INTRODUÇÃO
A história da poda das plantas é tão antiga quanto a da humanidade e nos leva a um
passado distante e a curiosos fatos. Relatos antigos da Grécia nos indicam ser um asno, e
suas dentadas em ramos os “inventores” da poda. Outras versões indicam serem ovelhas e
cabras as responsáveis pela descoberta. Há quem diga também que foram eventos naturais
como chuvas de granizo que naturalmente “podaram” os ramos. A partir de observações no
campo, os agricultores da época puderam notar que as plantas que apresentavam os ramos
cortados, seja por mordida de animal ou por evento natural, tinham um desenvolvimento
singular, diferente das plantas não podadas.
Posteriormente, procurando imitar tais eventos, o homem passou a fazer uso de
tesouras e facas, estabelecendo assim a prática da poda, sendo que cada povo desenvolveu
em sua diversidade de plantas, um estilo próprio de realizar a poda.
ASPECTOS BÁSICOS DA FISIOLOGIA E
MORFOLOGIA DAS PLANTAS
Para a boa prática da poda, é importante conhecer alguns princípios básicos de
fisiologia e morfologia das plantas. A poda irá influenciar de forma marcante algumas
funções como crescimento, absorção de água e nutrientes, entre outras.
O desenvolvimento da planta ocorre pela retirada de água e sais minerais do solo
através de suas raízes. Essa seiva (bruta) é transportada até as folhas onde é transformada
em seiva elaborada pelo processo da fotossíntese. Outra parte da água retirada do solo é
utilizada na respiração realizada nas folhas.
A seiva elaborada é utilizada nos processos vitais de crescimento e frutificação. O
crescimento vegetativo das plantas, de ramos e folhas é proporcional ao crescimento de suas
raízes. A medida que a planta cresce, aumenta o número de ramos e folhas, e
consequentemente a fotossíntese e, com isso, há maior produção de seiva elaborada.
Quando a planta acumula reserva suficiente, entra em frutificação, reduzindo seu
crescimento e direcionando a seiva para a formação dos frutos. Parte dessa reserva é
armazenada em outros órgãos, como as raízes.
Após a colheita, a planta volta a crescer normalmente, aumentando seus ramos e
folhas ao mesmo tempo em que aumenta suas raízes. Quando as reservas são novamente
acumuladas, uma nova frutificação ocorre.
Um dos princípios fisiológicos fundamentais é que o excesso de crescimento
vegetativo reduz a quantidade de frutos e o excesso de frutos reduz a qualidade dos
mesmos, ou seja, existe uma relação inversa entre vigor e produtividade.
Outros princípios fisiológicos da poda são citados na literatura:
• Os ramos geralmente apresentam dominância apical;
• O vigor dos brotos depende de sua posição e quantidade no ramo;
• Há uma relação direta entre o desenvolvimento da copa e do sistema radicular. O
equilíbrio entre estes, afeta o vigor e a longevidade;
• As condições de clima e solo afetam o vigor e a fertilidade das gemas;
• Ramos que recebem mais luz são mais produtivos e apresentam maior circulação de
seiva;
• Há espécies que frutificam em ramos do ano e outra em ramos de um ou mais anos;
• A poda drástica retarda a frutificação, pois exige crescimento vegetativo que é
antagônico às funções reprodutivas;
• Ramos que sofreram poda drástica apresentam maior vigor;
• A redução da área foliar pode debilitar a planta;
• A circulação da seiva é mais intensa em ramos retos e verticais;
• Ramos posicionados verticalmente propiciam o crescimento vegetativo, enquanto
que ramos horizontais favorecem as gemas reprodutivas;
• Quando ocorre menor circulação de seiva, há maior acúmulo de reservas nos ramos,
favorecendo a formação de gemas floríferas;
• As podas variam com a espécie, a finalidade e a idade da planta.
As gemas são estruturas meristemáticas fundamentais das plantas, pois dão origem
a todas as estruturas da parte aérea. Para a prática de poda é interessante conhecer a
classificação das gemas com relação às suas funções, que são: vegetativa, florífera e mista.
Denomina-se gema vegetativa aquela que se desenvolve e forma ramos, folhas e outras
estruturas, sem formar flores. A gema florífera, quando se desenvolve, forma uma flor ou
inflorescência e a gema mista é aquela que se desenvolve e forma ramos que trazem botões
florais. Os tipos de gemas das plantas, determinam se as mesmas produzirão em ramos do
ano ou em ramos do ano anterior.
CONCEITO DE PODA E CARACTERÍSTICAS DAS
PLANTAS NÃO PODADAS
A palavra “poda” vem do latim putare, que significa limpar, cortar, desbastar,
derramar. No conceito fitotécnico, ou seja, na arte de cultivar plantas, a poda considerada
uma técnica cultural utilizada para alterar o desenvolvimento natural da planta. Se a poda é
uma técnica cultural que altera o desenvolvimento das plantas, devemos saber quais as
características que um podador deseja alterar nas plantas:
A forma: uma planta não podada, em condições naturais apresenta grande volume de
copa. O interior da copa é mais denso e sombreado, com mais ramos secos, o que
dificulta os tratos culturais e tratamentos fitossanitários (Figura 1).
Irregularidade da produção: geralmente as plantas não podadas, após se desenvolverem
e acumularem reservas, apresentam uma abundante frutificação. Os frutos são em maior
número, porém de menor tamanho. Além disso, os frutos se localizam na periferia da
copa, muitas vezes em lugares pouco acessíveis, dificultando e encarecendo a colheita.
Desta maneira, após a colheita, o crescimento da nova parte vegetativa pequeno,
havendo pouco acúmulo de reservas, fazendo com que a próxima frutificação seja
debilitada. Estes ciclos alternados de produção é o que chamamos de alternância de
safras. É muito comum em plantas frutíferas de “fundo de quintal”.
Figura 1 - Planta de lichieira não podada
OBJETIVOS DA PODA
1º alterar a forma natural da planta: modificar a arquitetura da planta a fim de torná-la de
menor porte, proporcionando melhor iluminação e arejamento no interior da copa;
2º regularizar a produção: obter produções regulares anualmente, com frutos de boa
qualidade;
3º manter a forma, a sanidade e o vigor da planta: é realizada principalmente após a colheita
em plantas adultas para controlar seu vigor e sanidade.
TIPOS DE PODA
O ato de podar, manual ou mecanicamente consiste em operações simples que se
resumem em cortes de partes das plantas como caules, ramos, folhas, raízes, flores e frutos.
Porém, a finalidade com que a poda é executada irá diferenciar uma poda da outra, dando às
operações diferentes nomes. A denominação principal da poda se dá de acordo com o
objetivo que se procura alcançar:
Quando a poda é realizada com o objetivo de formar a estrutura da planta, é denominada
de poda de formação.
Quando executada com o objetivo de obter uma frutificação regular, com frutos maiores
e bem desenvolvidos, é denominada de poda de frutificação.
Se o objetivo é manter as estruturas básicas e a sanidade da planta, é chamada de poda
de limpeza.
Poda de Formação
A poda de formação tem o objetivo de formar uma boa estrutura de copa, deixando-
a simétrica e arejada, o que facilita os tratos culturais e garante uma maior resistência a
tombamentos e quebras de galhos. É realizada nos primeiros anos após o plantio (de três a
quatro anos, dependendo da espécie) e neste período deve-se priorizar o desenvolvimento
vegetativo, evitando que a planta entre em produção.
Poda de Frutificação ou Produção
Consiste na retirada do excesso de ramos produtivos para obter o equilíbrio entre
vegetação e frutificação, evitando alternâncias de safras. É realizada durante a fase produtiva
das plantas. Deve-se ressaltar que esta poda não aumenta a produção de frutos, mas
regulariza a produção, com frutos que atendem as exigências de mercado.
Poda de Limpeza
É realizada principalmente na fase de repouso fisiológico das plantas e após a poda
de frutificação. Nesta operação são retirados o excesso de ramos, que estejam mal
posicionados, fracos, excessivamente vigorosos ou contaminados.
OUTRAS DENOMINAÇÕES DA PODA
É bom ressaltar que esses tipos de poda (formação, frutificação e limpeza) podem
receber outras denominações de acordo com a época e intensidade em que são executadas.
De acordo com a época em que é realizada
Poda de inverno (ou poda seca): Nas plantas de clima temperado, como pêssego, uva,
entre outras, que são caducifólias, ou seja, que perdem suas folhas no outono, executa-
se tanto a poda de limpeza como a de frutificação no inverno e início de primavera. Como
nessa época as plantas se apresentam sem folhas e bastante lignificadas, com ramos
lenhosos, é denominada de poda seca ou de inverno (Figura 2).
Figura 2 - Poda de inverno em pessegueiro
Poda de verão (ou poda verde): É realizada durante o período de desenvolvimento
vegetativo, quando as plantas se apresentam totalmente enfolhadas. Esta forma de poda
é importante e complementa a poda de inverno, pois permite uma seleção mais criteriosa
dos ramos, facilitando a penetração de luz e canalizando as energias para os ramos
remanescentes, melhorando a qualidade dos frutos. Também pode ser realizada a poda
verde com o objetivo de produção. Esta técnica é utilizada em diversas frutíferas, como
uva e goiaba com a finalidade de deslocar a época de colheita (Figura 3).
Figura 3. Poda verde em videira
De acordo com a intensidade da poda
As podas mais intensas são realizadas com os objetivos de reformar e renovar a
estrutura e partes da planta. As denominações que esse tipo de poda recebe na literatura são
subjetivas e varia de acordo com a espécie que está sendo podada. Temos por exemplo, a
recepa em videira, o esqueletamento em pessegueiro, poda drástica em figueira.
Para melhor compreensão, classificaremos as podas com base na intensidade de
execução em apenas dois tipos: poda drástica e poda de renovação.
Poda drástica: A poda drástica deve ser considerada quando parte da arquitetura
principal da planta, como tronco e ramos primários, são cortados com a finalidade de
serem reformados e renovados. Exemplo na goiabeira mostrado na (Figura 4).
Poda de renovação: A poda de renovação da copa deve ser considerada quando o
objetivo é refazer parte da copa, porém, sem alterar a arquitetura principal da planta
(Figura 5 ).
Figura 4. Poda drástica em Figura 5. Poda de renovação em
goiabeira. pessegueiro conduzido em líder
central
Independente da denominação que receba de acordo com a intensidade ou época de
realização, é importante que sejam definidos claramente os objetivos da poda. Vale ressaltar
que cada espécie possui suas particularidades, épocas corretas de poda, e que é preciso
conhecer muito bem a morfologia e fisiologia da planta, além de ter boa prática, para
executar as operações da maneira mais correta e assim obter bons resultados.
OPERAÇÕES DA PODA
Desbrota: É a retirada de brotos novos improdutivos ou em excesso, que se desenvolvem
às custas das reservas, em detrimento ao crescimento e à frutificação. É comum esta prática
na condução de plantas após a poda principal
Desbrota em figueira
Esladroamento: Consiste na retirada dos ramos chamados ladrões. Estes ramos são
vigorosos e provocam desequilíbrio nutricional na planta, pois os mesmos competem por
nutrientes, espaço e luz com os ramos de produção.
Desfolha: Remoção de folhas para favorecer a iluminação e o arejamento das flores e
frutos, eliminando focos de doenças e pragas e melhorando a coloração dos frutos de pera,
maçã, ameixa, kiwi, entre outras. Esta operação deve ser feita com cuidado, pois o
desfolhamento excessivo prejudica o desenvolvimento da planta, visto que a folha é a
responsável pela fotossíntese. As folhas próximas aos frutos são as responsáveis pela sua
proteção e nutrição e proporcionam melhor qualidade, desde que não haja contato entre
ambos.
Desponte: Consiste num simples encurtamento da ponta do ramo, onde se encontra o
meristema apical, de modo que o ramo diminua seu crescimento, favorecendo o
desenvolvimento dos frutos. Essa operação também pode ser utilizada para forçar o
desenvolvimento de ramos inferiores, ou brotações laterais quando necessárias.
Raleio de frutos ou desbaste: Consiste em eliminar certa quantidade de frutos da
planta, quando ainda se encontram imaturos, visando o equilíbrio da produção e a melhoria
da qualidade dos frutos remanescentes como tamanho, cor e sabor. Elimina-se
preferencialmente frutos machucados, atacados por pragas, defeituosos, mal posicionados
e pequenos.
Raleio manual: é o mais eficiente, pois permite uma seleção criteriosa dos frutos a serem
desbastados, porém é o mais demorado, exigindo maior esforço do podador.
Raleio mecânico: utiliza equipamentos como varas de borracha ou madeira, máquinas
vibratórias, sendo empregado muitas vezes como um pré-desbaste rápido para depois
ser complementado com o raleio manual, que é mais seletivo.
Raleio químico: é utilizado para reduzir o tempo e os custos da operação pela aplicação
de produtos que derrubam flores ou frutos. É importante considerar a época certa e dose
correta do produto para fazer a aplicação. Devido à irregularidade em sua eficiência é
utilizado em alguns casos específicos, necessitando de um complemento com raleio
manual.
Em geral, o raleio de frutos é uma operação demorada e de elevado custo, porém, seus
benefícios em fruticultura geralmente compensam e justificam a sua realização.
Raleio de flores e botões florais: É a redução da quantidade de flores e botões florais
na planta, para evitar a formação de frutos em excesso. Recomenda-se que essa operação
seja feita o mais cedo possível, ainda na fase de botão floral, mas em grandes áreas de
produção é economicamente inviável, pois não há como prever a fixação de frutos, razão
pela qual o produtor prefere optar pelo raleio de frutos.
Arqueamento de ramos: É a prática que altera a posição normal dos ramos principais,
inclinando-os em relação ao solo. Tem como objetivo melhorar a aeração e iluminação interna
da copa. É interessante ressaltar que ramos em posição vertical, favorecem a vegetação da
planta e ramos inclinados favorecem a frutificação.
PRINCIPAIS ERROS COMETIDOS NA PRÁTICA DA PODA
Na poda de formação, os erros mais comuns são: realizar a poda antecipada de ramos
que nascem no tronco, impedindo seu engrossamento e expondo-o à luz; formar uma copa
muito alta que dificulta os tratos culturais e a colheita; deixar numerosos ramos principais e
permitir a produção na fase de formação da planta.
Na poda de frutificação, o erro mais comum é deixar de realizar essa poda durante
vários anos e voltar a fazê-la de forma severa em anos subsequentes, podendo resultar em
alternância de safras, pelo esgotamento das reservas e pelo crescimento vegetativo intenso,
levando à uma redução da produtividade. Outro erro é a eliminação exagerada de ramos no
interior ou na base da planta, prejudicando a produção e expondo os ramos secundários à
insolação intensa que causa escaldadura.
FERRAMENTAS UTILIZADAS NA PODA
São utilizadas diversas ferramentas na execução das diferentes modalidades de poda
tais como: tesouras pequena e grande, tesoura pneumática, canivete, serrote, machado,
foice, serra, escada, entre outros.
As tesouras pequenas podem ser manuseadas apenas com uma mão e cortam ramos
de diâmetro reduzido. Para realizar o corte, a contra lâmina deve ser apoiada no ramo que
irá ser podado e a lâmina cortante deve ir de encontro ao ramo. Desta maneira, não há
compressão ou esmagamento da parte do ramo mantida na planta.
As tesouras maiores são manuseadas com as duas mãos e possuem cabos mais
alongados, possibilitando o corte de ramos mais grossos devido à força da alavanca. Nas
partes mais altas da planta a poda deve ser feita com o auxílio de uma escada. É aconselhável
que ela tenha três pontos de apoio para maior estabilidade e que seja fabricada com material
leve, para facilitar o transporte.
Há também tesouras elétricas e pneumáticas, viáveis em grandes propriedades, pois
reduzem o tempo de poda. Quando o diâmetro do ramo não permitir o corte pela tesoura
grande, é necessário a utilização de um serrote pequeno que possua uma forma curva para
facilitar a poda nas ramificações, com todos os dentes na mesma altura, a fim de que o corte
seja limpo e o esforço reduzido.
Independentemente da ferramenta utilizada, é aconselhável que seja fabricada com
um material leve, para reduzir o peso, diminuir o tempo da operação e aumentar a eficiência
do trabalho. Para o uso correto do equipamento, é necessário que ele esteja em boas
condições de uso, com lâminas afiadas e sem folga entre as facas para que seja utilizado sem
interrupções e obter cortes mais lisos e com menos esforço. É sempre indicado seguir as
recomendações técnicas dos fabricantes e distribuidores.