Giramundo 18 01
Giramundo 18 01
R O NA L D O GOULART DUARTE
Doutor em Geografia (USP)
Professor Adjunto do Instituto de Geografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ-Maracanã)
[email protected]
RESUMO: NESTE ARTIGO O NOSSO OBJETIVO SERÁ ANALISAR A CENTRALIDADE DO DESENVOLVIMENTO DO RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO NO
CURRÍCULO DE GEOGRAFIA DA ESCOLA BÁSICA BRASILEIRA. COMPREENDEMOS ESSA MODALIDADE COGNITIVA COMO UM SISTEMA DE
PENSAMENTO QUE PÕE EM MOVIMENTO ARTICULADO OS CONCEITOS E PRINCÍPIOS DA CIÊNCIA GEOGRÁFICA EM CONEXÃO À CAPACIDADE
DE PENSAR ESPACIALMENTE, NOTADAMENTE COM O APOIO DA LINGUAGEM CARTOGRÁFICA. ESSA COGNIÇÃO GEOGRÁFICA É MOBILIZADA
POR PERGUNTAS GEOGRÁFICAS E ESTAS, POR SUA VEZ, ESTÃO CONTEXTUALIZADAS POR SITUAÇÕES GEOGRÁFICAS SELECIONADAS
OU CONSTRUÍDAS PELOS PROFESSORES DESSA MATÉRIA ESCOLAR. A CARTOGRAFIA ESCOLAR É, NESSE SISTEMA, SIMULTANEAMENTE
UM CONTEÚDO E UMA METODOLOGIA E O PENSAMENTO ESPACIAL É UM CONTEÚDO PROCEDIMENTAL QUE COMPÕE O RACIOCÍNIO
GEOGRÁFICO. ENTENDEMOS QUE ESSA TAREFA É DE IMENSA IMPORTÂNCIA PARA OS PROFISSIONAIS VINCULADOS À EDUCAÇÃO
GEOGRÁFICA, COMUNGANDO DO PRINCÍPIO DE QUE ESSE É UM CAMINHO ROBUSTO PARA ASSEGURAR RELEVÂNCIA SOCIAL E PERTINÊNCIA
DESSE COMPONENTE CURRICULAR PARA A FORMAÇÃO CIDADÃ NO PAÍS.
PALAVRAS-CHAVE: RACIOCÍNIO GEOGRÁFICO; EDUCAÇÃO GEOGRÁFICA; CARTOGRAFIA ESCOLAR; PENSAMENTO ESPACIAL; PERGUNTAS
GEOGRÁFICAS.
ABSTRACT: IN THIS PAPER, OUR GOAL IS TO ANALYZE THE PEDAGOGICAL IMPORTANCE OF DEVELOPING GEOGRAPHIC REASONING IN
BRAZILIAN GEOGRAPHY K-12 CURRICULUM. WE UNDERSTAND THIS TYPE OF COGNITION AS A SYSTEM OF THOUGHT THAT SETS IN MOTION
THE CONCEPTS AND PRINCIPLES EMBEDDED IN GEOGRAPHY IN CONNECTION WITH THE ABILITY TO THINK SPATIALLY, NOTABLY USING
THE CARTOGRAPHIC LANGUAGE. IN ADDITION, SUCH GEOGRAPHIC WAY OF THINKING IS TRIGGERED BY GEOGRAPHIC QUESTIONS RELATED
TO GEOGRAPHIC SITUATIONS, SELECTED OR CONSTRUCTED BY THE TEACHER OF THIS SUBJECT MATTER. SCHOOL CARTOGRAPHY IS, IN
THIS SYSTEM, SIMULTANEOUSLY A CONTENT AND A METHODOLOGY AND SPATIAL THINKING, IS A PROCEDURAL CONTENT THAT ENABLES
GEOGRAPHIC REASONING. WE UNDERSTAND THAT THIS TASK IS QUITE IMPORTANT FOR THE GEOGRAPHIC EDUCATION COMMUNITY,
SHARING THE PRINCIPLE THAT THIS IS A POWERFUL WAY TO ENSURE SOCIAL RELEVANCE AND PERTINENCE TO BUILD UP CRITICAL
CITIZENSHIP IN THE COUNTRY.
KEYWORDS: GEOGRAPHICAL REASONING; GEOGRAPHY EDUCATION; CARTOGRAPHY; SPATIAL THINKING; GEOGRAPHICAL QUESTIONS.
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é muito relevante nesse cenário considerar o grau Por conta de todo esse quadro de
de valoração de cada saber pela maioria dos incertezas e transformações sociais, é imperativo
indivíduos que compõem essa sociedade. que a comunidade de profissionais da Geografia
O conteúdo de latim, por exemplo, já fez parte esteja plenamente consciente de que o seu lugar
do currículo da escola básica, tendo sido eliminada no currículo só subsistirá se formos competentes
do antigo ginasial (atual segmento do 6º ao 9º ano para impactar significativamente, e de modo
do ensino fundamental) em 1961, com a primeira singular, a formação do cidadão brasileiro. Caso
Lei de Diretrizes e Bases brasileira. A partir daquele contrário, existe sim o risco futuro desse campo
ano, o latim foi mantido apenas no equivalente a de conhecimentos ser socialmente percebido
um dos antigos ramos do atual ensino médio, então como desnecessário e ser eliminado, ao menos
chamado de Clássico (focado nas Humanidades), enquanto componente autônomo do currículo. Para
até ser banido completamente da educação básica, refletir sobre isso, é fundamental nos colocarmos
com o advento da Lei 5692/1971, a segunda LDB a seguinte pergunta: Qual a relevância atual da
do país. Podemos acrescentar a esses exemplos, contribuição da Geografia escolar para a formação
as matérias que existiram no período da ditadura do cidadão brasileiro? Ou perguntando de forma
militar, como OSPB (Organização Social e Política mais simples: Se a Geografia fosse retirada do
do Brasil) e Moral e Cívica, eliminadas com a currículo escolar ou passasse a ser ministrada
redemocratização do país. Há também o caso do também no ensino fundamental como parte do
ensino da língua francesa, que já foi obrigatória e conjunto de conhecimentos das Ciências Humanas
tem presença muito restrita na escola atual. e Sociais (como ocorre em muitas nações, como já
No caso específico da Geografia, é bom mencionamos), haveria uma grande reação contrária
lembrar que, na maioria dos sistemas escolares do por parte da maioria dos brasileiros? Será que a
mundo, é rara a obrigatoriedade desse conteúdo contribuição da Geografia é claramente percebida
figurar como conteúdo autônomo no currículo e valorizada pelos cidadãos? As respostas a essas
do equivalente ao nosso ensino fundamental. perguntas, a nosso juízo, são centrais para o futuro
Predominam os conteúdos geográficos no âmbito da Geografia na educação básica.
de matérias escolares, denominadas como Nossa posição é que uma resposta robusta
Ciências Sociais, ou amalgamadas com a História. a essas perguntas, e que assegure a relevância
No Brasil, ao contrário, vivemos a realidade pouco desse componente curricular escolar, passa
comum de termos a geografia com componente justamente pela capacidade da enorme comunidade
autônomo nos nove anos do fundamental, de especialistas da Geografia (aí incluídos tanto os
ministrada por professores, em princípio, com professores e pesquisadores universitários quanto
formação universitária específica nos quatro anos os professores da educação básica) ter sucesso
finais dessa etapa da escolaridade. em construir um processo de ensino-aprendizagem
Até há poucos anos, mais precisamente até o solidamente alicerçado no desenvolvimento
advento do Novo Ensino Médio (NEM), adicionavam- do raciocínio geográfico. As perguntas sobre a
se a esses nove anos, os três anos do ensino relevância da Geografia não podem ser retóricas,
médio, nos quais o componente curricular também há necessidade de se compreender a natureza
era obrigatório, perfazendo um total de 12 anos de da Ciência Geográfica e o seu papel no currículo
escolaridade, sete dos quais com licenciados nessa escolar.
ciência. Condição, sem dúvida, sui generis, ou ao Para fugirmos de uma representação
menos raríssima, em termos globais. Hoje, no ensino social ainda fortemente vinculada à concepção de
médio, os conhecimentos geográficos fazem parte um saber essencialmente informativo e garantir
de uma grande área de conhecimentos, as Ciências a merecida relevância social de um conteúdo
Humanas e Sociais Aplicadas, sem delimitação de com ampla significância para a formação de um
carga horária específica. cidadão crítico e reflexivo, entendemos ser crucial
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Por conta disso, há todo um conjunto de primeiro motivo é que o documento é o produto
conceitos correlatos (por vezes superpostos) tais de uma comunidade científica e não de um autor
como habilidade espacial, raciocínio espacial, em particular. Ele foi elaborado pelo “Comitê de
conceitos espaciais, alfabetização espacial, Apoio para Pensar Espacialmente”2, de perfil
alfabetização gráfica, entre outros, que ainda multidisciplinar, composto por quatorze dos mais
demandam definição e discriminação mais precisas. destacados pesquisadores norte-americanos com
Apesar do muito já feito, essa trajetória acadêmica produção na área. Um segundo motivo é que o
relativamente recente torna a construção do edifício objetivo central do texto do NRC é especificamente
teórico em torno do pensamento espacial um o de subsidiar e fomentar o desenvolvimento de
trabalho ainda em andamento, com as inevitáveis competências vinculadas ao pensamento espacial
lacunas advindas dessa situação. através da Educação.
A própria definição do que é o pensamento Ao mesmo tempo, é muito importante
espacial ainda é objeto de razoável discussão. salientar alguns contextos e limitações desse
No meio dessa diversidade de concepções documento, com mais de trezentas páginas, que foi
sobre o pensamento espacial, nossa opção mais produzido, reiteramos, com a intenção de ser uma
sólida está amparada no seminal e extenso trabalho referência para a incorporação do pensamento
desenvolvido pelo Conselho Nacional de Pesquisa espacial ao ensino. Queremos destacar ao menos
dos Estados Unidos (National Research Council – duas dessas limitações.A primeira e importantíssima
NRC), publicado em 2006: ressalva é o de que o relatório do NRC (2006) não foi
elaborado para ser uma referência especificamente
Pensamento espacial – um tipo de pensamen- para o ensino de Geografia. Considerando o
to – é baseado na amálgama de três elemen- caráter absolutamente transversal e diversificado
tos: conceitos espaciais, formas de represen- do pensamento espacial, o documento tem uma
tação e processos de raciocínio. É o conceito preocupação inter(multi)disciplinar e, até por isso, foi
de espaço que faz do pensamento espacial elaborado por pesquisadores de diferentes campos
uma forma particular de pensamento. Enten- do conhecimento, inclusive geógrafos. Desse modo,
dendo o significado do espaço, nós podemos não se pode esperar que o relatório seja um guia
usar as suas propriedades (ex: dimensionali- essencial para se estruturar o ensino de Geografia
dade, continuidade, proximidade e separação) e para desenvolver o raciocínio geográfico dos
como um veículo para estruturar problemas, alunos da escola básica, porque o documento não
para encontrar respostas e para expressar foi elaborado com essa finalidade.
soluções. (NRC, 2006, ix, tradução nossa) Uma segunda e igualmente importante
ressalva pode ser depreendida do subtítulo da
A essência dessa definição está na publicação: Learning to think spatially: GIS as a
concepção tricotômica do pensamento espacial, support system in the K-12 curriculum (grifo nosso).
ainda que essa separação em três elementos tenha Em tradução nossa, fazendo uma adaptação
propósitos analíticos e de operacionalização, já que, à nossa realidade curricular: Aprendendo a
na prática, os três são inseparáveis. Até por isso, pensar espacialmente: Sistemas de Informações
a enunciação acima faz referência à amálgama Geográficas (SIGs) como um sistema de apoio ao
desses elementos. currículo da educação básica. Como se percebe, o
Há bons motivos para essa definição foco do documento é a incorporação dos SIGs como
presente no relatório do NRC ter sido acolhida por ferramenta pedagógica na escola estadunidense e
grande parte da comunidade científica internacional o pensamento espacial é a competência principal a
que pesquisa e produz ciência vinculada ao ser desenvolvida através dessas ferramentas. Esse
pensamento espacial e, em particular, aqueles foco contribui para que a dimensão locacional dos
que atuam nas pesquisas sobre o ensino. Um fenômenos tenha uma centralidade considerável
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deste texto, quando o fazemos de forma orientada, na figura de um sólido de revolução para facilitar
sistemática e consciente, inclusive teorizando sobre a visualização da superfície de revolução que deu
ele. O espaço é, nesse caso, objeto de reflexão4. origem a esse sólido, etc. Os esquemas explicativos
Estamos operando, assim, não só na esfera do de professores em sala de aulas, dispondo no
espaço vivido, mas essencialmente na esfera do espaço do quadro alguns elementos e conceitos e
espaço concebido, ou seja do espaço que pode ou relacionando-os com linhas, setas e outros sinais
não fazer parte de nossa experiência direta, mas gráficos é outro exemplo comum em que pensamos
que é apreendido de forma conceitual. com o auxílio do espaço. Basicamente estamos
O terceiro contexto do pensamento espacial usando como recurso de comunicação e de
é aquele em que pensamos com o espaço. A compreensão, a estratégia de recorrermos a uma
definição a seguir é claríssima e, por esse motivo, seletiva disposição espacial de elementos-chave de
resolvemos reproduzi-la: uma dada temática.
Desses três contextos, o mais relevante para
Nós podemos usar o espaço para nos ajudar o ensino de Geografia, a nosso juízo, mas também
a entender informações abstratas e organizar respaldados no documento do NRC, é o segundo:
conhecimento. Na geografia do nosso espaço
intelectual, tiramos proveito da nossa habilida- Enquanto as raízes iniciais e intuitivas do pen-
de de organizar informação no espaço para samento espacial estão fundadas, literalmente,
nos ajudar a entender aquela informação. nas geografias das nossas vidas e espaços
Ou seja, pensamos com o espaço para nos físicos, a maior parte de sua importância cien-
ajudar tanto a aprender quanto a transmi- tífica e, portanto, educacional encontra-se no
tir significado para nós mesmos e a outros. processo de espacialização que cria espaços
Quando nós colocamos informações, dados intelectuais (NRC, 2006, p. 32, tradução nossa).
ou conhecimento em um contexto espacial, e
espacializamos isso, nós somos capazes de Nossa avaliação é convergente com o
obter significado da informação através da enunciado por Michael Young, em defesa do
sua própria organização. (SINTON et al., 2013, currículo escolar vertebrado em conceitos científicos
p.23, tradução nossa) de caráter disciplinar. Para a nossa conveniência, o
eminente sociólogo inglês usa uma metáfora com
Os exemplos são múltiplos. Pensamos com forte ressonância geográfica:
o espaço quando elaboramos um mapa conceitual,
uma árvore genealógica da nossa família ou É importante que os alunos não confundam a
lemos um gráfico cartesiano que expõe relações Londres de que fala o professor de geografia
entre variáveis. A tabela periódica de química ou com a Londres onde vivem. Até certo ponto,
o organograma de uma empresa também são é a mesma cidade, mas o relacionamento
ótimos exemplos. Consideramos que esse contexto do aluno com ela, nos dois casos, não é o
cognitivo é muito relevante para a escola básica, mesmo. A Londres onde vivem é um “lugar de
pois as situações nas quais essa modalidade de experiência”. Londres como exemplo de uma
pensamento com o espaço estão presentes são cidade é um “objeto de pensamento” ou um
incontáveis: em uma linha do tempo de História, para “conceito”. (YOUNG, 2011, p. 615)
entendermos os antecedentes e as consequências
da Revolução Francesa; nas representações de Em resumo desse ponto, viabilizar a
moléculas para entender uma reação química; na capacidade de pensar de modo crescentemente
imagem de um conjunto articulado de polias, para complexo sobre o espaço, em múltiplas escalas e
estabelecer a magnitude das forças intervenientes de modo conceitual, é o caminho mais profícuo,
considerando-se a massa do que será deslocado; ainda que não o único, para contribuir para a
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chamamos de raciocínio geográfico (para alguns, funcionar como o campo de operação do raciocínio
pensamento geográfico). Defendemos que esse geográfico. Podemos e devemos avançar sobre o
raciocínio, para ser desenvolvido, precisa articular a que é esse “olhar geográfico” a ser desenvolvido
capacidade de pensar espacialmente, notadamente na escola e sobre as formas de promover a
através do apoio de formas de representação do aprendizagem e o avanço cognitivo favorecidos por
espaço, com as reflexões apoiadas nos conceitos essa contribuição.
e categorias da ciência geográfica e aplicados Não podemos abrir mão dessa tarefa
a situações geográficas cuja inteligibilidade é coletiva, a ser feita com alguma celeridade, se
provocada por perguntas geográficas. quisermos que essa rica matéria escolar continue
Essa defesa do desenvolvimento do acessível ao cidadão do país, de modo consistente
raciocínio geográfico dos alunos da escola básica e sistemático. São conhecidas as concepções que
como objetivo central do componente escolar, tem a advogam o ensino básico centrado essencialmente
sua essência ancorada na concepção de que o foco na língua pátria, na Matemática e nas ciências
da singularidade da abordagem geográfica está na naturais, relegando às humanidades um papel
incorporação da espacialidade do fenômeno como periférico ou mesmo defendendo o seu apagamento
elemento importante para a sua inteligibilidade. É o do currículo.
conhecido entendimento geográfico de que muitos Garantir o ensino de Geografia nos níveis
fenômenos possuem uma projeção espacial e essa de ensino fundamental e médio, nessa perspectiva
dimensão espacial também interfere sobre esses reflexiva e crítica é, também e enfaticamente, uma
mesmos fenômenos. contribuição à solidez da democracia no país. É um
A compreensão da espacialidade dos caminho robusto para assegurar relevância social
fenômenos que compõem o temário geográfico na e pertinência para a contribuição da Geografia à
escola básica é o recorte da realidade que deve formação cidadã no país.
NOTAS
1
A esse respeito ver Hegarty (2010).
2
Committee on the Support for the Thinking Spatially.
3
Guia Popular do Pensamento Espacial (tradução nossa).
4
Podemos mencionar dois exemplos clássicos de pensar sobre o espaço e que são muito importantes para a Geografia acadêmica. O geógrafo
Walter Christaller, na sua tese de doutorado sobre a rede de cidades do sul da Alemanha, resultando na “Teoria dos Lugares Centrais”, e o trabalho
de Alfred Weber com a sua “Teoria da Localização Industrial”.
5
Especialmente tendo como referência a obra de Anderson, Krathwohl et al. (2001), sumarizada em Krathwohl (2002)
6
“Alfabetização gráfica e ensino de Geografia”, em tradução nossa.
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