprendizagem
Até há poucos anos, mais precisamente até o solidamente alicerçado no desenvolvimento
advento do Novo Ensino Médio (NEM), adicionavam- do raciocínio geográfico. As perguntas sobre a
se a esses nove anos, os três anos do ensino relevância da Geografia não podem ser retóricas,
médio, nos quais o componente curricular também há necessidade de se compreender a natureza
era obrigatório, perfazendo um total de 12 anos de da Ciência Geográfica e o seu papel no currículo
escolaridade, sete dos quais com licenciados nessa escolar.
ciência. Condição, sem dúvida, sui generis, ou ao Para fugirmos de uma representação
menos raríssima, em termos globais. Hoje, no ensino social ainda fortemente vinculada à concepção de
médio, os conhecimentos geográficos fazem parte um saber essencialmente informativo e garantir
de uma grande área de conhecimentos, as Ciências a merecida relevância social de um conteúdo
Humanas e Sociais Aplicadas, sem delimitação de com ampla significância para a formação de um
carga horária específica. cidadão crítico e reflexivo, entendemos ser crucial

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que o desenvolvimento de um olhar singularmente o âmbito da Educação Geográfica. Há muito


geográfico sobre a realidade seja consistentemente tempo esse questionamento atravessa a história
construído pelos milhões de alunos que passam epistemológica da ciência geográfica e é objeto de
pela escola no nosso país, através da mediação formulações diversas, a partir de matrizes teóricas
feita pelos professores de Geografia. distintas, tanto no Brasil quanto no exterior.
Esse nosso posicionamento está em linha A título de breve exemplo, uma das muitas
com o conteúdo do documento da BNCC para o referências bibliográficas internacionais que podem
ensino fundamental, na seção introdutória referente ser evocadas para a defesa da existência de um pensar
à Geografia: eminentemente geográfico é o artigo de Reginald
Golledge (2002), “A Natureza do Conhecimento
Essa é a grande contribuição da Geografia Geográfico” (The Nature of Geographic Knowledge).
aos alunos da Educação Básica: desenvolver Nele, encontramos uma seção com o sugestivo
o pensamento espacial, estimulando o racio- título: “A Geografia como um modo único de pensar
cínio geográfico para representar e interpretar e raciocinar acerca do mundo e seus habitantes”
o mundo em permanente transformação e re- (GOLLEDGE, 2002, p.3, tradução nossa). Nessa
lacionando componentes da sociedade e da seção, Golledge faz referência ao psicólogo Robert
natureza. (BRASIL, 2017, p.312) Beck, o qual, após ter trabalhado com um grupo de
geógrafos na década de 1960, sugeriu que
O escopo e o objetivo deste texto não
permitem que avancemos muito neste ponto, mas é (...) o pensamento espacial e a capacidade
preciso deixar claro, de partida, que essa proposta de de criar imagens e representações espaciais
construção do raciocínio geográfico na escola básica (isto é, a maneira como os geógrafos organi-
não se insere em um prisma de reforço de fronteiras zavam os seus pensamentos e apresentavam
disciplinares e de aprofundamento da especialização seus dados a outros) eram únicos da discipli-
de conteúdo. Ensinar a raciocinar geograficamente é na (GOLLEDGE, 2002, p.3, tradução nossa).
não apenas plenamente compatível com currículos
e práticas inter/transdisciplinares como valoriza Em nosso país, os autores nos quais
e qualifica a contribuição geográfica nessas encontramos fundamentos para entender a
interlocuções disciplinares. natureza e o sentido do raciocínio geográfico, tais
Além disso, nos moldes do que tem como Milton Santos, Armando Correa da Silva, Rui
sido proposto por diversos autores, o raciocínio Moreira, Paulo César da Costa Gomes, entre outros,
geográfico se inscreve no âmbito da alfabetização deram grandes contribuições para a epistemologia
científica, competência transversal e que pode ser e para a ontologia da Ciência Geográfica. O
entendida como meta e como método, perspectiva movimento que fazemos é o de mostrar que,
defendida por Castellar e Botelho (2022): “(...) na Educação Geográfica, há a necessidade de
abordamos o raciocínio geográfico potencializado seguir o mesmo percurso, o da epistemologia e o
pelo método para uma aprendizagem científica que do método. Um exemplo relevante mais recente
nos leve à compreensão do espaço geográfico”. e alinhado explicitamente com a discussão que
fazemos aqui, é o livro Quadros Geográficos, de
RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO: NEXOS COM A Paulo Cesar da Costa Gomes (2017). Nele, logo na
EPISTEMOLOGIA GEOGRÁFICA E OS COMPONENTES primeira linha da seção introdutória da obra em que
DESSA MODALIDADE COGNITIVA elabora o referencial teórico que dá nome ao livro,
o autor apresenta a seguinte pergunta, sucedida
Um ponto que não pode ser esquecido, imediatamente pela resposta que queremos realçar:
ainda que bastante evidente, é o fato de que as “O que é a Geografia? É uma forma de pensar. É
discussões sobre raciocínio geográfico extrapolam disso que aqui se trata” (GOMES, 2017, p.13).

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Outro autor importante nessas reflexões é a refletir e a discutir a construção do raciocínio


Rui Moreira: geográfico discente como pilar pedagógico, no
contexto da educação básica. Nos anos recentes,
Balizada nesse esquema teórico-metodoló- diversos pesquisadores no campo da Educação
gico, nossa ideia de mundo ganha o formato Geográfica vêm refletindo, produzindo e contribuindo
explícito de uma forma de representação – a significativamente para dar inteligibilidade a uma
geográfica – que é das primeiras que se concepção do raciocínio geográfico que possa ser
aprende na vida. E que, com ensinamento me- pedagogicamente viável para fundamentar teórica
tódico, vira uma atitude de consciência crítica e metodologicamente as ações docentes. Citamos
dos homens e das mulheres em sua busca de alguns desses autores no início da introdução deste
uma nova forma de sociedade. texto. Nosso objetivo neste artigo é tentar contribuir
À diferença do samba, isso se pode aprender para reforçar alguns nexos entre elementos que
na escola. (MOREIRA, 2007, p.118) vem sendo considerados por alguns desses autores
como componentes do raciocínio geográfico. Em
De forma bem resumida, podemos dizer especial os nexos que envolvem o pensamento
que a nossa compreensão do que é o raciocínio espacial e as representações cartográficas no bojo
geográfico está mais diretamente expressa nos do raciocínio geográfico.
textos de Castellar (2019); Castellar e De Paula
(2020); Castellar, Pereira e De Paula (2022); Duarte O PENSAMENTO ESPACIAL NA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA:
(2016, 2017a, 2017b); Roque Ascenção e Valadão CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES E A NOSSA CONCEPÇÃO
(2017); Roque Ascenção, Valadão e Silva (2018). DE REFERÊNCIA ACERCA DESSE CAMPO COGNITIVO
Analisando a BNCC do Ensino Fundamental
(BRASIL, 2017), vemos que o raciocínio geográfico Faremos três considerações preliminares
é associado aos princípios e conceitos da Geografia, acerca da temática do pensamento espacial, antes
que são componentes do vocabulário geográfico. de abordarmos algumas dificuldades desse campo
Concordamos com o reconhecimento de que os de estudos e considerarmos a concepção dessa
princípios e conceitos da ciência geográfica são cognição que utilizamos em nossas pesquisas. Em
estruturais para o raciocínio geográfico, o que não primeiro lugar, é preciso afirmar que o pensamento
esgota, de modo algum a discussão, dada a absoluta espacial não é, de modo algum, algo simples ou
ausência de consenso acerca de quais seriam e banal. Ele se inscreve na enorme complexidade
como podem ser definidos para fins da escolarização que envolve os processos cognitivos de diferentes
esses princípios e conceitos. Na BNCC-EF (2017, naturezas. A despeito dos grandes avanços
p.312) os princípios elencados são: analogia, possibilitados pelas tecnologias de imageamento
conexão, diferenciação, distribuição, extensão, do cérebro, viabilizando acompanhar em tempo real
localização e ordem (este último com um sentido de o seu funcionamento em situações diversificadas,
arranjo ou padrão espacial). Já, por exemplo, para e os correspondentes progressos da neurociência,
Martins (2016, p. 65): “Eis os princípios cuja síntese ainda há um imenso conjunto de interrogações
estabelece o geográfico: Localização, Distribuição, sobre os mecanismos e configurações das redes
Distância, Densidade, Escala”. De todo modo, neurais e processos contidos no pensamento
considerar os princípios e conceitos geográficos como espacial. Por conseguinte, a definição do que se
componentes, ainda que não exclusivos, do raciocínio entende por pensamento espacial será, ao menos
geográfico é um caminho, a nosso ver, promissor para no horizonte científico visível, sempre parcial,
compreender essa modalidade cognitiva. ou seja, uma tentativa de aproximação do que é
É dentro dessa moldura geral das discussões possível conhecer sobre esse tipo de operação
na Geografia acadêmica, e de seus múltiplos vasos mental. Evidentemente, isso não impede que as
comunicantes com o ensino, que nos propomos muitas descobertas relevantes acerca da cognição

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espacial favoreçam, desde já, o planejamento de de avaliação do pensamento espacial no ensino de


situações de ensino-aprendizagem viabilizadoras Geografia, desenvolvido por Lee e Bednarz (2012).
do desenvolvimento dessa dimensão da inteligência Nesse instrumento, encontramos atividades nas
e a sua aplicação ao ensino de Geografia como quais os alunos operavam com mapas, no nível de
componente do raciocínio geográfico. localização e análise, reconhecendo padrões espaciais
Um autor de expressiva contribuição nessa de localização ou de distribuição de um elemento
seara é Phil Gersmehl (2007; 2008; 2014), que ou fenômeno. Em outras atividades, os estudantes
estudou uma bibliografia relevante do campo da trabalhavam com o nível de correlação proposto por
neurociência e produziu textos acadêmicos com Simielli (1999) mobilizando modalidades espaciais
aportes importantes para o pensamento espacial no de Gersmehl como as de comparação e analogia.
ensino de Geografia. É desse autor a elaboração de Exercícios mais complexos estavam no nível de síntese,
uma tipologia com oito modalidades do pensamento concebido pela pesquisadora brasileira, demandando
espacial, com base nas redes neurais acionadas o pensamento espacial através da capacidade de
em cada uma delas, e que têm impacto direto sobre regionalizar e a de sobrepor e fundir mapas, operando
o ensino de Geografia em geral e da Cartografia com a associação espacial, de Gersmehl.
Escolar em particular. Essas oito modalidades Em terceiro lugar, ainda nessas
do pensamento espacial de Gersmehl são: aura, considerações iniciais acerca do pensamento
hierarquia, analogia, associação, comparação, espacial na Educação Geográfica, queremos
padrão, transição, região. sublinhar que o pensamento espacial não é um
Um segundo apontamento, envolve sublinhar tópico do currículo de Geografia, a ser ensinado
que essa proposição de incorporar o pensamento em um determinado bimestre do ano letivo, muito
espacial como preocupação pedagógica no ensino menos uma matéria a ser agregada ao currículo
de Geografia, em estreito vínculo com a Cartografia escolar. Consideramos que uma boa exposição
Escolar, não incorre no erro de desconsiderar a a esse respeito está apresentada no seguinte
validade da sólida produção acadêmica brasileira das segmento do documento elaborado pelo Comitê
últimas três décadas na esfera da dupla Educação para o Apoio ao Pensamento Espacial: “O Comitê
Geográfica-Cartografia Escolar. Ao contrário, nosso não vê o pensamento espacial como uma peça a
propósito é o de agregar um poderoso campo ser acrescentada a já sobrecarregada estrutura
teórico-conceitual, portador de ampla intercessão curricular. Ao invés disso, o pensamento espacial
com a produção nacional sobre a Cartografia Escolar é visto como um integrador e um facilitador para
e que, a nosso juízo, aporta novas e operacionais a solução de problemas atravessando o currículo
ferramentas para o desenvolvimento do raciocínio (NRC, 2006, p.241).
geográfico na escola básica. Feitas essas considerações, é oportuno
É totalmente compatível incorporar os estudos enfatizar que o campo científico do pensamento
sobre o pensamento espacial às maciças contribuições espacial é relativamente recente. Ele vem sendo
acadêmicas à Cartografia Escolar lastreadas nos desenvolvido de forma mais consistente, e com
estudos de Piaget sobre a formação da concepção de novos aportes, sobretudo nas últimas duas
espaço da criança e do adolescente. É absolutamente décadas. Ainda que a Psicologia estude as
coerente e profícuo, por exemplo, vincular os estudos habilidades espaciais há muito tempo e que os
sobre o pensamento espacial à proposição de testes psicométricos para as aferir sejam uma
Simielli (1999) dos três níveis de uso instrumental da realidade há muitas décadas1, os impactos das
cartografia para o aluno que já vivenciou a alfabetização novas tecnologias da informação e as descobertas
cartográfica inicial (nível de localização e análise, nível da neurociência abriram um universo de pesquisas
de correlação e nível de síntese). muito mais complexo e interdisciplinar, que ficou
Em trabalho anterior (DUARTE, 2016) genérica e predominantemente conhecido como
aplicamos a alunos do ensino básico um instrumento Spatial Thinking.

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SONIA MARIA VANZELLA CASTELLAR, RONALDO GOULA RT DUART E

Por conta disso, há todo um conjunto de primeiro motivo é que o documento é o produto
conceitos correlatos (por vezes superpostos) tais de uma comunidade científica e não de um autor
como habilidade espacial, raciocínio espacial, em particular. Ele foi elaborado pelo “Comitê de
conceitos espaciais, alfabetização espacial, Apoio para Pensar Espacialmente”2, de perfil
alfabetização gráfica, entre outros, que ainda multidisciplinar, composto por quatorze dos mais
demandam definição e discriminação mais precisas. destacados pesquisadores norte-americanos com
Apesar do muito já feito, essa trajetória acadêmica produção na área. Um segundo motivo é que o
relativamente recente torna a construção do edifício objetivo central do texto do NRC é especificamente
teórico em torno do pensamento espacial um o de subsidiar e fomentar o desenvolvimento de
trabalho ainda em andamento, com as inevitáveis competências vinculadas ao pensamento espacial
lacunas advindas dessa situação. através da Educação.
A própria definição do que é o pensamento Ao mesmo tempo, é muito importante
espacial ainda é objeto de razoável discussão. salientar alguns contextos e limitações desse
No meio dessa diversidade de concepções documento, com mais de trezentas páginas, que foi
sobre o pensamento espacial, nossa opção mais produzido, reiteramos, com a intenção de ser uma
sólida está amparada no seminal e extenso trabalho referência para a incorporação do pensamento
desenvolvido pelo Conselho Nacional de Pesquisa espacial ao ensino. Queremos destacar ao menos
dos Estados Unidos (National Research Council – duas dessas limitações.A primeira e importantíssima
NRC), publicado em 2006: ressalva é o de que o relatório do NRC (2006) não foi
elaborado para ser uma referência especificamente
Pensamento espacial – um tipo de pensamen- para o ensino de Geografia. Considerando o
to – é baseado na amálgama de três elemen- caráter absolutamente transversal e diversificado
tos: conceitos espaciais, formas de represen- do pensamento espacial, o documento tem uma
tação e processos de raciocínio. É o conceito preocupação inter(multi)disciplinar e, até por isso, foi
de espaço que faz do pensamento espacial elaborado por pesquisadores de diferentes campos
uma forma particular de pensamento. Enten- do conhecimento, inclusive geógrafos. Desse modo,
dendo o significado do espaço, nós podemos não se pode esperar que o relatório seja um guia
usar as suas propriedades (ex: dimensionali- essencial para se estruturar o ensino de Geografia
dade, continuidade, proximidade e separação) e para desenvolver o raciocínio geográfico dos
como um veículo para estruturar problemas, alunos da escola básica, porque o documento não
para encontrar respostas e para expressar foi elaborado com essa finalidade.
soluções. (NRC, 2006, ix, tradução nossa) Uma segunda e igualmente importante
ressalva pode ser depreendida do subtítulo da
A essência dessa definição está na publicação: Learning to think spatially: GIS as a
concepção tricotômica do pensamento espacial, support system in the K-12 curriculum (grifo nosso).
ainda que essa separação em três elementos tenha Em tradução nossa, fazendo uma adaptação
propósitos analíticos e de operacionalização, já que, à nossa realidade curricular: Aprendendo a
na prática, os três são inseparáveis. Até por isso, pensar espacialmente: Sistemas de Informações
a enunciação acima faz referência à amálgama Geográficas (SIGs) como um sistema de apoio ao
desses elementos. currículo da educação básica. Como se percebe, o
Há bons motivos para essa definição foco do documento é a incorporação dos SIGs como
presente no relatório do NRC ter sido acolhida por ferramenta pedagógica na escola estadunidense e
grande parte da comunidade científica internacional o pensamento espacial é a competência principal a
que pesquisa e produz ciência vinculada ao ser desenvolvida através dessas ferramentas. Esse
pensamento espacial e, em particular, aqueles foco contribui para que a dimensão locacional dos
que atuam nas pesquisas sobre o ensino. Um fenômenos tenha uma centralidade considerável

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nas páginas do documento e esse é mais um O PENSAMENTO ESPACIAL NA EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA:


aspecto para ser considerado criticamente, pois CONTEXTOS DE APLICAÇÃO E SEUS ELEMENTOS
a Geografia, obviamente, não se restringe à CONSTITUINTES
localização dos fenômenos e elementos espaciais.
Por mais que a localização seja um importante Seguindo a lógica desenvolvida em Learning
ponto de partida para o raciocínio geográfico. to Think Spatially (NRC, 2006) e sumarizada no
Feitas essas considerações sobre o NRC The People’s Guide to Spatial Thinking (SINTON
(2006) vamos apresentar brevemente a concepção et al., 2013), entendemos que a melhor maneira de
do pensamento espacial presente na publicação e compreender o pensamento espacial é seguindo
sumarizada na definição supramencionada. Nesta dois caminhos explicativos. O primeiro caminho
parte do texto recorreremos com frequência aos explicativo envolve a análise e compreensão dos
exemplos e à estrutura explicativa do The People’s três contextos nos quais pensamos espacialmente.
Guide to Spatial Thinking3 (SINTON et al., 2013), O primeiro contexto se refere às situações em que
aproveitando o caráter extremamente didático da pensamos no espaço. Quase o tempo todo estamos
obra, voltada para o público em geral. operando fisicamente no espaço euclidiano, seja para
O relatório Learning to Think Spatially estacionar um carro, arrumar os objetos em uma
(NRC, 2006), demonstra como essa modalidade mesa de jantar, encontrar uma loja em um shopping
do pensamento está presente na sociedade de center, arrumar as compras no armário da despensa
nossos dias, especialmente como abordagem para ou dar indicações de itinerário a uma pessoa. Cada
solução de grande número de problemas, dos mais uma dessas ações envolve avaliações da localização,
banais aos mais sofisticados. Em conexão com da posição de onde algo ou alguém está, a que
esse fato, as novas tecnologias vêm popularizando distância, que direção seguir etc. Para realizá-las,
ferramentas que demandam o uso do pensamento portanto, operamos com o pensamento espacial.
espacial, tais como os telefones móveis com mapas O segundo contexto em que pensamos
digitais e localização por GPS ou os aplicativos para espacialmente envolve as múltiplas possibilidades de
encontrar o restaurante mais próximo, permitindo às pensarmos sobre o espaço, em diferentes níveis de
pessoas localizarem-se em relação a determinados abstração e complexidade. Podemos viver em uma
locais e a outras pessoas e a tomar diferentes casa de palafitas e estar sempre atentos ao regime
decisões que envolvem referenciais espaciais. de cheia dos rios ou às variações das marés. O clima
Todo esse quadro estimula também o uso da região em que residimos pode ter um período
de informações geográficas, tais como os pontos curto de chuvas para cujos indícios de início estamos
cardeais e colaterais, as coordenadas geográficas, muito alertas. Grupos de observadores de aves
códigos de endereçamento postal e muitos outros. podem pesquisar quais são as condições ambientais
Essa interseção entre pensamento espacial ideais em determinada região para definir a época
e informações geográficas como caminhos do ano em que eles se deslocarão para aquele
para a solução de problemas permite vínculos local, a fim de registrar o maior número possível
interessantes com o ensino de Geografia. A de espécies de seu interesse. Nessas e em muitas
nosso juízo, compreender o que é o pensamento outras situações pensamos sobre o espaço físico e
espacial e as suas implicações para a construção social, especialmente se ajudados por instituições
de conhecimento poderoso (YOUNG, 2007) dão como a escola, mas também em situações informais
à Educação Geográfica um de seus fundamentos e de lazer, como em viagens, nas quais ampliamos
sólidos e coerentes para guiar a estruturação da as nossas concepções espaciais.
proposta teórico-metodológica para o ensino básico, Nesse segundo contexto em que
alicerçada na construção do raciocínio geográfico, exercitamos o pensamento espacial sobre o espaço,
como advogamos. nos interessa particularmente, para as finalidades

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deste texto, quando o fazemos de forma orientada, na figura de um sólido de revolução para facilitar
sistemática e consciente, inclusive teorizando sobre a visualização da superfície de revolução que deu
ele. O espaço é, nesse caso, objeto de reflexão4. origem a esse sólido, etc. Os esquemas explicativos
Estamos operando, assim, não só na esfera do de professores em sala de aulas, dispondo no
espaço vivido, mas essencialmente na esfera do espaço do quadro alguns elementos e conceitos e
espaço concebido, ou seja do espaço que pode ou relacionando-os com linhas, setas e outros sinais
não fazer parte de nossa experiência direta, mas gráficos é outro exemplo comum em que pensamos
que é apreendido de forma conceitual. com o auxílio do espaço. Basicamente estamos
O terceiro contexto do pensamento espacial usando como recurso de comunicação e de
é aquele em que pensamos com o espaço. A compreensão, a estratégia de recorrermos a uma
definição a seguir é claríssima e, por esse motivo, seletiva disposição espacial de elementos-chave de
resolvemos reproduzi-la: uma dada temática.
Desses três contextos, o mais relevante para
Nós podemos usar o espaço para nos ajudar o ensino de Geografia, a nosso juízo, mas também
a entender informações abstratas e organizar respaldados no documento do NRC, é o segundo:
conhecimento. Na geografia do nosso espaço
intelectual, tiramos proveito da nossa habilida- Enquanto as raízes iniciais e intuitivas do pen-
de de organizar informação no espaço para samento espacial estão fundadas, literalmente,
nos ajudar a entender aquela informação. nas geografias das nossas vidas e espaços
Ou seja, pensamos com o espaço para nos físicos, a maior parte de sua importância cien-
ajudar tanto a aprender quanto a transmi- tífica e, portanto, educacional encontra-se no
tir significado para nós mesmos e a outros. processo de espacialização que cria espaços
Quando nós colocamos informações, dados intelectuais (NRC, 2006, p. 32, tradução nossa).
ou conhecimento em um contexto espacial, e
espacializamos isso, nós somos capazes de Nossa avaliação é convergente com o
obter significado da informação através da enunciado por Michael Young, em defesa do
sua própria organização. (SINTON et al., 2013, currículo escolar vertebrado em conceitos científicos
p.23, tradução nossa) de caráter disciplinar. Para a nossa conveniência, o
eminente sociólogo inglês usa uma metáfora com
Os exemplos são múltiplos. Pensamos com forte ressonância geográfica:
o espaço quando elaboramos um mapa conceitual,
uma árvore genealógica da nossa família ou É importante que os alunos não confundam a
lemos um gráfico cartesiano que expõe relações Londres de que fala o professor de geografia
entre variáveis. A tabela periódica de química ou com a Londres onde vivem. Até certo ponto,
o organograma de uma empresa também são é a mesma cidade, mas o relacionamento
ótimos exemplos. Consideramos que esse contexto do aluno com ela, nos dois casos, não é o
cognitivo é muito relevante para a escola básica, mesmo. A Londres onde vivem é um “lugar de
pois as situações nas quais essa modalidade de experiência”. Londres como exemplo de uma
pensamento com o espaço estão presentes são cidade é um “objeto de pensamento” ou um
incontáveis: em uma linha do tempo de História, para “conceito”. (YOUNG, 2011, p. 615)
entendermos os antecedentes e as consequências
da Revolução Francesa; nas representações de Em resumo desse ponto, viabilizar a
moléculas para entender uma reação química; na capacidade de pensar de modo crescentemente
imagem de um conjunto articulado de polias, para complexo sobre o espaço, em múltiplas escalas e
estabelecer a magnitude das forças intervenientes de modo conceitual, é o caminho mais profícuo,
considerando-se a massa do que será deslocado; ainda que não o único, para contribuir para a

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mobilização do que entendemos ser o raciocínio armazenadas, analisadas, compreendidas e


geográfico discente. comunicadas a outros” (NRC, 2006, p. 25). As
O segundo e, para muitos, mais importante representações internas são aquelas em que a
caminho para se compreender o que é o pensamento construção e a manipulação de imagens espaciais
espacial, sob o prisma científico expresso no NRC, se dão na mente, o que demanda habilidades
é analisarmos os três elementos que compõem a espaciais que são aferidas há tempos por testes
amálgama enunciada na definição anteriormente psicométricos, como a visualização e a orientação
apresentada: os conceitos espaciais, as formas de espaciais. Elas estão presentes nos mapas mentais
representação do espaço e as diferentes operações e em imagens mentais que podemos construir
cognitivas que podem estar envolvidas quando para calcular, por exemplo, se a nova geladeira vai
pensamos espacialmente. passar pela porta da cozinha. Já as representações
Segundo Hochberg (1978, apud NRC: 2006, externas, as que mais nos interessam neste
p. 41) “Nós começamos a pensar espacialmente trabalho, referem-se à capacidade de organizar,
distinguindo e codificando as características entender e comunicar informações com o uso de
espaciais do mundo”. O sentido de codificar nessa mapas, imagens e gráficos.
afirmação está relacionado à maneira como o O terceiro componente do pensamento
nosso cérebro é capaz de identificar e armazenar espacial, os modos ou processos de raciocínio,
as informações recebidas. Localização, direção, é muito importante por diversos motivos, mas
distância, orientação e movimento são exemplos queremos enfatizar, em primeiro lugar, que ele
de conceitos espaciais básicos que utilizamos para indica uma desembocadura prática do pensamento
organizar e entender o mundo e como ele funciona. espacial. Na perspectiva fundamentada pelo
Se essa afirmação não é particularmente polêmica, NRC (2006) e incorporada pela comunidade
não é simples, por outro lado, definir quantos e quais científica, o pensamento espacial é orientado
são os conceitos espaciais. Para os efeitos, limites para a solução de problemas. Há um claro viés
e objetivos deste texto, o importante é destacar que pragmático e cidadão na definição do pensamento
é básico reconhecermos que não podemos pensar espacial e nos trabalhos que abordam a temática.
espacialmente (ao menos com base no espaço Desenvolver o pensamento espacial é estar mais
absoluto e, em alguma medida no espaço relativo) bem instrumentalizado para lidar com os mais
se não operarmos com conceitos espaciais, como diferentes desafios de interpretação e atuação
os que procuraram ser identificados por autores sobre a realidade.
com vínculos com a Geografia, como são os casos Há diversos trabalhos na direção de tentar
de Golledge (1995), Golledge, Marsh e Battersby compreender mais precisamente as múltiplas
(2008) e Jo e Bednarz (2009). Exemplos de modalidades cognitivas que podem ser entendidas
conceitos espaciais listados por esses autores são: como exemplos de se pensar espacialmente.
localização, magnitude, distância, direção, conexão, Muitos desses trabalhos usam como referência
transição, fronteira, região, forma, adjacência, a taxonomia revisada de Bloom5. É o caso, por
distribuição, padrão, densidade, difusão, escala, exemplo, da taxonomia do pensamento espacial
gradiente, entre muitos outros. proposta por Jo e Bednarz (2009). Outro autor
O segundo elemento da tríade do pensamento relevante é o já citado Phil Gersmehl e as suas
espacial são as formas de representação oito modalidades neurologicamente distintas de
do espaço, particularmente importantes por pensamento espacial.
englobarem as representações cartográficas, de Mais do que nos preocuparmos neste
enorme relevância para a Geografia. Os autores de momento com essa ou aquela classificação das
“Aprendendo a pensar espacialmente” afirmam que modalidades do pensamento espacial, o importante
“Representações internas e externas produzem é retermos três informações fundamentais. A
as formas como informações estruturadas são primeira é que há variadas formas de se pensar

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espacialmente no âmbito da análise geográfica. de muitos fenômenos que interessam à Geografia.


A segunda é que essas diferentes formas ou A topografia e a hidrologia de um sítio urbano são
modalidades do pensamento ou cognição espacial componentes importantes para se compreender os
(expressão mais usada pelos psicólogos cognitivos) eixos de urbanização, a segregação social urbana,
podem operar com níveis de complexidade muito a intensidade e direção dos fluxos pendulares e
distintos. É possível, a título de exemplo, fazer muitos outros processos na escala intraurbana.
uma analogia espacial que demande operações A fricção da distância resultante das distâncias
mentais muito simples ou uma analogia espacial lineares e a distribuição espacial dos mercados
extremamente complexa, envolvendo múltiplos e consumidores são elementos importantes para
intrincados atributos espaciais. a análise e compreensão das redes corporativas,
Uma terceira informação importante para o assim como as hierarquias urbanas.
ensino nos é oferecida por Germehl: Mas, como sabemos, o espaço é absoluto,
relativo e relacional (HARVEY, 2013) e, desse modo,
O que é realmente importante para os pro- pensar espacialmente na Geografia é mais amplo
fessores é o fato de que os vários modos de do que pensar geometricamente operando apenas
pensamento espacial não são bem correla- com a métrica euclidiana. Essa distinção entre
cionados. Elevada pontuação em um teste de espaço absoluto, relativo e relacional é importante
associação espacial, por exemplo, pode não para apontarmos limitações de entendimentos
significar pontuação elevada em testes de acerca do pensamento espacial na Geografia que
sequência ou regionalização espacial. Como o reduzem à dimensão topológica dos fenômenos.
resultado não existe essa coisa de “uma” inteli- Por isso, a concepção de espaço subjacente à
gência espacial. De fato, é muito provável que perspectiva do pensamento espacial não pode,
diferentes alunos possam realmente “ver” coi- de modo algum, ser confundida com a concepção
sas diferentes no mesmo mapa (GERSMEHL, de espaço geográfico. Este é distinto e bem mais
2014, p.193, tradução nossa). complexo do que aquele. Desse modo, pensar
espacialmente como conteúdo procedimental do
Ou seja, nossas estratégias pedagógicas raciocínio geográfico não se confunde com uma
para desenvolver o pensamento espacial discente análise espacial restrita aos atributos geométricos.
no ensino de Geografia e avaliá-las devem ser Essas distinções estão muito bem
diversificadas, para que diferentes competências demarcadas em Castellar, Pereira e De Paula
do pensamento espacial vinculadas à análise (2022). Para os autores:
geográfica sejam desenvolvidas.
Afirmar que a Geografia possui um campo de
PENSAR ESPACIALMENTE NA GEOGRAFIA NÃO SE estudo constituído pela sobreposição de re-
REDUZ A PENSAR GEOMETRICAMENTE NEM SIGNIFICA lações espaciais significa assumir que o geo-
ESTAR ATRELADO A UM PARADIGMA CIENTÍFICO EM gráfico acontece na moderação da interde-
PARTICULAR pendência entre diversos ambientes (o físico
e o humano). São espaços absolutos, relativos
Pensar geometricamente significa operar e, sobretudo, relacionais, que se fundem na
com uma dimensão do espaço, aquela circunscrita combinação de várias escalas de tempo de
ao espaço absoluto, ao espaço vinculado a uma manifestação, produzindo aquilo que chama-
métrica em que as distâncias são definidas a mos de Geografia. (CASTELLAR, PEREIRA e
partir de parâmetros definidos e conhecidos. DE PAULA, 2022, p. 437)
Essa dimensão do espaço, sublinhe-se, é muito
importante e pensar espacialmente operando com Sabemos que esse tipo de demarcação
as propriedades euclidianas é parte da explicação teórico-conceitual abarca múltiplas complexidades.

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A começar pela enorme polissemia do conceito objetos de estudos localizados enquadrada-


de espaço. Para além disso, existe a problemática mente dentro do espaço social, a maioria das
específica do nosso campo científico, envolvendo as ciências sociais poderia abstrair do espaço
concepções possíveis sobre o espaço geográfico. físico, incorporando-o nas análises somente
Mas o que pretendemos aqui é, ao menos fugirmos como um dado externo ocasional. A Geografia
da armadilha apontada por Souza (2015), de evidentemente não se deu a esse luxo (...).
pendularmos entre dois polos conceituais acerca do (SMITH, 1988, p.120)
espaço geográfico. Por um lado, devemos nos afastar
de uma visão naturalizante do espaço geográfico Aproveitando as afirmações de Neil Smith,
(SOUZA, 2015, p. 12), ou seja, vinculada apenas explicitamos que o nosso entendimento acerca do
(ou com forte predominância) aos elementos físicos, pensamento espacial, dialoga plenamente com a
ou seja, ao espaço absoluto. Acrescentaríamos seminal definição de espaço geográfico que nos
a essa afirmação, o fato de, mesmo incluindo as é fornecida por Milton Santos, em sua magnum
materialidades humanas nessa concepção de opus, “A Natureza do Espaço”: “...um conjunto
espaço, estaríamos longe do que se entende como indissociável de sistemas de objetos e sistemas de
espaço geográfico, em termos de paradigmas críticos ações” (SANTOS, 1996, p. 19). Assim, a partir desse
e não positivistas. Esse polo, inclusive, alimenta a já referencial, podemos situar o pensamento espacial
comentada concepção equivocada de que pensar como um conteúdo procedimental do raciocínio
espacialmente é sinônimo de operar cognitivamente geográfico (CASTELLAR e DE PAULA, 2020), que
apenas com o espaço geométrico e realizar a nos ajuda a compreender alguns aspectos das
análise geográfica apenas a partir da topologia dos espacialidades que dão inteligibilidade a fenômenos
elementos dispostos nesse espaço absoluto. que interessam à Geografia, sobretudo aqueles
Outro extremo conceitual do qual precisamos vinculados aos sistemas de objetos, mas que só têm
fugir é o do espaço apenas social, o qual, em muitos essa inteligibilidade plenamente alcançada, a partir
casos, substitui o espaço geográfico nas análises da sua conjugação com o vocabulário geográfico
de alguns geógrafos (SOUZA, 2015, p.22). Corre-se e os conhecimentos conexos de outros campos
o risco de operar apenas com o espaço social dos do conhecimento, que nos permitem entender os
sociólogos, completamente não topológico, como sistemas de ações e a sua relação dialética com
nos adverte Neil Smith: aqueles sistemas de objetos.
Mais uma vez, recorremos a SOUZA (2015),
Assim como o espaço matemático veio repre- que é meridiano ao afirmar que:
sentar o campo abstrato dos eventos naturais,
o espaço social é o campo abstrato huma- Para se compreender e elucidar o espaço,
namente construído pelos eventos sociais e não basta compreender e elucidar o espaço.
pode ser definido de vários modos. Um objeto É preciso interessar-se, profundamente, e não
ou uma relação pode ser bastante real, por somente epidermicamente, pelas relações
exemplo, a classe trabalhadora, ou a relação sociais. É necessário interessar-se pela so-
salário-trabalho, mas colocá-los como pontos ciedade concreta, em que relações sociais e
no espaço social não implica absolutamente espaço são inseparáveis, mesmo que não se
nada sobre sua localização no espaço físico confundam (SOUZA, 2015, p. 16).
ou no espaço natural.
Agora o espaço geográfico é algo novamente Seguindo esse entendimento, também
diferente. Por mais social que ele possa ser, o não faz sentido atrelar o pensamento espacial
espaço geográfico é manifestadamente físico; a um único paradigma da Geografia, seja ele
é o espaço das cidades, dos campos, das es- qual for. Podemos pensar espacialmente, como
tradas, dos furacões e fábricas. (...) Com seus parte do conjunto mais amplo que é o raciocínio

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geográfico, fundamentados em diferentes matrizes O RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO EM AÇÃO ATRAVÉS


teóricas da Geografia. Sobretudo, podemos pensar DO PENSAMENTO ESPACIAL MOBILIZADO COM O
espacialmente, nos termos aqui propostos, de modo APOIO DE REPRESENTAÇÕES CARTOGRÁFICAS E
efetivamente crítico. No próprio documento do NRC CONTEXTUALIZADO PELAS SITUAÇÕES GEOGRÁFICAS
(2006), encontramos algumas (poucas, é verdade)
O pensamento espacial é um dos
sinalizações quanto a esse tipo de postura:
componentes do raciocínio geográfico e ele
Nós temos que investir em um programa edu- pode ser entendido como abrangendo três
cacional sistemático para ampliar os níveis de (conceitos espaciais, formas de representação e
pensamento espacial dos estudantes da esco- modalidades de pensamento) dos cinco campos de
la básica. Nossa meta deve ser a de fomentar conhecimentos mobilizados nesse raciocínio, como
uma geração de estudantes que (1) tenham a fazem Castellar e De Paula (2020), juntamente
disposição mental de pensar espacialmente com as categorias e princípios geográficos e
(2) possam exercitar o pensamento espacial com a situação geográfica. Para efeito do ensino
de modo informado e (3) adotem uma postura de Geografia na escola, avaliamos que os
crítica quanto ao pensamento espacial”. (NRC, conhecimentos acerca do pensamento espacial
2006, x, grifo e tradução nossa) são especialmente potentes para ajudar a mobilizar
o raciocínio geográfico dos alunos, com o apoio das
Além disso, autores mais diretamente vinculados representações cartográficas.
ao referencial do NRC (2006) propõem a mobilização do Os mapas são usualmente utilizados
pensamento espacial crítico (Critical Spatial Thinking), por nós como uma metáfora da organização da
como é o caso de Gordon, Elwood e Mitchell: informação, seja ela geográfica ou não. Quando
dizemos que “vamos mapear o problema” iremos,
Argumentamos que, diante das agudas desi- muitas vezes, elaborar um esquema ou fluxograma
gualdades sociais, políticas e econômicas, a das causas, processos e possíveis intervenções
aprendizagem cidadã dos jovens deve incluir sobre uma situação e, nesse momento, estamos
a compreensão de como essas desigualda- pensando com o espaço, ou seja, estamos usando
des são geradas e como eles e outros atores uma disposição espacial de alguns elementos
sociais podem intervir para enfrentá-las. Esse (conceitos, informações, hierarquias, relações etc.)
tipo de aprendizado expande as concepções de um dado evento ou fenômeno, para nos ajudar a
do pensamento espacial crítico, seguindo refletir sobre ele.
uma vertente do pensamento geográfico que Na linha daqueles que acreditam que há
define a geografia “crítica” como compreen- uma forma de pensar distintamente geográfica, já
são e intervenção em estruturas de opressão na década de 1980, o britânico David Boardman,
(GORDON, ELWOOD e MITCHELL, 2016, p. 4). no prefácio do seu livro Graphicacy and Geography
Teaching6, subscreve a citação de outro geógrafo
Em suma, o pensamento espacial como britânico, William Balchin, de que a proficiência
conteúdo procedimental do contexto mais amplo gráfica ou alfabetização gráfica (que inclui as
e complexo do raciocínio geográfico, não está competências relacionadas à Cartografia) dá à
circunscrito apenas á capacidade de operar Geografia o seu ethos. Para Boardman (1983) essa
com o espaço euclidiano ou a um determinado é a grande contribuição da Geografia ao currículo
paradigma científico. Desde que tenhamos clareza da escola básica.
do que significa pensar espacialmente no âmbito Assim, a conexão entre esses processos
da Geografia e a competência pedagógica de de pensamento espacial aplicado às formas
transformar essa cognição em componente do de representação do espaço, notadamente
olhar geográfico sobre a realidade. aquelas vinculadas à Cartografia, são elementos

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estruturadores do desenvolvimento e mobilização podem ser poderosos suportes metodológicos


do raciocínio geográfico. Pensamos que uma para o raciocínio geográfico como podem viabilizar
citação constante do Guia Popular do Pensamento operações do pensamento espacial para além do
Espacial resume bem o porquê: espaço absoluto, ou em diálogo com este, envolvendo
também a concepção de espaço relativo.
Representações espaciais externas são im- Ao analisarmos, por exemplo, uma
portantes para os nossos processos de pen- anamorfose do mundo na qual os países são
samento porque, uma vez que temos essa representados de acordo com a dimensão do seu
representação (mapa, diagrama, etc.) para en- setor industrial, somos capazes de estabelecer
tender a estrutura ou o processo espacial, nós comparações e identificar países com maior ou
podemos então voltar a nossa memória de menor peso no setor secundário global, tendo como
trabalho disponível para focarmos no como e referência (mental ou com suporte em imagens
no porquê da estrutura ou processo, ao invés externas que podemos consultar) a superfície
de tentar lembrar de muita coisa ao mesmo territorial desses países em representações
tempo. (SINTON et al., 2013, p. 33, grifos origi- cartográficas euclidianas. Um mapa da Espanha
nais e tradução nossa). elaborado com base na relação espaço-tempo
de deslocamento usando a rede de trens de alta
Em outras palavras, as representações velocidade (um exemplo de espaço relativo),
do espaço dispensam a nossa mente de precisar permite reconhecermos porções do território com
ser capaz de montar toda a imagem mental da maior ou menor densidade dessa rede técnica, a
espacialidade de um fenômeno ou processo, partir igualmente do referente euclidiano.
liberando o nosso cérebro para as modalidades de Em acréscimo a essas considerações acerca
pensamento mais complexas (e não exclusivamente da centralidade das representações cartográficas
espaciais) que permitem compreender diferentes para que o raciocínio geográfico seja colocado em
aspectos desses mesmos fenômenos e processos. movimento nos moldes aqui propostos é imperativo
Para os nossos objetivos neste texto, tão ou considerar um outro componente. É preciso que o
mais importante do que enfatizar a importância das professor crie situações de aprendizagem pautadas
formas de representação do espaço em geral (e dos em estratégias pedagógicas eficazes e coerentes
mapas em particular) para o desenvolvimento do com o objetivo de favorecer o aluno a raciocinar
pensamento espacial como elemento do raciocínio geograficamente. Um caminho possível é através das
geográfico, está a preocupação de destacar que chamadas metodologias ativas, especialmente por
a alfabetização ou proficiência gráfica pode ser possuírem os méritos apontados por Bacich e Moran:
aprendida/desenvolvida na escola, a partir de
um programa pedagogicamente eficaz, contínuo Metodologias ativas englobam uma concep-
ao longo da escolarização, coerente com o nível ção do processo de ensino e aprendizagem
de amadurecimento cognitivo dos estudantes e que considera a participação efetiva dos alu-
orientado para o uso das representações gráficas nos na construção da sua aprendizagem, valo-
como recursos heurísticos da Geografia. rizando as diferentes formas pelas quais eles
Cabe ainda, nesta seção do texto, fazermos podem ser envolvidos nesse processo para
uma rápida, mas importante menção ao fato de que aprendam melhor, em seu próprio ritmo e
que o uso das representações espaciais de caráter estilo (BACICH e MORAN, 2018, xv).
cartográfico como componente importante para
exercitar o pensamento espacial e mobilizar o Uma dessas metodologias ativas com
raciocínio geográfico não se restringe aos mapas possibilidades muito interessantes e diversificadas
elaborados com base na métrica euclidiana. Coremas para a Geografia é o ensino baseado em resolução
e, em especial, as anamorfoses, não apenas de problemas, como propõem, por exemplo,

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Castelar, Moraes e Sacramento (2011), advogando para solucionar/compreender um problema no qual


uma maior aproximação entre os conhecimentos e a espacialidade é um componente relevante.
conceitos científicos e a realidade cotidiana. Nessa mesma linha de construção
Para compor o contexto no qual essa metodológica, não há como deixar de incorporar
metodologia pode ser eficaz no ensino de Geografia a concepção de que, para oportunizar o exercício
entendemos que é preciso lançar mão de situações do raciocínio geográfico através de uma situação
geográficas nas quais a resolução de problemas geográfica é preciso elaborar perguntas geográficas,
demandará a mobilização do raciocínio geográfico. como nos lembra Susan Hume (2015), em seu texto:
Avaliamos que esse vínculo foi muito bem enunciado “Aprendendo a pensar como um geógrafo fazendo
por Castellar e De Paula: perguntas geográficas”. Como ela afirma no texto,
“A pergunta mais óbvia é Onde? Entretanto, esse é
A situação geográfica condiz a um feixe de apenas o primeiro passo” (HUME, 2015, p.46).
eventos em um lugar, território, paisagem ou Inserir perguntas geográficas no contexto
região, à particularidade de conjuntos e efei- da situação geográfica é essencial para criar
tos em decorrência do espaço socialmente “problemas” que desafiam o estudante a raciocinar
produzido. É a manifestação efêmera, que geograficamente. Por outro lado, desenvolver essa
se pode lançar duradoura, de um movimento competência docente não é algo óbvio e natural. Na
de totalização, a constituição de condições verdade, demanda claramente grande proficiência
socioespaciais em um recorte. Isto posto, a profissional para construir e operar com o que
situação geográfica coloca o todo enquanto Shulmann (1986) denominou, apropriadamente,
objeto de análise, pressupondo que o racio- como conhecimento pedagógico do conteúdo (PCK).
cínio geográfico não deve estar amarrado em Essa competência é absolutamente essencial para
um recorte como parte, mas como fio de união o sucesso dessa metodologia de ensino. É tarefa
contínuo a processos totais, não havendo, coletiva que precisamos enfrentar com todo o vigor.
portanto, uma cisão entre o lugar e o mundo
(CASTELLAR e DE PAULA, 2020, p. 310). CONSIDERAÇÕES

Em suma, a situação geográfica, nos moldes Parece-nos bastante claro, no contexto


abordados por Silveira (1999), compõe o contexto da produção acadêmica brasileira no campo da
empírico-pedagógico no qual os conteúdos da Educação Geográfica que há um grupo expressivo
Geografia escolar podem ser colocados em de pesquisadores entendendo que é importante
marcha para construir a compreensão crítica construir uma nítida e inequívoca identidade do
e cientificamente fundamentada acerca da ensino de Geografia na escola básica e que essa
espacialidade dos fenômenos atinentes a esse marca, ao mesmo tempo científica e pedagógica,
campo do conhecimento e que interessam ao deve estar assentada em uma abordagem
cidadão. É o cenário no qual o aluno poderá geográfica da realidade.
compreender as dinâmicas e conexões explicativas O importante é que os milhões de cidadãos
entre os sistemas de objetos (e a sua trama de que passam e que passarão pelo estudo da
localizações e interações) e os sistemas de ações, Geografia na Educação Básica, percebam que
que compõem e produzem o espaço geográfico. agregaram uma capacidade cognitiva singular, não
Ou, dito de outra forma, a situação geográfica desenvolvida em outros saberes escolares e que
oportuniza ao sujeito aprendente o exercício os ajuda a entender aspectos da realidade que não
do raciocínio geográfico, colocando em ação o compreenderiam, se não fossem as contribuições
pensamento espacial, com especial destaque para dessa matéria na sua formação.
as representações do espaço que subsidiam esse A nosso juízo, e de muitos outros colegas da
tipo de pensamento, e o vocabulário geográfico, área, essa marca do conteúdo está vinculado ao que

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chamamos de raciocínio geográfico (para alguns, funcionar como o campo de operação do raciocínio
pensamento geográfico). Defendemos que esse geográfico. Podemos e devemos avançar sobre o
raciocínio, para ser desenvolvido, precisa articular a que é esse “olhar geográfico” a ser desenvolvido
capacidade de pensar espacialmente, notadamente na escola e sobre as formas de promover a
através do apoio de formas de representação do aprendizagem e o avanço cognitivo favorecidos por
espaço, com as reflexões apoiadas nos conceitos essa contribuição.
e categorias da ciência geográfica e aplicados Não podemos abrir mão dessa tarefa
a situações geográficas cuja inteligibilidade é coletiva, a ser feita com alguma celeridade, se
provocada por perguntas geográficas. quisermos que essa rica matéria escolar continue
Essa defesa do desenvolvimento do acessível ao cidadão do país, de modo consistente
raciocínio geográfico dos alunos da escola básica e sistemático. São conhecidas as concepções que
como objetivo central do componente escolar, tem a advogam o ensino básico centrado essencialmente
sua essência ancorada na concepção de que o foco na língua pátria, na Matemática e nas ciências
da singularidade da abordagem geográfica está na naturais, relegando às humanidades um papel
incorporação da espacialidade do fenômeno como periférico ou mesmo defendendo o seu apagamento
elemento importante para a sua inteligibilidade. É o do currículo.
conhecido entendimento geográfico de que muitos Garantir o ensino de Geografia nos níveis
fenômenos possuem uma projeção espacial e essa de ensino fundamental e médio, nessa perspectiva
dimensão espacial também interfere sobre esses reflexiva e crítica é, também e enfaticamente, uma
mesmos fenômenos. contribuição à solidez da democracia no país. É um
A compreensão da espacialidade dos caminho robusto para assegurar relevância social
fenômenos que compõem o temário geográfico na e pertinência para a contribuição da Geografia à
escola básica é o recorte da realidade que deve formação cidadã no país.

NOTAS
1
A esse respeito ver Hegarty (2010).

2
Committee on the Support for the Thinking Spatially.

3
Guia Popular do Pensamento Espacial (tradução nossa).

4
Podemos mencionar dois exemplos clássicos de pensar sobre o espaço e que são muito importantes para a Geografia acadêmica. O geógrafo
Walter Christaller, na sua tese de doutorado sobre a rede de cidades do sul da Alemanha, resultando na “Teoria dos Lugares Centrais”, e o trabalho
de Alfred Weber com a sua “Teoria da Localização Industrial”.

5
Especialmente tendo como referência a obra de Anderson, Krathwohl et al. (2001), sumarizada em Krathwohl (2002)

6
“Alfabetização gráfica e ensino de Geografia”, em tradução nossa.

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